sexta-feira, 5 de setembro de 2014

Jardim Botânico da Universidade de Lisboa agoniza à espera de obras. Obras custam dois milhões, mas não há verbas


Jardim Botânico da Universidade de Lisboa agoniza à espera de obras
Existe apenas um jardineiro permanente para tratar dos quatro hectares deste espaço centenário. Projecto de requalificação que venceu Orçamento Participativo da Câmara de Lisboa em 2013 tarda em avançar
Marisa Soares / 5-9-2014 / PÚBLICO

O Jardim Botânico da Universidade de Lisboa é o único do género no país classificado como Monumento Nacional, mas essa distinção não lhe tem servido de muito. Ao longo dos seus quatro hectares, encaixados entre a Rua da Escola Politécnica e a Avenida da Liberdade, paredes meias com o Parque Mayer, é gritante a insuficiente manutenção e a degradação dos espaços mais emblemáticos.
A falta de jardineiros é uma das maleitas de que padece este jardim centenário, integrado no Museu Nacional de História Natural e de Ciência (MNHNC), da Faculdade de Ciências. Actualmente há apenas um jardineiro nos quadros, que tem a seu cargo quase 1500 espécies vegetais dos quatro cantos do mundo, entre as quais estão árvores de grande porte, como araucárias e palmeiras.
Através do Instituto do Emprego e Formação Profissional, este ano foram contratadas a prazo mais quatro pessoas para ajudar na manutenção do espaço, mas “demoraram três meses a chegar”, o que deixou o jardim numa situação “catastrófica”, lamenta o director do museu, José Pedro Sousa Dias. “Tememos que volte a acontecer no próximo ano”.
Além da falta de pessoal, faltam verbas para assegurar o funcionamento do espaço. “A despesa com a rega foi sempre um problema muito grande, gastamos anualmente 80 mil euros em água”, afirma Sousa Dia, acrescentando que as receitas próprias do museu não chegam para cobrir 20% da despesa total. Apesar de não ter diminuído o número de visitantes, que ronda os 80 mil por ano, houve uma quebra nas actividades com as escolas.
O resultado está à vista: ha plantas a secar, árvores a precisar de poda e palmeiras a morrer — o escaravelho-vermelho já dizimou algumas e o director do MNHNC receia que a praga se transforme num “pesadelo”.
Os três lagos que existem no jardim também estão em mau estado, sobretudo o que está situado na zona do Arboreto (à esquerda da entrada pela Rua da Escola Politécnica), o designado Lago de Baixo. Actualmente vazio “devido ao fendilhamento das suas paredes”, como se lê na página dedicada ao Jardim no site Monumentos, o Lago de Baixo vai ser um dos alvos da intervenção da Câmara de Lisboa, que tarda em arrancar.
Com 7553 votos, a proposta de requalificação do Botânico foi a grande vencedora do orçamento participativo em 2013, tendo-lhe sido atribuídos 500 mil euros. Mas o projecto ainda não está pronto. “Há uma série de ideias que estão a ser trabalhadas mas ainda não há projecto. Os prazos deslizaram um pouco, as obras deviam estar a começar”, conta Sousa Dias. “Acredito e espero que ainda comecem este ano”, acrescenta.
Em resposta ao PÚBLICO, o Departamento de Comunicação da câmara informa que a verba para o projecto só ficou inscrita no orçamento municipal para 2014. Os prazos de execução previstos, no total de 18 meses, “contam a partir da aprovação do orçamento da câmara e não são o prazo para a obra estar concluída, mas sim o tempo necessário para a elaboração dos respectivos projectos, lançamento de empreitada, etc.”, afirma. A mesma fonte acrescenta que o projecto está “em curso, na fase de elaboração do projecto-base de arquitectura paisagista e respectivas especialidades, fase que antecederá a elaboração do projecto de execução”.
O valor a ser investido pela autarquia é “muito pouco” para fazer face a todos os problemas do Botânico, admite Sousa Dias, mas já é uma ajuda preciosa. Os três objectivos prioritários, nenhum dos quais ultrapassará 35% do valor total, são a renovação dos sistemas de armazenamento de água e de rega, a recuperação dos caminhos e de algum edificado, e a criação de zonas de estar para os visitantes, como esplanadas, cafetarias e canteiros com relvado.

Além da falta de pessoal, faltam verbas para assegurar o funcionamento do espaço

Obras custam dois milhões, mas não há verbas


Os edifícios do Observatório Astronómico, em pleno Jardim Botânico, estão de tal forma degradados que se aproximam do “ponto de não-retorno”, lamenta o director do Museu Nacional de História Natural e da Ciência, José Pedro Sousa Dias. O projecto para restaurar os imóveis está feito, mas são precisos dois milhões de euros para avançar com a obra. “Com um milhão de euros já conseguíamos travar a degradação da parte exterior e da cobertura, sobretudo do edifício superior [onde ainda existe um telescópio, na cúpula], que é onde a ruína pode ser irreversível”, afirma. Em 2011, foi apresentada uma candidatura ao Fundo de Salvaguarda do Património Cultural que, segundo Sousa Dias, foi aceite mas o dinheiro nunca apareceu. Em Janeiro deste ano foi feita nova candidatura, ainda sem resposta. O observatório, que era usado para apoio ao ensino na Escola Politécnica, foi desactivado em 2002 e está interdito há três anos, cercado de andaimes e tapado por panos já esfarrapados.

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