segunda-feira, 24 de abril de 2017

A França é outro país. É cedo para dizer qual

Imagem OVOODOCORVO


A França é outro país. É cedo para dizer qual

Macron permite dizer, por agora, que o centro aguentou.

TERESA DE SOUSA
24 de Abril de 2017, 11:41

A França nunca faz as coisas por menos. De uma assentada, varreu da segunda volta das presidenciais os candidatos dos dois grandes partidos do sistema. Em 2002, no dia 21 de Abril, os eleitores tinham varrido os socialistas, deixando Lionel Jospin a algumas décimas de Le Pen, o pai. Desta vez, decidiram por um duplo 21 de Abril. O candidato socialista, Benoît Hamon, desapareceu em combate, com um score inimaginável, deixando o campo aberto para a esquerda radical de Jean-Luc Mélenchon. A derrota da direita gaullista, ainda que um pouco menos humilhante, é inédita na V da República, fundada por De Gaulle em 1958 para tirar a França da instabilidade política e acabar com a guerra da Argélia. François Fillon também vinha da ala mais conservadora de Os Republicanos, depois de derrotar Alain Juppé, mas não lhe serviu de nada. Vai agora morrer às mãos de Nicolas Sarkozy, que deixou de estar interessado na segunda volta para já estar a pensar nas legislativas de Junho, que funcionaram até aqui como uma espécie de terceira volta das presidenciais. O problema é que na França da V República não há “grandes coligações” mas apenas pequenas ou médias coabitações. Mitterrand- Chirac (1986-1988); Mitterrand-Balladur (1993-1995); Chirac e Lionel Jospin (1997-2002). Não há uma cultura de consenso, como na Alemanha, mas uma cultura de confronto.

A questão seguinte é saber até que ponto a disciplina republicana que fez eleger Jaques Chirac em 2002, com mais de 80% dos votos, vai funcionar desta vez. No domingo, apenas os dois candidatos dos partidos centrais da política francesa, o PSF e Os Republicanos, apelaram imediatamente ao voto em Emmanuel Macron. Foi penoso mas altamente significativo ver Mélenchon retorcer-se para evitar reconhecer a vitória de Macron e, mais ainda, recusar-se a indicar um sentido de voto contra Marine Le Pen. Na França, na primeira volta escolhe-se, na segunda, elimina-se. Foi o que fizeram Hamon e Fillon. Os resultados provam também que o sistema bipolar se transformou num sistema de quatro partidos quase iguais entre si. E esta é também uma novidade, que fez a França acordar para um mundo político radicalmente diferente.

A noite foi, naturalmente, de Macron e de Le Pen. A candidata da extrema-direita pode suspirar de alívio. Foi visível nos últimos dias da campanha que a Frente Nacional já tinha perdido a dinâmica inicial e começava a marcar passo. Porventura, batendo no tecto de vidro que, por enquanto, ainda a impede de ser um partido igual aos outros. Macron já falou como Presidente, apelando a todos os cidadãos, a todos os “patriotas” para derrotar sem margem para dúvida o nacionalismo. Antes das eleições, lembrou várias vezes a célebre frase de despedida de François Mitterrand perante o Parlamento Europeu: “O nacionalismo é a guerra”. As sondagens, que afinal estavam certíssimas, dão-lhe uma vitória folgada sobre Le Pen, mas longe dos 82% de Chirac.

domingo, 23 de abril de 2017

ELEIÇÕES FRANCESAS




França: 11 pistas para o que aconteceu (e o que aí vem)

A noite eleitoral trouxe-nos confirmações, contradições e mitos desfeitos. Também nos deu pistas para o que virá na segunda volta - e depois dela.
 David Dinis

DAVID DINIS 23 de Abril de 2017, 23:21

Le Pen não cresceu com o atentado. Ao contrário do que se chegou a temer, a candidata da Frente Nacional não ganhou mais votos com o que aconteceu na sexta-feira nos Champs Elisées. Ficou em segundo lugar, pouco acima dos 20% - longe das estimativas do início da pré-campanha. Como Wilders, na Holanda, a candidata não conseguiu chegar às suas expectativas iniciais - apesar de Trump, de Putin, do Brexit e dos atentados.
Os partidos tradicionais foram arrasados. Com cerca de um quarto do eleitorado no total. Na prática, isto significa que a direita ficou pelo caminho pela primeira vez. E que os socialistas se ficaram pelos 6%.
Mas talvez isto não queira dizer o que parece. Os votos de Hamon foram transferidos para Macron (muitos) e Melénchon (bastantes), mostrando que as célebres primárias resultaram em escolhas que o grande eleitorado não comprou. Só nas legislativas de Junho se perceberá o realinhamento final.
A Europa está em dúvida. Bem contados os votos, quase 48% deles foram para os candidatos que se apresentaram como eurocépticos. O alerta ficou dado, embora não deva ter sequência total na segunda volta: Le Pen é muito divisiva e todas as sondagens mostram quenão ficará com os votos anti-europeus na totalidade (ficará no máximo pelos 39%, se os estudos baterem certo).
Bruxelas e os governos entraram na campanha. Percebendo o perigo de Le Pen, a Comissão Europeia, assim como alguns governos (desde logo o alemão, mas também o português), vieram já congratular Macron e desejar a sua vitória na segunda volta. "Isto é sobre a França, mas também é sobre a Europa", escreveu no Twitter Sigmar Gabriel, o MNE alemão.
Mas a França não se uniu contra Le Pen. Apesar das declarações de apoio da direita tradicional e do PS francês, houve um candidato que não quis pedir o voto em Macron: foi Melénchon, que remeteu para mais tarde uma posição (nos EUA, há seis meses, também Sanders não deu o seu voto a Clinton contra Trump). Um erro? Dizem as sondagens que 50% dos seus eleitores irão votar Macron e apenas 10% em Le Pen. Já os de Hamon repartem-se entre 75% Macron e 5% Le Pen; e os de Fillon em 40% Macron e 30% Le Pen.
De resto, a França está mesmo dividida: uma análise dos estudos de opinião permite dizer que os votos de Macron e Le Pen são inversamente proporcionais no nível de estudo (os mais literados votaram no independente, os menos em Le Pen) e também pelo seu grau de optimismo (os pessimistas com a Frente Nacional, os optimistas com Macron).
A campanha está traçada: a primeira volta francesa pôs fim à velha guerra entre esquerda e direita. Agora a luta eleitoral é entre liberalismo/europeísmo e nacionalismo.
Uma quase certeza: quem quer que ganhe, a França vai ter um Presidente com pouca experiência política e, sobretudo, com pouco apoio no Parlamento (a não ser que haja nova surpresa nas legislativas). "O regime francês está em sofrimento: o futuro Presidente partirá com uma base eleitoral muito estreita”, diz o Editorial do Libération. "Macron é um líder sem partido que terá que ser capaz de conseguir uma coligação que lhe permita governar”, acrescenta o do El Pais. Talvez os apoios que Macron recebeu para a segunda volta ajudem - ou talvez não.
E outra: 2017 não é 2002. Há 15 anos, Jean-Marie Le Pen foi à segunda volta, mas só conseguiu nesse segundo round mais um ponto percentual do que na primeira. Marine terá mais votos desta vez, indicam as sondagens, dando-lhe entre os 33% e os 39,5% dos votos.
Já agora, os grandes vencedores da noite: as sondagens: bateram certo, apesar de todas as desconfianças. E os eleitores, que votaram em massa, contrariando os maiores

Macron: Retrato incompleto de um candidato perseguido pela sorte

Emmanuel Macron, 39 anos, filósofo, banqueiro, conselheiro do príncipe, ministro, candidato independente ao Eliseu, sedutor, brilhante, descomprometido, parece ter hoje à sua frente a dupla missão de vencer Le Pen e salvar os socialistas franceses. Tem o que é preciso para convencer?

TERESA DE SOUSA  12 de Fevereiro de 2017, 8:48

O retrato ainda está incompleto. Demasiado jovem, demasiado diferente nas suas escolhas familiares e profissionais, demasiado vago nas suas propostas reformistas, com escassa experiência política e uma independência que é, ao mesmo tempo, vantagem e fraqueza. A sorte persegue-o na corrida para o Eliseu, enquanto os grandes partidos franceses praticam a autofagia e a extrema-direita consegue fixar um quarto do eleitorado para a primeira volta das presidenciais.

Emmanuel Macron não é um político qualquer. A opinião pública rendeu-se-lhe. As decisões que tomou revelaram-se certas. Militante do PS desde os 24 anos, conselheiro de François Hollande (chamavam-lhe o “Mozart do Eliseu”), ministro da Economia do Governo de Manuel Valls para fazer as reformas económicas e sociais de que a França precisa, saiu a tempo de não ficar “queimado” pelo fim de um mandato presidencial sem glória e sem vigor.

Deixou Manuel Valls sozinho no combate à ala radical do Partido Socialista, nas “primárias” de Janeiro, para escolher o seu candidato. Valls foi humilhantemente derrotado pelo candidato mais à esquerda, Benoît Hamon, com escassas hipóteses de chegar à final. Macron decidiu correr por fora, recusando submeter-se à selecção do campo socialista. O PS ofereceu-lhe um concorrente que nem de encomenda seria melhor, deixando-lhe o caminho livre para atrair uma boa fatia do eleitorado socialista que está longe de se rever no radicalismo de Hamon. Valls considera-se “traído” por ele. Hollande pode dizer o mesmo do seu anterior primeiro-ministro. Macron conseguiu sobreviver às guerras fratricidas do PS, apresentando-se como um outsider, que recusa a divisão esquerda-direita, não porque não exista, mas porque deixou de ser fundamental. A diferença é entre “progressistas e conservadores”.

Em Novembro, as “primárias” dos Republicanos, ao eliminarem Alain Juppé e escolherem François Fillon, fizeram-lhe o favor de afastar de cena o candidato mais capaz de disputar com ele o centro político. Fillon, que liderava as sondagens como o candidato mais bem colocado para derrotar Le Pen na segunda volta, deixou-se enredar num caso de favorecimento de familiares, abrindo as portas a que Macron se afirmasse como o verdadeiro adversário de Marine Le Pen na luta pelo cargo mais importante da política francesa. O candidato dos Republicanos, que já pediu desculpa mas não desistiu, ainda pode recuperar. Mas perdeu a dinâmica que o dava como certo na segunda volta, onde os aguarda, inamovível, a líder da Frente Nacional.

O verdadeiro adversário de Le Pen

Macron viu-se de repente com uma larga avenida à sua frente até ao Eliseu. Se é uma vantagem, pode ser também um inconveniente. O jovem ex-ministro da Economia passou a ser, para a direita e para a esquerda, o alvo a abater. Marine não hesitou um segundo em classificá-lo como o seu verdadeiro adversário. “A emergência de Emmanuel Macron é uma boa notícia. Ele acelera a recomposição política que nós desejamos há anos: é pela mundialização descomplexada, enquanto os outros candidatos são defensores envergonhados da mundialização.” Marine aponta-a como a origem de quase todos os males da França. Os estudos de opinião mais recentes apresentam um quadro que lhe dá razão.

O último foi feito por Jêrome Fourquet, director de estudos de opinião da IPSOS, destinado a apurar quem são os franceses que apoiam Macron. Não são, em particular, os mais jovens, nem os mais velhos. Ele recolhe um apoio quase idêntico em todos os estratos etários. Disputa a Fillon a mobilização nas camadas mais ricas da população. A sua força está nos diplomados (onde é imbatível) e nos estratos mais educados. A fractura é aquela que Le Pen quer aproveitar: os que se dão bem com a globalização e os que ficaram para trás. Macron consegue também um score razoável na classe média. Mas, tal como os seus adversários de esquerda, de Jean-Luc Mélenchon (esquerda radical) ao socialista Benoît Hamon, a penetração no voto dos mais desfavorecidos é escassa. Esse é hoje o reduto aparentemente inexpugnável da Frente Nacional. Depois de roubar o eleitorado do Partido Comunista, do Partido Socialista e dos radicais de esquerda, Marine quer traçar uma clara linha divisória com o seu adversário de centro-esquerda. Que se exprimiu em inglês (aliás, perfeito) quando foi à Universidade Humboldt de Berlim debater o futuro da França e da Europa – um crime contra a Pátria de Marine. Que insiste em que a integração europeia continua a ser a única forma de proteger os europeus dos ventos mais fortes da globalização. Que vê o euro como um instrumento de poder europeu, desde que a união monetária funcione numa lógica verdadeiramente federal, dotada de um orçamento próprio e partilhando os riscos. Apenas a classe empresarial ainda desconfia dele, vendo-o como uma face mais agradável de Hollande.

Tem a desvantagem de não ter uma máquina partidária à sua disposição, mesmo que mobilizando muita gente nova um pouco por toda a França, mas que não chega para substituir os aparelhos partidários. Tem beneficiado do factor novidade.
Para ele, a verdadeira corrida começa agora. Terá de apresentar a sua plataforma política até final de Fevereiro, que lhe exigirá mais do que as ideias simples com que se apresentou ao eleitorado ou no seu livro Révolution (Edições XO). Tem a desvantagem de não ter uma máquina partidária à sua disposição, mesmo que mobilizando muita gente nova um pouco por toda a França, mas que não chega para substituir os aparelhos partidários. Tem beneficiado do factor novidade.

Enquanto os candidatos dos partidos tradicionais se esforçam por mobilizar algumas centenas de pessoas, ele reúne quase sempre milhares. A sua capacidade de mobilização só é comparável à da candidata da Frente Nacional. Podia ter ajustado o seu discurso ao sentimento anti-imigração que hoje varre a França, e a maioria dos países europeus, sobretudo se for islâmica. Fillon já o fez. Ele não. Não defende um secularismo à outrance, como o de Manuel Valls. Quer que a França aumente as suas despesas militares para cumprir o critério dos 2% fixado pela NATO (1,8 actualmente). Apresenta-se como um reformista que não fez mais enquanto ministro da Economia (2014-16) porque o Governo de Manuel Valls, outro reformista, não lho permitiu. Valls teve de ceder à pressão da ala esquerda do seu partido na Assembleia Nacional, às manifestações da rua e às hesitações de Hollande. A “lei Macron” sobre a reforma do mercado de trabalho foi devidamente depurada dos seus aspectos mais impopulares. Ainda hoje se discute em alguns sectores se o comércio pode ou não abrir ao domingo. Mantém a intenção de voltar a ela, se conquistar o Eliseu. Sem pressas. Quer a “redução do perímetro do Estado” (Fillon anuncia um corte de 500 mil funcionários), a reforma do seguro de desemprego e a reconstrução da segurança social. “En délicatesse”. “Não se trata de aplicar o que os britânicos fizeram nos anos 1980”, porque “o mundo é diferente, a sociedade é diferente, os desafios muito mais complexos”, diz ao Monde.

Liberdade, igualdade, fraternidade

Mas isto nem sequer é o essencial. Tal como aconteceu a Fillon, os franceses olham mais para o que ele é do que para a consistência das suas políticas. O candidato dos Republicanos ganhou as “primárias” a prometer uma revolução “liberal-thatcheriana” (à qual já tratou de limar as arestas) e não há nada que os franceses mais detestem do que o neoliberalismo. Bastou-lhe encarnar os valores católicos e conservadores da França profunda. Emmanuel Macron recusa a velha dicotomia esquerda-direita. Não é por aí que hoje passa o que é decisivo: abertura ao mundo, reformas económicas, solidariedade e Europa.

O seu lema é o velho tríptico da Revolução Francesa, que transcende as fronteiras partidárias: “Liberdade, igualdade, fraternidade.” Pode ser vago, mas é simbólico. Visitou o túmulo de Joana d’Arc, a pastora que, no século XV, lutou corajosamente para unir os franceses e derrotar o domínio inglês, que era, até à data, um exclusivo da Frente Nacional. Começou a campanha nos arredores de Paris, numa circunscrição de gente que vive com muitas dificuldades. Percebeu, com o escândalo Fillon, que tinha de acelerar a redacção do programa. Até agora, deixou que um grupo de académicos e intelectuais eminentes preparasse as bases da sua plataforma política. Entregou a coordenação a dois pesos pesados: Jean Pisani-Ferry, o fundador do Bruegel, um dos melhores think-tanks económicos da Europa; e Pascal Lamy, chefe de Gabinete de Delors na Comissão, director-geral da OMC, presidente honorário da Fundação Notre Europe, dono de um pensamento aberto cujo reflexo já se sente nas ideias que Macron tem apresentado aos franceses. Precisa de encontrar um fio condutor e montar uma equipa de campanha mais profissional. Nada disto será fácil. Nem sequer suficiente.

Macron recusa a velha dicotomia esquerda-direita. Não é por aí que hoje passa o que é decisivo: abertura ao mundo, reformas económicas, solidariedade e Europa.
Terá de defender-se dos ataques à sua vida pessoal e à sua curta carreira política. Citando o site Politico-Europa, Marine diz que ele representa “a esquerda caviar”, uma velha expressão para designar a esquerda bem-pensante que, alegadamente, se passeia pelos grandes boulevards parisienses, frequentando os seus cafés e as suas livrarias. Fillon segue a mesma linha: “O protótipo dessas elites que não sabem nada da realidade francesa”, ele que se apresentou como um “provinciano” da verdadeira França. Benoît Hamon acusa o seu rival de ser um mero “substituto de Fillon”, por causa do seu alegado liberalismo. Jean-Luc Mélenchon, o eterno candidato da esquerda radical, acusa-o de ser “o homem que lixou a vida de muita gente”. Refere-se às leis laborais. A crítica mais comum é ter sido “um banqueiro dos Rothschild”. A sua vida não encaixa no molde da elite política francesa. Mas, nos dias que correm, isso pode ser uma das suas vantagens.

O que faz correr, afinal, este jovem de 39 anos que de repente vê o Eliseu ao alcance da mão?

Uma vida incomum

Toda a sua vida é escrita antes do tempo normal. Nasceu numa família burguesa em Amiens – pai e mãe médicos e professores. Estudou numa escola privada dos Jesuítas, mas rumou a Paris aos 16 anos, para concluir o secundário no reputado Liceu Henrique IV. Rezam as crónicas que os pais o afastaram de Amiens para pôr cobro ao escândalo da sua paixão por uma professora de Francês e de teatro, Brigitte Trogneux, 24 anos mais velha, que ainda hoje é sua mulher. Tê-la-á conhecido quando foi colega de escola de um dos seus filhos. É, no mínimo, uma história digna de filme de Hollywood, incluindo um final feliz. Hoje, gaba-se de ter seis netos. Até agora, ninguém ainda conseguiu pôr reparos à sua vida familiar. Pode não ser comum mas não é, de certeza, pecado. Há poucos dias, correu a informação de que seria gay e teria um amante, sob a fachada de um casamento feliz. A origem do rumor foi localizada em Moscovo. Já vimos a mesma história nos Estados Unidos. Vladimir Putin tem todo o interesse em destruir a sua candidatura. É amigo de Le Pen e tem em Fillon o candidato que quer restaurar o velho “gaullismo”, defendendo uma aproximação a Moscovo e um distanciamento em relação à América. Trump até dá uma ajuda.

9 mil milhões
de euros, valor da compra de uma filial da Pfizer pela Nestlé, negócio que Macron liderou quando esteve no Banco de Investimento dos Rothschild, onde fez uma carreira meteórica
Também o percurso profissional se afastou do que é comum a quase toda a elite francesa. Concluiu a licenciatura em Filosofia, antes de entrar na incontornável École Nationale d’Administration (ENA), que produz a elite das elites do Estado. Terminou em quinto na promoção Leopold Sédar Shenghor, considerada a melhor “colheita” desde aquela que produziu Hollande, Ségolène Royal, Dominique de Villepin e mais uns tantos (1980). Da sua (2004), saíram 17 “énarques” que ocupam ou ocuparam cargos de grande influência nos principais gabinetes do poder. Chegou a entrar na Inspecção-Geral de Finanças, destino quase obrigatório para o mais alto funcionalismo público. Saiu para ir trabalhar no Banco de Investimento dos Rothschild, onde fez uma carreira meteórica, chegando rapidamente ao topo e fechando grandes negócios que lhe devem ter dado bons proveitos, contactos preciosos e alguma experiência do que é a economia. Pilotou a compra de uma filial da Pfizer pela Nestlé, no valor de 9 mil milhões de euros. “O dinheiro não deve ser identitário. Apenas um instrumento de liberdade e nada mais”, disse à revista L'Obs.

Teórico de uma “segunda esquerda” reformista

Mas é preciso recuar um pouco mais para entender a personalidade deste jovem “belo, brilhante e sedutor”, como escreveu Odile Benyahia-Kouider em Agosto de 2014 na mesma revista francesa, que continua a ser um enigma. Licenciou-se em Filosofia, terminando a última fase dos estudos com uma tese sobre “O Facto Político e a Representação da História em Maquiavel”, sob a direcção do filósofo Etiénne Balibar. Escreveu pouco depois outro ensaio sobre “Leitura e Princípios da Filosofia do Direito de Hegel”. A sua coroa de glória foi ter sido assistente de Paul Ricoeur quando, em 2000, o grande filósofo francês decidiu redigir a sua última obra: La mémoire, l'histoire, L'oubli. Para quem conhece a cultura francesa, os nomes citados falam por si.

Em 2011, publicou na revista Esprit um pequeno ensaio premonitório: “Os Labirintos do Poder: como conciliar os imperativos de curto prazo e a necessidade de reformas de longo prazo.” “A presidencialização do regime induz uma dimensão quase monárquica da eleição presidencial”, escreveu. Para concluir: “Mas, depois, o sistema mediático-político enfraquece o Presidente no exacto momento em que é eleito, porque o cerca e não o respeita.” Diz ele que isso ajuda a explicar a rápida queda em desgraça de François Hollande e de Nicolas Sarkozy, presidentes de um só mandato, caso único na V República.

No fundo, queria ser o teórico de uma “segunda esquerda” reformista que sempre existiu no PS, criada por Michel Rocard, que sempre admirou. Quando Dominique Strauss-Khan (D.S.K.) tentou retomar essa corrente, antes de cair em desgraça, chegou a trabalhar com ele. Diz hoje que “não se sentiu bem” com DSK. Verdade ou oportuna desculpa? Sarkozy tentou recrutá-lo em 2007. Só conheceu Hollande em 2008, era ele o secretário-geral do PS. Ajudou-o a preparar o programa para as presidenciais de 2012 em que prevaleceu a linha “radical”.

“Com ele tudo acontece depressa. É fino e é simples”, comentou o Presidente, que o escolheu para principal conselheiro económico e vice-secretário-geral do Eliseu. Levou algum tempo a convencê-lo da necessidade de mudar o rumo da política económica para melhorar a competitividade da economia francesa, incentivar o crescimento e aproximar-se das regras do euro. Foi um dos autores do “Pacto de Responsabilidade” que Hollande apresentou aos franceses em Janeiro de 2014, bastante mais amigo das empresas. Valls já era primeiro-ministro e a derradeira cartada de Hollande para aumentar a confiança dos agentes económicos. Macron ocupou a pasta da Economia um pouco mais tarde, com a “missão impossível” de levar a cabo algumas reformas inadiáveis.

Quando Hollande e Angela Merkel se desentenderam sobre a União Bancária, foi ele o enviado a Berlim para negociar com o gabinete da chanceler. Merkel já convidou Fillon para jantar, mas ignorou a sugestão de lhe fazer idêntico convite. Valls não lhe perdoou a saída do Governo, em Agosto de 2016, quando a popularidade do Presidente atingiu a sua quota mínima. Já tinha constituído o seu movimento “En Marche!” e era um dos políticos mais populares da França. O primeiro-ministro acusou-o de “traição”. Ele próprio “trairia” Hollande meses mais tarde, ao forçá-lo a anunciar a sua desistência.

Se Macron for eleito, Valls estender-lhe-á a mão?

Quando foi para o Eliseu, em 2012, dividiu por dez o seu salário mensal. Quando saiu de Bercy disse que precisava de ler e de reflectir. Não resistiu ao apelo da política. Os seus amigos de infância e de juventude dizem que sempre foi um apaixonado pelo debate político, que lia tudo, da história à economia, da filosofia (a sua maior paixão), à literatura; que imitava com brio cantores de outras gerações como Georges Brassens e Georges Moustaki. Ainda hoje, dizem os amigos, prefere o convívio com pessoas mais velhas, de vidas vividas e de muitas histórias. Rejeitava o “declinismo” da França, preferindo falar de “metamorfose”. É difícil entrar na sua intimidade, admitem também. Tem a obsessão do tempo que passa, como um outro dos seus mentores, Jacques Attali, conselheiro de Mitterrand e autor da monumental trilogia Verbatin sobre os 14 anos com o Presidente francês, e que é coleccionador de ampulhetas. Sonhou ser um Rocard do século XXI. Mas os tempos são outros e Rocard nunca foi bafejado pela sorte na política. Faltava-lhe em “instinto político” o que lhe sobrava em pensamento.

Falta saber se as suas convicções são suficientemente fortes para resistir ao confronto político e aparar os “golpes baixos” com que tiver que lidar. Nunca desempenhou nenhum cargo sujeito a uma eleição. Falta-lhe experiência internacional, num regime constitucional em que a política externa e de defesa são competência do Eliseu. A mesma jornalista do L'Obs interrogava-se em 2014: “Quem é este ministro da Economia que impressiona, seduz e irrita? Quem é este sobredotado de 36 anos que estudou filosofia e que, depois, foi banqueiro?” A resposta continua por completar. Emmanuel Macron tem a gravitas de um Presidente que os franceses gostam sempre de equiparar ao Rei Sol? Não. Mas esses tempos já passaram. Sarkozy rompeu com o estilo monárquico com o seu feitio iconoclasta e, por vezes, grosseiro. Hollande quis ser um Presidente “normal” mas não teve qualquer sucesso. Vinha do aparelho socialista, sem qualquer experiência governamental, quando se candidatou.

Ser Presidente da França quando a Europa vive uma tremenda crise política e o poder passou para Berlim, não é tarefa fácil. Mas dela depende, sem qualquer dúvida, o futuro da União Europeia. A relação com a Alemanha está no centro da política francesa. Fillon e Macron têm uma estratégia oposta para lidar com Berlim. O primeiro apoia as políticas de austeridade e critica a abertura aos refugiados. O segundo coloca as coisas ao contrário. “A chanceler Merkel e a sociedade alemã salvaram a nossa dignidade colectiva.” Quer ganhar aí margem de manobra para as questões económicas, escreve Arnaud Leparmentier no Monde. “A zona euro é disfuncional por falta de convergência económica”, diz Macron, para acrescentar que isso não prejudica a Alemanha. Pelo contrário, ajuda-a manter o euro como um “marco fraco”, muito útil à sua capacidade exportadora. Conclusão: “O statu quo significa o desmantelamento do euro daqui a 10 anos”. As escolhas políticas nos dois países (Maio e Setembro) serão decisivas para o futuro europeu.

As últimas sondagens, que valem o que valem, colocam Emmanuel Macron nos 64% na segunda volta, contra 36% para Le Pen. Seria uma vitória clara, mas muito distante do que aconteceu em 2002, quando Lionel Jospin falhou a primeira volta e Jacques Chirac venceu Jean-Marie Le Pen por mais de 80% dos votos. A disciplina republicana já não funciona da mesma maneira e Marine conseguiu integrar o sistema partidário francês, com direito a ser tratada como qualquer outro líder de partido. A V República estava preparada para funcionar com a bipolarização entre dois grandes partidos. Passou a ter de funcionar com três. Se ganhasse as eleições, Marine enfrentaria um problema parecido com aquele que Macron teria de enfrentar. As eleições legislativas, logo a seguir às presidenciais, são o tira-teimas do poder do Presidente. O sistema eleitoral a duas voltas beneficia os partidos tradicionais, bem implantados no terreno, que determinam as desistências em função da segunda volta. Le Pen tem um partido com peso eleitoral significativo, mas ao qual falta ainda passar o teste deste jogo de preferências que dita a composição da Assembleia Nacional.


Macron também não tem a máquina socialista local. Se Benoît Hamon não chegar à final, o que é altamente provável, Manuel Valls pode voltar a tomar conta do PS. Já avisou que os partidos também morrem, mesmo quando têm mais de um século de existência e já passaram por muitas vicissitudes. Se Macron for eleito, Valls estender-lhe-á a mão? Poderia passar por aqui a tábua de salvação do centro-esquerda francês e o sinal de alguma esperança para a Europa.

Macron to face Le Pen after first round of French presidential election

Supporters chant ‘Macron President’ after self-styled liberal progressive outsider reaches 7 May run-off with 23.9% of votes, ahead of Le Pen on 21.4%

Angelique Chrisafis in Paris
@achrisafis
Monday 24 April 2017 04.28 BST First published on Sunday 23 April 2017 19.20 BST

The independent centrist Emmanuel Macron has topped the first round of the French presidential election and according to projections will face the far-right Front National’s Marine Le Pen in a standoff marked by anti-establishment anger that knocked France’s traditional political parties out of the race.

Macron topped Sunday’s first round with 23.9% of votes, slightly ahead of Le Pen with 21.4%, according to near-final results from the interior ministry. Macron, 39, a political novice, now becomes the favourite to be elected as France’s next president. He is the youngest ever French presidential hopeful and has never run for election before.

After the UK’s vote to leave the European Union and the US vote for the political novice Donald Trump as president, the French presidential race is the latest election to shake up establishment politics by kicking out the figures that stood for the status quo.


The historic first-round result marked the rejection of the ruling political class – it was the first time since the postwar period that the traditional left and right ruling parties were both ejected from the race in the first round.

France’s two political outsiders – the progressive, pro-business and socially liberal Macron and the anti-immigration, anti-EU, far-right Le Pen – will now face off in a final round on 7 May that will redraw French politics and could define the future direction of Europe.

The Socialist prime minister Bernard Cazeneuve led appeals from across the political spectrum to support Macron in order to block Le Pen, who he said represented “regression and division” for France. The scandal-hit rightwing candidate François Fillon, who was knocked out of the race, said he would also vote for Macron because the Front National “has a history known for its violence and intolerance” and its economic and social programme would lead France to bankruptcy.

Macron, a former investment banker, who had been a chief adviser and then economy minister to the Socialist François Hollande, is not a member of any political party. He quit government last year and launched his own political movement, En Marche! (on the move), that was “neither left nor right”, promising to “revolutionise” what he called France’s vacuous and decaying political system.

Speaking in front of an ecstatic and raucous crowd in Paris, Macron said of his fledgling political movement: “In one year we have changed the face of French political life.” He said he represented “optimism and hope”. In a dig at Le Pen, he said he would be a president of “patriots” against the “nationalist threat”.

Le Pen’s place in the final round cements her party’s steady rise in French politics. The Front National has made steady gains in every election since she took over the leadership from her father, Jean-Marie Le Pen, in 2011. Le Pen ran a hardline campaign against immigration and promised to crack down on what she called “Islamic fundamentalism”. While Macron’s supporters at rallies waved EU flags and he hailed the positive role of the 27-country bloc, Le Pen told supporters “the EU will die”. She wants to leave the euro, return to the franc, exit the Schengen agreement and close French borders.

The central message of Marine Le Pen’s campaign was the staple of the Front National party since it was co-founded by her father in 1972: keeping France for the French. Le Pen promised to give priority to French people over non-nationals in jobs, housing and welfare, and would hold a referendum to cement this policy into the constitution. She said she would demand extra tax from companies that employed any kind of foreign worker.

In the final days of the first round campaign, she returned firmly to the main concern of her electorate: immigration. She went further than she had done before by promising to immediately suspend all legal immigration in order to reassess what she called the “uncontrollable situation” of foreigners coming into France. She promised a ban on religious symbols, including the Muslim headscarf, from all public places.

Both the rightwing Les Républicains party and the ruling leftwing Socialists, which have dominated government and French politics for decades, were knocked out of the race. They managed to take only around 25% of the vote between them.

The Macron-Le Pen final marks a redrawing of the political divide, away from the old left-right divide towards a contest between a liberal, pro-globalisation stance and “close the borders” nationalism. Le Pen has styled her election campaign as between her party’s “patriots” and the “globalists” she says Macron represents. As the geographer Christophe Guilluy has noted: “The rift between the global market’s winners and losers has replaced the old right-left split.”

From her northern heartland in the former coal-mining town of Hénin-Beaumont, Le Pen described herself as the “candidate of the people” against Macron, who she suggested represented the “arrogant elite” who hold “money as king”. She said that with her, France could “at last hold its head high”. She added: “It’s time to free the French people from the arrogant elite.”

Le Pen, who has no natural alliances with other parties – crucial for winning the second round – issued a call for all “patriots” to join her.

Fillon, a former prime minister who was once favourite, was knocked out after his campaign was hit by allegations that he embezzled state funds by giving his wife and children generous, taxpayer-funded “fake jobs” as parliamentary assistants over the course of his long political career. He said he took full responsibility for his failure, but continued to hint that the corruption allegations were not his fault but a plot against him, saying he lost the presidential race because “the obstacles put in my way were too many and too cruel”.

As the count continued on Sunday night, Fillon was tied in third place with the hard-left Jean-Luc Mélenchon, leader of a grassroots movement, La France Insoumise or Untamed France, which had the backing of the Communist party. Mélenchon’s support had surged in the final weeks.

The Socialist Benoît Hamon, who came in fourth place with a very low one-figure score, said he had failed in stopping the “disaster” that had been clear in advance. He said the elimination of the left by the far-right for the second time in 15 years – following Jean-Marie Le Pen’s second-round presence in 2002 – showed a “moral defeat” for the left. He appealed for voters to choose Macron to block Le Pen, who he called an “enemy of the Republic”.

Whoever wins the Macron-Le Pen race, the parliamentary elections that follow in June will be crucial. The majority in the lower house will determine how a new president could govern, and France is likely to require a new form of coalition politics. If elected president, Macron, fielding MP candidates from his fledgling movement, would have to seek a new kind of parliamentary majority across the centre left-right divide. If Le Pen did win the presidency, she would very probably not win a parliament majority, thwarting her ability to govern. But her party hopes to increase its MPs in the 577-seat house. Currently Le Pen has only two MPs.

The French election race had been an extraordinary run of twists and turns. The Socialist François Hollande became the first president since the war to decide not to run again for office after slumping to record unpopularity with a satisfaction rating of only 4%. His troubled five-year term left France still struggling with mass unemployment, a sluggish economy and a mood of disillusionment with the political class. The country is more divided than ever before. More than 230 people have been killed in terrorist attacks in little more than two years, as the political class questions Islam’s place in French society, and more than 3 million people are unemployed.

The election race itself was marked by a series of poll upsets. For over a year, the moderate centre-right Alain Juppé was seen as a presidential favourite but he was knocked out of the right’s primary race, alongside the former president Nicolas Sarkozy. Similarly the centre-left prime minister Manuel Valls was beaten in a Socialist primary race by the backbench rebel Hamon.

The Guardian view on France’s election: a win for Macron and hope
Editorial
In the first round in the race for the Élysée, the postwar parties have been humbled. France has voted for change

Sunday 23 April 2017 20.49 BST Last modified on Sunday 23 April 2017 22.00 BST

The storming of the Bastille in 1789 sets the bar high. As a result, few phrases should be used with more circumspection than “French revolution”. But the result of the first round of France’s 2017 presidential election is an epochal political upheaval for France all the same. For the first time in the nearly 60-year history of the Fifth Republic the second-round contest on 7 May will be between two outsider candidates, Emmanuel Macron and Marine Le Pen. Neither of the candidates of the established parties of left and right will be in the runoff. Whichever of the second-round candidates emerges as the winner in two weeks’ time, France is set upon a new political course, with major implications for itself and for the rest of Europe.

The defeat of the established parties is a humiliation for modern French party politics of left and right. The Socialist candidate Benoît Hamon, representing the party of the outgoing president François Hollande, received a mere 6.2% of the votes, according to early estimates. The conservative candidate François Fillon, carrier of the tarnished Gaullist baton, did better, with 19.7%. Yet this is the first time that an official centre-right candidate has failed to get into the second round since General de Gaulle created modern France in 1958. Given the scandals about his use of public funds, it was remarkable that Mr Fillon did so well. Even so, between them Mr Hamon and Mr Fillon took only a quarter of the votes. Instead three French voters out of four, in a turnout of 78%, voted for change.

Mr Hamon was quick to accept personal responsibility for the Socialist failure. But there are many other causes, not confined to France. What is clear is that radical leftwing French voters preferred Jean-Luc Mélenchon’s cocktail of social reform, higher public spending and hostility to the EU to anything that Mr Hamon, who is on the left of his party, was offering. Mr Mélenchon took three votes to every one for Mr Hamon. There is a historic lesson for the Socialists there which is similar to the rise of Jeremy Corbyn in Britain in 2015. The French Socialist party that was put together by François Mitterrand in the 1970s is no more. It will have to go right back to basics to regenerate itself.

Before that, though, France faces an absolutely straight choice. The contest on 7 May is a contest between openness and bigotry, internationalism and nationalism, optimism and hatred, reaction and reform, hope and fear. The fact that Ms Le Pen has reached the second round should not be underplayed simply because it was predicted for so long, or because, if the exit polling is confirmed, she finished second behind Mr Macron, not first. She took almost a quarter of French votes. Her projected 21.9% is significantly larger than her father’s 16.9% in 2002. Even if she loses in round two, the FN may still stand on the verge of a historic advance in June’s parliamentary elections.

It is tempting to see Ms Le Pen’s result as a defeat alongside that of Geert Wilders in the Netherlands, and to conclude that European liberal values have successfully rallied to stop another lurch to the racist right. Some of that is true, and it is a cause for immense relief. France stood up and was counted on Sunday. But the threat from the French extreme right is not over. Nor is the threat from kindred extreme-right parties in Europe. Both the AfD in Germany and Ukip in Britain have moved further to the right in the past week. The Front National remains a party of bigotry, hatred and nationalism of the worst kind.

Now France must stand up again in two weeks’ time and complete the job by electing Mr Macron. There are only two in this race and French voters should do what they did in 2002 and rally to defeat the FN candidate on 7 May. Already, several on the centre-right have rallied behind Mr Macron. Others should follow, and so should leftwing voters too.

Mr Macron is the best hope of a deeply troubled but great country. Its problems range from inequality to unemployment, social divisions, terrorism, and a ruling elite with a strong sense of entitlement. Mr Macron comes from that class, is untested in many ways, is mistrusted on the left, and therefore needs to earn the voters’ trust afresh. He has been lucky in his rivals, on the left and on the right, and he was the first choice of only 23.7% of the voters. But he has been rewarded for the great political audacity of his centrist challenge to the ancien régime. Electing him in May is now the only way to open up the chance of progressive, liberal and pro-European reform in France. French voters have made a bold break with the past. Now they must finish t


"Marine le Pen vai ser uma grande governanta"


"Marine le Pen vai ser uma grande governanta"

Café português festejou passagem à segunda volta de Marine Le Pen

23 DE ABRIL DE 2017
Joana Haderer/Lusa

Entre finos e petiscos à portuguesa, no café "Chez Tonton", junto a Paris, alguns emigrantes festejaram a passagem de Marine Le Pen, a líder da extrema-direita, à segunda volta das presidenciais francesas.

Manuel Domingos, proprietário do restaurante que foi chamado a "cantina do FN" (Frente Nacional) pelo jornal Le Monde e a "cantina de Marine Le Pen" pelo Le Figaro, votou Marine Le Pen e assim que foram anunciados os resultados disse estar "muito satisfeito".

"Digo-lhe francamente: estou muito satisfeito. Esperava melhor, será para a próxima volta. Felicitações para a Marine. Ela merece, com todo o carinho. Tenho muita amizade, muita paixão, gostava que ela fosse vitoriosa na primeira volta, não é o caso. Vamos esperar mais uns dias", declarou o franco-português de 55 anos que acredita que a líder da FN pode vencer à segunda volta.

Manuel Domingos votou Marine Le Pen, "uma mulher de grande inteligência e capacidades", que acredita que "vai ser uma grande governanta", e disse ter "muito prazer e a honra de servir o partido dela", oferecendo-lhe o que houver na ementa, "pode ser moelas, pode ser frango, pode ser vitela, pode ser carne de vaca, pode ser costeleta de porco, feijoada".

Fernando Garcia Pires, de 60 anos, não votou porque só tem nacionalidade portuguesa, mas ficou contente com o apuramento de Marine Le Pen porque "depois as coisas podem mudar", mas disse achar "difícil" que conquiste o Eliseu porque "vão votar todos contra ela como foi da última vez".

"Ela é contra os imigrantes que continuamente vêm de todos os lados e eu acho que ela tem razão porque nós somos europeus e as pessoas que vêm agora de fora não são europeias, são africanos, são asiáticos, não tem nada a ver com o emigrante europeu", justificou o português que chegou a França em 1975.

Fernando Espinho, que vive em França há 16 anos, bebeu um copo para festejar a passagem de Marine Le Pen e disse estar satisfeito porque votou nela.

"Simpatizo um bocado com ela, 'c'est tout'! Eu acho que é uma pessoa liberal, é uma pessoa muito aberta com portugueses aqui, principalmente aqui, nunca tive problemas com ela. Na segunda volta espero que ela passe também. Vou beber um copo, mas não é ela que me vai pagar porque ela não está aqui", exclamou o emigrante de Chaves de 53 anos.

Ao seu lado, Roberto Sousa sublinhou que a líder do FN é uma "grande amiga" e que ele e os quatro filhos votaram na candidata.

"Gosto muito dela. É simples e o pai dela é igual. O que eu queria é que a moeda viesse para trás, como era antes. Escudos em Portugal, francos aqui, era isso que eu queria. Uma pessoa vivia muito melhor do que vive hoje", afirmou o português de 55 anos que tem a nacionalidade francesa para votar.

A tasca portuguesa fica a cerca de 200 metros da sede da Frente Nacional, onde esta tarde estava uma carrinha de polícia estacionada, e festejou em francês e português o apuramento da candidata da extrema-direita, ligando em cima da hora o canal TF1 para ver os resultados, porque antes estava a dar o jogo de futebol Guimarães-Braga.

Jean-Pierre é contabilista na sede do FN e preferiu assistir aos resultados no café português porque a comitiva do partido e a sua líder estavam hoje em Hénin-Beaumont, no norte de França.

"Estou muito contente, não pensei que fosse com o Macron mas com ele é possível vencer se as pessoas da direita não se armarem em imbecis. Estou muito otimista", declarou o membro do FN, explicando que entre o partido e os portugueses há uma ligação porque "são pessoas que estão fartas das falcatruas dos outros e também estão fartos da imigração" e considerando que "há portugueses que se sentem mais franceses que alguns franceses daqui".

Atrás do balcão, Manuel Domingos servia copos à saúde da sua candidata e disse esperar que ela passe no café ainda antes da segunda volta, estando a sala no primeiro piso preparada para a receber como já o fez várias vezes.

O espaço tem fotografias emolduradas e autografadas pelos líderes do FN, nomeadamente por Marine Le Pen que escreveu "Pour mon tonton préféré" ("Para o meu t

The novel that unites Marine Le Pen and Steve Bannon


Jean Raspail : "Que les migrants se débrouillent"
Son livre "Le Camp des saints", paru en 1972, semble aujourd'hui prophétique à certains. Pour lui, il n'est pas de migrants, juste un envahissement.

PAR SAÏD MAHRANE
Modifié le 29/09/2015 à 20:08 - Publié le 29/09/2015 à 06:11 | Le Point.fr

C'est un homme d'un âge avancé, habillé d'une veste cavalier aux épaulettes vertes, qui s'excuse d'avance pour les mots qu'il ne trouvera pas et pour la mémoire qui lui fera parfois défaut. Il émane de lui une certaine anxiété à l'idée de parler du livre de sa vie. Physiquement, il paraît pourtant solide, debout sur ses deux jambes arquées, petite moustache au garde-à-vous. Avant de nous attabler à la table de son salon, où il a posé par coquetterie, telle une sur-nappe, un petit carré de marin, Jean Raspail tient à nous faire visiter sa bibliothèque qui occupe une pièce de son appartement du 17e arrondissement de Paris. Giono, Modiano, Cau, Camus, Volkoff… Jean Raspail, qui jouit du titre de consul général de Patagonie, collectionne autant les livres – des centaines, sans compter ceux qui sont à la cave – que les bateaux miniatures et les petits soldats de plomb vendéens. Son livre Le Camp des saints vient d'être traduit en allemand – après une réédition (Robert Laffont) en France en 2011 – et rencontre, selon son auteur, « un bon accueil » outre-Rhin. En parlant d'accueil, nous évoquons avec lui la crise des migrants, la crainte et l'espoir qu'ils inspirent auprès de certains, la genèse de son livre, véritable ouvrage « prophétique » pour une partie de l'extrême droite française… Entretien.

Le Point.fr : On vous doit Le Camp des saints, un livre paru en 1972 narrant l'arrivée massive de migrants sur les côtes de la Méditerranée que certains, à l'extrême droite, considèrent, plus encore depuis la crise des réfugiés, comme visionnaire… Qu'est-ce que cela vous inspire ?
Jean Raspail : Cette crise des migrants met surtout fin à trente ans d'insultes et de calomnies contre ma personne. J'ai été traité de fasciste pour ce roman considéré comme un livre raciste…
L'êtes-vous, raciste ?
Non, pas du tout ! On ne peut pas avoir voyagé toute sa vie, être membre de la Société des explorateurs français, avoir rencontré je ne sais combien de peuplades en voie de disparition, et être raciste. Cela me paraît difficile. Lors de sa parution en 1972, le livre a énormément choqué, et pour cause. Il y a eu une période, notamment sous le septennat de Valéry Giscard d'Estaing, où s'exerçait un véritable terrorisme intellectuel contre les écrivains de droite.
Un « terrorisme intellectuel », déjà ?
Oui. On m'a insulté, traîné dans la boue, puis cela s'est doucement tassé. Car, peu à peu, on s'est mis à vivre la situation que je décris dans ce livre. Un certain nombre d'intellectuels, y compris de gauche, ont reconnu qu'il y avait du vrai dans ce que j'annonçais. Bertrand Poirot-Delpech, qui m'avait descendu dans Le Monde à la sortie du livre, a déclaré dans un article paru dans le même journal, en 1998, que j'avais finalement raison. Maintenant, c'est fini.
Le Camp des saints inspire également le rejet, tout comme l'évocation de votre nom…
Parmi les irréductibles anti-Raspail, il ne reste guère plus que Laurent Joffrin (patron de Libération, NDLR). Lui, il n'y a rien à faire, il continue à me cracher dessus, c'est plus fort que lui. Mais mon ami Denis Tillinac se charge de lui répondre. Je ne suis pas revanchard. Je suis désormais à ma juste place.
Si ce livre n'est pas raciste, comment le qualifieriez-vous ?
C'est un livre étonnant.
Étonnant ?
Ce livre est né étrangement. Avant lui, j'avais écrit des livres de voyages et des romans sans grand succès. J'étais dans le Midi, un jour de 1972, chez une tante de ma femme, près de Saint-Raphaël, à Vallauris. J'avais un bureau avec une vue sur la mer et je me suis dit : « Et s'ils arrivent ? » Ce « ils » n'était d'abord pas défini. Puis j'imaginais que le tiers-monde se précipiterait dans ce pays béni qu'est la France. C'est un livre surprenant. Il a été long à écrire, mais il est venu tout seul. J'arrêtais le soir, je reprenais le lendemain matin sans savoir où j'allais. Il y a une inspiration dans ce livre qui est étrangère à moi-même. Je ne dis pas qu'elle est divine, mais étrange.
Il est une chose que vous n'aviez pas anticipée, c'est le rejet suscité par ce livre dès sa parution…
Quand mon éditeur Robert Laffont, un homme apolitique, a lu le manuscrit, il a été très enthousiasmé et n'a pas trouvé une virgule à changer. D'ailleurs, je n'ai rien changé.
C'est un livre qui aurait été possible aujourd'hui ?
Au départ, Le Camp des saints n'a pas marché. Pendant au moins cinq ou six ans, il a stagné. Il s'est peu vendu. Après trois ans, brusquement, le chiffre des ventes a augmenté. Le succès est venu par le bouche-à-oreille et grâce à la promotion qu'en ont faite des écrivains de droite. Jusqu'au jour où, en 2001, un bateau de réfugiés kurdes s'est échoué à Boulouris, près de Saint-Raphaël, à quelques mètres du bureau où j'ai écrit Le Camp des saints ! Cette affaire a fait un foin terrible dans la région. Du coup, on a reparlé de mon livre et il a touché un large public. C'était le début d'une arrivée maritime de gens d'ailleurs. Je suis un peu honteux, car lorsqu'il y a une vague importante de migrants, on le réimprime. Il est consubstantiel de ce qui se passe.
Est-ce un livre politique ?
Peut-être un peu, oui. Le dernier carré de fidèles et de combattants est composé de patriotes, attachés à l'identité et au terroir. Ils s'insurgent contre la fraternité générale et le métissage…
Vous vous défendez d'être d'extrême droite, mais votre livre à valeur de tract dans certaines mouvances xénophobes. Vous le déplorez ?
Vous parlez de l'extrême de l'extrême droite ! C'est possible que ce livre soit instrumentalisé et il peut y avoir, parfois, des excès de langage. Je n'y peux rien. Par ailleurs, je ne vais pas sur Internet, je ne suis pas entré dans le XXIe siècle, je ne sais donc pas ce qu'on y dit. Personnellement, je suis à droite, et cela ne me gêne pas de le dire. Je suis même de « droite-droite ».
C'est-à-dire ?
Disons plus à droite que Juppé. Je suis d'abord un homme libre, jamais inféodé à un parti. Je patrouille aux lisières.
Vous votez ?
Pas toujours, je suis royaliste. Je vote au dernier tour de la présidentielle. Je ne vote pas à gauche, c'est une certitude.
Avez-vous songé à écrire une suite au Camp des saints ?
Il est certain qu'il y en aura une, mais elle ne sera pas de moi. Est-ce qu'elle arrivera avant le grand bouleversement général ? Je n'en suis pas sûr.
Dans votre livre, vous évoquez le caractère « féroce » des migrants. Or, on constate aujourd'hui que ceux qui arrivent de Syrie ou d'ailleurs n'ont pas le couteau entre les dents…
Ce qui se passe actuellement n'est pas important, c'est anecdotique, car nous n'en sommes qu'au début. En ce moment, tout le monde s'exprime sur le sujet, il y a des milliers de spécialistes de la question des migrants, c'est un chaos de commentaires. Aucun ne se place dans les 35 ans qui viennent. La situation que nous vivons est moindre à côté de ce qui nous attend en 2050. Il y aura 9 milliards d'individus sur terre. L'Afrique est passée de 100 millions à un milliard d'habitants en un siècle, et peut-être le double en 2050. Est-ce que le monde sera vivable ? La surpopulation et les guerres de religion rendront la situation délicate. C'est alors que se produira l'envahissement, qui sera inéluctable. Les migrants viendront en grande partie de l'Afrique, du Moyen-Orient et des confins de l'Asie…
Faut-il combattre le mal à la racine et bombarder les points stratégiques de Daesh, comme vient de le faire la France ?
C'est leur problème, pas le nôtre. Cela ne nous concerne pas. Qu'avons-nous été faire dans cette histoire ? Pourquoi voulons-nous jouer un rôle ? Qu'ils se débrouillent ! Nous nous sommes jadis retirés de ces régions, pourquoi y revenir ?
Et que fait-on lorsque des ordres d'attentat contre la France sont passés depuis la Syrie ?
On bloque. On empêche les entrées sur le territoire français. Les politiques n'ont aucune solution à ce problème. C'est comme la dette, on la refile à nos petits enfants. Il reviendra à nos petits-enfants de gérer ce problème de migration massive.
L'Église catholique n'est pas du tout sur cette longueur d'onde. Elle invite les fidèles à faire preuve de générosité…
J'ai écrit que la charité chrétienne souffrira un peu devant les réponses à apporter face à l'afflux de migrants. Il faudra se durcir le cœur et supprimer en soi toute sorte de compassion. Sinon quoi, nos pays seront submergés.
Refuser l'accueil de tous, y compris des chrétiens d'Orient ?
Éventuellement, car ils sont les plus proches des Occidentaux de par leur religion. C'est pourquoi beaucoup de Français souhaitent les accueillir. La France, ce pays sans aucune croyance religieuse, prouve que le fond de la civilisation occidentale est un fond chrétien. Les gens, même s'ils ne vont plus à la messe et ne pratiquent pas, réagissent selon ce fond chrétien

The novel that unites Marine Le Pen and Steve Bannon
Stridently anti-immigrant, The Camp of Saints was originally ignored or pilloried. Now, it’s found a following.

By           CÉCILE ALDUY    4/23/17, 2:52 PM CET Updated 4/24/17, 2:55 AM CET

In 1973, a strange apocalyptic novel imagined the Southern coast of France suddenly overrun by hundreds of boats “piled high with layer on layer of human bodies” carrying hundreds of thousands of migrants from the Indian continent. Within 24 hours, as the military response fails, political elites capitulate and the French native population collapses morally, poisoned by their “damned, obnoxious, detestable pity” for “other races,” the West falls to the “black and brown” invasion “swarming” across its land.

Much has been made recently about this grandiloquent, often verbose and violently racist 325-page dystopia, The Camp of the Saints, written by the French novelist (and royalist) Jean Raspail. Forty-four years after its release, the book is said to have sold 500,000 copies, at least according to Raspail himself, and has become the bible of alt-right circles in the United States and in France.

It is also the surprising common denominator between two political figures who might well be among the most powerful actors in the years to come: French far-right presidential candidate Marine Le Pen, currently predicted to make it to the second round of the French presidential election after Sunday’s vote, and President Donald Trump’s controversial political adviser Steve Bannon. Both have cited the book with admiration as key to understanding the refugee crisis in 2015 and, more generally, the supposed threat to Western civilization posed by immigration. For them, the book is neither an allegory nor science fiction. It is a vivid description of today’s “migratory submersion” (Le Pen’s words) or “invasion” (Bannon’s), and the failure of political “elites” to respond with the necessary resolve to preserve what Bannon calls the “underlying principles of the Judeo-Christian West.”

But Le Camp des Saints, to use the original French title, wasn’t always seen this way. In fact, it was initially panned by critics in France and sold poorly, only to rise in popularity since its first reprint, in 1985—exactly as the French far-right likewise ascended. To trace the novel’s popular trajectory over the past half-century is, in a sense, to trace the rightward political shift in France—and much of Europe and the United States — and to watch the trivialization of hostile rhetoric against immigrants and other “cultures.”

It is only in recent years that the book has started to be perceived less as a madman’s fantasy, and more as a metaphor for the times, at least in France’s conservative circles.
When Raspail wrote the book more than 40 years ago, he was taking a break from a string of adventures in the Americas exploring far away countries. His anti-modernist philosophy took him to track ancient civilizations such the Incas and Indian tribes from the Andes that had been forced into extinction by the brutal force of the modern world. One day, gazing at the sea from his villa overlooking the Mediterranean, he pondered: “What if ‘they’ came?” The novel is the brainchild from that epiphany.

At the time that Raspail’s novel was first released, France was still sailing on the tail end of 30 years of post-war economic growth, and was still forcefully importing workers from the former colonies to fuel that growth. The far-right National Front had just been founded by Jean-Marie Le Pen (Marine’s father) and a handful of former Vichy regime supporters and fighters for the French Empire—with limited success, though: The party garnered barely 1 percent of the votes the first time it presented candidates in a national election, in March 1973. That same year, Raspail’s book was ignored by liberal and leftist literary critics. Even France’s biggest right-wing newspaper, Le Figaro, where Raspail was a contributor, tore apart the novel. Only a few far-right fringe publications like Minute and Rivarol, praised the novel as “visionary.” After it sold a disappointing 15,000 copies in its first year, its publisher, Robert Laffont, soberly said the book had not found its audience.

It’s not hard to see why many in France were turned off by Raspail’s volume. Opening it, they would have read putrid descriptions of “the terrible stench of latrines that heralded the fleet’s arrival” and of nameless Indian savages eating, literally, their own shit. They might have gasped at Raspail’s account of the “legions of the Anti-Christ” ready to rape and massacre the native French, and those already in Paris—the “Métro-troglodytes, black crabs with ticket-punching claws; the stinking drudges who mucked around in filth”—waiting in the shadow for “a new kind of holy war.” The true “heroes” of the novel, meanwhile, are those who believe in “scorn of people for other races, the knowledge that one’s own is best, the triumphant joy at feeling oneself to be part of humanity’s finest.” According to Raspail, “man never has really loved humanity all of a piece—all its races, its peoples, its religions—but only those creatures he feels are his kin, a part of his clan, no matter how vast.” (These quotes are taken from Norman R. Shapiro’s English translation of the novel.)

Over the course of its steady career, The Camp of Saints has been translated into a dozen languages, including an English version published in 1975 by Scribner and translated by Shapiro, the respected translator of Charles Baudelaire, Paul-Marie Verlaine and Jean de La Fontaine. But it is only in recent years that the book has started to be perceived less as a madman’s fantasy, and more as a metaphor for the times, at least in France’s conservative circles. The book’s flavor of transgression has not entirely evaporated, but it clearly now seems more palatable, thanks to the acclimatization of its once polemical ideas. It even has companions—on bookshelves and on the internet—that similarly speak of an increasing fear of the demographic “replacement” of native French people. Media figure Éric Zemmour’s 2014 French Suicide, for instance—a collection of essays that criticized the country’s sense of “national repentance” for colonization and what Zemmour calls the “religion” of human rights—sold more than 500,000 copies within a year.

A key moment for The Camp of the Saints was the release of its 2011 reprint edition, which sold more than 70,000 copies within four years. It also received extensive media coverage, including interviews in popular talk shows, and lavish reviews in mainstream weeklies like Le Point and L’Express, as well as the more conservative Valeurs Actuelles. The same Le Figaro that, 40 years earlier, had destroyed Raspail’s book, opened its columns to a long, genial interview with its author.

More recently, especially as hundreds of thousands of refugees from Africa and the Middle East began arriving in Europe in 2015, Raspail’s title has become something of a catchphrase in both the United States and France for Breitbart-like pundits, signalling a ready-made argument against “politically correct” humanitarianism and a warning against immigration’s deadly consequences for Western (read: Christian, white) people. On his radio show in October 2015, Bannon, then the head of Breitbart, referred to “a Camp of the Saints-type invasion” when describing the wave of refugees arriving in Europe.

Ten of the 11 presidential candidates onstage prior to a televised debate on April 4 | Lionel Bonaventure/AFP via Getty Images

The primary peddler of Raspail’s ideas in France, meanwhile, has been Marine Le Pen, the leader of the far-right National Front party. She first read the book, which was routinely sold at National Front’s rallies throughout the 1980s and 90s, when she was 18, and again in 2012; today, she keeps a dedicated copy by her desk in her office. But it was only at the height of the refugee crisis in 2015 that she decided to bring it to the attention of the general public. On September 2, 2015, in the middle of the worldwide outcry caused by the picture of a 3-year-old Syrian boy, Aylan Kurdi, washed ashore on the coast of Greece, face down in the sand, Le Pen tried to replace that image with another, scarier vision. On French radio, Le Pen, by then the leader of the National Front, spoke of the “hundreds of thousands of migrants who will come tomorrow”—what she called a “real migratory submersion.” Then came the pitch: “I invite the French to read, or read again The Camp of the Saints, by Jean Raspail, because the images of cargo ships throwing hundreds of migrants—that’s The Camp of the Saints.”

Le Pen’s public admiration for the novel—which describes immigrants as “microbes” and uses race, in its most basic biological sense, as the key factor that explains individual motives and values societies’ fates—caused a stir in circles on the left. But today, public opinion in large part has been immunized against such indignations. A 2016 survey by Ipsos for the Institute of Political Science in Paris found that 65 percent of the French population polled believed there were too many foreigners in France, while 63 percent approved the statement “Today we don’t feel at home in our own country as we used to.” And Le Pen’s anti-immigration party has scored record electoral successes in the past few years, earning 25-28 percent of the vote in the past three national elections.

Today, in France and other Western countries, decrying the “unceasing flow of illegal immigration” or the “massive wave of illegal immigration washing ashore the coasts of France,” as Le Pen does in most of her rallies, has started to sound predictable. Worse: trivial, and almost dull.

At a rally in Paris on Monday, in the last few days of an increasingly tight presidential race, Le Pen announced, for the first time, a plan to temporarily ban all legal immigration on Day One of her presidency, if she is elected. A jubilant crowd of 6,000 supporters chanted, “France to the French” and, “It’s our home” (“On est chez nous”) in response. The National Front’s previous anti-immigrant proposals—cutting the net balance of immigration down to only 10,000 entrees per year, drastically limiting the possibility of being naturalized as French and taxing jobs held by foreigners an extra 10 percent—were apparently not seen as harsh enough. For nearly two years straight, Le Pen has led the polls in the presidential election. But her numbers had started to erode over the past couple weeks, as far-left candidate Jean-Luc Mélenchon has risen and the right-wing François Fillon has stubbornly held on despite of his indictment for fraud in March. Instead of trying to accommodate voters at the political center, Le Pen took a sharp turn further to the right. She played it à la Trump and invented an even more extreme version of the “Muslim ban” to get the media’s and the voters’ attention.

“[The book] took to heart, unknowingly, what is, was and will be for a very long time the issue of the Western world” — Jean Raspail
It was a move right out of the Raspail playbook. It’s true that Le Pen has made a point of eradicating the “r”-word—“race”—from the new National Front’s vocabulary. (The word is still taboo in France because of its nefarious use during World War II.) Last year, she insisted to the conservative weekly Valeurs Actuelles, “Whether one’s skin color is black or white, whether one comes from the islands or Ardèche, one is French.” Yet her very next statement in the same interview was right in line with Raspail’s views: “But to be French cannot be reduced to simply ‘having been born in France,’” she added, confirming her intention to abolish the current right to citizenship for anyone born and raised in France. To Le Pen, blood, or jus sanguinis—the right to citizenship based on one’s parents’ or ancestors’ status—is the only legitimate way to be French. Blood, and a phobia for racial interbreeding, is also the subtext of Raspail’s book. In his preface to the 2011 reprint, he took pains to list all the names of his ancestors back to the age of Louis XIV, to prove that not one ounce of non-European blood runs in his veins. “[T]here is not a single name that could indicate any exotic ascendance,” concluding, with a sigh of relief, “I am not mixed-race!”

Raspail, for his part, seemed unfazed when he learned that Bannon had adopted his novel as a roadmap. “I’m not surprised. Other presidents read it. Reagan read The Camp of the Saints, so did François Mitterrand in France,” he declared in a March 9 radio interview on France Info. Was he proud of the book? “Proud? No. I was useful. It took to heart, unknowingly, what is, was and will be for a very long time the issue of the Western world.”

By choosing Le Pen as France’s next president—or note—French voters will soon tell us whether they agree.


Cécile Alduy is professor of French studies at Stanford University and a research fellow at the CEVIPOF in Paris.

sábado, 22 de abril de 2017

A tempestade perfeita



A tempestade perfeita

O ensino da Arquitectura em Portugal tem sido dominado por uma geração que nega a importância do restauro.

ANTÓNIO SÉRGIO ROSA DE CARVALHO
6 de Abril de 2017, 5:39

Através de um texto de opinião da autoria do arquitecto Nuno Almeida, o debate sobre a intervenção de arquitectos “criadores” em áreas patrimoniais consolidadas, constituindo estas, no seu conjunto intacto, um valor histórico insubstituível, surge nas páginas do PÚBLICO.

As aspas em “criadores” aponta para a não referência a outro tipo de arquitectos quase não existentes em Portugal mas necessários e indispensáveis: os arquitectos de restauro.

Com efeito, toda a retórica do autor é construída à volta de uma argumentação que, de forma enganadora, só reconhece duas alternativas para a intervenção arquitectónica na cidade: arquitectura contemporânea, leia-se modernista, em ruptura e afirmação consciente e demarcada com a envolvente histórica, que o autor considera como a única capaz de representar autenticidade, ou o perverso “fachadismo”, ou artificial operação cutânea que constitui uma mentira perigosa para o futuro da Arquitectura e da autenticidade da cidade.

Ora o “fachadismo” é sem dúvida uma perversão, mas sim, do conceito do restauro integral que considera um edifício histórico como uma unidade indivisível, entre fachada e interior.

Para dar um exemplo muito rapidamente: qual é o valor de um edifício pombalino, que faz parte de uma solução sistemática e global para uma reconstrução funcional de uma imensa área vítima de um cataclismo sísmico, sem a “gaiola”, que constitui precisamente a solução estrutural anti-sísmica pensada por engenheiros da mesma reconstrução?

Toda esta confusão “arquitolas” é fruto do facto de o ensino da Arquitectura em Portugal ter sido dominado ideologicamente por toda uma geração que, de forma manipuladora, tem sempre negado o reconhecimento da importância do ensino e da prática do restauro. Utilizando de forma manipuladora o argumento da Carta de Veneza crítico do restauro integral, os arquitectos de restauro são vistos e acusados no ensino como apologistas do sacrílego “pastiche”. Compreende-se o nervosismo de Nuno Almeida e de toda uma classe, agora sujeita a “honorários limitados” e a um crescente e justificado clamor crítico da opinião pública, capaz de inibir e amedrontar os técnicos responsáveis pelas aprovações.

Em 2008, Manuel Salgado, neutralizando a intenção da candidatar a Baixa a Património Mundial, veio anunciar que “a Baixa nunca será um bairro residencial” e propor exclusivamente um investimento na hotelaria, residências universitárias e alojamentos de curta e média permanência, entregando a dinâmica do investimento unicamente às exigências dos “mercados” e, assim, abdicando da sua responsabilidade planeadora e reguladora, abrindo a caixa de Pandora. Para isso, foi criada uma comissão “facilitadora” na DGPC em 2007 a fim de garantir uma autêntica “via verde”, capaz de “neutralizar” as exigências do PDM.

José António Cerejo publicou um artigo (PÚBLICO, 29.03.2016) onde referia como responsáveis das decisões desta comissão os arquitectos Flávio Lopes e Teresa Gamboa e descrevia as tensões mal disfarçadas entre esta comissão e os directores-gerais Nuno Vassalo e Silva e Paula Silva, que reivindicavam o seu direito à apreciação prévia a fim de “assegurar uma defesa eficiente e eficaz do património”. Ficou famosa a frase de Manuel Salgado: "E se formos muito exigentes com a pedrinha e com o azulejo não conseguimos reabilitar nada."

“Reabilitar” nesta perspectiva significa demolir integralmente os interiores históricos e aplicar o fachadismo. Os efeitos devastadores e irreversíveis nas Avenidas, na Baixa e em toda a cidade são visíveis e ilustrativos deste fenómeno.

Agora que um clamor profundo de resistência começa a dominar a opinião pública e a Internet, contestando, através de petições e acções, toda esta situação, e juntando a estas questões as graves consequências de uma gentrificação/turistificação galopante, a política profissional tem demonstrado uma incapacidade total para representar estes urgentes desafios, deixando exclusivamente à cidadania activa o desempenho deste papel.

Nas próximas eleições autárquicas, Fernando Medina não terá adversários credíveis e de conteúdo e, tendo a vitória assegurada, irá continuar na ilusão de que a sua recusa sistemática em reconhecer e regulamentar estes problemas não irá ter consequências.

Entretanto, no horizonte, acumulam-se as energias e os sentimentos de revolta que estão a desenhar de forma crescente uma tempestade futura. Curiosamente, inadvertidamente e involuntariamente, o texto de Nuno Almeida é mais um sintoma que anuncia a tempestade perfeita.

 Historiador de Arquitectura

Milionária turca investe em hotel de luxo em Lisboa



Milionária turca investe em hotel de luxo em Lisboa

Apaixonada por Lisboa, e de olho no mercado imobiliário português e nos vistos gold, a empresária Ahu Büyükkusoglu Serter tem no total 20 milhões de euros para investir no país

23 DE ABRIL DE 2017
Bárbara Silva

Dois milhões de euros é o valor que a empresária turca Ahu Büyükkusoglu Serter, de 43 anos, herdeira de uma das maiores e mais valiosas coleções de arte da Turquia, vai investir para abrir em Portugal um novo hotel de luxo da cadeia Casa dell"Arte Hotel of Arts & Leisure, depois do sucesso das unidades hoteleiras já existentes desde 2007 na paradisíaca baía de Torba, em Bodrum, na Turquia.

Com inauguração marcada já para junho e morada no número 125 do Campo de Santa Clara, num edifício datado de 1783, coberto de azulejos do século XIX e com vista privilegiada para o Panteão e rio Tejo, o Casa dell"Arte Lisbon será o primeiro hotel do grupo fora da Turquia. Com apenas três quartos à disposição dos clientes, a um preço médio superior a 300 euros por noite, o novo hotel terá também, no piso térreo, uma galeria para exposições e um café (abertos ao público) e ainda uma biblioteca especializada em arte. As paredes surgirão forradas com quadros da coleção familiar e a esmagadora maioria dos móveis serão trazidos da Turquia.

O perfil dos futuros hóspedes está identificado: noivos turcos em lua-de-mel em Lisboa, investidores interessados no mercado imobiliário português e nos vistos gold, artistas internacionais, chefs de cozinha e turistas apaixonados por arte.

Além deste prédio na freguesia de São Vicente, o investimento já concretizado estende-se também a mais dois edifícios em Lisboa - na Praça das Flores e em Arroios, para reabilitação e revenda -, estando esta empresária à procura de novos negócios no país, em Lisboa e no Porto, com perspetivas de investir em Portugal mais de 20 milhões de euros nos próximos anos.

O projeto para fazer nascer em Lisboa um luxuoso hotel em que cada quarto terá na sua decoração obras de arte avaliadas, em média, em cem mil euros, surge no âmbito de um novo pacote de cerca de 300 milhões de euros de investimento direto turco em Portugal que será concretizado até ao final de 2017, anunciado pela nova Associação Portuguesa de Cooperação com a Turquia, The Trade Connection. "Os turcos têm muito dinheiro disponível para investir e estão a descobrir que Portugal é um país interessante. A maior parte dos turcos não conhece Portugal nem o potencial do país", explicou João Pestana Dias, CEO da associação.

Esse era o caso de Ahu Büyükkusoglu Serter quando aterrou em Lisboa há quatro anos, sem conhecer ninguém, "às cegas, seguindo apenas os meus sentidos". "Visitei muitas propriedades até que finalmente encontrei o sítio ideal", contou a milionária, que se define como uma serial investor, em entrevista ao DN/Dinheiro Vivo. O negócio não se fez esperar: "Em 30 minutos tomei a decisão de comprar e fiz uma oferta. Disse ao agente imobiliário que ia apanhar um avião para Istambul e que quando aterrasse queria uma resposta. Cheguei à Turquia, liguei o telemóvel e o negócio estava fechado.".


O interesse em Portugal é grande e prova disso é a empresa de investimentos já criada no país para apostar ainda mais no imobiliário, mas não só. Na mira da empresária estão também as startups portuguesas, bem como novos espaços de coworking e também a recapitalização de PME com boas perspetivas de mercado. "No setor do imobiliário já fiz outros investimentos e neste momento estou à procura de propriedades maiores para renovar e gerir para as nossas marcas de turismo", garante Ahu Büyükkusoglu Serter, que também não esconde o interesse em comprar um armazém nas zonas de Marvila ou Alcântara para dedicar a uma galeria de arte de grandes dimensões.