terça-feira, 12 de novembro de 2019

OVOODOCORVO vai fazer uma pausa de 10 dias.



Imigração sobe 18%. Indianos entre os que mais chegam a Portugal


Há ruas de São Teotónio onde os portugueses são a minoria. E isso está a causar desconforto



Imigração sobe 18%. Indianos entre os que mais chegam a Portugal

Dados provisórios do SEF mostram que até fim de Outubro tinham sido concedidas 110.813 novas autorizações de residência. Brasil continua no topo. O Reino Unido, que estava em quarto lugar no ano passado, passa para segundo. Nepal continua em quinto. Agricultura e necessidade de mão-de-obra explicam subidas.

Joana Gorjão Henriques 12 de Novembro de 2019, 6:30

Há mais imigrantes a trabalhar nas estufas em São Teotónio MIGUEL MANSO

A dois meses de acabar o ano, os dados provisórios do Serviço de Estrangeiros e Fronteiras (SEF) apontam para uma tendência de crescimento de 18% na imigração.

Segundo números fornecidos ao PÚBLICO, até 31 de Outubro já tinham sido concedidas 110.813 novas autorizações de residência (AR), quase mais 17 mil do que em todo o ano de 2018 (93.154), mantendo-se assim uma tendência de subida nos últimos quatro anos. Já no ano passado se tinha registado o maior número de imigrantes de sempre em Portugal, que chegaram aos 480 mil. Os números de residentes devem ultrapassar os 566 mil, segundo a estimativa de 18% do SEF que não especificou números concretos em relação às nacionalidades.

Os brasileiros continuam no topo da tabela dos que mais estão a imigrar. Estes cidadãos são a maior comunidade imigrante em Portugal com mais de 105 mil residentes em 2018.

A maior novidade é a entrada da Índia para o top 5 da tabela das autorizações concedidas, ficando em quarto lugar e à frente do Nepal que ocupa o mesmo quinto lugar que em 2018. O Reino Unido, que estava em quarto lugar no ano passado, passa para segundo. A Itália também se mantém neste ranking, passando de segundo para quarto lugar. França sai da tabela dos cinco que mais pediram a residência.

Porém, os novos pedidos não correspondem todos, necessariamente, aos grupos de imigrantes que já vivem em Portugal. Nesta lista há ligeiras mudanças. Em 2019 as maiores comunidades são Brasil, Cabo Verde, Reino Unido, Roménia e Ucrânia – em 2018 também o eram, mas estavam em posições diferentes na tabela, também liderada pelo Brasil e Cabo Verde, mas seguida da Roménia, Ucrânia e Reino Unido.

Indianos e agricultura
O aumento do fluxo da imigração de indianos explica-se, em parte, com a subida de população estrangeira que vem trabalhar na agricultura. Aliás, em Odemira, onde estão concentradas grandes produções de frutos vermelhos que atraem mão-de-obra imigrante – ao ponto de o Governo ter aprovado a construção de alojamentos nas propriedades agrícolas, o que está a criar polémica – os dados provisórios de 2019 apontam para mais 28% de residentes estrangeiros (ou seja, devem passar de 6124 para 7838, e são sobretudo do Nepal, Índia, Bulgária, Tailândia e Alemanha). Os novos pedidos neste concelho subiram de 1807 para 2077 e vieram sobretudo de Índia, Nepal, Alemanha, Bangladesh e Reino Unido. 

Satbir Singh, 29 anos, indiano a viver em São Teotónio desde 2016 nota que de facto a imigração do seu país está a crescer desde há dois anos naquela zona, pelo menos. “Porque há muitas empresas aqui, há trabalho”, afirma ao PÚBLICO por telefone este trabalhador numa das estufas de frutos vermelhos.

Há ruas de São Teotónio onde os portugueses são a minoria. E isso está a causar desconforto
Nos últimos três anos houve sim um aumento de indianos a procurar a Solidariedade Imigrantes (Solim), associação que tem uma sucursal em Beja e que é uma das que tem mais sócios. Timóteo Macedo afirma, porém, que tem sentido um abrandamento na procura de imigrantes destes países. Os dados a que se refere o SEF podem corresponder a pedidos efectuados no ano passado ou em anos anteriores – porque entre a entrada do pedido e a concessão da autorização podem passar-se vários meses. “Não houve efeito-chamada, foram as necessidades objectivas porque apareceu trabalho em Portugal. Os fluxos migratórios movimentam-se entre a oferta e a procura”, afirma. Os indianos vêm também para a restauração. “Quem está nas cozinhas?”, interroga o dirigente.

O mesmo acontece com os nepaleses, analisa Kubber Karki, da Associação dos Nepaleses. “Continuam a chegar nepaleses. Vêm por causa do trabalho, da comida, do tempo.” O Alentejo e o Algarve são alguns dos destinos preferidos, e aí trabalham na agricultura, mas também na restauração ou em pequenos negócios como mercearias. Mas segundo Kubber Karki, há muita gente qualificada, engenheiros ou advogados, a trabalhar nas estufas ou em restaurantes. “Até terem o cartão de residência não arranjam bons trabalhos”.

As estatísticas e a realidade
Já em relação ao Reino Unido há duvidas sobre se os dados significam novas entradas ou se correspondem a residentes que se foram registar por causa do Brexit. Totalizados em 22.500 em 2017 e em mais de 26 mil em 2018, os britânicos são a terceira maior comunidade imigrante a viver em Portugal, segundo os dados provisórios do SEF em relação a 2019 (mais uma vez não forneceram números específicos). Ao PÚBLICO, o gabinete de imprensa da embaixada britânica calcula que a comunidade seja muito maior e chegue aos 50 mil. “Desde o referendo que a embaixada tem desenvolvido um esforço para que os britânicos não registados o façam de modo a que os seus direitos sejam garantidos. Esse esforço terá produzido efeitos”, referem.

Para Michael Reeve, director executivo da Afpop, a associação de proprietários estrangeiros em Portugal, há razão para que mais britânicos queiram mudar-se porque o país está entre os seus três destinos preferidos. Referindo-se aos imigrantes britânicos em Portugal como expatriados, Michael Reeve afirma que terá funcionado “o boca-a-boca” de quem vive no país. “A Câmara de Comércio Luso-Britânica tem feito uma boa campanha de marketing, este ano fez quatro eventos [no Reino Unido] para promover Portugal e quando as pessoas vêm que é um dos países mais seguros do mundo isso tem efeito positivo”.

Também em relação ao Brasil, Carlos Vianna, membro do Conselho das Migrações, e fundador da Casa do Brasil, acha que os dados estão bem abaixo das estatísticas. Calcula que haverá 200 mil brasileiros em Portugal, cerca de 2% da população, entre imigrantes não regularizados, imigrantes com AR e brasileiros que obtiveram a nacionalidade portuguesa. “Acredito que haja em Portugal cerca de 40 a 50 mil portugueses de origem brasileira como eu, que já sou português há quase 20 anos. No Brasil há imensos novos portugueses porque não há família com portugueses que não incentive os filhos a ter a nacionalidade. Quem tem avô brasileiro vai pedir a nacionalidade. Apelo ao Governo que faça um reforço dos consulados portugueses.”

Para Portugal têm vindo imigrantes de todos os perfis, mas ultimamente também pessoas da classe média e classe média alta que “compra lojas, apartamentos”. “A espiral de crise económica e política no Brasil tem empurrado a imigração brasileira para Portugal”.

E vai continuar a crescer, estima. “A dinâmica de chegada de gente está forte. As pessoas vêm bem informadas. Quando há um certo número de população num país isso gera um fluxo porque são os próprios que trazem amigos e parentes.”

tp.ocilbup@hgj

Os porteiros do regime não sabem fazer contas




Os porteiros do regime não sabem fazer contas

É um absurdo silenciar três deputados com a desculpa que não são um grupo parlamentar, até porque a melhor forma de os transformar num grupo parlamentar é mesmo fazendo tudo para que não abram a boca.

João Miguel Tavares
12 de Novembro de 2019, 6:20

Os porteiros do regime fazem tudo para não deixar entrar novos clientes, e quando estes conseguem, à custa de muito esforço, passar da porta, os porteiros do regime fazem tudo para não os deixar dançar. Os porteiros da discoteca Urban Beach têm fama de ser tipos difíceis, mas os porteiros da Assembleia da República não são mais fáceis. Aquilo que se está a passar no Parlamento, com PS, Bloco de Esquerda, Partido Comunista e Os Verdes (que nunca na vida foram a votos fora da barriga de aluguer marxista-leninista) a fazerem uma panelinha para silenciar os deputados do Chega, da Iniciativa Liberal e do Livre é um desrespeito escandaloso pela democracia e pelos votos dos portugueses.

Ainda por cima, é uma decisão profundamente estúpida; tão estúpida, aliás, que chega a ser ofensiva para qualquer inteligência mediana. Chega, Iniciativa Liberal e Livre podem começar já a esfregar as mãos de contentes e a organizar manifestações nos corredores de São Bento durante os debates quinzenais, para grande felicidade das televisões. Não há nada mais telegénico do que a justa indignação e os gritos de censura, sobretudo quando 999 em cada 1000 portugueses estarão de acordo que até André Ventura, depois de ter sido eleito, tem direito a resmungar no Parlamento contra pedófilos e emigrantes; e até Joacine Katar Moreira, apesar das suas dificuldades, tem direito a esgotar o tempo das suas intervenções da maneira que bem entender. Chama-se a isso democracia, deu muito trabalho a conquistar, merece ser respeitada, e não há regimento parlamentar que se sobreponha a ela, como bem percebeu o presidente da Assembleia Ferro Rodrigues, justiça lhe seja feita.

É um absurdo silenciar três deputados com a desculpa que não são um grupo parlamentar, até porque a melhor forma de os transformar num grupo parlamentar é mesmo fazendo tudo para que não abram a boca. A pressão política e mediática vai obviamente ser insustentável, a esquerda vai obviamente ceder e os três novos partidos vão obviamente poder falar nos debates quinzenais, como têm direito. Não lhes estão a fazer favor nenhum – bem pelo contrário. O regime faz tudo para proteger os partidos que já estão na Assembleia da República, seja em termos financeiros, seja em termos mediáticos (quem está fora do Parlamento não tem direito a participar nos principais debates televisivos, e portanto tem de fazer um esforço colossal para se fazer ouvir), seja em termos eleitorais, por causa do método de Hondt e devido à inexistência de um círculo nacional.

Querem fazer umas continhas simples? Vamos dividir o número de votos de cada partido pelo número de deputados que conseguiu obter. Chega e Iniciativa Liberal tiveram quase 68 mil votos e obtiveram um deputado. O Livre teve 57 mil votos. O PAN teve 174 mil votos e quatro deputados – bastaram-lhe 43.500 votos para eleger um deputado. O CDS precisou de um pouco mais: 44.400 votos por cada deputado. O PCP: 27.700 votos por deputado. O Bloco: 26.300 votos. O PSD: 18.500 votos. O PS teve 1,9 milhões de votos e 108 deputados: bastou-lhe 17.600 votos para eleger um deputado. (Quanto aos Verdes, zero votos chegaram, como sempre, para eleger dois deputados.)

Isto significa uma coisa muito simples: em número de votos, André Ventura e João Cotrim de Figueiredo valem quase quatro vezes mais do que um deputado do PS. Repito: quatro vezes mais. Donde, a esquerda que cale a boca, tenha vergonha na cara e deixe os pequenos partidos falar.

Há sete meses que quase não chove no Algarve e a seca é extrema



Há sete meses que quase não chove no Algarve e a seca é extrema

Autarcas reivindicam a construção de uma nova barragem. A empresa Águas do Algarve garante que até final do ano não faltará água nas torneiras.

Idálio Revez 11 de Novembro de 2019, 20:00

Metade do Algarve, o sotavento, encontra-se em situação de “seca extrema” e a outra parte para lá caminha, está em “seca severa”. No mapa da gestão das Bacias Hidrográficas do Algarve, os furos que regam os golfes de Vale do Lobo já estão sinalizados com um triângulo a “vermelho”. A situação não é inédita, mas este ano a região algarvia está a ser particularmente atingida por uma aridez que faz temer o pior: os cortes no abastecimento ao sector agrícola

O ano hidrológico começou há um mês, mas a chuva não aparece. Por enquanto, dizem os agricultores, são só promessas, já desesperados por há sete meses quase não chover. O céu, aparece carregado de nuvens de vez enquanto mas S. Pedro não abre a torneira. O Verão entrou pelo Outono adentro e vai deixando um rasto de tristeza nos campos As ribeiras estão quase todas secas e a vida aquática morreu. A zona mais atingida é o nordeste algarvio, nos concelhos de Castro Marim e Alcoutim.

Porém, a parte central do Algarve sofre um outro tipo de problemas: a contaminação dos solos e das águas. “A massa de água das campinas de Faro está em muito mau estado”, destaca José Paulo Monteiro, investigador da Universidade do Algarve, explicando que existe uma “sobreexploração” no lado ocidental do aquífero Vale do Lobo/Almancil. Na parte oriental, nas antigas hortas de Faro, “continua a existir o problema dos nitratos”, derivados da agricultura intensiva ali praticada durante décadas sem regras.

O nível das barragens da região, de acordo com os dados divulgados pela Agência Portuguesa de Ambiente (APA), encontra-se a 37,1% da capacidade máxima de armazenamento. Mas “esmo que não chova até final do ano, não haverá problema no abastecimento às populações”, garante a porta-voz da empresa Águas do Algarve, Teresa Fernandes, mostrando a convicção de que o “Governo tomará medidas” caso a situação venha a piorar. Uma das soluções, admite, “pode passar pelos cortes à agricultura, foi o que se fez em 2005 [ano da grande seca]. A prioridade é o consumo humano”, sublinha.

Entretanto, a empresa (pertencente ao grupo Águas de Portugal) está a utilizar também os furos artesianos do aquífero Querença/Silves para complementar o abastecimento às populações, essencialmente garantido pelo sistema de barragens.

Perante os vários cenários que se colocam para garantir o futuro da região – dependente do turismo mas cobiçada, igualmente, para o desenvolvimento de novas culturas de regadio – coloca-se uma questão: o Algarve necessita de uma nova barragem? O presidente da Câmara de São Brás de Alportel, Vítor Guerreiro, não tem dúvidas. “É uma infra-estrutura absolutamente necessária, constitui uma reserva estratégica.” O autarca, socialista, vai levar nesta terça-feira à reunião do executivo uma moção para que seja retomado o projecto da “construção de uma barragem na zona central do Algarve”.

Por mais uma barragem
A discussão arrasta-se há quase 40 anos. Em 1981, recorda, foi apresentado o estudo prévio para a construção da barragem do Monte da Ribeira (ou do Alportel) na zona central da região. Se a obra tivesse avançado, observa, “provavelmente, não haveria a contaminação dos solos das campinas de Faro”. Além disso, argumenta, com a ocorrência de fenómenos extremos cada vez mais frequente, “a barragem iria permitir o controlo sobre as cheias e inundações na ribeira do Alportel/rio Gilão (Tavira)”. A assembleia municipal já aprovou por unanimidade uma moção a defender a “imperativa necessidade de reforçar a capacidade de armazenamento hídrico do Algarve”.

Já os autarcas do Sotavento reivindicam a construção da Barragem da Foupana, que passaria a integrar o sistema Odeleite/Beliche. O ex-Instituto da Água, há mais de duas dezenas de anos, chegou a desenvolver os primeiros estudos, prevendo-se que esta poderia vir a ter uma capacidade para armazenar 100 milhões de metros cúbicos. “Mas só nos lembramos da falta de água, em anos de seca”, comenta Vítor Guerreiro, para quem é igual “construir uma barragem na ribeira do Alportel ou na Foupana, o importante é que seja feita uma obra que garanta o futuro da região”.

Mas José Paulo Monteiro faz um alerta: “Os rios não podem ficar todos domesticados.” O sector da água, lembra o hidrogeólogo, é “muito conservador e gosta das soluções testadas há séculos, como é o caso das barragens”. Porém, uma gestão correcta dos recursos, sublinha, “pode passar pela recarga artificial dos aquíferos, com os efluentes tratados, à semelhança do que se faz em Madrid, Barcelona ou Israel”. A nova Estação de Tratamento de Águas Residuais (ETAR) Faro/Olhão, por exemplo, lança na ria Formosa 40 milhões de hectómetros de esgoto sem qualquer aproveitamento. Do ponto de vista científico, diz o hidrogeólogo, “estas questões são estudadas há muito tempo mas não fazem ainda parte das soluções da estratégia nacional da gestão da água”.

No plano imediato, para minimizar os efeitos da seca extrema, a empresa Águas do Algarve, informa Teresa Fernandes, está a “equacionar a possibilidade de reutilização das águas residuais” para regas e limpezas de ruas. Segundo a empresa, o consumo humano gasta, em média, por ano, 73 milhões de metros de cúbicos e mais de metade desse volume é desperdiçado.

Neste momento, apenas dois campos de golfe reciclam a água para rega, o dos Salgados, e um da Quinta do Lago, de forma parcial.

Califórnia e Austrália os sinais das Alterações Climáticas e das suas terríveis consequências dão-nos uma previsão do Futuro. 11,000 scientists warn of 'untold suffering' caused by climate change



Ryan Brooks walks through what was his family's pineapple farm north of Yeppoon, in central Queensland. 'All our planting bins, they’re gone. That was one of our sheds, that’s gone. The original farm house has gone', he says while looking around the scorched remains of the property. 'Dad’s been here 50 years and never seen anything like that. It’s pretty heartbreaking for us all'.  In northen New South Wales, Thomas 'Noel' Eveans  picks through the remains of his home, where sheets of aluminium and glass melted during the intense blaze that destroyed 12 homes in the village of Torrington

NSW and Qld fires: Sydney region faces 'catastrophic' bushfires danger – live




Smoke shrouds the Sydney Opera House as bushfires rage across parts of New South Wales Photograph: Helen de Jode/The Guardian

segunda-feira, 11 de novembro de 2019

Chega saúda resultado do partido de extrema-direita Vox em Espanha



Chega saúda resultado do partido de extrema-direita Vox em Espanha
07:29 por Lusa

Os socialistas do PSOE ganharam as legislativas em Espanha sem maioria, conseguindo 120 deputados, menos três do que nas eleições anteriores.

O partido Chega, liderado por André Ventura, felicitou o resultado do partido de extrema-direita Vox que passou a ser a terceira força política em Espanha ao eleger 52 deputados nas legislativas de domingo.

Em comunicado, o partido indicou que o líder do Chega, André Ventura, já felicitou o presidente do Vox, Santiago Abascal, e que "em breve" deve realizar-se um encontro entre os dois líderes.

"O Chega deixa ainda votos de que seja possível encontrar em Espanha uma solução política de estabilidade para os próximos quatro anos, desejavelmente com forças de verdadeira direita", lê-se na nota.

O partido Chega congratulou ainda "a previsível descida substancial da extrema-esquerda espanhola, um pouco em linha com o que se tem visto na Europa" e que acredita "ser um prenuncio claro de uma tendência que se repercutirá num futuro próximo em Portugal".

Os socialistas do PSOE ganharam as legislativas em Espanha sem maioria, conseguindo 120 deputados, menos três do que nas eleições anteriores, quando estão contados 99,9% dos votos e atribuídos todos os 350 lugares no parlamento.

O segundo partido mais votado é o PP (direita), que fica com 88 deputados (tinha 66), seguindo-se o Vox (extrema-direita), que passa a ser a terceira força política em Espanha depois de mais do que duplicar a sua representação parlamentar, passando de 24 para 52 deputados.

A Unidas Podemos (extrema-esquerda) perde lugares e votos, ficando com 35 deputados (tinha 42), e o mesmo acontece aos Cidadãos (direita liberal), que elegeram hoje apenas 10 representantes (tinham 57).

As eleições de hoje foram convocadas em setembro pelo Rei de Espanha, depois de constatar que o primeiro-ministro socialista em funções, Pedro Sánchez, não conseguiu reunir os apoios suficientes para voltar a ser investido no lugar na sequência das eleições de abril.

domingo, 10 de novembro de 2019

TRANSPORTES CHEIOS, ATRASADOS E VELHOS. PASSE NOVO VEIO MOSTRAR QUE É PRECISO MUDAR TUDO



TRANSPORTES CHEIOS, ATRASADOS E VELHOS. PASSE NOVO VEIO MOSTRAR QUE É PRECISO MUDAR TUDO
09/11/2019

No Campo Grande, ao fim da tarde, as filas encaracolam para os autocarros que seguem para Mafra, Ericeira ou Venda do Pinheiro. Em Sete Rios, os passageiros da linha de Sintra já esgotaram a compreensão para os incómodos causados e os que seguem para a Margem Sul queixam-se da sensação sardinha em lata, às horas de ponta. Em seis meses, o passe Navegante trouxe mais 150 mil utentes aos transportes públicos da Área Metropolitana de Lisboa. E isso foi bom. Mas também foi mau.

Texto de Catarina Pires | Fotografias de Filipa Bernardo/Global Imagens

Às seis e meia da tarde, no terminal de autocarros do Campo Grande, não se percebe muito bem onde começa uma fila e acaba outra. O retângulo com as paragens de onde saem os autocarros para a Ericeira, Mafra ou a Venda do Pinheiro está cheio e tem sido assim todos os dias desde o início de setembro.

Há rostos fechados, que não querem conversa, mas o de Sandra Resende, que espera, com o filho, Francisco, e a mãe, Maria Cardoso, a carreira que segue para a Venda do Pinheiro, tem um sorriso que acolhe.
.
Há cerca de um ano, adotou o transporte público e há seis meses rejubilou com o Navegante Metropolitano. “Sou a verdadeira beneficiária do novo passe. Poupo mais de cem euros por mês. O meu filho não paga, porque tem 12 anos, e a minha mãe paga menos porque tem mais de 65. É uma maravilha.” Nota uma muito maior afluência, quer na Venda do Pinheiro quer aqui, mas elogia o esforço da Mafrense em tentar dar resposta ao caos instalado.

“Há muita gente que vem das terras limítrofes e deixa o carro na Venda do Pinheiro, para apanhar a camioneta. Nem sempre há lugar para todos. Mas está lá o senhor Ramiro, que quando vê que fica gente apeada solicita desdobramentos. Só que nem sempre é possível. No início do mês foi o caos. Até houve quem desistisse e saísse da fila para vir de carro e desse boleia a outros na mesma situação. Agora o caos está mais controlado“, conta Sandra, que trabalha no Hospital de São José e tem o filho a estudar em Lisboa. Antes do Navegante, este cenário não era sequer imaginável. O passe custava mais de cem euros e muitos preferiam o carro para as suas deslocações para o trabalho.


Lília Gomes aderiu este mês ao passe Navegante. Desde os tempos da escola que não andava de transportes públicos.
Era o caso de Lília Gomes, estreante neste mês nos transportes públicos, que não utilizava desde os tempos da escola. Vive na Ericeira, trabalha em Lisboa e foi quando começou a fazer contas à vida que decidiu experimentar o autocarro. “A poupança de cerca de 200 euros mensais está a saber-me bem.”

Poder descansar ou ler durante o trajeto, impossível quando se está a guiar, também. E por enquanto compensam os tempos de espera e a confusão, sobretudo no regresso a casa. “À saída da Ericeira, apanho o autocarro na última paragem antes da autoestrada e vou sempre uns 15 minutos antes para ter lugar. Mas à ida para lá é mais caótico. Por exemplo, este autocarro parte daqui a dez minutos e não sei se consigo entrar, nem sei se virá um segundo para fazer o mesmo horário.”


No terminal do Campo Grande acumulam-se as filas para os autocarros da Mafrense com destino à Ericeira, Mafra e Venda do Pinheiro, entre outras paragens.
Nuno do Carmo, diretor da Mafrense [Grupo Barraqueiro], confirma que a adesão foi avassaladora. “Na linha da Ericeira, o aumento de passageiros foi na ordem dos 100%, nas de Mafra, Venda do Pinheiro e Malveira foi entre 50% e 60%.” Não tem sido fácil dar resposta, porque a oferta não estava dimensionada para esta procura, mas “com o esforço de todos os motoristas, que têm trabalhado mais para fazer os desdobramentos, e a deslocação de autocarros da área comercial para o serviço público, temos conseguido responder”, diz.

“Mas são soluções de recurso. A verdadeira solução passará por mais horários adaptados às necessidades das pessoas. Estamos a trabalhar com a Câmara Municipal de Mafra e a Área Metropolitana de Lisboa (AML) para isso. O problema é que isso implica mais autocarros e mais motoristas. Os autocarros compram-se e é uma questão de tempo, mas motoristas é muito difícil encontrar, porque o acesso à profissão é complicado.”

São várias as empresas de transportes que se queixam da dificuldade em contratar motoristas. As exigências – nomeadamente, a de só a partir dos 24 anos poder tirar-se a carta – e as especificidades da formação afastam os candidatos, mas o trabalho pesado e mal remunerado também não ajudará a atrair gente para a profissão.

Metro em Loures, já!
O metro em Loures poderia contribuir para escoar o fluxo cada vez maior de gente que escolheu o oeste para viver e trabalha em Lisboa.

Bernardino Soares tinha acabado de inaugurar, com Fernando Medina, a extensão do 708 da Carris para Sacavém quando falou com o DN. O metro para Loures é uma reivindicação antiga do presidente da autarquia eleito pelo PCP, que afirma que é este o momento de tomar decisões e estabelecer como prioridade a criação de infraestruturas que façam chegar o transporte pesado [metro e/ou comboio] a Loures.

“O passe intermodal foi uma medida essencial, na qual nos empenhámos muito. Além da poupança significativa para as famílias, permitiu acabar com situações em que as pessoas, por exemplo, tinham de ter vários passes. Estamos a trabalhar para melhorar a rede rodoviária e esperamos um aumento da oferta de carreiras e horários no próximo ano, mas para uma melhoria completa da mobilidade é necessário trazer o metro para Loures.”

“É hoje claro para todos que o metro em Loures é essencial para dar coerência à rede de transportes da AML. Aliviará Lisboa dos carros, aliviará a pressão sobre o metro de Odivelas e facilitará a mobilidade de quem vem do oeste”, diz Bernardino Soares.

A apoiá-lo nesta reivindicação tem os presidentes das câmaras municipais de Mafra e de Odivelas. “É hoje claro para todos que este investimento é essencial para dar coerência à rede de transportes de Área Metropolitana de Lisboa. Terá impacto não só em Loures como nos concelhos à volta, nomeadamente os do oeste. Aliviará Lisboa dos carros, aliviará a pressão sobre o metro de Odivelas e facilitará a mobilidade de quem vem do oeste.”

Bernardino Soares lembra que esta é uma decisão que cabe ao governo e não à AML e lembra também que o metro para Loures foi anunciado em 2009, por um governo PS. “O que pedimos é que se cumpra o que foi dado como certo há dez anos. Serão precisas verbas do próximo Quadro Comunitário de Apoio e este investimento no ferro-carril em Loures deve ser considerado prioritário, no âmbito da luta contra as alterações climáticas e de uma verdadeira mobilidade para as populações destes concelhos”, diz.

Sardinha em lata
No debate sobre o programa do governo, António Costa anunciou o investimento no setor dos transportes. Dez novos barcos para a Transtejo, 22 novos comboios para a CP, 14 novas composições para o Metro de Lisboa e 700 novos autocarros para o país. A AML está em fase de conclusão do concurso internacional para concessão de transporte rodoviária que envolve verbas de mais de mil milhões de euros e prevê oferecer mais transporte rodoviário nos dias úteis, em horas de ponta e fora das horas de ponta, ao fim de semana, à noite, significando um acréscimo de oferta superior a 40% (leia também a entrevista a Carlos Humberto, primeiro secretário da AML).


Idalina Batista trabalha em Lisboa e vive no Cacém. Sai às sete da manhã e regressa às seis da tarde. O fim do dia é sempre mais complicado.
Espera-se uma revolução, mas enquanto ela não chega, na estação de Sete Rios, há uma voz que se repete – “pedimos a vossa compreensão pelos incómodos causados” – de cada vez que se anuncia um atraso ou um comboio que foi suprimido.

Idalina Batista mora no Cacém e trabalha em Lisboa, no Centro Comercial Colombo. Todos os dias apanha o comboio das 07.03 ou 07.19 para Sete Rios e o das 18.30 para o Cacém. “Para cá, há dias em que vem muito cheio, mas não é dramático. Para lá é que é pior, há muitos atrasos. Às vezes é difícil entrar, de tanta gente. Mas eu forço, entro mesmo assim, tenho o meu filho em casa à espera.” E lá vai ela, sem tempo para mais.

Um senhor de Vale Abraão, que não teve tempo de dizer o nome, não tem passe, só nesta semana é que teve de recorrer ao comboio para vir para Lisboa e queixa-se da sobrelotação e dos atrasos constantes. “Não entro quando o comboio está lotado, prefiro esperar pelo próximo, mas isto é um pesadelo, tão mau como o IC19”, diz.

“A situação nas horas de ponta é insuportável. As condições são insalubres. Os atrasos são constantes. Criam-se situações de conflitualidade entre passageiros. Há uma degradação cada vez maior no serviço. E a CP nem justifica nem toma medidas”, diz Vasco Ramos, da Comissão de Utentes da Linha de Sintra.

Vasco Ramos, da Comissão de Utentes da Linha de Sintra, confirma e não é ao passe Navegante que aponta responsabilidades. “O passe foi uma medida excelente, mas o acréscimo significativo de passageiros que trouxe tornou mais evidentes os problemas que já existiam. Só em outubro foram suprimidos cerca de cem comboios da Linha de Sintra. A situação nas horas de ponta é insuportável. As condições são insalubres. Os atrasos são constantes. Criam-se situações de conflitualidade entre passageiros. Há uma degradação cada vez maior no serviço. E a CP nem justifica nem toma medidas. É o silêncio.” Sim, é o silêncio. Nenhuma das questões enviadas para a empresa mereceu resposta.


A Fertagus foi uma das operadoras com maior aumento de utilizadores desde a criação do novo passe. Apesar de ter aumentado a lotação e criado novos horários, as horas de ponta continuam a encher.
Do outro lado da linha, a situação não é tão grave, apesar de a Fertagus – responsável pela ligação ferroviária entre Setúbal e Lisboa – ser dos operadores que mais sentiram o efeito Navegante. A procura subiu exponencialmente, pela rapidez, pelo conforto, pela fiabilidade e pela considerável descida dos preços. No entanto, às horas de ponta, sobretudo nas estações mais próximas da Ponte 25 de Abril, quer de um lado quer de outro, os comboios enchem e há quem prefira não entrar e esperar pelo próximo.

Sandra Bacalhau faz todos os dias (úteis) o percurso entre p Pragal e Sete Rios. Em dez minutos está em Lisboa. Um luxo de que desfruta há 15 anos. Moradora em Porto Brandão, deixa o carro no Monte de Caparica, onde apanha o Metro Sul do Tejo para o Pragal. Até há seis meses, o passe da Fertagus mais o do MTS somavam 53 euros e meio. Poupa 13 euros e meio, mas passou a vir em modo, “no meu caso, bacalhau em lata”.




Sandra Bacalhau é utente da Fertagus há 15 anos e nos últimos seis meses passou a viajar em modo sardinha em lata.
“Há muito mais gente, isso é óbvio, de manhã venho às 08.29 ou 08.39 e à tarde vou no das 18.09. Quer para lá quer para cá, os comboios vão sempre cheios. E a ideia de tirar bancos não adiantou de muito. Por exemplo, este das seis ainda é de quatro carruagens. Já devia ser de oito.” A Fertagus tem, desde 16 de setembro, mais comboios duplos (oito carruagens) e mais horários. Continua cheia à hora de ponta.

Mobilidade a sério é…
Para António Freitas, da Comissão de Utentes dos Transportes do Seixal, a solução tem de ser integrada. Se o comboio está saturado e não pode aumentar horários ou carruagens, há que apostar nos barcos ou nos autocarros, assim como há que incluir os estacionamentos no passe intermodal e encará-los também como operador, porque são dissuasores de levar o carro para Lisboa.

“O passe Navegante [Metropolitano, Municipal, +65 e 12 anos e, mais recentemente, Família] foi uma medida de desenvolvimento da mobilidade muito positiva porque, além de tudo o resto, mostrou que, com os incentivos certos, as pessoas estão dispostas a mudar comportamentos e hábitos de vida”, diz.

Notando o facto de que os utentes deixaram de estar presos a um operador, transporte ou trajeto, António Freitas defende que se trata agora de criar verdadeiras alternativas de mobilidade, que sirvam as necessidades dos utentes e não dependam dos interesses dos operadores.

“Há que repensar os horários noturnos e de fim de semana – ínfimos entre o Seixal e Lisboa, por exemplo -, as ligações, os percursos, os intervalos de espera e o tipo de oferta. Se a ferrovia está esgotada, invista-se nos barcos”

Os barcos da Transtejo estão a precisar de ser renovados. Equipamentos degradados, avarias frequentes, supressão de carreiras, insuficiência de horários, que nas horas de ponta, quer ao fim de semana e à noite são algumas das queixas dos utentes do Seixal, Montijo e Cacilhas.
“Não falo apenas nas ligações para Lisboa, mas mesmo dentro dos concelhos. No Seixal, por exemplo, há dificuldade de chegar de Corroios à sede do município e a serviços essenciais como o centro de saúde. É preciso pensar tudo isto de uma forma integrada e tendo em conta as necessidades das populações. Há que repensar os horários noturnos e de fim de semana – que são ínfimos entre o Seixal ou o Montijo e Lisboa, chega a ser desconcertante -, as ligações, os percursos, os intervalos de espera e o tipo de oferta. Se a ferrovia está esgotada, invista-se nos barcos, que são uma ligação privilegiada entre margens”, diz António Freitas, advogando que esta medida devia ser alargada a todo o país.

“A rede de transportes que temos não está adequada à mobilidade que queremos, ao nível dos países europeus mais desenvolvidos, e para a qual o passe intermodal abriu as portas.”

Avisos que vêm de Espanha / Espanha: a hora dos pactos



EDITORIAL
Avisos que vêm de Espanha
A estabilidade que muitos eleitores espanhóis desejavam acabou por não sair das eleições deste domingo.

David Pontes
11 de Novembro de 2019, 6:05

A maior parte dos eleitores que no domingo fizeram as suas escolhas nas eleições espanholas tinham provavelmente um desejo comum, para além das diferentes opções políticas de cada um. O de que após quatro eleições legislativas em quatro anos e as segundas em sete meses, o país pudesse encontrar uma solução governativa, se não estável, pelo menos viável. Não foi isso que aconteceu, muito pelo contrário.

O PSOE voltou a ganhar, mas menos. O PP recuperou, mas menos do que necessitava. O Cidadãos, que em tempos propunha fazer a ponte entre os vermelhos e azuis, ficou reduzido a muito menos do que prometia e o Podemos, a outra força que desafiava as leis do bipartidarismo, também ficou com menos força. Mais, claramente mais, o Vox, a força de extrema-direita que duplicou a sua presença no parlamento espanhol.

O reavivar das lógicas nacionalistas devido à crise catalã, somadas à insatisfação de muitos cidadãos perante o sistema político, reforça a força das respostas primárias do Vox. Em Espanha não houve “cordão sanitário” que isolasse o partido de Santiago Abascal e o resultado está à vista.

Muito se escreverá sobre como a extrema-direita se tornou a terceira força política num dos mais importantes países europeus. Mas valerá ainda a pena analisar o que aconteceu ao maior sacrificado em resultado desta subida, o Cidadãos. Um partido que ainda há bem pouco tempo pensava poder ultrapassar o PP, que começou por ser uma força que privilegiava o centrismo, acabou por sacrificar o seu projecto à competição com os populares e com a extrema-direita. Nunca foi capaz de estabelecer pontes com o PSOE, mas viabilizou um governo regional com o Vox. A sensatez deu lugar à emoção e à inconstância e o resultado está à vista: os eleitores acabaram por preferir os originais (PP e Vox) à imitação. Um aviso que a direita portuguesa não deve deixar de ouvir.

Mas a esquerda também tem a obrigação de ficar atenta. As eleições existem para que delas possam sair opções de governação para um país, mas o que saiu do sufrágio de ontem foi também um castigo para aqueles que à esquerda, PSOE e Unidas Podemos, falharam o objectivo da estabilidade, ao não conseguirem viabilizar um governo após as eleições de Abril. Ninguém parece ter lucrado nada com o jogo do passa-culpas. Um aviso para os protagonistas nacionais de uma solução parlamentar que ainda não passou pelos testes de esforço.




COMENTÁRIO
Espanha: a hora dos pactos
Sánchez e Casado precisarão de alguns dias para digerir um resultado eleitoral que os coloca como responsáveis exclusivos pelo amanhã da Espanha.

Jorge Almeida Fernandes
10 de Novembro de 2019, 23:10

Crises em cadeia: no momento em que a Espanha se confronta com uma crise sem precedentes do seu modelo territorial – o Estado autonómico –, explode uma crise de representação. O sistema partidário está bloqueado. Deixou de funcionar e é impossível investir um governo “como dantes”. Convocar “terceiras eleições” – num país que acusa os políticos de serem responsáveis pela ingovernabilidade – ­seria uma alternativa suicidária.

O PSOE e o PP estão desde hoje colocados perante o cenário que mais detestam: a grande coligação. Foi formalmente recusada por Pedro Sánchez e Pablo Casado. Este invocou um poderoso argumento: deixaria a oposição nas mãos do Vox de Santiago Abascal, e do Unidas Podemos, de Pablo Iglesias. O resultado eleitoral inviabiliza também o esquema das “maiorias de geometria variável”, em que um governo minoritário faz alianças flutuantes.

A Espanha é a única democracia europeia que nunca experimentou governos de coligação ao nível nacional. Há uma longa cultura de coligações mas apenas a nível regional. Sánchez e Casado ficam com o menino nos braços. A partir de hoje, ou dentro de uma semana, gostem ou não, vão ter de se sentar a uma mesa e repetir a pergunta de Lenine: “Que fazer?”

A “grande coligação” é sem dúvida mais adaptada à cultura política alemã e pode a prazo ter efeitos perversos, como explicou Casado. Em Portugal, o “bloco central” deixou má fama embora tenha sido inevitável. Que mais beneficiará o Vox? Um governo do “sistema” ou a ingovernabilidade da Espanha?

A “grande coligação” pode ser a mais esdrúxula solução para a cultura partidária espanhola, com os partidos bem arrumados em blocos ideológicos. Que alternativa têm Sánchez e Casado para garantir um governo com um mínimo de estabilidade? Lembre-se que a ideia de “grande coligação” foi avançada por Mariano Rajoy em 2016.

Não interessa se a solução vai desembocar numa coligação formal ou se optarão por um acordo “à sueca” entre sociais-democratas e conservadores, em que um governa em minoria e outro faz oposição, mas na base de um acordo que garante a aprovação dos orçamentos e algumas metas básicas. Na Espanha, não há solução para a Catalunha sem entendimento entre PSOE e PP.

A revolta catalã
 “A revolta catalã e o ‘Brexit’ são duas situações que geram entre os cidadãos uma sensação de temor e até de medo”, explicou há dias o politólogo Fernando Vallespín. A resistência aos pactos é um problema espanhol ou um problema dos partidos espanhóis? É um problema dos partidos.

Prosseguia Vallespín: “Estamos a ver que o ‘Brexit’ pode ser uma história interminável. E não se tinha pensado na dimensão violenta da revolta catalã. A revolta catalã está a converter-se, pouco a pouco, numa revolta que, longe de encontrar uma resposta pensada e racional, bem meditada pelos eleitores, encontra uma resposta profundamente emocional.” A quem beneficia a resposta emocional e o confronto entre o nacionalismo independentista e o despertar do nacionalismo espanhol? Fundamentalmente, beneficia o Vox.

Sánchez e Casado precisarão de alguns dias para digerir um resultado eleitoral que os coloca como responsáveis exclusivos pelo amanhã da Espanha. Chegou a hora dos pactos.

tp.ocilbup@sednanrefaj
TÓPICOS

Judiciária a braços com nova “epidemia” de roubos de azulejos




Mosteiro de São Dinis de Odivelas Foto
A PJ já recuperou mais de 130 azulejos roubados no Mosteiro de Odivelas NUNO FERREIRA MONTEIRO

Judiciária a braços com nova “epidemia” de roubos de azulejos

Depois de anos de acalmia, este ano já foram abertos pelo menos 30 processos por roubo de azulejos históricos na região de Lisboa. Só um vendedor da Feira da Ladra tinha na sua posse peças no valor de mais de 48 mil euros.

Sónia Trigueirão 11 de Novembro de 2019, 6:55

É um tipo de crime que estava em contracção mas que nos últimos tempos voltou em força: só este ano, a Directoria de Lisboa da Polícia Judiciária (PJ) abriu pelo menos 30 processos por roubo de azulejos em vários edifícios históricos do distrito. Depois de alguns anos de acalmia, a Brigada de Obras de Arte da PJ fala agora em “epidemia” para classificar esta nova vaga de furtos.

Quintas senhoriais, palacetes e outros edifícios antigos e históricos, privados e públicos, em Lisboa, Oeiras, Sintra, Estoril, Odivelas, Famões, Caneças ou Cascais, têm sido alvo destes furtos recentemente. A PJ segue o rasto dos larápios e sabe que estão organizados. Actuam divididos em dois grupos que procuram especialmente painéis dos séculos XVII e XVIII, mas também não se fazem rogados perante azulejos mais contemporâneos.

De acordo com fonte da PJ que se dedica à investigação deste tipo de crimes, um bom azulejo vale, no mínimo, 100 euros. Muitos são vendidos aos turistas na rua, nomeadamente na Feira da Ladra, onde não faltam antiguidades, e os de maior valor aparecem nos antiquários e por vezes em leilões. Também já têm aparecido azulejos furtados à venda em sites e redes sociais na Internet.


Em Lisboa, um só vendedor, que habitualmente marca presença na Feira da Ladra, tinha na sua posse cerca de 48,5 mil euros em azulejos portugueses. Entre os vários painéis encontrados numa das suas casas estavam quatro de um conjunto de 17 painéis furtados em 2001 no Palácio Belmonte, em Alfama, e cujo processo já tinha sido arquivado. Segundo dados da Brigada de Obras de Arte da PJ, só estes quatro painéis estavam avaliados em 23,5 mil euros. Estiveram desaparecidos 17 anos.

A investigação deste caso iniciou-se a 31 de Outubro de 2016, quando representantes de uma empresa privada apresentaram queixa na PJ pelo furto de um painel de 90 azulejos do século XVII, avaliado em 25 mil euros, de um prédio junto ao Campo Mártires da Pátria, em Lisboa, onde estavam a realizar obras. No âmbito dessa obra, e para preservar os azulejos, foram fotografados todos os painéis e assim que deram pela falta de um deles foi feita a queixa e enviadas as fotografias.

No decorrer da investigação, um dos inspectores deslocou-se à Feira da Ladra e apercebeu-se que um dos vendedores, bastante conhecido nesta área da venda de azulejos, tinha na sua posse um que se destacava por ser semelhante aos que tinham sido furtados no Campo Mártires da Pátria. Destacava-se até pelo preço. O vendedor estava a pedir por um único azulejo 400 euros. Questionado, disse que lhe tinha sido vendido por um cidadão de Leste e que lamentava não ter o painel completo, pois jamais conseguiria vender o exemplar único que tinha na sua posse e o guardaria para a sua colecção privada.

A investigação prosseguiu até que foi encontrada uma fotografia do painel completo num antiquário de Lisboa. Para espanto dos inspectores, o antiquário identificou o vendedor da Feira da Ladra como o homem que tinha o painel para vender.

Numa das casas deste homem, em Oeiras, os inspectores viriam então a descobrir não só o painel furtado em 2016, como os do Palácio Belmonte, desaparecidos desde 2001. Além destes, e de acordo com a PJ, foi possível recuperar ainda azulejos que tinham sido furtados do edifício do Banco de Portugal, na Baixa de Lisboa, e que tinham desaparecido depois de terem sido encaixotados por causa de umas obras. O vendedor da Feira da Ladra acabou acusado e foi a julgamento, mas não houve condenação porque os queixosos decidiram entretanto fazer um acordo.

30 processos só este ano
Este é apenas um exemplo deste tipo de crime e do circuito que a mercadoria faz até ser vendida. Segundo fonte da Brigada de Obras de Arte da Polícia Judiciária, “infelizmente, e depois de uma época ligeiramente mais calma”, o roubo de azulejos “voltou a aumentar” como uma “epidemia”.

O mesmo é confirmado pelo Projecto SOS Azulejo do Museu de Polícia Judiciária, que nasceu em 2007 da necessidade de combater a grave delapidação do património azulejar português que já então se verificava. Se, em 2017, o SOS Azulejo dava conta que os furtos tinham diminuído em 80%, agora a realidade é outra.

Entre 17 de Janeiro de 2018 e 22 de Julho de 2019, a PJ abriu 40 novos processos de investigação a furtos de azulejos – a maior parte, 30, são já deste ano. “No Verão chegámos às 11 queixas por mês”, refere fonte da PJ, sublinhando que este fenómeno está a voltar em força para preocupação das autoridades.

Têm sido recuperados muitos azulejos no âmbito das várias investigações abertas, caso dos 130 azulejos do século XVII que a PJ recentemente recuperou e que tinham sido roubados nos últimos dias de 2018 de uma galeria do Mosteiro de Odivelas. No âmbito deste processo já foi detido um indivíduo, mas a investigação prossegue.

Os inspectores da Brigada de Obras de Arte levam a cabo fiscalizações frequentes aos antiquários e outros locais onde se comercializam antiguidades. Ao longo dos anos foi também estabelecida alguma colaboração com vendedores, alguns dos quais comunicam às autoridades qualquer situação suspeita que possa eventualmente ter contornos ilegais.

“O que está em causa não é apenas o furto dos azulejos, mas também o rasto de destruição nos locais que deixam para trás”, sublinha a mesma fonte da PJ, ligada à investigação deste tipo de crimes.

Foi o que aconteceu na Casa da Pesca, em Oeiras, um conjunto arquitectónico do século XVIII votado ao abandono há dezenas de anos. Em Maio deste ano, foi a Câmara de Oeiras a denunciar o roubo de vários painéis de azulejos deste local.

tp.ocilbup@oarieugirt.ainos

Donald Trump Jr walks out of Triggered book launch after heckling – from supporters



Donald Trump Jr walks out of Triggered book launch after heckling – from supporters

Event at University of California is cut short amid anger at his refusal to take questions from the audience

Andrew Gumbel in Los Angeles
Mon 11 Nov 2019 03.29 GMTLast modified on Mon 11 Nov 2019 03.40 GMT

A pro-Trump supporter protests at the UCLA campus in Westwood, California on Sunday. Some were unhappy that Trump Jr refused to take questions.

Donald Trump Jr ventured on to the University of California’s overwhelmingly liberal Los Angeles campus on Sunday, hoping to prove what he had just argued in his book – that a hate-filled American left was hell-bent on silencing him and anyone else who supported the Trump presidency.

But the appearance backfired when his own supporters, diehard Make America Great Again conservatives, raised their voices most loudly in protest and ended up drowning him out barely 20 minutes into an event scheduled to last two hours.

The audience was angry that Trump Jr and his girlfriend, Kimberly Guilfoyle, would not take questions. The loud shouts of “USA! USA!” that greeted Trump when he first appeared on the stage of a university lecture hall to promote his book Triggered: How The Left Thrives on Hate and Wants to Silence Us quickly morphed into even louder, openly hostile chants of “Q and A! Q and A!”

The 450-strong audience had just been told they would not be allowed to ask questions, “due to time constraints”.

At first, Trump and Guilfoyle tried to ignore the discontent, which originated with a fringe group of America Firsters who believe the Trump administration has been taken captive by a cabal of internationalists, free-traders, and apologists for mass immigration.

When the shouting would not subside, Trump Jr tried – and failed – to argue that taking questions from the floor risked creating soundbites that leftwing social media posters would abuse and distort. Nobody was buying that.

In minutes, the entire argument put forward by the president’s son – that he was willing to engage in dialogue but that it was the left that refused to tolerate free speech – crumbled.

 “I’m willing to listen…” Trump began.

“Q and A! Q and A!” the audience yelled back.

“We’ll go into the lion’s den and talk …” Trump tried again.

“Then open the Q and A!” came the immediate response.

Guilfoyle, forced to shout to make herself heard, , told students in the crowd: “You’re not making your parents proud by being rude and disruptive.”

She and Trump Jr. left the stage moments later.

The fiasco pointed to a factional rift on the Trump-supporting conservative right that has been growing rapidly in recent weeks, particularly among “zoomers” – student-age activists. On one side are one of the sponsors of Trump Jr’s book tour, Turning Point USA, a campus conservative group with a track record of bringing provocative rightwing speakers to liberal universities.

On the other side are far-right activists – often referred to as white supremacists and neo-Nazis, although many of them reject such labels – who believe in slamming the door on all immigrants, not just those who cross the border without documents, and who want an end to America’s military and diplomatic engagement with the wider world.

A number of the loudest voices at Sunday’s event were supporters of Nick Fuentes, a 21-year-old activist with a podcast called America First that has taken particular aim at Turning Point USA and its 25-year-old founder, Charlie Kirk. In a number of his own recent campus appearances, Kirk has faced questions accusing him of being more interested in supporting Israel than in putting America first. He has responded by calling his detractors conspiracists and racists.

On Sunday, Kirk appeared alongside Trump Jr. and Guilfoyle but said nothing.

Two Fuentes supporters, delighted with the outcome of Trump Jr’s appearance, later told the Guardian the pro-Trump movement was being infected with “fake conservatism” and that the president himself was at the mercy of a cabal of deep state operatives who wouldn’t let him do many of the things he campaigned on.

The pair, who called themselves Joe and Orion Miles, said: “It was an absolute disaster for them. We wanted to ask questions about immigration and about Christianity, but they didn’t want to face those questions.”

Also, if Trump Jr was expecting “triggered” leftwingers to clamour for his silence, he did not get it. No more than 35 protesters showed up and, despite making a lot of noise with drums and whistles and shouts of “Trump-Pence Out Now!”, resisted taunts and insults from provocateurs in Make America Great Again hats from across a line of metal barriers.

Hong Kong police shoot protester point-blank range




Hong Kong: anger mounts after police shoot demonstrator during morning rush hour

Protester shot in chest in critical condition as police fire tear gas and pepper spray on demonstrators

Lily Kuo
Mon 11 Nov 2019 02.30 GMTLast modified on Mon 11 Nov 2019 06.00 GMT

Hong Kong police shot at least one protester on Monday during rush hour as anti-government demonstrators blocked roads and clashed with police throughout the city.

In video captured by local media, a police officer struggling to subdue a protester fired three live rounds at demonstrators in Sai Wan Ho in northeastern Hong Kong. One demonstrator, who did not appear to be armed, was shot at point-blank range in the torso and crumpled to the ground.

The protester lay on the ground in a pool of blood as police cuffed his hands behind his back. He appeared to be conscious and later attempted to run from police but was quickly caught.

In a statement, the government confirmed that a police officer had discharged his service revolver and that a man had been shot. Hong Kong’s Hospital Authority said that it had received one patient with a gunshot wound, a 21 year old, who as of 10am local time remained in critical condition. Local media reported that the demonstrator had undergone surgery.

The video, taken by Cupid Producer, was circulated widely online after protesters blocked roads and public transit stations during the morning rush hour. Protesters have called for a day of strikes, following the death of a student protester on Friday who fell from a car park during a demonstration.

The shooting has escalated already high tensions as skirmishes broke out in chaotic scenes throughout Hong Kong on Monday. The police fired tear gas and pepper spray and aimed their firearms at residents and demonstrators in multiple locations as protesters blocked roads, lit fires, and hurled objects at police.

Defending the use of firearms, the government said: “Police has strict guidelines and orders regarding the use of firearms. All police officers are required to justify their enforcement actions.”

In Sai Wan Ho, a woman rushed at the police just after the shooting and was subdued as a crowd of residents shouted at the officers, calling them “murderers,” and threw plastic crates at them. The police fired pepper spray at the angry crowd.

“Hong Kong police gone nuts,” pro-democracy lawmaker Claudia Mo wrote on Twitter alongside a video appearing to show a motorcycle policeman driving straight at protesters. “They seem to truly think they’re above the law. This has been almost like Tiananmen Square in slow motion.”

Others criticised how police handled the injured demonstrators, turning over one who was laying face down


Ray Chan
@ray_slowbeat
The unarmed young man shot in the abdomen is an alumnus of Salesian School on #HongKong Island, the high school I went to. Is this the proper way to handle a casualty who is likely to suffer from internal organ lacerations and crushed veins? #SaiWanHo #HongKongProtests #FreedomHK

Embedded video
1,770
3:40 AM - Nov 11, 2019

At Polytechnic University in Hung Hom, police fired tear gas at protesters who were throwing petrol bombs from a footbridge. At the Chinese University in Shatin, police fired rubber bullets at demonstrators. In Wong Tai Sin, protesters dug up bricks and threw them onto a main road to block traffic.


Earlier, police said protesters had blocked the Cross Harbour Tunnel, linking Kowloon to Hung Hom, and had lit fires in Shatin and Tuen Mun, obstructing traffic. Several mass transit railway (MTR) lines were delayed or suspended as some protesters were seen smashing gates at MTR stations.

At least two universities have cancelled classes for the day. By the early afternoon, protesters had gathered in central Hong Kong, facing off with riot police with their umbrellas.

Monday marks the third time police have shot demonstrators with live rounds. In the two previous cases the police claimed they fired in self defence and the demonstrators, who were both teenagers, recovered.

Hong Kong is facing its most serious political crisis in decades as protests, initially over an extradition bill that would send suspects to mainland China, have taken on new demands, chief among them an independent investigation into alleged police brutality.

Public mistrust of the police has reached a new level, following the death on Friday of a 22-year old demonstrator who succumbed to injuries sustained earlier in the week when he fell one storey in a car park during a protest. In the days after his death, demonstrators vandalised restaurants and stores seen by protesters as pro-government, hurled petrol bombs and bricks a police and a police station.

Experts believe today’s shooting in addition to the death of the protester on Friday has raised the stakes of the protest movement now entering its sixth month.

“With this televised shooting of an unarmed protesters point blank … the militant protesters would believe more firmly they have to fight back by any means necessary, and the public opinion will be further against the police and the government,” said Ho-Fung Hung, a professor in political economy and chair of the department of sociology at Johns Hopkins University.

“With both sides digging in, the conflict is likely to escalate. Large turnout of recent peaceful rally shows that the movement has not yet worn out as the government hopes,” he said. “A war has started.”

Os tiques fascistas estão em todo o lado



Os tiques fascistas estão em todo o lado
Paulo Ferreira
11:29

Os discursos bonitos sobre a diversidade parlamentar são apenas isso mesmo. À primeira ocasião, 190 mil eleitores são silenciados com a “lei da rolha” imposta aos deputados que elegeram.

Se quiserem, PS, Bloco de Esquerda, PCP e Os Verdes têm ainda três dias para reverter uma decisão inacreditável que tomaram na sexta-feira no Parlamento. O silenciamento que os partidos de esquerda decidiram impôr aos três novos partidos parlamentares para o debate quinzenal com o primeiro-ministro, marcado para quarta-feira, é tão incompreensível quanto reveladora.

É incompreensível porque os mesmos partidos tiveram, há quatro anos, a única atitude que se espera de gente sensata eleita pelo povo para a dita casa da democracia. Chegado ao Parlamento um novo partido representado por apenas um deputado, arranjaram forma de abrir uma excepção nas regras em vigor para que André Silva, do PAN, dispusesse também de algum tempo para a suas intervenções nos debates quinzenais e interpelações ao governo – que são os debates regulares mais mediatizados.

Tudo se passou sem sobressaltos, sem polémicas e até sem que o país tenha dado conta da decisão, como acontece quando se tomam atitudes naturalmente sensatas. Ora, o regimento parlamentar que há quatro anos foi ultrapassado – e bem – é agora invocado por esses partidos como o motivo do bloqueio que está a ser feito aos deputados únicos do Livre, Iniciativa Liberal e Chega.

Esta linha tem vários problemas.

O primeiro é que deve ser o regimento parlamentar a servir a democracia e as suas boas práticas, não devem ser estas a sofrer entorses graves para se adaptarem àquele. Se as regras em vigor no Parlamento não estão adaptadas a essa coisa aborrecida que é o voto e a vontade dos eleitores e se a burocracia é mais lenta do que a realidade, são as regras e a burocracia que estão mal e não os resultados eleitorais e o seu reflexo parlamentar.

O segundo, carregado de hipocrisia, é que o apego inflexível às regras parlamentares tem dias e horas. Não se viu este nem outro rigor na aplicação das regras para as moradas falsas de deputados em busca do subsídio, para a marcação de presenças falsas ou para o duplo subsídio dos contribuintes que alguns recebiam pelas viagens para as ilhas.

Quando estes casos foram conhecidos, coisa que aconteceu com frequência nos últimos anos, reinou um silêncio cúmplice nas bancadas ou a tentativa de justificar a violação das regras, incluindo dos partidos que agora querem fingir ser mais rigorosos do que um relógio suíço.

Ah, a preocupação é com a gestão do tempo nos trabalhos parlamentares? Também não parece uma boa justificação para quem constitui comissões por um prazo de 180 dias e 1000 dias depois ainda não tinha aprovado nenhuma proposta de diploma. Falamos da dita Comissão para a Transparência.

Sem coragem para assumir as verdadeiras motivações, esta atitude revela vários tiques, cada um pior do que o outro.

O primeiro é o desprezo pela vontade dos eleitores. Os discursos bonitos sobre a diversidade crescente na representação parlamentar são apenas isso mesmo: discursos e bonitos. À primeira ocasião, cerca de 190 mil eleitores são silenciados através da “lei da rolha” imposta aos deputados que elegeram.

É importante recordar que a legitimidade democrática de Joacine Katar Moreira, João Cotrim de Figueiredo ou André Ventura é rigorosamente igual à legitimidade de cada um dos 139 deputados do PS, BE, PCP ou Verdes. Nem mais nem menos.

Depois, é a confirmação do corporativismo dos já instalados. A concorrência só é boa quando é para os outros. Os que estão comportam-se como “donos disto tudo” e, provavelmente, nem se dão conta disso.

Se estão distraídos, que ouçam, pelo menos, o que Ferro Rodrigues tem para lhes dizer sobre esta atitude: é “um grande erro” na “análise política desta nova situação democrática”.

Não se entende o que se passa naquelas cabeças na tomada da decisão. Inclinar o terreno de jogo para tornar mais difícil a vida aos pequenos adversários? Mas as ideias combatem-se com debate e contraditório, mostrando que são más ou piores do que as nossas. É um disparate querer combatê-las tentando silenciá-las.

No caso do Livre trata-se das habituais divisões à esquerda, a maior parte das vezes mais violentas e radicais do que as que a opõem à direita?

São os ataques ao modelo socialista que a Iniciativa Liberal faz de prato principal nas suas intervenções?

Ou é o incómodo com a chegada ao Parlamento do primeiro deputado da direita radical e xenófoba?

Se o problema é sobretudo com André Ventura a atitude é um erro de palmatória. Primeiro, porque na era das redes sociais a mensagem chega de múltiplas formas aos eleitores e de forma mais eficaz do que através dos debates parlamentares. Depois, porque o pior que se pode dar a populistas é legítimo capital de queixa para alimentar o discurso contra “o sistema”.
Mas pior do que isso é tentar combater ameaças potencialmente fascistas com atitudes que são, elas mesmas, fascistas. Com uma diferença. O Chega ainda é só uma ameaça mas esta decisão é bem real.

Vamos esperar que, depois de reflectirem, os partidos em causa ganhem algum bom senso e recuem nesta decisão. Têm até à manhã de quarta-feira para o fazer, em nome da democracia.

Nota: Por opção própria, o autor não escreve segundo o novo acordo ortográfico.