quarta-feira, 19 de setembro de 2018

Medina garante que câmara não aprovará prédio que tape vistas do Miradouro da Senhora do Monte




Medina garante que câmara não aprovará prédio que tape vistas do Miradouro da Senhora do Monte
Samuel Alemão
Texto
19 Setembro, 2018

O presidente da Câmara Municipal de Lisboa (CML) diz que a autarquia não dará luz verde ao projecto de construção de um prédio de habitação projectado para a Calçada do Monte, se se verificar que prejudica o sistema de vistas do Miradouro de Nossa Senhora do Monte, na Graça. A garantia foi deixada na sessão desta terça-feira (18 de Setembro) da Assembleia Municipal de Lisboa (AML), na qual foram ainda aprovadas duas recomendações, do PSD e do MPT, pedindo a suspensão do licenciamento da obra, sem nenhum voto contra por parte dos eleitos daquele órgão. “Não aprovaremos nenhum projecto para aquele local que não respeite a integralidade de tudo aquilo que amamos naquele espaço. Não o aprovaremos”, reiterou Fernando Medina, perante os aplausos de diversos deputados municipais.

 “O miradouro de Nossa Senhora do Monte tem não só características únicas do ponto de vista das vistas sobre a cidade de Lisboa, como tem, e sobretudo por isso, um espaço de dimensão afectiva na vida de centenas de milhar ou até milhões de pessoas”, reconheceu Medina, evocando a importância daquele sítio icónico da capital portuguesa, não apenas para os lisboetas como para muitos visitantes – “que ficam diferentes após conhecer aquele extraordinário local”. O presidente da câmara – que no início da intervenção agradeceu à presidente da Junta de Freguesia de São Vicente, Natalina Moura (PS), ter-lhe entregue em mãos, uns dias antes, a petição contra aquela obra – garantiu que a Câmara de Lisboa não aprovará nada que colida contra esse “interesse superior, que é o interesse da cidade”. E explicou que a autarquia reavaliará o Pedido de Informação Prévia (PIP) já aprovado do projecto e dialogará com os proprietários do terreno de forma a que “as coisas se passem da forma como devem passar”.



As garantias dadas pelo autarca anteciparam o repúdio generalizado por parte dos eleitos da Assembleia Municipal de Lisboa (AML), materializado através de duas recomendações pedindo a suspensão do licenciamento. Pelo menos, até que sejam dissipadas todas as dúvidas existentes. Isso é o que pedem os textos apresentados tanto pelo Partido Social-Democrata (PSD) como pelo Movimento Partido da Terra (MPT), na sessão desta terça-feira (18 de Setembro) da assembleia e aprovados sem qualquer voto contra.

A recomendação redigida pelo PSD, e que mereceu voto unânime de todos os eleitos da assembleia, faz mesmo referência à recolha de assinaturas, ao pedir à câmara que “não promova nenhum acto em relação ao licenciamento da construção deste prédio no Miradouro de Nossa Senhora de Monte, até à conclusão do debate sobre a petição existente sobre a matéria”. O texto apresentado pelo grupo de deputados laranjas frisa que a referida petição deverá, em breve, ser apresentada e discutida na Assembleia Municipal e salienta ainda o principal aspecto negativo por ela associado à possível construção do prédio: a eventual destruição das vistas. “O Miradouro de Nossa Senhora do Monte em uma das vistas mais bonitas sobre a cidade, podendo observar-se o Castelo de São Jorge, o Convento da Graça, o Martim Moniz, o Rio Tejo e uma vista abrangente da cidade. Ora, este património deve ser preservado”, lê-se na recomendação, que manifesta como seus os receios e dúvidas levantados pelos moradores através da petição.

A recomendação lembra ainda que o polémico projecto se encontra localizado dentro da Zona Especial de Protecção da Capela de Nossa Senhora do Monte, classificada como imóvel de interesse público desde 1933. Algo salientado também pela petição e replicado na outra recomendação aprovada na sessão desta terça-feira da Assembleia Municipal de Lisboa, a do MPT. Através deste documento, que mereceu a abstenção de sete deputados municipais independentes, pede-se à Câmara de Lisboa que não apenas respeite e salvaguarde a referida Zona Especial de Protecção como, sobretudo, “trave o processo de licenciamento do referido prédio, no sentido de evitar danos irreparáveis às vistas do Miradouro da Senhora do Monte”. Nos seus considerandos, a recomendação do MPT salienta que “as vistas do Miradouro da Senhora do Monte são amplas e desafogadas, constituindo historicamente umas das referências religiosas e paisagísticas da cidade de Lisboa”.

O edifício a construir no topo da Calçada do Monte, junto ao número 41, e que motivou o lançamento do abaixo-assinado e agora a aprovação das recomendações da assembleia municipal, teria uma altura total prevista de nove metros e uma altura de fachada de seis metros, correspondentes a dois pisos acima da cota da soleira e a uma área de estacionamento subterrâneo com capacidade para seis automóveis. Valores que resultam de uma cedência por parte do promotores do empreendimento, após as dúvidas levantadas pelos serviços de urbanismo da CML, na sequência da entrega do Pedido de Informação Prévia (PIP) para este projecto, em Novembro de 2016. O plano inicial passava pela construção do prédio com uma fachada de sete metros e desenvolvida a partir de uma cota superior. Ambições que foram, todavia, travadas, obrigando a que cada piso tivesse uma altura de três metros, em vez dos 3,5 metros propostos, o que resultou na redução em um metro no conjunto da fachada, passando esta de sete para seis metros. Foi ainda imposta a edificação a uma cota 2,5 metros abaixo do inicialmente proposto. Alterações que, mesmo assim, poderão não ser suficientes para garantir a sua construção, sabe-se agora.

À Lisbonne, la location touristique chasse les résidents du centre historique



 Imagens de OVOODOCORVO


“Le Jornal de Negócios met en avant un autre calcul : celui du nombre de touristes potentiellement présents dans chaque quartier, en partant du principe que les logements qu’ils ont loués sont pleinement occupés. Ainsi, dans le centre historique (Santa Maria Maior), il y aurait entre 151 et 162 touristes pour 100 habitants”

À Lisbonne, la location touristique chasse les résidents du centre historique
COURRIER INTERNATIONAL - PARIS
Publié le 17/09/2018 - 14:19
  
Le nombre de logements destinés à la location pour les touristes ne cesse de croître dans la capitale portugaise. Au détriment des habitants, contraints de devoir abandonner leur maison.

 “Les touristes occupent 34 % des maisons du centre de Lisbonne”, titre en une le Jornal de Negócios ce lundi 17 septembre. Dans certains quartiers, ces derniers seraient même plus nombreux que les résidents.

Le quotidien économique s’appuie sur les locations de courte durée officiellement enregistrées des maisons lisboètes, recensées par l’Institut national des statistiques en 2011. Et les chiffres de cette évaluation sont sans doute sous-estimés puisqu’elle ne tient pas compte des réservations non déclarées, via Airbnb notamment.

Ainsi, au moins 34 % des maisons situées dans la freguesia de Santa Maria Maior (une division administrative de la ville où se trouvent les quartiers de l’Alfama, de Mouraria, de Castelo, de Baixa ou de Chiado) sont occupées par des touristes. Dans les quartiers du Bairro Alto, de Santa Catarina ou de Cais do Sodré, le taux d’occupation s’élève à 28 %.

“Un sentiment d’injustice”
Le maire de Lisbonne, Fernando Medina (PS), a déjà annoncé son intention de réguler la forte croissance de la location touristique. Miguel Coelho, élu local, résume la situation dans le titre économique :

Les gens ne sont pas hostiles aux touristes, mais ils éprouvent un grand sentiment d’injustice en ce qui concerne le logement. Tous les habitants de l’Alfama ou de la Mouraria ont au moins un proche qui a dû abandonner sa maison.”

Le Jornal de Negócios met en avant un autre calcul : celui du nombre de touristes potentiellement présents dans chaque quartier, en partant du principe que les logements qu’ils ont loués sont pleinement occupés. Ainsi, dans le centre historique (Santa Maria Maior), il y aurait entre 151 et 162 touristes pour 100 habitants

terça-feira, 18 de setembro de 2018

Fernando Nunes da Silva. ‘Os negócios imobiliários vão ganhar milhares de milhões com a expansão do metro’



Fernando Nunes da Silva. ‘Os negócios imobiliários vão ganhar milhares de milhões com a expansão do metro’

Os pobres e a classe média vão ser corridos de Lisboa. Tudo em nome dos negócios idealizados por Manuel Salgado, diz o ex-vereador.

Miguel Silva
17 de setembro 2018

Segunda parte da entrevista ao antigo vereador da Mobilidade da Câmara Municipal de Lisboa. Na semana passada, o professor universitário denunciou o escândalo da Torre de Picoas e disse por que considera Manuel Salgado o verdadeiro presidente da Câmara. Hoje, fala dos grandes negócios imobiliários que estarão na origem da decisão do Metro de optar pela linha circular.

O que acha do mono do Rato?

Chamarem mono acho desagradável, porque não é um mono. É um edifício completamente deslocado para a localização onde está, não estou de acordo, acho que uma vez ainda votei favoravelmente ou abstive-me em relação a esse projeto.  Tinha vindo uma intimação do tribunal e a câmara não tinha outra alternativa que não fosse aprovar o licenciamento. É um problema complicado, pois tenho muita estima pelos dois arquitetos que são autores do projeto. O problema que se coloca é que quando aprovámos aquilo fizemo-lo  com uma diminuição de dois pisos para ficar alinhado com a Rua do Salitre, mas o tribunal  não aceitou. Acho que é um edifício que não faz sentido naquele lugar. A arquitetura é boa, mas está desenquadrado com a envolvente. A escolha do lioz, aquele tipo de relação de aberturas e de fecho é muito bom, tem é o problema de ser um volume excessivo para aquela zona. Não é só pela sinagoga mas também pela relação com a  fonte. A Bárbara Reis, que escreveu um artigo no Público em defesa daquilo, esqueceu-se de dizer duas coisas: não é só que é amiga, mas também que tem uma relação privilegiada com Manuel Salgado e a Risco. Acho desonesto omitir isso. Mas o que é mais grave para mim é que hoje em dia há arquitetos que se consideram os donos e senhores da verdade e que o contexto não interessa. O que importa é a sua obra e o seu objeto. Isto é o mais anti-democrático que se pode imaginar, estamos a regressar à idade feudal.

Em relação ao prolongamento do Metro. Como acha possível que não tenha sido feito nenhum estudo antes se avançar para esta solução?

Não foi feito porque a história tem que ver com a orientação da então secretária de Estado, Ana Paula Vitorino, que, em 2009, antes das autárquicas, apresentou em agosto um plano de expansão da rede para vários concelhos envolventes Lisboa, porque o PS estava fortemente empenhado em conquistar câmaras do PCP na margem norte, depois de ter separado Odivelas de Loures e ter conquistado Odivelas. O que foi proposto foi um prolongamento absolutamente louco do Metropolitano de Lisboa. Ia até ao hospital Amadora-Sintra, Loures, até ao grande centro comercial, Sacavém, Algés e havia ainda uma linha circular que era uma distorção de um trabalho que tinha sido feito no tempo do Santana Lopes, onde se propunha uma linha automática com veículos muito mais pequenos para servir as colinas. Eu defendia uma alternativa a esta linha das colinas, que foi a que acabou por ser assumida pela comissão da Baixa-Chiado, presidida por Maria José Nogueira Pinto, e que acabou por ser a que lá está: um conjunto de elevadores, de ruas de peões, de escadas rolantes, que permite ir desde o elevador da Bica para o Chão do Loureiro e Santa Apolónia, através das Portas do Sol, sem grande esforço para quem anda a pé. Mas Ana Paula Vitorino resolveu transformar essa linha circular sem qualquer estudo de procura ou de avaliação de alternativas que o justificasse.

Então esse projeto foi agora recuperado?

Sim, isto é, ressuscitado numa situação aberrante. O Governo informa a CML que tem uns 200 milhões para gastar e a CML, através do vereador Salgado, diz que a proposta é juntar a linha amarela e a verde, no Campo Grande e no Cais do Sodré, criando assim uma linha circular. O estudo de procura falseia a realidade, ao comparar uma linha que faz ligação ao eixo de Cascais, que é o mais carregado de transportes coletivos em toda a área metropolitana de Lisboa, com uma linha que termina num bairro, o prolongamento da linha vermelha de S. Sebastião a Campo de Ourique. Depois temos ainda o Estudo de Impacto Ambiental. Quem o fez não percebe nada de transportes e diz verdadeiras barbaridades, como, por exemplo, que a linha circular vai permitir aumentar a frequência dos comboios de quatro minutos e tal para três minutos, quando isso é possível em qualquer linha. Por outro lado, omitem-se coisas graves: a estação da Estrela, por exemplo, vai ficar a 54 metros de profundidade. Será uma das mais profundas da Europa, é dificílimo de explorar e a sua captação de procura será fortemente prejudicada por isso.

Há quem diga que as pessoas vão sentir claustrofobia.

Claro, vai sentir-se a pressão de ar e tudo.

Qual é a profundidade do Chiado?

É muito menor. A estação mais profunda do metro é a do Parque e não chega aos 40 metros, e não é por acaso que tem uma pequena procura, apesar de se situar numa avenida fortemente terciarizada. Mas o mais grave ainda é como a obra se vai fazer na avenida 24 de julho. Terá de se desviar o caminho-de-ferro para o lado do rio, perturbando o acesso ao terminal fluvial. Por sua vez, o metro tem de ser construído uma parte por baixo do caminho-de-ferro para permitir a ligação entre a linha existente e a nova a construir. E tudo isto é construído a céu aberto, cortando praticamente toda a avenida 24 de julho de acessos. Por outro lado, os terrenos são de aterro, têm níveis freáticos com um metro e meio de profundidade, o que não deixará de implicar imensos problemas de construção, tal como aconteceu no Terreiro do Paço, e na ligação a Santa Apolónia.

A solução inicial era Rato, Estrela e Alcântara, não era?

Sim.

Mas há uma parte do túnel que já está feita para a Estrela e que vai ser abandonada.

Sim. Quando se estudou desconectar as duas linhas na Rotunda (a de Sete Rios e a de Entrecampos), havia duas soluções: ou se continuava para as Amoreiras e depois para Campo de Ourique ou para a Estrela e Alcântara. Na altura, eu estava na Câmara presidida por Jorge Sampaio quando isto foi anunciado no Governo Cavaco. Há um célebre debate na televisão sobre a desconexão da Rotunda, em que está o Machado Rodrigues (vereador dos transportes e das infraestruturas na CML) de um lado e o Consiglieri Pedroso (presidente do Metro) do outro. Na CML defendíamos que o eixo central deveria manter-se contínuo, ou seja, a Baixa devia estar ligada ao Marquês de Pombal, ao Saldanha e a Entrecampos, através da mesma linha. O Metro, com base num estudo de procura, coordenado pelo professor José Manuel Viegas, e em que participei, concluiu que era indiferente ter essa linha ou ter um cruzamento. Optou então pela solução de cruzamento, que é o que existe, porque considerava que tinha de distribuir a enorme procura da Linha de Cascais pelo Cais do Sodré e por Alcântara, quando se ligasse o metropolitano à linha de Cascais. E aqui falhou-se porque não se fez a ligação prevista do metro a Alcântara. Por isso, no Cais do Sodré existe hoje um problema de capacidade porque aí confluem os barcos que transportam muita gente e a linha de Cascais. A ideia foi: quem quisesse ir para o eixo da Almirante Reis apanhava o metro no Cais no Sodré e quem quisesse ir para as Avenidas Novas saia em a Alcântara e daí seguia para o Rato, Marquês de Pombal, Saldanha, Entrecampos, etc.. Em termos de estratégia de desenvolvimento do metro interessava mais fazer estas duas ligações à linha de Cascais. Pelo contrário, em termos do que estava a acontecer no mercado imobiliário de Lisboa, interessava mais a continuidade da linha do metro no eixo central, porque havia uma pressão enorme, sobretudo de capital espanhol, para aí instalar escritórios. A Avenida da Liberdade estava a atingir o seu limite e a Fontes Pereira de Melo poderia  ganhar novo fôlego. Na altura, para lidar com esta pressão imobiliária nas avenidas principais da cidade, a Câmara, liderada por Jorge Sampaio, definiu a política dos terços: para se construir uma dada área de escritórios, tinha de se construir o equivalente em habitação e outro tanto em comércio, e é isto que permite fazer a renovação das Avenidas Novas. E, portanto, desde essa altura que se anda a discutir o metro. E só há duas hipóteses: ou faz-se a estação de Campolide e daí segue-se para as Amoreiras e Campo de Ourique, ou então prolonga-se a linha do Rato para a Estrela e daí para Alcântara. É neste contexto que se desenvolvem novos estudos, em articulação com o plano de urbanização do Vale de Alcântara, que conduzem à proposta de dois prolongamentos do metropolitano para servir a zona ocidental. Por um lado, a linha amarela seria prolongada do Rato para Alcântara-Mar e a linha vermelha, que atravessa as outras todas, seguia para Campolide, Amoreiras, Campo de Ourique e Alcântara-Terra. Se for ver a linha de caminho-de-ferro que atravessa a  ponte, tem um apeadeiro no Alvito, que poderia ser transformada numa estação, onde já existe um túnel, onde passaria o metro. A linha vermelha, cujo túnel está feito até ao Palácio da Justiça, podia ter já ali uma estação. É por isso que a linha do Rato está agora apontada para a Estrela, ficando praticamente debaixo da estátua, Pedro Álvares Cabral, troço este que não vai ser aproveitado. Está tudo doido. É inconcebível. Qual a razão disto? Os negócios imobiliários.

Mas onde é que eles estão?

Eu digo-lhe. O primeiro é no Sporting, onde existe um problema complicado para resolver que ainda vem do tempo em que se construiu a estação de Campo Grande e o terminal rodoviário. Foi preciso comprar terreno ao Sporting, na área do antigo campo de treinos, e ficou acordado que o pagamento se faria através da aprovação da construção de edifícios na zona. Só que, quando o plano de loteamento do Sporting foi desenvolvido, chegou-se à conclusão de que não era possível construir toda aquela área, enquanto o aeroporto ali estiver - existe uma restrição em termos de alturas e, portanto, não havia solo suficiente para construir tudo o que estava previsto. Por isso, a CML teve de pagar uma indemnização ao Sporting. A alternativa agora é deslocalizar o terminal rodoviário e duplicar a área de construção que lá existe. Hoje há a torre da NOS, e está prevista uma outra idêntica por trás da estação do metro. O que está previsto é a  construção de duas novas torres no lugar do terminar rodoviário. O segundo negócio, é na zona da Cidade Universitária, que neste momento tem um estudo a decorrer sob orientação de Manuel Salgado, onde se prevê, além da ampliação das instalações universitárias, uma série de propostas ao nível da habitação, hotéis, comércio e serviços, etc..

Mas que área cobre?

Vai desde a reitoria da Cidade Universitária, passando pela Avenida das Forças Armadas e terminando na Biblioteca Nacional.

E o que é preciso fazer para avançar com essa obra?

Há ainda problemas por resolver, como seja as deslocalizações do Horto do Campo Grande e do Jóquei Clube. É essa brincadeira toda. O terceiro projeto é o de Entrecampos. Agora percebe-se por que se passa de um projeto onde inicialmente estava previsto haver 40% de habitação para um projeto onde só existe menos 10% de habitação, que será de luxo. Aí viabiliza-se ainda mais um negócio imobiliário, que abrange um terreno junto à linha de cintura, que terá mais uma zona de escritórios entre a rotunda nas traseiras do hospital Curry Cabral, que liga a passagem por baixo do caminho-de-ferro à Avenida Álvaro Pais. Há uma grande ideia, que já está a ser trabalhada há muito…

Que é?

Retirar o hospital Curry Cabral e a Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova. Há uma parte da universidade que já foi para Carcavelos, e outra que irá para o Campus de Campolide. Como as instalações afetas ao Exército, que estavam na Avenida de Berna, já passaram para as da Universidade Nova de Lisboa, o terreno que vai desde o parque de estacionamento que dá para a 5 de outubro, junto ao hotel Zurique, até à rua da Beneficência, quase em frente à Gulbenkian, tudo aquilo é carninha do lombo para ser promovido.

Onde é que o prolongamento do metro coincide com os interesses imobiliários?

É terem lá uma estação de metro e uma de comboio, o que lhes confere uma enorme acessibilidade à área central de serviços mais importante da cidade, a qual será potenciada com a linha circular. Depois passamos à zona do Saldanha.

O que tem o Saldanha?

Tem a nova torre de Picoas, mas havia ainda uma outra hipótese, antes do grupo Espírito Santo estourar, que era toda a zona da PT ser reformulada e duplicar a área de construção daquele local. O Saldanha propriamente dito não tem mais para mexer. Mas na estação seguinte, Picoas, além deste projeto, para os terrenos da PT e do mercado 31 de janeiro, havia ainda a proposta de encerramento da Maternidade Alfredo da Costa o que permitiria a reconversão de todo o quarteirão que esta ocupa. Portanto, uma carga brutal para aquela zona. No Rato há várias hipóteses ali à volta, que envolvem muito dinheiro, não implicando grandes construções. Trata-se de todo o interior do quarteirão pombalino e do mercado do Rato. É o grande projeto que vai desde a Rua de São Bento à Rua da Escola Politécnica e ao Rato, que tem lá agora um parque de estacionamento provisório. É uma área enorme destinada a habitação de luxo, de condomínios. Mas o grande negócio é o Hospital Militar da Estrela. Por que é que a estação da Estrela está a 50 metros de profundidade? É que a estação não é na Estrela, é no hospital.

É por baixo do hospital?

É. Que é um terreno maluco.

Outro terreno bastante apetecível?

Claro, carninha do lombo. Depois temos a estação seguinte: Santos. Santos não é Santos, é o quartel do Regimento de Sapadores de Bombeiros, na avenida D. Carlos I. Mais uma vez a estação é dentro do terreno a construir. Os bombeiros vão sair dali e já há vários estudos que foram feitos sob a orientação do Salgado para aquilo ser uma área enorme de construção. Por último, temos a avenida 24 de julho, que abrange todo o aterro da Boavista, com uma área de construção muito superior àquela dos edifícios sede da EDP. Está o negócio feito. Mas isto ainda não acabou porque só chegámos ao Cais do Sodré, agora falta a Almirante Reis. A Almirante Reis tem os terrenos da antiga fábrica de cerveja Portugália, que é uma área brutal, os terrenos do Banco de Portugal, visto que estas instalações são para sair dali, devem mudar-se para outro lado, muito provavelmente ocupando a parte do edifício da sede da Caixa Geral de Depósitos que está desocupada ou subaproveitada. Por outro lado, há ainda a renovação que está agora a começar a aparecer na Almirante Reis, mas isso são trocos. Não são grandes investimentos concentrados, mas apesar de tudo ainda é relativamente interessante. Na zona do Areeiro, há ainda muito terreno para valorizar.

Mas o Areeiro já tem a estação.

Já, só que qual é a diferença? É que com a construção da linha circular, podemos dizer que todas estas zonas estão ligadas ao eixo central de Lisboa, e daí passarem a ser mais apetecíveis para os grandes negócios imobiliários, é só isto. Para dizer que se pode ir desde o Ministério das Finanças até ao Campo Grande sem mudar de comboio. É uma questão de imagem, não tem a ver nada com transportes, não tem a ver com procura, não tem a ver com a operacionalidade do metropolitano que, pelo contrário, passará a ter um sistema operativo muito mais complicado. Já viram que as pessoas de Odivelas, que hoje vêm direto ao centro, terão de fazer mais um transbordo e passarem a ter, no mínimo, dois transbordos para chegarem ao centro da cidade de Lisboa.

Como assim?

Para chegarem à estação do metro de Odivelas têm de apanhar um autocarro. Depois, chegam ao Campo Grande e mudam outra vez, para ir para a Baixa ou para o eixo central (Avenida da República, Fontes Pereira de Melo e Liberdade). Por outro lado, esta solução, da linha circular, inviabiliza a ligação a Alcântara-Mar. Há ainda uma outra questão complicada, que tem a ver com os antigos terrenos da Lisnave, em Almada, que é um projeto enorme do Estado. A única hipótese de o viabilizar, tal como está previsto, é servir esta zona com o metropolitano. O volume de construção previsto para aquele lugar não tem possibilidade de acesso sem ser através do rio Tejo. O transporte fluvial não será suficiente. Isto é: a opção por uma linha circular tem várias repercussões, não só do ponto de vista da rede do metropolitano, visto que mata várias soluções possíveis mais interessantes para assegurar uma melhor cobertura da cidade e servir melhor e mais população, como ,por outro lado, do ponto de vista da desconcentração do imobiliário, acaba por orientar este mercado na área central da cidade. Desde o tempo de Sampaio que se propunha que Alcântara viesse a ser uma polaridade como é a bem-sucedida zona do Parque das Nações. Na altura, a grande estratégia era renovar estas zonas industriais do século XIX e XX: Alcântara, Xabregas, Matinha, Braço de Prata, até ao que é atualmente o Parque das Nações.

E assim vamos ter o metro mais caro do mundo. 180 milhões de euros por um quilómetro e pouco.

Exatamente. O que se gasta num quilómetro de metropolitano, em situação normal, são 50 milhões de euros. Está-se a gastar praticamente 100 milhões de euros, o dobro. E vamos a ver as consequências disto, porque as pessoas com quem falei, que estiveram ligadas às obras do metro nesta zona, falaram no problema do Cais do Sodré, mas em Santa Apolónia aconteceu o mesmo problema com o nível freático e a impermeabilização do túnel do metro.

Por que é que a linha circular inviabiliza o metro para Almada?

Já não se consegue fazer esse prolongamento a partir do Cais do Sodré.

Porquê?

Porque o circuito ficou fechado. É a mesma coisa que vai acontecer em Odivelas. Para assegurar a continuidade da linha circular no Campo Grande vai ter de ser construído um terceiro viaduto para desconectar Odivelas da linha circular. No Cais do Sodré isso não será possível.

Quem vai ter que aprovar este projeto ou dar um parecer é a Agência Portuguesa do Ambiente, que por sua vez é tutelada pelo mesmo ministro que tem a tutela do metro. O que acha disto?

Acho que é o que se chama promiscuidade.

É um pouco esquisito não é?

É evidente. O estudo de impacto ambiental já é uma situação muito enviesada, porque em vez de ter uma entidade independente a elaborar o estudo é o interessado na obra que elabora o estudo. Ainda podia admitir, com muito boa vontade, e partindo do princípio que é tudo gente séria e a favor do interesse público, que o estudo de impacto ambiental pudesse ser pago pela entidade interessada, mas isso, no mínimo, exigiria que esse estudo fosse a seguir analisado por um provedor ou qualquer outra entidade independente, que fizesse o seu parecer que seria definitivo. Isto não é feito. O presidente da APA foi nomeado pelo governo de Passos Coelho - que como todos  sabemos é a bête noire da atual maioria política. Como se explica que toda a direção da APA, nomeada pelo anterior governo, tenha sido demitida exceto o seu presidente? Acredito que, conhecendo o presidente da APA, este se irá empenhar para que haja um parecer isento. Todavia, face aos interesses políticos e económicos envolvidos, não tenho muitas dúvidas que a pressão será enorme, até pelos milhões que estão implicados. Estamos a falar em centenas de milhões de euros na área do imobiliário nesta zona. Isso não vai pela borda fora sem mais nem menos. Só em Entrecampos estamos a falar de um investimento na ordem dos 800 milhões de euros. Arrisco-me a dizer que, no conjunto dos projetos imobiliários que irão beneficiar da linha circular, estamos a falar de milhares de milhões de euros de investimento imobiliário. Não acredito que numa situação destas haja a força necessária, seja ela judicial ou política, para se opor à concretização destes projetos.

Mas todos esses projetos não são, seguramente, para a classe média ou para os pobres.

Esta linha circular é assim o coroar da estratégia do Manuel Salgado para Lisboa: um núcleo central com forte concentração de terciário e habitação de luxo (Eixo Central e Avenidas Novas), a que se juntam a Baixa, as colinas históricas e a frente ribeirinha, para usufruto dos turistas e residência de estrangeiros endinheirados. A chamada “cidade do caroço”, como bem a definiu Nuno Portas nos anos 1970 num programa televisivo que fez furor na época. Fora desta cidade para os ricos e os turistas, ficam os bairros municipais, a classe média (com cada vez mais dificuldade em acompanhar os preços do imobiliário) e os “enclaves” da população trabalhadora de menores recursos que ainda resiste à expulsão para as periferias. Estamos assim perante uma cidade cada vez mais dual, onde a linha circular do metropolitano só vem favorecer, acelerando, o processo de gentrificação e turisficação de Lisboa. Ao mesmo tempo deixa para as calendas gregas o serviço a bairros populares que continuam mal servidos de transportes coletivos. O mais curioso disto tudo, é que esta estratégia, que nunca foi claramente explicitada ou sequer sufragada, está a ser paulatinamente implementada por uma só pessoa (ainda que com o apoio dos grandes interesses imobiliários e financeiros) numa câmara municipal onde a maioria que a governa se reclama da esquerda! É obra!

PSD aperta cerco a Salgado e pede investigação aos serviços de urbanismo da Câmara de Lisboa





PSD aperta cerco a Salgado e pede investigação aos serviços de urbanismo da Câmara de Lisboa
Samuel Alemão
Texto
18 Setembro, 2018

As dúvidas e as suspeições vindas a público, nos últimos dias, são tantas que mais vale investigar. Seguindo este princípio, o PSD quer ver esclarecidos as decisões e os actos de gestão corrente dos serviços de urbanismo da Câmara Municipal de Lisboa CML) nos últimos anos. Ou seja, desde que os mesmos são tutelados pelo vereador Manuel Salgado, a partir de 2007. Por isso, vai solicitar, na próxima semana, Assembleia Municipal de Lisboa (AML), que seja aprovada uma recomendação para que a câmara delibere abrir uma sindicância aos serviços tutelados por Salgado. Para saber se têm agido da forma como devem, “cumprindo o que está na lei”, ou “numa dimensão aleatória”. Também o vereador comunista João Ferreira pede um esclarecimento cabal para se acabar com o “clima de suspeição”. Mas acusa os social-democratas de “cumplicidade nas negociatas”, ao ter votado a favor da alteração do Plano Director Municipal (PDM), em 2012.

Para os deputados municipais social-democratas, as interrogações levantadas pelo ex-vereador Fernando Nunes da Silva, em entrevista ao semanário Sol, a 8 de Setembro, sobre a idoneidade do vereador Manuel Salgado e dos serviços por si chefiados, e com especial relevo para a forma como decorreu o processo de aprovação do licenciamento da chamada Torre de Picoas, “podem ser consideradas como ilícitos”. Perante tais afirmações de Nunes da Silva, que já no passado colocou em causa a seriedade dos procedimentos urbanísticos da autarquia, e as dúvidas sobre a transparência administrativa que desde sempre acompanharam o processo de aprovação deste projecto, pede-se agora um “esclarecimento cabal”.

A discussão da recomendação do PSD para que a Câmara de Lisboa proceda à abertura de uma investigação aos seus serviços de Urbanismo estava agendada para o período antes da ordem do dia da sessão desta terça-feira (18 de Setembro) da Assembleia Municipal, mas questões formais obrigaram a que a mesma fosse retirada da ordem de trabalhos. Será, por isso, apresentada na sessão da próxima semana, mas já como uma proposta de debate inserida dentro da ordem do dia, foi decidido pelos responsáveis laranjas, após a reunião da conferência de representantes dos diversos grupos partidários com assento naquele órgão autárquico, ocorrida na tarde desta segunda-feira (17 de Setembro). Tal mudança permitirá que haja mais tempo para discutir o assunto.

Isso mesmo explicou a O Corvo o líder da bancada dos representantes social-democratas, Luís Newton, dando conta da vontade de “ver este assunto cabalmente esclarecido, de uma vez por todas”. “Todos lemos a mesma entrevista que foi dada pelo ex-vereador, na qual é feito um conjunto de acusações que podemos considerar perturbantes. Estas questões têm, de forma clara, de ser esclarecidas pela CML e as dúvidas afastadas, para que a suspeição não se mantenha”, considera o também presidente da Junta de Freguesia da Estrela. “Assistimos a questões recorrentes sobre este caso, por isso as mesmas precisam de ser investigadas, para terminarmos com as dúvidas”, diz.

 Na referida entrevista ao Sol, e agora utilizada como justificação para lançar a sindicância, Nunes da Silva voltava a colocar em dúvida a forma como se procedeu ao licenciamento da construção da chamada Torre de Picoas, alegando que o processo estaria de tal modo inquinado por falta de transparência que constituiria “um caso de polícia”. Isto porque, alegava o ex-vereador, os serviços dirigidos por Salgado terão sempre recusado ao anterior proprietário do terreno, Armando Martins, avançar com uma construção de cerca de 20 mil metros quadrados, devido aos limites de edificabilidade então impostos pelo Plano Director Municipal (PDM) – na altura, fora transmitido ao empresário que não poderia ultrapassar os 12 mil metros quadrados, se pretendesse edificar um conjunto de escritórios e os 14 mil metros quadrados, se fosse seu objectivo construir habitação.

Uma limitação que desapareceu quando, mais tarde, e sob as novas regras do PDM, revisto em 2012, se admitiu o dobro da área construtiva aos novos donos do terreno, o grupo BES – cujo líder, Ricardo Salgado, está ligado por parentesco a Manuel Salgado, seu primo. Sem margem de manobra para avançar e afligido por graves problemas financeiros, Armando Martins havia entretanto vendido o terreno ao Espírito Santo por apenas um euro. Alterado o PDM, a Torre de Picoas, com uma área construtiva de 24 mil metros quadrados e com 17 andares, acabaria por receber luz verde dos serviços de urbanismo. Segundo Nunes da Silva, no momento em que disse a Armando Martins que os limites de construção eram os 12 mil metros quadrados, Manuel Salgado já sabia que esse tecto iria ser alterado. Mas não o fez, prejudicando o empresário.

É neste quadro que o grupo municipal do PSD na assembleia municipal decide pedir a sindicância. No documento que sustenta a recomendação da investigação, os deputados laranja alegam que na entrevista “são referenciadas, para além de dúvidas de carácter e insinuações políticas, acusações que podem ser consideradas como ilícitos por parte de um senhor vereador da CML e dos serviços por este tutelados”. Frisando que “nestas acusações são reportados casos que urge clarificar e relativamente aos quais ainda não prescreveram a adopção de decisões revogatórias por parte da CML”, os representantes social-democratas consideram que “não podem subsistir dúvidas sobre a idoneidade e carácter dos dirigentes e serviços” camarários e lamentam que nenhum responsável do município, incluindo Fernando Medina, tenha prestado esclarecimentos sobre as acusações.

 Questionado sobre se tal proposta não acabará por funcionar como um anátema sobre os serviços de urbanismo da CML, Luís Newton (PSD) não esconde os propósitos da iniciativa: “Os serviços têm aqui a oportunidade de matar tal anátema. Não podem, sistematicamente, ser rodeados por dúvidas. Isto tem de acabar. Ou as normas e os procedimentos por eles adoptados cumprem o que está na lei ou existe aqui uma dimensão aleatória. Da sindicância só podem resultar duas situações: ou há um incumprimento à luz da lei ou ficamos a saber que os procedimentos do urbanismo da CML são alicerçados num modelo de 1980 e precisam de ser rapidamente revistos”. Luís Newton considera, por isso, legítimo que se proceda a uma mais vasta averiguação, se se detectar que algo não foi feito dentro da forma canónica no caso da Torre de Picoas.

 Também o PCP acha que se deve apurar com rigor a forma como o pelouro do Urbanismo da autarquia da capital tem actuado. “É notório que tem existido um conjunto de processos relacionados com o urbanismo que têm sido bastante discutidos no espaço público. Mas há que distinguir bem as duas dimensões que estão aqui em causa. Antes de mais, temos o campo político, relacionado com as opções nesta matéria da Câmara de Lisboa, e das quais o PSD não sai ilibado, muito pelo contrário. Há uma clara responsabilidade da maioria PS e PSD na alteração do PDM em 2012, que abriu caminho para outra forma de ver a cidade, através da qual se promove o promotor imobiliário como personagem principal”, diz o vereador João Ferreira em declarações a O Corvo. “O acordo do PS com o PSD para a alteração do PDM em 2012 constituiu um momento-chave de modificação da cidade para pior, havendo aí uma cumplicidade entre os dois partidos para facilitar as negociatas imobiliárias”, acusa.
Mas se a actuação do pelouro do Urbanismo chefiado por Manuel Salgado merece um apreciação política “claramente negativa” do PCP, João Ferreira  reconhece que “têm vindo a lume questões que põem em causa a actuação do pelouro”, as quais, eventualmente, terão de ser averiguadas pelo Ministério Público. “Existe uma situação de suspeição. Era importante que se esclarecesse o que há a esclarecer, mesmo do ponto de vista criminal”, diz o vereador, sem deixar de voltar apontar o dedo ao PSD. “Isto não pode servir para branquear responsabilidades”, diz. Já o líder da bancada comunista na AML, Modesto Navarro, lembra a O Corvo que as dúvidas agora suscitadas pela Torre de Picoas “foram, desde logo, tão públicas e tão claras”, não constituindo novidade, uma vez que o seu partido as denunciou a seu tempo. “Naquela altura, ante as dúvidas, o vereador optou sempre pela arrogância e insuficiência de explicações”, diz Navarro, apontando também o dedo às alterações trazidas pelo PDM de 2012, em especial a criação da chamadas Unidades de Execução (UE), à luz das quais alguns dos projectos mais importantes terão um escrutínio menos eficaz, acusa.

 Também o líder da bancada socialista, José Leitão, concorda que o que agora se discute está longe de ser novo – embora o faça sob uma perspectiva bem diferente. “Esta discussão trazida pelas declarações do ex-vereador Nunes da Silva não trouxe nada de novo a que se disse anteriormente. Isto foi, a seu tempo, debatido na Assembleia Municipal, bem como alvo de uma investigação do Ministério Público. E nada se apurou”, afirma, acusando a iniciativa do PSD de pedir uma sindicância de estar “formalmente errada”. “Tal iniciativa pode ser desencadeada por qualquer indivíduo ou instituição, não carece de qualquer decisão da câmara”, afirma o responsável máximo pelos eleitos do PS, os quais garante estarem “sempre disponíveis para discutir o que houver a discutir”.

 O Corvo questionou, além do PCP, os vereadores do CDS-PP, do PSD e do Bloco de Esquerda sobre este assunto, mas nenhum se quis pronunciar, de momento.

"Robles não esteve à altura"


(…)“Vejam a entrevista que Mariana Mortágua deu ao Expresso. Ela não poderia ter sido mais violenta para com Ricardo Robles. “Este caso mostrou que o BE tem enormes padrões de exigência. E os seus representantes têm a grande responsabilidade de estar à altura dessas exigências que são legais e éticas, mas também de coerência. O Ricardo Robles não esteve à altura dessas exigências.” O problema é que não foi só Ricardo Robles. Na altura em que o Bloco ainda estava a proteger o seu vereador, Mariana Mortágua foi à SIC Notícias defendê-lo muito para lá do que seria aceitável, num debate com Adolfo Mesquita Nunes. E Francisco Louçã afirmou no mesmo canal que Robles tinha tido “a sorte da sua vida” por o PSD estar a exigir a demissão, classificando o caso como “uma forma de entretenimento de fim de Julho”. Na sexta-feira em que foram prestadas estas declarações, dia 27 de Julho, o Bloco perdeu para sempre a mais-valia da sua integridade ética.”
João Miguel Tavares
18 de Setembro de 2018, 7:25


Taxa Robles: o que há num nome?



Taxa Robles: o que há num nome?

O CDS fez uma coisa muito simples, mas brutalmente eficaz: baptizou a proposta com o nome da pessoa que a proposta queria fazer esquecer.

João Miguel Tavares
18 de Setembro de 2018, 7:25

Talvez pelas suas origens cristãs, o CDS é bom a baptizar coisas. Já lhe devemos a palavra “geringonça” (quem a usou pela primeira vez em contexto político foi Vasco Pulido Valente, mas para retratar a guerra entre Costa e Seguro pela liderança do PS – quem a popularizou no Parlamento para designar a actual solução de governo foi Paulo Portas), e agora acertaram mais um tiro no porta-aviões com o viperino baptismo da “Taxa Robles”. O senhor Shakespeare perguntava “what’s in a name?” num dos diálogos mais românticos de Romeu e Julieta, já que “uma rosa com outro nome cheiraria igualmente bem”. Mas como Romeu Montecchio aprendeu à custa da própria vida, um nome conta mesmo muito, e não há como desembaraçarmo-nos dele. Por causa disso, Romeu morreu, a taxa Robles também, e o Bloco de Esquerda já viu melhores dias. 

Para quem aprecia política, é educativo ver como duas simples palavras escolhidas com precisão podem arrasar um projecto e fazer implodir toda uma estratégia. O CDS fez uma coisa muito simples, mas brutalmente eficaz: baptizou a proposta com o nome da pessoa que a proposta queria fazer esquecer. O nome pegou de imediato, não só à direita mas também à esquerda, e assim os outros partidos voltaram a ridicularizar o pobre Bloco, que não acerta uma, mesmo quando munido da pia intenção de tentar penitenciar-se pelos erros cometidos. Não é possível saber o quanto este caso vai penalizar eleitoralmente o partido de Catarina Martins, mas a facilidade com que a sua antiga superioridade moral é agora desmontada não augura nada de bom.

Vejam a entrevista que Mariana Mortágua deu ao Expresso. Ela não poderia ter sido mais violenta para com Ricardo Robles. “Este caso mostrou que o BE tem enormes padrões de exigência. E os seus representantes têm a grande responsabilidade de estar à altura dessas exigências que são legais e éticas, mas também de coerência. O Ricardo Robles não esteve à altura dessas exigências.” O problema é que não foi só Ricardo Robles. Na altura em que o Bloco ainda estava a proteger o seu vereador, Mariana Mortágua foi à SIC Notícias defendê-lo muito para lá do que seria aceitável, num debate com Adolfo Mesquita Nunes. E Francisco Louçã afirmou no mesmo canal que Robles tinha tido “a sorte da sua vida” por o PSD estar a exigir a demissão, classificando o caso como “uma forma de entretenimento de fim de Julho”. Na sexta-feira em que foram prestadas estas declarações, dia 27 de Julho, o Bloco perdeu para sempre a mais-valia da sua integridade ética.

As palavras têm grande importância no mundo da política, como é óbvio, mas elas são particularmente fundamentais em partidos estruturados em cima da retórica. Ao contrário de todos os outros partidos parlamentares (com a ilustre excepção do PAN), o Bloco não tem uma história de acção política, no sentido de meter as mãos na massa para tomar decisões executivas sobre a vida das pessoas. O PCP teve o PREC e tem as câmaras da Margem Sul. O PS, o PSD e o CDS já foram várias vezes partidos de governo. O Bloco nunca teve nada disso, excepto uma câmara (Salvaterra de Magos) que não correu especialmente bem. Desde sempre, a única coisa que o Bloco tem para mostrar é a destreza da sua língua. O caso Robles, e agora a taxa Robles, doem muito mais por causa disso. Como a acção do partido se resume ao discurso, quando a acção contradiz o discurso sobra muito pouco. Daí esta dificuldade imensa em reencontrar o caminho, após o mais quente dos seus Verões. 

segunda-feira, 17 de setembro de 2018

‘Overtourism’ Is Driving Europeans Crazy


‘Overtourism’ Is Driving Europeans Crazy

Is anti-tourist sentiment code for classism, racism, and xenophobia, or a legitimate concern over a city's capacity to accommodate visitors?

By Jessica Loudis SEPTEMBER 12, 2018

Lisbon tourists
Tourists make their way through one of Lisbon's narrow medieval streets, 2016. (AP Photo / Armando Franca)

Among the papers found in Portuguese writer Fernando Pessoa’s possession after his death in 1935 was an English-language book he finished but never bothered to publish. Lisbon: What the Tourist Should See was written as part of an imagined public-relations campaign for his beloved city, which Pessoa felt was neglected in favor of places like London and Paris. The book, finally released in 1992, highlights the greatest hits of the Portuguese capital: the 16th-century monastery that is now a UNESCO World Heritage Site, the nearby town famous for its eclectic castles and mansions, and the winding fisherman’s quarter where locals go to hear fado singers perform.

These sites still exist, though in a universe distinct from Pessoa’s. In a sense, he got his wish: Lisbon has become one of the most popular tourist destinations in Europe, and is, as a result, in on the cusp of a massive physical transformation. Restaurants, luxury hotels, and “concept” boutiques are springing up all over the city. Cranes mar the views from hillside miradouros and rooftop bars. During peak season, tuk-tuks and double-decker sightseeing buses prowl the city for customers. Cruise ships loom in the harbor. English is the lingua franca.

This is in large part to accommodate the record 12.7 million people who visited the city last year, and the even larger numbers of those projected to come. If trends persist, locals worry that the city will turn into Paris—only without Eurodisney in the suburbs.

In recent years, “overtourism” has become a travel-industry buzzword, a phenomenon created by the perfect storm of budget airlines, short-term rental websites, and social media. (“You know, the Instagram island,” an Australian backpacker said to me recently when describing the Greek island of Santorini.) The problem is especially acute in Europe, which opened the floodgates to short-term travel in 1997 by liberalizing its transportation market. Suddenly, dozens of new, low-cost regional airlines began advertising pocket change prices, and average trip length plummeted. Formerly sleepy cities became crash pads for weekenders, cobblestone streets echoed with the sounds of clicking heels and rolling suitcases, and urban infrastructures strained under the pressure.

While Lisbon is not as fully saturated as, say, Barcelona, the threat is on the horizon. It’s no longer a novelty to see bachelorette parties in identical raunchy T-shirts careening down the avenues, or four-euro mojitos hawked on sidewalks. The foreigners are coming; the question is whether the Portuguese capital can effectively manage them.

There are no precise standards for gauging overtourism. One thinks of Justice Potter Stewart’s famous definition of pornography—you know it when you see it. And you see it when Europeans and Americans flood downtown areas, and intoxicated visitors relieve themselves in public. Tourists in Europe are hard to avoid. Their presence wouldn’t be so vexing if they weren’t also good for local economies: Nearly 17 percent of Portugal’s GDP came from tourism in 2017, and that number is expected to rise by more than 5 percent this year. In Spain, tourism made up 15 percent of the GDP, expected to increase 3 percent; and in Greece, these figures are 20 and 5 percent, respectively. Still, local government regulation has not caught up to the market, and in hot spots like Barcelona, some officials claim that it costs the city more to manage visitors than it earns from their trips.

Barcelona has emerged as a case study in handling overtourism, which it has dealt with since hosting the Olympics in 1992. The city gets 32 million visitors every year to its 1.6 million residents. The number of beds available to book has quadrupled since 1990, and rents have followed suit, with real-estate prices in Barcelona now 50 percent higher than in the rest of the country. Lucila Mallart, a historian who lived in the middle-class Barcelona neighborhood of Eixample before moving to Girona, a smaller Catalan city about an hour away, says, “There is a general feeling of ‘normal’ people fleeing the city. Most of our friends who still live there are the ones who bought a flat 10 years ago, the rest have left because now they cannot afford to rent or buy. Many have moved to neighboring towns, which were traditionally working class.”

Eixample is far from gentrified in comparison to areas like El Born or the Barri Gotic, which long ago replaced corner stores and workers’ bars with champagne caves and luxury outlets, but nevertheless, residents feel the strain. Back in 2006, locals would know when it was time for dinner when drunken British and Northern European tourists began stumbling from bars. Since then, the problem has intensified. Las Ramblas, the central thoroughfare that was once the pride of the city, is so clogged with street performers, pickpockets, and tourists that Catalans go out of their way to avoid it.

Other locals have taken a more confrontational approach: Anti-tourist graffiti punctuates popular neighborhoods, and earlier this summer, members of a youth group associated with the Catalan independence party attacked a tourist bus with smoke bombs and banners. The incident was picked up by the Spanish-language press as an instance of turismofobia, yet it illustrates the sensitive dynamics that underlie the issue. What looks like anti-tourist agitation to one person may come across as classism, racism, or xenophobia to another—particularly if that person doesn’t fit the stereotype of a “guiri”: a pale, Anglo tourist with an affinity for booze and money to burn.

Public feelings about tourism have long been mixed. Back in the 1930s, says Harold Goodwin, director of the Institute of Place Management at Manchester Metropolitan University, there was documentation of hard-partying tourists destroying Greek fishing villages. “It’s always been true that people go abroad to behave badly,” he observed. In the 1970s, tourism sociologists developed the “Irritation Index” to gauge residents’ feelings about unwanted visitors, and in 1975 Swiss scholar Jost Krippendorf published The Landscape Eaters, a now-canonical text about the ecological consequences of excessive tourism in the Alps. At the same time, people recognize that wanting to manage the problem isn’t the same as wanting to drive away visitors. A 2017 poll conducted by the local government found that although 60 percent of people believed that Barcelona had exceeded its ability to host tourists, more than 83 percent thought that tourism was, on balance, a good thing for the city.

In response to public grumbling, now amplified on social media, policy-makers across the continent have adopted a range of measures to preserve quality of life: banning cruise ships (Venice), coating walls in pee-resistant paint (Hamburg), cracking down on Airbnb (Berlin), and outlawing selfie sticks (Milan). In Andalucía, where local governments are weighing a ban on bachelor and bachelorette parties, some say the roving gangs of screaming foreigners are no worse than street festivals or soccer celebrations, while others recall more traumatic encounters.

“After seeing a husband-to-be in Granada riding a donkey while handcuffed to a dwarf dressed as a gypsy…I thought I had seen everything,” wrote a tour guide from the northeastern Spanish city of Zaragoza on Facebook. That was, “until the moment when people on both sides of the street began to sing.”

Efforts to minimize mass tourism often focus on carrying capacity, or the notion that having more than a certain number of people in a confined space will be culturally and environmentally disruptive. Andreas Papatheodorou, a sociologist at the University of the Aegean who studies the implications of transportation on tourism, notes that some policy-makers are pushing a “quality over quantity” approach—targeting visitors who can afford to stay longer and spend more.


One way of doing this is by levying a general tourism tax on individuals; another is through accommodation taxes on lower-quality hotels and hostels. Visitors in Rome pay between three and seven euros a night simply to stay in the city, while Croatia’s “sojourn tax” imposes higher fees on tourists who visit during peak season, similar to congestion pricing on cars, in order to spread out tourism over the year.

The problem, of course, is that such measures have a disproportionate effect on lower-income travelers, which illustrates another uncomfortable reality: People rarely get angry about extremely wealthy travelers, who are generally insulated from the day-to-day life of a city. Moreover, this plays out on a geopolitical scale, as less-affluent countries are more affected by travel taxes than wealthier ones. According to a 2017 report commissioned by the EU, the measures have the sharpest impact on coastal destinations in Southern Europe, where steep competition means that even an incremental price increase of three or four euros can deter potential visitors.

Furthermore, not everybody agrees that the problem is space. “Many academics are going on and on about the carrying capacity of a place,” says Goodwin, who criticizes this emphasis as misplaced. “You can accommodate very large numbers of tourists with no impact at all if you manage them carefully,” he says.

Disneyland “does that very well,” Goodwin says, explaining that the theme park exemplifies sustainable tourism—any system in which a visitor’s admission covers the full cost of taking care of them in that destination, from dealing with litter to sewage to food. Still, the fact remains that it’s much easier to build a tourist trap like Disneyland from scratch than it is to transform a living, breathing city into a place that tourists can sustainably visit.

Barcelona’s strategy has been several years in the making. In 2015, after getting elected on a platform of reducing mass tourism, socialist Mayor Ada Colau declared a yearlong moratorium on new hotel construction and began fining and shutting down illegal Airbnb rentals. Since then, her administration has focused on better integrating tourism into city infrastructures. Under the Special Tourist Accommodation Plan, Barcelona grants new licenses to tourist accommodations—from hotels to Airbnb listings—based on neighborhood congestion, with an eye towards more evenly distributing visitors throughout the city. The plan, which has been heavily criticized by the hotel industry, is set to go into effect in 2019.

Harold Goodwin, who has worked on sustainable-tourism initiatives in Barcelona, believes that the city has done more than anywhere else in the world to test out different methods of responding to mass tourism, and has adopted what he calls “a remarkably progressive” approach to the issue. “They’ve refused to scapegoat the tourist,” he says. “They take the view that the problem is managing large numbers of people in an urban space whether they’re business tourists, leisure tourists, or students.”

Part of the insight in Colau’s strategy is in differentiating between problems of housing and tourism. Since 2015, Barcelona has responded to real-estate pressures from what Goodwin calls a “whole government perspective.” After separating tourism promotion from tourism management, the municipal authority created a cross-departmental working group to deal with tourism as a whole, meaning that the inspectors responsible for taxing short-term rentals are not the same people who respond to late-night calls from neighbors about Airbnb orgies. In making these distinctions, the aim is to adjust regulation accordingly, so (remaining) locals won’t be priced out of their homes by visitors able to pay significantly more.

 Additionally, the city is dedicating more resources to the study and management of tourism. None of these methods are new, but the lesson of Barcelona, Goodwin says, is that there’s no one single solution to overtourism. In other parts of the world, “de-marketing” and even removing alluring place names from visitor maps have proven effective in changing behavior. (Goodwin confessed that he once did this while working on a park project in the Philippines. It worked splendidly.)

Barcelona’s proactive approach is an exception. In most cities overwhelmed by tourists, it’s far more common for officials to deny that there’s a problem at all. Tourism ministers and travel industry professionals have historically been judged by the number of international arrivals—rather than, say, length of stay or contribution to the local economy—so the incentive has been simply to get people into the country, with little regard to how long they stick around or what they actually do. In an age of so-called “city breaks” and weekend trips, this no longer makes sense—even if twice as many people were to visit Munich or Bordeaux, they wouldn’t be adding any additional value (financial or otherwise) if they stayed half as long.

What’s more, oversaturated cities don’t appeal to people who would rather not spend their vacations dodging tour groups at museums and fighting for tables at overpriced restaurants. This suggests that class divides will be further exacerbated in places that ignore overtourism. As the very rich find new, secluded places to go, the majority of visitors will keep piling into the same popular cities, alongside entirely new demographics of tourists. And as the middle class booms in countries like China, millions of people will suddenly have the opportunity to travel abroad.

The term “overtourism” was coined in a research paper about overfishing in Indonesia more than a decade ago, and in many ways, those concerns about sustainability remain the same. What’s the best way for a city to cultivate tourism without wrecking life for residents, ruining subways and beaches, and pricing out people who have lived there for generations? Can city planners and economists anticipate when a destination is about to become unlivable, and do something about it in advance?

In the case of Lisbon, what’s happening now has been in the works for a while. After the 2011 debt crisis, the Portuguese government courted low-cost airlines, undertook a massive overseas digital-marketing strategy, and poured money into growing tourism. Seven years later, tourism is now the country’s largest employment sector, and the socialist government recently launched a program to lease 33 historical sites around the country into order to nudge visitors away from the hot spots of Lisbon and Porto. As was the case with Spain, public reactions to this have been mixed.

But Portugal, at least, has the benefit of being able to learn from the missteps of others. The next few years will reveal whether it decides to do so.

Jessica Loudis Jessica Loudis is writing a book about global cities and gentrification.

Costa, de jeans, apanhado de surpresa pela recepção angolana






Costa, de jeans, apanhado de surpresa pela recepção angolana

O primeiro-ministro, na chegada a Luanda, foi recebido com uma cerimónia de alas militares que não esperava.

PÚBLICO 17 de Setembro de 2018, 13:56

O primeiro-ministro não estava à espera que o Estado angolano lhe fizesse uma tão solene recepção no aeroporto, que incluiu alas militares. A surpresa apanhou António Costa vestido informalmente, de calças de ganga, sem gravata e de mocassins, lado a lado com o ministro angolano das Relações Exteriores, formalmente vestido. A imagem correu as redes sociais e até o deputado socialista Ascenso Simões, antigo director de campanha de Costa nas legislativas, criticou a indumentária com que o primeiro-ministro chegou a Luanda: "De calças de ganga e sem gravata numa chegada oficial com guarda de honra? Não havia necessidade, senhor primeiro-ministro".

A chegada foi às sete da manhã e a visita oficial só começaria às 10, no Museu Militar, para uma homenagem a Agostinho Neto. A informalidade do primeiro-ministro — e também a do ministro do Negócios Estrangeiros, Augusto Santos Silva, ambos sem gravata — destoava das alas militares com que foi recebido. Um diplomata que seguia pela televisão a chegada de Costa ao Aeroporto 4 de Fevereiro, disse ao PÚBLICO que, ao ver Costa de jeans  e sem gravata a passar entre os militares, ia tendo um susto.

Mas se o primeiro dia de Costa em Angola começou pela informalidade inesperada, seguiram-se outros momentos de informalidade a simbolizarem um novo começo nas relações entre Lisboa e Luanda: o ministro das Relações Exteriores convidou o primeiro-ministro para um almoço num restaurante junto ao mar, ao qual também compareceram oito membros do Governo de Angola — ministros das Finanças, Agricultura, Construção Civil, ministro do Ensino Superior, da Justiça e o governador do Banco de Angola. Muitos estavam sem gravata.

Gravatas e calças de ganga à parte, os tempos mudaram nas relações entre os dois países. Depois de ter cumprido a primeira escala da visita oficial, Costa fez questão de dizer que o passado ficou lá atrás: "O passado ficou no museu e o que agora nos compete a todos nós que estamos vivos é construir o futuro e nesse futuro temos de estar focados nas relações entre Portugal e Angola".

Para já, ficou assinado o acordo que põe fim à dupla tributação entre os dois países, o aumento do número de voos entre Lisboa e Luanda e o aumento da linha de crédito para os empresários. Mas Costa aproveitou para falar da próxima visita do Presidente angolano João Lourenço a Portugal em Novembro: "Esta visita conjuga-se com a visita do Presidente João Lourenço a Portugal. Vamos assinar o acordo estratégico de cooperação para os próximos anos e vamos dar um sinal de confiança para o aprofundamento das nossas relações". Interrogado sobre o que pensava das mudanças políticas em Angola, Costa usou uma só palavra: "auspiciosas".

Graça dividida entre a manutenção da tradicional vida de bairro e a dinâmica trazida pelo turismo





Graça dividida entre a manutenção da tradicional vida de bairro e a dinâmica trazida pelo turismo
Sofia Cristino
Texto
14 Setembro, 2018

A Graça está diferente, com prédios e espaço público renovados e mais unidades de alojamento local. Uma mudança com consequências na vida dos moradores mais antigos. Muitos foram despejados e quem lá está teme idêntico destino. “Tenho sempre aquela sensação de insegurança de que o senhorio nos pode mandar embora”, receia uma habitante, embora reconheça que “está tudo mais arranjado”. Há também espaços comerciais a surgirem, acompanhando novas tendências de consumo, ao lado das lojas mais antigas. “Este contraste dá outro charme à freguesia, torna-a mais sofisticada”, diz uma residente brasileira. Se há moradores a queixarem-se do ruído dos turistas que passeiam pelo bairro à noite, outros elogiam a vontade dos novos vizinhos estrangeiros em relacionarem-se com os portugueses. “São muito simpáticos, querem-nos cativar”, conta uma moradora idosa. A sujidade das ruas continua a aumentar, mas a presidente da Junta de Freguesia atribui o problema à falta de civismo.

De cinco em cinco minutos, o cenário repete-se. Logo pela manhã, dezenas de tuk-tuks, por vezes espaçados, outras numa fila que se estende pela Calçada da Graça, transportam turistas ansiosos por chegarem à colina mais alta da cidade. É no Miradouro da Graça, de onde se vê Lisboa inteira, que quem visita a capital inicia o roteiro turístico, posicionando-se para tirar uma fotografia ou tomar um café na esplanada ao som de música ao vivo. Quem lá vive há mais anos recorda-se do miradouro como um lugar tranquilo, sem música e com meia dúzia de cadeiras, mas hoje já não é assim. “Durante o dia, vemos mais turistas, principalmente franceses, espanhóis, alemães e italianos. Muitos perguntam-nos se conhecemos casas para alugar ou se esta zona é calma para viver. À noite, vê-se mais portugueses e moradores do bairro”, conta Afonso Rodrigues, 26 anos, funcionário do café situado nesta varanda de Lisboa.

À medida que caminhamos em direcção ao Largo da Graça, vão ficando para trás conversas cruzadas em diferentes idiomas, uma cantoria de um grupo de jovens espanhóis e a letra da música Imagine, de John Lennon, tocada por um artista de rua. Depois de se atravessar uma antiga zona de estacionamento, que recentemente deu lugar a um coreto e bancos de jardim, depois da operação de requalificação do espaço público feita no âmbito do programa municipal Uma Praça em Cada Bairro, percebe-se que a utilização do lugar mudou. O estacionamento em segunda fila foi extinto e as pessoas movem-se a ritmos diferentes. Apesar da insatisfação sentida por alguns moradores, os antigos dizem conviver saudavelmente com os recém-chegados, de várias partes do mundo.

“No meu prédio, saíram muitos habitantes, mas os novos, maioritariamente estrangeiros, são muito simpáticos. Perguntam-me se preciso de alguma coisa, querem-nos cativar”, conta Anabela Lopes, 68 anos. Vive na Calçada dos Barbadinhos com uma amiga, Aurora dos Prazeres, 92 anos, que partilha o mesmo sentimento. “A convivência de antigamente, entre os vizinhos, diminuiu um bocadinho, mas ainda há vida de bairro. Sou uma privilegiada porque, de manhã, ainda abro a janela e tenho uma vista maravilhosa do rio Tejo”, diz Aurora.

 Uma das novas moradoras da freguesia de São Vicente, Juliana Parro, 32 anos, veio da Fortaleza, no Brasil, e não quis mais regressar às origens. “No Brasil, estava sempre assustada, aqui senti-me segura, apesar de já me ter sentido mais. Já se vê carteiristas a correrem atrás dos turistas”, diz. A vendedora de crepes na Maria Limão, um espaço aberto há um ano nesta parte da cidade, vê com bons olhos a transformação do bairro histórico. “Em 2017, senti uma mudança muito brusca. De repente, a cidade estava cheia de tuk-tuks e hostels. Mas gosto deste ambiente, em que a parte mais antiga convive com a moderna. Este contraste dá outro charme à freguesia, torna-a mais sofisticada”, constata a moradora que, este ano, já participou nas Marchas Populares de Santo António. “Há uma diversidade cultural muito grande, a conviver com uma população mais idosa, mas ambas relacionam-se bem. Aparecem idosos na creparia a quererem saber o que é a modernice do brunch e, depois, comem”, conta, entre risos.

Ao chegar ao quiosque mais antigo da freguesia de São Vicente, no Largo da Graça, onde Maria do Carmo Gonçalves, 59 anos, vende jornais e revistas há 35 anos, os comentários sobre as transformações desta parte da cidade mudam de tom. “Desapareceu muita gente do bairro e vão sair mais, porque há muitos contratos de arrendamento a chegar ao fim. Isto é um pandemónio todos os dias, com o eléctrico 28 sempre cheio. Há prédios que têm mais fracções em Airbnb do que moradores antigos”, critica Casimiro Abreu, a viver na Graça desde 1975, enquanto compra o jornal habitual. Maria do Carmo comenta as novidades com o cliente, enquanto que outros, em passo mais acelerado, pegam no jornal e deixam as moedas na banca dos jornais, sem falarem com a vendedora.

 “É normal, já nos conhecemos todos”, comenta Maria Silva, 77 anos, que também está inconformada. “Quem a viu e quem a vê, a Graça está uma desgraça”, brinca com as palavras. E explica: “Alargaram muito os passeios e, por vezes, as ambulâncias têm dificuldade em passar nas ruas, há muito trânsito. Quando começaram a aparecer os tuk-tuks, colocávamos panos nas janelas para abafar o som, nem dormíamos. Os turistas ainda fazem muito barulho à noite”. Apesar disso, admite, existem coisas positivas. “Ainda há bom convívio, pelo menos”, elogia. Maria do Carmo também exalta as boas relações entre os “poucos moradores” que ainda vivem na freguesia e a requalificação do Largo da Graça. “Trouxe mais gente, reúnem-se muitos aqui à tarde”, diz. E O Corvo constatou-o quando lá esteve. No centro da praça, a meio da tarde, quatro idosos sentados em círculo ouvem uma história contada por Elisa Dias, no âmbito do projecto “Na rua com histórias – Uma biblioteca para todos”.

 À medida que a contadora de histórias vai lendo, e gesticulando com as mãos nos momentos de maior suspense, os ouvintes vão fazendo observações. “Pois, no meu tempo, era mesmo assim”, ouve-se. O regresso às memórias anima-os e fá-los quererem voltar aquele encontro. “Já fazia falta uma iniciativa deste género, é uma forma de nos distrairmos, mas o que gostamos mais é da companhia”, diz Firmina Maria. Joaquim Correia, 85 anos, teve uma frutaria durante muitos anos na Graça e, ao ouvir as histórias, explica, “atenua a saudade daqueles tempos”. “É o bairro mais bonito da cidade”, diz, enquanto dois turistas observam com curiosidade o momento inusitado.

 Com o aumento do número de pessoas a movimentarem-se na zona, a freguesia de São Vicente começou a ganhar nova vida também à noite. Quem lá mora diz que, pelo menos uma vez por semana, ouve um grupo de estrangeiros a cantarolar a horas tardias e que os novos espaços nocturnos, abertos nos últimos anos na Rua Damasceno Monteiro e na Rua da Voz do Operário, estão sempre lotados. “É rara a noite em que o Damas não esteja cheio, de estrangeiros principalmente”, diz Sérgio Tavares, 35 anos, vendedor de livros na Rua Voz do Operário. Quem dispensa a ajuda do eléctrico 28 na subida de um dos mais movimentados arruamentos do bairro, por vezes pára no “bistrô” Vicente Lisboa, onde são confeccionados petiscos no momento, crumpets e galletes de trigo sarraceno, típicas do Norte de França, e pratos vegan.

“Acontecem situações muito engraçadas. Há pouco tempo, um homem vinha de mota, parou, e sentou-se nos nossos bancos a descansar. Depois, acabou por beber um sumo”, conta a proprietária do espaço, que recebe O Corvo ofegante. Só trabalha neste ramo de actividade há cinco meses e meio, o tempo de vida do Vicente Lisboa. É artista plástica e a ideia inicial era fazer uma galeria de arte, mas rapidamente percebeu que a gastronomia atraia mais gente. “Comecei por colocar quadros e servir alguns petiscos, mas as pessoas começaram a pedir-me para direccionar mais o negócio para o ramo alimentar, e foi crescendo”, conta. Foram os próprios clientes que lhe sugeriram fazer pastéis de nata e assim surgiu uma receita original do doce típico de Belém, a que chamou pastéis de nata de São Vicente. O problema de trabalhar neste arruamento, diz, porém, “é que não tem comércio nenhum, nem moradores”. “Os meus clientes são clientes de três dias, são muito voláteis”, conta.

 É também graças aos visitantes de Lisboa que o Atelier Porta 16 e uma loja de artigos reciclados, na Rua de São Vicente, mantêm as portas abertas. Ana Salomé, 31 anos, faz artesanato há sete anos, num espaço que, ao primeiro olhar, não se entende logo que é uma loja. “Muitos espreitam e vêem-me a trabalhar e não entram, é engraçado”, conta, entre risos. A artesã, também moradora no bairro, diz que, apesar do panorama ser positivo – com o aumento do turismo durante todo o ano, “e não só no Verão”, e o facto de 90% dos seus clientes serem estrangeiros -, teme viver numa zona “transformada em casas de Airbnb”. “Sinto que está tudo mais requalificado e arranjado, o que é óptimo, mas tenho sempre aquela sensação de insegurança de que o senhorio nos pode mandar embora”, receia.

 No mesmo arruamento, André Chaby, 25 anos, trabalha há poucos meses na loja de artigos reciclados – malas, blocos de notas, carteiras, canetas, entre outros -, nascida naquela parte da cidade há dois anos, e deseja mudar a forma de pensar de quem vive e frequenta a zona. “Queremos incentivar as pessoas a fazer reciclagem e, por isso, a quem trouxer materiais de casa para reciclar oferecemos um desconto nas compras. Para os turistas, principalmente dos países do Norte da Europa, isto não é nada novo. Só em Portugal é que ninguém liga à reciclagem”, critica, explicando ainda que vários moradores têm aderido ao desafio de dar um novo uso a produtos antigos.

 Ao descer em direcção ao Panteão Nacional, há menos sinais de comércio. Na Rua da Verónica, Anabela Santos, 55 anos, costureira, é das poucas que ainda lá trabalha. “Os prédios estão mais arranjados, mas têm havido muitos despejos. Nesta esquina, saíram todos, já só mora uma pessoa”, diz, enquanto aponta para um imóvel requalificado, enumerando quem lá vivia. Nascida na Graça, e a trabalhar na zona há quatro décadas, diz que a vida de bairro se perdeu. “O conceito de vizinhos já não existe. No Beco da Verónica vê-se pessoas diferentes a sair e a entrar todos os dias”, conta.

 Um pouco mais acima, Tehssin Khan, 35 anos, lamenta a perda de características peculiares do edificado. “Há muito movimento, abriram muitos hostels, o que é bom para a economia do país. É óptimo os edifícios serem recuperados, mas Lisboa é bonita sendo antiga, há casas que depois de renovadas perderam a beleza”, diz, enquanto abre a loja de venda exclusiva de extintores. “Aqui já só vendemos para os hostels, é bom para o negócio, mas é um sinal de que algo está a mudar”, acrescenta.

 No Jardim Botto Machado, crianças a correr em várias direcções sobre o olhar atento da mãe, jovens casais e um grupo de idosos a jogar às cartas, compõe o quadro de uma freguesia multigeracional em mudança. Daqui, observa-se o Campo de Santa Clara, onde a Feira da Ladra, a mais antiga de Lisboa, continua a realizar-se todas as terças-feiras e sábados de manhã, e o Panteão Nacional, onde jazem figuras incontornáveis da cultura portuguesa. O silêncio que impera em torno do monumento só é interrompido por um motorista de um tuk-tuk, a subir o Campo de Santa Clara. “Aqui ao lado é o Panteão Nacional, depois, na descida, podem ver”, sugere aos passageiros. A meio da tarde, começam a ouvir-se burburinhos em alemão, francês e italiano, enquanto a vida de bairro prossegue. O som do bater da porta de um prédio antigo, que faz estremecer os lençóis brancos pendurados à janela, denuncia que naquela fronteira da freguesia, quase a chegar à Alfama (Santa Maria Maior), ainda vive gente.

 A presidente da Junta de Freguesia de São Vicente, Natalina Moura (PS), em declarações a O Corvo, diz que o aumento de unidades de Alojamento Local (AL) sem regulação na freguesia, numa fase inicial, prejudicou as relações entre os moradores e os visitantes, mas o problema já está a ser resolvido. “A convivência nem sempre é a melhor, temos queixas constantes, essencialmente por causa do barulho, e até já tivemos de intervir. Já nos deslocamos a um AL para resolver um problema de ruído à noite. Felizmente, faço parte das freguesias que se juntaram para regulamentar o AL e acredito que deixará de ser um problema”, diz, referindo-se à intenção da CML em não aceitar mais unidades de AL na zona histórica de Lisboa.

Natalina Moura reconhece que a perda de habitantes, de 15 mil e 500 eleitores, em 2011, para 13 mil, é “uma descida significativa”, sem deixar, porém, de elogiar os benefícios do crescimento do turismo. “Não sou contra o aumento do turismo, traz uma economia circular que faz muita falta, não pode é haver Alojamento Local ‘prédio sim, prédio sim’ e esperemos que a lei de bases do arrendamento venha colmatar esta situação. Perdemos muitos habitantes, mas não saíram todos pelas mesmas razões”, explica, informando ainda que já foram entregues dez casas municipais, localizadas na freguesia de São Vicente, no âmbito do programa “Habitar o Centro Histórico”.

A autarca socialista reconhece ainda que o tráfego automóvel é um dos problemas da freguesia e avança os próximos projectos. “Há ruas onde não entra nenhum carro de remoção de lixo, nem nenhuma ambulância. Uma das nossas prioridades é a abertura da Rua General Justiniano Padrel, de forma a escoar o trânsito, todas as ruas transversais vão ganhar e vai poder fazer-se uma ligação directa à Mouzinho de Albuquerque”, diz. Quanto ao aumento do lixo, sentido por toda a cidade, Natalina Moura atribui a causa do problema à falta de civismo. “Esta freguesia já foi considerada das mais limpas da cidade, mas, neste momento, há uma grande falta de civismo. São os nossos funcionários, que não têm a função da recolha do lixo, que, por vezes, o fazem, se identificarmos uma situação que põe em risco a saúde pública”, explica.

 Relativamente à concentração de espaços comerciais de São Vicente na zona da Graça, Natalina Moura diz que “é normal”, muito devido à geografia da freguesia. “A Graça é mais plana e as outras zonas são mais inclinadas, é normal que abram ali mais negócios. O comércio está a atravessar uma boa fase, todos os dias temos uma surpresa e o que abre não fecha, que é um sinal que há movimentação para o efeito”, diz.

Quanto à polémica da construção de um edifício que poderá vir a colocar em risco a integridade da actual vista panorâmica a partir do Miradouro da Senhora do Monte, noticiada esta semana por O Corvo, a presidente da Junta de Freguesia diz que já entregou à Assembleia Municipal de Lisboa, na tarde desta quarta-feira, 12 de Setembro, a petição contra esta obra. “É um assunto que tem de ser tratado com pinças e vai ser analisado com muito cuidado. A errar também se aprende e, se há um engano, vai ser corrigido. Não vai ficar esquecido, ainda há muita coisa que pode ser modificada”, garante.