As esquerdas e o PS pós-directas
Por Jorge Bateira
publicado em 26
Jun 2014 in (JORNAL) i online
Para sabermos
como enfrentar esta crise, devemos ter presente que a Alemanha não vai pôr em
causa o seu modelo económico. E não vai aceitar uma UE federalizante
No centenário da
Grande Guerra, é importante lembrar que, em Setembro de 1914, o governo alemão
dispunha de um documento estratégico sobre os objectivos da guerra de que
constava o seguinte ponto: "Uma grande união económica da Europa Central,
sem cabeça constitucional comum, sob a aparente igualdade dos seus membros, mas
de facto sob direcção alemã" (ver Jean-Pierre Chevènement, 1914-2014, L 'Europe sortie de
L'histoire?, Fayard; p. 103). Para além do debate sobre a natureza do
pangermanismo e do nazismo - há quem sustente que o nazismo rompe com o
nacionalismo alemão (Jacques Sapir, de 18 Junho, RussEurope) - este documento
recorda-nos que, desde a unificação conduzida pela Prússia, diferentes forças
sociais e movimentos ideológicos convergiram para que a Alemanha adoptasse
muito cedo uma estratégia de afirmação económica e política, na Europa e no
mundo.
Com as
negociações que conduziram à reunificação no século xx, o pensamento económico
dominante na Alemanha (ordoliberalismo) hegemonizou a construção jurídica e
económica da UEM ao ponto de "o aluno dócil se ter transformado no tutor
da Europa" (Ulrich Beck). Lembremos John Adams, o segundo presidente dos
EUA: "Há duas maneiras de conquistar e subjugar uma nação. Uma é pela
espada, a outra é pela dívida" (citado por Chevènement, p. 247). Hoje,
através de um mercantilismo agressivo, apoiado por mercados financeiros em roda
livre, a Alemanha procura conquistar um lugar cimeiro na economia política
internacional do século xxi. Omitindo que financiou, através dos seus bancos, a
dívida externa das periferias para escoar os seus produtos, submarinos
incluídos, a Alemanha procura agora "moldar" a zona euro através do
Tratado Orçamental, a que acrescentará pacotes financeiros específicos
destinados a comprar a anuência dos partidos sociais-liberais.
Para sabermos
como enfrentar esta crise, devemos ter presente que a Alemanha não vai pôr em
causa o seu modelo económico. E não vai aceitar uma UE federalizante, se isso
significar a responsabilidade por transferências financeiras avultadas, de
natureza permanente, sem montante definido à partida (8%-12% do PIB alemão
durante muitos anos; contas de Jacques Sapir). Nem vai aceitar que o BCE, ou
qualquer agência europeia no seu lugar, assuma as dívidas impagáveis da
periferia. Isso seria pedir à Alemanha que, de um dia para o outro, abandonasse
os princípios da sua "economia social de mercado", "uma visão
antiga, institucionalmente enraizada e que recua à sua experiência de
industrialização tardia" (Christopher Allen, "The Underdevelopment of
Keynesianism in the Federal Republic of Germany", p. 289). Por isso, como
afirma um economista alemão, "é literalmente impossível para a mentalidade
alemã admitir que a própria Alemanha possa de facto ser parte do problema do
euro" (Jörg Bibow, "Are German Savers Being Expropriated?").
Colocada a crise
nesta perspectiva, o que se pode esperar da disputa pela liderança do Partido
Socialista? Aparentemente, trata-se de escolher o candidato mais capaz de
vencer as próximas eleições e participar numa (imaginada) coligação das
periferias que, chegada a hora, imponha uma reestruturação honrada das dívidas
e uma interpretação suave do Tratado Orçamental. Qualquer que seja a escolha
dos socialistas, há algo que as esquerdas têm obrigação de ter presente quando
tiverem de se relacionar com o PS pós-directas: confrontada com exigências que
põem em causa a sua estratégia, a Alemanha não hesitará. Tratando-se da sua
forma de ver o mundo, e do seu lugar nele, a sua escolha está feita e não
releva da racionalidade económico-financeira. As esquerdas têm obrigação de
saber que a Alemanha não prescinde da sua autonomia estratégica, com o euro nas
suas condições, ou então sem o euro. Alimentar a ilusão de uma reforma
progressista da UE só pode conduzir ao desastre nos partidos políticos que a
protagonizarem.
Merkel quer tudo ou nada na
cimeira de Bruxelas
TERESA DE SOUSA
16/07/2014 - PÚBLICO
Se as negociações avançarem, podemos ter várias surpresas.
Quando a
chanceler alemã chegou a Bruxelas, disse logo ao que vinha: “É bem possível que
esta cimeira seja apenas uma primeira discussão e que as decisões finais não
sejam hoje tomadas”. Mas, “se chegarmos a uma decisão, sou a favor de lidar com
estas questões importantes de uma maneira global”. Ou seja, para Merkel, ou há
acordo global ou não há nada, a não ser marcar uma nova cimeira para 28 de
Agosto. Nesta quarta-feira, antes de os líderes se sentarem à mesa do jantar, o
clima de confusão que predominava em Bruxelas fazia pender as apostas para o
primeiro caso.
Se os líderes
europeus considerassem não haver condições para fechar um acordo, abandonaria o
assunto e dedicariam o jantar à Ucrânia (hoje decidiram aumentar as sanções à
Rússia) e a Gaza. Era isso que ainda estavam a discutir esta noite. O segundo
cenário, o de um acordo global, também não era completamente excluído. Se
acabasse por prevalecer, então a cimeira poderia prolongar-se até de madrugada.
Jean-Claude
Juncker, que se multiplicou em contactos, insiste em ter a sua comissão
concluída já no início de Agosto e o chefe da diplomacia europeia é também o
seu primeiro vice-presidente. Já tem os nomes dos comissários de 11 países, mas
não ainda o de Portugal. Pedro Passos Coelho esteve hoje reunido com ele, mas
permanece o mistério sobre a sua escolha. A única coisa que o seu gabinete
garantiu ao PÚBLICO foi que “não propôs o nome de Durão Barroso para presidir
ao Conselho Europeu em caso de impasse”, desmentindo uma notícia que circulava
em Bruxelas. Barroso não se apresentou como candidato mas ainda não desistiu de
preencher os requisitos para desbloquear uma situação de impasse.
De resto, os
líderes europeus continuavam a tentar vender as suas apostas, com maior ou
menor veemência. Matteo Renzi, a nova coqueluche do centro-esquerda europeu que
chefia o Governo italiano, continuava a insistir na nomeação da sua ministra
dos Negócios Estrangeiros para suceder a Lady Ashton à frente da diplomacia
europeia. O seu nome continuava, no entanto, a suscitar grandes resistências
sobretudo nos países de Leste. A presidente lituana, Dalia Grybauslaite, com a
sua franqueza habitual, denunciou “os candidatos pró-Kremlin como totalmente
inaceitáveis”. A candidata italiana, muito próxima do primeiro-ministro, tem um
currículo ligado às questões internacionais mas tem menos de seis meses de
experiência no cargo. A Itália tem sido dos países mais avessos a um
endurecimento das sanções contra a Rússia: está dependente do gás russo e
exporta muito para o seu mercado. Se não vencer a batalha, Juncker gostaria de
ver a búlgara Kristalina Georgieva, a actual comissária para o desenvolvimento
e ajuda humanitária, ocupar esse lugar.
Os socialistas
europeus estiveram reunidos antes da cimeira mas não conseguiram uma mensagem
unificada, embora reclamassem para si os dois cargos — de chefe da Diplomacia
europeia e de presidente do Conselho Europeu, alegando que a direita fica com a
Comissão e o Eurogrupo (o ministro espanhol Luis de Guindos já está na calha). Foram
dizendo com tonalidades diferentes que poderiam apoiar a primeira-ministra da
Dinamarca, Helle Thorning-Schmidt, considerada como uma política frágil, mas
que se dá bem com David Cameron e, aparentemente, também com Angela Merkel,
embora o seu país não pertença ao euro. A imprensa dinamarquesa chama-lhe
“Gucci-Helle” e é nora do Neil Kinnock, um antigo e respeitado líder do Labour
britânico.
Paris e Berlim
mantinham hoje um braço-de-ferro em torno de Pierre Moscovici, anterior
ministro das Finanças e candidato a ocupar a pasta dos assuntos económicos e
financeiros (vulgo UEM). Merkel recusa o seu nome porque entende que um país
que está sempre a “fugir” ao cumprimento das metas do Pacto de Estabilidade e
Crescimento não tem credibilidade para impô-lo. Havia, segundo o Monde,
negociações no sentido de Berlim garantir um director-geral austríaco, Thomas
Wieser, para “controlar” o Comissário francês. Merkel também adiantou que
poderia ver em Donald Tusk, o chefe do Governo polaco, um bom nome para a sucessão
de Herman van Rompuy — ele próprio encarregue de apresentar um “pacote” que não
conseguiu negociar a tempo.
Se as negociações
avançarem, podemos ter várias surpresas porque os líderes levam sempre na manga
algumas cartas escondidas.
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