Governo convida câmara a
concorrer à Carris e Metro, Costa não desarma
Concurso público internacional
define o “mais baixo preço” como único critério para a adjudicação da
subconcessão. Autarquia contesta e promete lutar contra o processo até às
últimas consequências
Quem vencer o concurso fica obrigado a renovar
toda a frota da Carris durante os oito anos do contrato
Marisa Soares e
Inês Boaventura / 25-3-2015
O secretário de
Estado dos Transportes desafiou ontem a Câmara de Lisboa a apresentar “a melhor
proposta” ao concurso para a subconcessão da Carris e do Metro, em vez de
seguir pela via judicial. “Tudo faremos para que este concurso seja anulado”,
afirmou por sua vez o presidente da Câmara de Lisboa, que criticou o Governo
por vir, “em final de legislatura” e de forma “precipitada”, “abrir guerras
destas”.
Os termos do
concurso público internacional foram publicados anteontem em Diário da
República eo Governo já recebeu manifestações de interesse dos “principais
operadores [de transporte] europeus”, disse Sérgio Monteiro aos jornalistas.
Em causa estão
dois contratos: um para a subconcessão do sistema de transporte do Metro de
Lisboa por nove anos, com obrigatoriedade de manutenção do material circulante,
e outro para a subconcessão, durante oito anos, do serviço de transporte de
superfície actualmente concessionado à Carris, ficando estipulada a obrigação
de renovar toda a frota.
A adjudicação
fica condicionada à apresentação, pelos interessados, dos comprovativos da
requisição da licença ao Instituto da Mobilidade e dos Transportes para
prestação daqueles serviços.
Segundo Sérgio
Monteiro, os subconcessionários não poderão, durante o período de duração do
contrato, aumentar o preço dos bilhetes, que fica indexado à inflação. Os
interessados têm até 14 de Maio para apresentar propostas, que serão
vinculativas por 180 dias. O critério de adjudicação é o “mais baixo preço”,
uma opção que mereceu críticas por parte de António Costa. “Revela bem qual é a
intenção do Estado”, acusou, lamentando que o critério não inclua “a qualidade,
a rede, o serviço prestado”. “O critério é a degradação do serviço”, concluiu o
autarca socialista durante a reunião de câmara, antecipando que se poderá
também esperar “uma ofensiva muito grande sobre os direitos dos trabalhadores”
da Carris e do Metro.
Sérgio Monteiro
contrapôs dizendo que “os indicadores de qualidade e regularidade do serviço
manter-seão iguais ou irão melhorar”. Garantiu ainda que esta operação permite
ao Governo “transferir a responsabilidade do investimento no material
circulante para o parceiro privado ou a entidade pública que ficar com a
subconcessão”, uma vez que o Estado “não tem condições financeiras para o
fazer”.
Para o
vice-presidente da câmara, Fernando Medina, o que está em cima da mesa é “a
manutenção da rede” hoje existente durante um período de oito anos. “É entregar
uma operação fechada que sabemos que não funciona bem”, disse, lembrando que o
sistema perdeu 100 milhões de passageiros em quatro anos.
Também o PCP
condenou aquela que considera ser uma decisão “absolutamente desastrosa” do
Governo, defendendo que o município deve “travá-la por todos os meios ao seu
alcance”. Para o vereador João Ferreira, esta que é “uma decisão estruturante
para o futuro do serviço público de transportes” é ainda “mais condenável” por
acontecer “no fim do tempo de vida do Governo”.
Com os votos
favoráveis da maioria e do PCP, e os votos contra do PSD e do CDS, foi aprovada
na reunião uma proposta que mandata António Costa para “intentar todas as
acções judiciais ou arbitrais, incluindo procedimentos cautelares, que se
revelem necessárias à defesa dos interesses do município”. Entre as acções está
a impugnação da resolução de Conselho de Ministros que deu luz verde ao
lançamento do concurso, que o presidente da câmara considera ser “ilegal”. “O
Estado carece de competência para abrir o concurso”, justifica o autarca,
defendendo que “nos termos da lei a entidade habilitada para exercer a função
de concedente é o município e só o município”.
O secretário de
Estado não tem dúvidas. “O Estado é o concedente e tem plena legitimidade para
lançar o concurso”, afirmou, remetendo para um parecer favorável do conselho
consultivo da Procuradoria-Geral da República, que será publicado em breve. “Estamos
confortáveis na solidez e robustez jurídica do parecer”, realçou, poucas horas
depois das declarações de António Costa: “Nem o Estado tem competência para
concessionar ou subconcessionar, nem os conselhos de administração o podem
fazer sem autorização do concedente.”
O autarca deixou
no ar uma pergunta em tom de desafio aos privados que venham a concorrer:
estarão eles preparados para “entrar em conflito com o município” em questões
como “a localização das paragens, o sentido das vias e a existência de
corredores bus”?
Pelo PSD,
Fernando Seara contestou a interpretação do presidente da câmara, e sustentou
que é o Estado o titular das concessões que estão hoje em vigor. Já o vereador
do CDS, João Gonçalves Pereira, defendeu que a votação da proposta subscrita
por António Costa devia ser adiada até que fosse conhecido o caderno de
encargos do concurso, ideia que não foi acolhida pelos restantes eleitos.
Em Novembro de 2014, a autarquia aprovou
uma “proposta de assunção” da gestão da Carris e do Metro “por contrato
interadministrativo a celebrar com o Estado”. Esta proposta, porém, foi
rejeitada pelo Governo por “puro preconceito ideológico”, diz António Costa. A
explicação de Sérgio Monteiro é outra: “Tínhamos de saber o que os privados
propunham para saber se a proposta da câmara era melhor”. Agora, “a bola está
com a Câmara de Lisboa”, afirmou o secretário de Estado, sublinhando que espera
que a autarquia “valorize” a “boa-vontade do Governo”, por fazer coincidir o
termo dos contratos de subconcessão com o fim dos contratos de concessão de que
é titular.
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