Belmiro interferiu no
"Público"? Senhor Sonae ganha 4-1 no campeonato dos directores
Na hora da saída do cargo de
presidente do conselho de administração da Sonae, a Renascença falou com os
cinco directores dos 25 anos do "Público". A fama de não intervir no
"seu" jornal é quase unânime - só há uma excepção.
12-03-2015 6:30
por João Carlos Malta in RR online
Ser um homem
poderoso e ter um jornal influente pode gerar o desejo de o usar como arma de
arremesso político e lança para conquistar negócios. Belmiro de Azevedo tem
fama no meio da comunicação de nunca o ter feito. Nem uma coisa, nem outra. Nos
relatos recolhidos pela Renascença através de conversas telefónicas ou
depoimentos escritos, esta tese ganha largamente.
São três
ex-directores (Nicolau Santos, Francisco Sarsfield Cabral e José Manuel
Fernandes) e a actual directora (Bárbara Reis) a confirmá-lo.
Mas não há
unanimidade: o primeiro director do jornal, Vicente Jorge Silva, acusa Belmiro
de querer dirigir o jornal por interposta pessoa. "Estava habituado a ser
soberano na sua empresa e quis-nos impor coisas que não faziam sentido",
diz.
Em sentido
totalmente oposto, José Manuel Fernandes escreve que jamais quis influenciar a
linha editorial ou dava recados. "Nunca, nunca mesmo, deu qualquer recado
sobre o sentido de um editorial ou uma escolha para a manchete", sublinha.
Pelo meio uma
história interessante contada por Nicolau Santos sobre um dos períodos mais
conturbados da história do jornal, entre 1996 e 1998, em que houve dois
directores – algo de inédito. Belmiro, conta, terá jurado nunca promover José
Manuel Fernandes a director. A realidade seria diferente.
Vicente Jorge Silva, director entre 1990-1996
Estava habituado
a que as pessoas se curvassem
"Foi uma
relação que começou bem e acabou mal". Porquê? "Porque me fui embora.
Ele quis dirigir o jornal por interposta pessoa. Estava habituado a ser
soberano na sua empresa e quis-nos impor coisas que não faziam sentido".
Quais?
"Havia pessoas que se dirigiam a ele a fazer queixas e ele vinha pedir
satisfações. Respondia-lhe sempre que quando perdesse a confiança em mim que me
demitisse. Até lá, era director em plenas funções e que, portanto, todas as
questões deviam ser dirigidas a mim e não a ele".
É a partir daqui
que Vicente Jorge Silva estabelece que houve uma mudança na relação que tinha
com Belmiro de Azevedo.
"Ele estava
habituado a que as pessoas se curvassem", atira.
Outro episódio
marcante foi o da ideia de criar um projecto complementar ao jornal diário e
que Belmiro numa primeira fase acarinhou. Era uma revista semanal que deveria
funcionar com uma pequena equipa em que estariam alguns jornalistas do Público
e que aproveitaria sinergias.
Depois de muito
andar para frente e para trás, o projecto não avança. Vicente Jorge Silva
decide escrever a Belmiro invocando a relação de ambos. "Respondeu-me como
se não me conhecesse de lado nenhum", lembra. "Respondi a pedir
desculpa por incomodar o homem mais rico do país".
Belmiro não se
ficou, conta Vicente Jorge Silva. "Escreveu-me novamente numa carta muito
repetitiva em que dizia que não era rico porque o dinheiro lhe tivesse caído no
regaço."
Nicolau Santos, director do Público entre 1996 e 1997
Passou do
empresário de Marco de Canavezes ao melhor do país
Fui convidado
para director do "Público" no final de 1997 e estive no cargo até
Novembro de 1998. Durante esse período tive apenas três contactos directos com
Belmiro de Azevedo: quando entrei, seis meses depois e quando saí. Durante esse
período nunca, mas nunca, Belmiro de Azevedo teve qualquer interferência na
linha editorial, nem fez sugestões ou exigências para que tratássemos deste ou
daquele assunto.
Só me lembro de
uma carta que me enviou, com o tradicional «De: BA. Para: N.S.» contestando a
reportagem que tínhamos feito sobre o centro comercial Colombo. Mas a notícia
já tinha saído há três ou quatro dias. Ou seja, era "o jornal de
Belmiro", mas Belmiro não mandava absolutamente nada na linha editorial do
jornal. Mais: dentro do jornal, Belmiro era visto como um "sponsor"
[patrocinador] do Público, alguém que tinha lá posto dinheiro para fazer o
melhor jornal português, mas que não tinha direito a dizer nada sobre o
produto.
Ao fim de seis
meses (convém lembrar que entrei na sequência da demissão do primeiro director
e líder carismático, Vicente Jorge Silva) fui à Maia, devido a mais uma crise
interna, dizer que o jornal era ingovernável (convém lembrar que não levei
ninguém comigo) e que havia um grupo de cinco jornalistas, com destaque para um
deles, que se consideravam os legítimos herdeiros do "Público", não
aceitando portanto um director vindo de fora. Belmiro disse-me: "nem por
cima do meu cadáver esse senhor será director do jornal". Nove meses e
dois directores depois (eu e Francisco Sarsfield Cabral), o tal senhor ascendeu
a director do "Público", cargo que exerceu durante mais de uma
década.
Em resumo,
Belmiro deu ao país um jornal de grande qualidade, que se tornou uma referência
na comunicação social portuguesa. Dentro do Grupo Sonae foi o grande defensor
do projecto. E voltou a defendê-lo sucessivamente sempre que o
"Público" era colocado em causa dentro do Grupo Sonae devido aos
sucessivos défices que acumulava. Mas o jornal também fez muito por Belmiro.
Antes era o empresário de Marco de Canavezes. Depois passou o ser o dono do
Público e o melhor empresário português.
Francisco Sarsfield Cabral, director entre 1997-1998
Um empresário
excepcional
Durante a minha
curta passagem pelo cargo de director do jornal "Público", em
1997-1998, tive ocasião de confirmar aquilo que já era então conhecido: Belmiro
de Azevedo, proprietário do jornal, não interferia minimamente na linha
editorial do "Público". Teria muitas formas de o fazer, directa ou
indirectamente. Mas recusava-se escrupulosamente a fazê-lo. O que, aliás, era e
é uma prova de inteligência: garantia, assim, a credibilidade do seu jornal.
Quando lhe
desagradava alguma notícia sobre uma das muitas empresas ou negócios do grupo
Sonae, por conter informação errónea ou incompleta, os administradores dessa
empresa enviavam uma carta ao jornal, expondo os seus pontos de vista.
Ou seja,
exactamente o que acontecia com empresas fora do grupo. E Belmiro nunca, que me
lembre, publicou no seu jornal qualquer discordância relativamente a um
comentário, a uma opinião.
Esta atitude é
rara. E não só em Portugal. Veja-se, por exemplo, o que faz Rupert Murdoch, o
magnata australiano que domina boa parte da comunicação social dos Estados
Unidos e da Grã-Bretanha.
Isto não
significa que Belmiro de Azevedo se desinteressasse da vida do
"Público". No universo Sonae o jornal era uma gota de água, que ainda
por cima não dava lucro (o que levava os gestores do grupo a não gostarem nada
de terem de gerir a empresa do "Público"). Belmiro era um gestor
rigoroso com negócios de grande valor ou com pequenos negócios.
Por isso, era
extremamente atento aos aspectos administrativos do jornal.
A verdade é que o
"Público" existe desde há 25 anos graças a Belmiro de Azevedo. Que
nunca se serviu do jornal para os seus negócios.
José Manuel Fernandes, director entre 1998-2009
Implacável... com
os erros de ortografia
Trabalhei com
Belmiro de Azevedo, com maior ou menor proximidade, ao longo de quase 20 anos. E
em circunstâncias muito diferentes, desde os tempos entusiasmados em que ele
tomando contacto com o projecto em construção que era do "Público",
aos tempos mais difíceis das diferentes reestruturações por que o jornal
passou.
Aprendi a vê-lo
como alguém directo e muito focado na necessidade de tornar o jornal um produto
rentável, capaz de ser duro e exigente, ao mesmo tempo que sempre deu total
liberdade editorial a quem nele trabalhava. Criticava com frontalidade quando
sentia que cometíamos erros – era, por exemplo, implacável com os erros de
ortografia ou com imprecisões sempre que se tratava de números ou contas – mas
nunca, nunca mesmo, deu qualquer recado sobre o sentido de um editorial ou uma
escolha para a manchete.
Por mais de uma
vez percebi que o fazia mesmo quando estava sob pressão, mesmo quando recebia
queixas de governantes ou autarcas, funcionando como uma espécie de barreira
que protegia a nossa independência e nos entregava toda a responsabilidade
pelas nossas escolhas. Suspeito mesmo que às vezes essas pressões vinham de
dentro do próprio grupo Sonae, de gestores que sentiam que esta ou aquela
notícia estava a dificultar a sua relação com os poderes públicos (e sabemos
como esses poderes são capazes de exercer todo o tipo de pressões).
Nesses muitos
anos de contacto, sobretudo no período em que fui director do jornal – de 1998 a 2009 – nem sempre
convergimos e houve alturas de discussões mais vivas. Mas, repito, sempre por
razões empresariais, nunca por divergências editoriais. Acho que esta é a maior
homenagem que lhe posso prestar nesta altura em que abandona a responsabilidade
de "chairman" da Sonae.
Bárbara Reis, directora desde 2009
O patrão que não
telefona
Hoje, a relação
do engenheiro Belmiro com o 'Público' é mais distante. Durante muitos anos,
esteve ligado de forma directa e na gestão e administração do jornal, e,
portanto, a tomar decisões fundamentais sobre a estratégia e os orçamentos. Mas
isso já não é verdade há muitos anos.
A nossa relação
forte, directa e diária é com a Cláudia Azevedo, filha do engenheiro Belmiro.
O que é
importante sobre o engenheiro Belmiro e é relevante para os directores com quem
se relacionou directamente nos primeiros anos do jornal, mas também é verdade
para nós porque essa herança e escola passou, é que sempre foi um accionista
que respeitou a independência do Público.
E isto é uma
coisa que nós aqui na redacção sabemos que é verdade. Sobretudo os que estamos
há muitos anos, e que crescemos como jornalistas dentro do "Público".
Crescemos com esta ideia e sempre ouvimos que o engenheiro Belmiro era um
accionista que não telefonava. Era um accionista que não se intrometia, não se
envolvia nas notícias.
Agora que sou
directora constato que é verdade. Não com o engenheiro Belmiro, mas com quem o
substituiu – primeiro, o Paulo Azevedo; depois, a Cláudia Azevedo. Os filhos, que
são os nossos patrões directos e com quem discutimos a estratégia e os nossos
orçamentos.
O engenheiro
Belmiro sempre respeitou a independência do Público. Um proprietário que não
telefona nem antes, nem durante, nem depois das noticias serem publicadas. Teve
a sabedoria e inteligência de reconhecer que o valor do "Público"
está na sua independência.
Há muitos anos
que digo que é o nosso grande mecenas e sem a Sonaecom a olhar para o
"Público" como um bem comum, através do trabalho que fazemos de jornalismo
independente, não existiríamos hoje.
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