quarta-feira, 10 de abril de 2019

Como toneladas de roupa não vendida acabam por gerar um grave problema ambiental



Como toneladas de roupa não vendida acabam por gerar um grave problema ambiental

SOCIEDADE 09.04.2019 às 15h46

Algumas indústrias de manufatura de roupa continuam a queimar os seus produtos excedentários de forma a este não perder o seu valor. Esta prática, como é fácil imaginar, cria inúmeros problemas ambientais
De forma a manter a exclusividade dos seus produtos, algumas das maiores marcas de manufatura de roupa queimam os seus stocks que valem milhões de euros. Em vez de as vender com descontos, as marcas preferem destruir as roupas para manter a ideia de que vale a pena pagar quantidades exorbitantes pelos seus produtos.

Um dos casos mais badalados foi o da Burberry, casa de moda britânica, especializada em roupas, acessórios, perfumes, óculos de sol e cosméticos de luxo, que, em 2017 incinerou um conjunto de artigos que valiam mais de 33 milhões de euros. Depois de uma acesa polémica nas redes sociais, a marca anunciou, em setembro de 2018, que ia deixar de o fazer.

Não se sabe ao certo quantos stocks por vender é que são queimados por ano, mas, dentro deste negócio, muitos acreditam que esta é uma prática legítima.

Citada pela BBC, Pammi Sinha professora associada em gestão de moda na Escola de Design da Universidade de Leeds acredita que “vender as roupas a preços cada vez mais baixos perpetua um problema.” Estas empresas tem como intuito produzir e vender produtos e as suas linhas de montagem são construídas com este modelo em mente. Não existe outra opção para os produtos não vendidos que não seja a sua destruição, defende.

Elizabeth Napier, da Georgia State University, afirma que em cada 100 mil milhões de roupas produzidas todos os anos, 92 milhões de toneladas tornam-se lixo.

Esta prática acarreta enormes consequências ambientais. As roupas queimadas libertam dióxido de carbono e outros gases de efeito estufa para a atmosfera, algo que contribui para o aquecimento global.

Um comité parlamentar do Reino Unido publicou em fevereiro um relatório sobre a sustentabilidade da indústria da moda onde analisava o seu impacto no ambiente: “Embora a incineração de stocks não vendido "recupere" o valor dos produtos, esta multiplica o impacto climático do produto, gerando mais emissões e poluentes no ar que podem prejudicar a saúde humana.”

Este relatório sugeria que o governo banisse qualquer tipo de destruição de stocks se estes pudessem ser reciclados.

“Dentro de uma grande marca, onde a sua reputação reside no design do produto, é possível criar uma equipa de design e produção para por isto em prática”, explicou Sinha.

Já existem algumas marcas que praticam esta reciclagem - o upcycling, também conhecido como reutilização criativa, é o processo de transformação produtos indesejados em novos materiais ou produtos de melhor qualidade ou com maior valor ambiental.

Outra opção viável, é a aposta em tecidos biodegradáveis, algo que evitaria a necessidade de queimar as roupas e que apelaria aos consumidores que se preocupam com o impacto ambiental do seu guarda roupa.

Contudo, ambas as especialistas concordam que para as mudanças surtirem efeito, estas medidas sustentáveis teriam de ser adotadas pelas maiores empresas do meio.

Segundo dados retirados do World Bank, analisados pela Fundação Ellen MacArthur, existe um problema de sobreprodução no mercado, uma vez que, apesar de a venda de roupa ter aumentado de uma forma constante, a sua utilização tem diminuído, mais ou menos, ao mesmo ritmo.

“Estamos a fornecer o mercado em excesso e necessitamos de repensar os nossos métodos”, disse Sinha.

Elizabeth Napier concorda com esta afirmação, e sugere que as empresas deviam apostar no estudo dos mercados, de forma a não produzir em excesso, e na criação de roupas que tenham uma maior durabilidade. “Isto irá fazer os clientes sentirem-se melhor com as suas compras.”

Ambas argumentam que para acabar com estas práticas, que prejudicam o ambiente, é necessário alterar a escala e os métodos de produção das empresas, mas também é preciso que esta mudança parta dos clientes: “Sem a exigência dos consumidores, nada irá mudar”, concluiu Napier.

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