domingo, 19 de janeiro de 2020

Rui Tavares: “Um partido pode viver sem uma pessoa, não pode viver sem princípios”


Congresso encerrado. E agora?
Agora, cabe à Assembleia do Livre tomar a decisão final sobre a retirada da confiança política à deputada. Para já, é preciso que o órgão reúna, o que não deverá acontecer esta semana. Depois, o processo depende dos passos que a Assembleia entender dar. Dado que no congresso deste fim de semana foram apontadas falhas processuais - nomeadamente pelo presidente do Conselho de Jurisdição, Ricardo Sá Fernandes - à resolução que precipitou a rutura, é previsível que a nova Assembleia faça, pelo menos, a diligência de voltar a ouvir Joacine Katar Moreira. Até porque, ao longo do congresso, a direção do partido reiterou que não queria que ficassem quaisquer dúvidas processuais.

Hoje, Pedro Mendonça referiu que o Grupo de Contacto acatará qualquer que seja a decisão da Assembleia, uma espécie de parlamento do partido. Recorde-se que, no sábado, o congresso prescindiu de tomar uma decisão sobre a retirada da confiança política à deputada, remetendo o desfecho para os órgãos eleitos este fim de semana. Uma decisão que foi aprovada por uma escassa diferença de dois votos.

Rui Tavares: “Um partido pode viver sem uma pessoa, não pode viver sem princípios”

As próximas semanas serão determinantes para concluir o processo de retirada de confiança política a Joacine Katar Moreira. A “vitória expressiva” da direcção e da recondução da assembleia deu uma nova força aos membros que querem cortar com a deputada.

Liliana Borges (texto) e Daniel Rocha (Fotografia) 20 de Janeiro de 2020, 7:34

Ainda que tenha sido adiada, a retirada de confiança política a Joacine Katar Moreira deverá mesmo ser inevitável. À saída do IX Congresso do Livre, Rui Tavares afirmou que aquilo que norteia o partido que ajudou a fundar “são as ideias de um partido democrático" e vinca que o Livre “pode viver sem uma pessoa ou outra pessoa, mas não pode viver sem os seus princípios”. Joacine Katar Moreira, que neste domingo não subiu à tribuna, diz que está disposta a fazer cedências, mas os dirigentes não acreditam em milagres. Agora é uma questão de semanas até o processo iniciado pela anterior assembleia ficar concluído.

Depois de um primeiro dia forte em palavras, o segundo e último dia do congresso foi um dia de números. Este domingo, os membros do Livre elegeram os novos órgãos que durante os próximos dois anos conduzirão o partido. O horizonte é longínquo, mas o maior desafio está já aí: a assembleia eleita irá ser responsável pela avaliação da proposta de retirada de confiança política a Joacine Katar Moreira. A data ainda não está marcada, mas já se fazem contas aos votos que determinarão a decisão.

Enquanto ainda se arrumam as cadeiras do congresso, discute-se aritmética política: dos 43 membros eleitos, quantos irão votar ao lado da direcção do partido? E quem dos novos membros irá querer manter a confiança política na primeira deputada parlamentar eleita pelo Livre?

Sabe-se que 27 membros são reconduzidos da anterior assembleia (que aprovou por unanimidade a resolução para retirada de confiança política) ou chegam da direcção e conselho de jurisdição, dois órgãos com um historial de conflitos com a deputada única eleita. O voto a favor da retirada de confiança política deverá estar garantido por parte dos membros reeleitos, sendo que alguns assumiram na declaração de candidatura a sua insatisfação com a sua representação parlamentar. Não obstante, Joacine Katar Moreira poderá ter alguma margem, graças aos novos membros eleitos, entre os quais se contam algumas (ainda que poucas) vozes defensoras da deputada.

Para cada conta que se faz, os dirigentes e membros reeleitos reforçam a sua mensagem política e de balanço do congresso com uma palavra: “continuidade”.

É que, ainda assim, são mais as caras que se mantêm do que aquelas que saem e é essa imagem de estabilidade que o Livre quer transmitir. A excepção da concordância foi para o conselho de jurisdição, que acabou por reunir menos consenso do que a direcção. À semelhança do grupo de contacto, o conselho de jurisdição tinha apenas uma lista a concorrer. Dos 109 votos reunidos, apenas 66 foram a favor da lista liderada por Ricardo Sá Fernandes, o homem a que no dia anterior tinham chamado o “salvador” da manhã. O advogado e membro do conselho de jurisdição foi a voz que se insurgiu contra a retirada de confiança política em pleno congresso e defendeu que a decisão fosse enviada para a assembleia a eleger.

Mas apesar de a decisão ter sido adiada - e de Joacine Katar Moreira afirmar que ainda acredita num entendimento -, o partido já deixou claro que está disposto a abdicar da representação parlamentar, por não considerar que a mensagem e trabalho do Livre estejam a ser eficazes. E nem o optimismo de Katar Moreira convence os mais crentes.

Eleitos com 95 votos a favor e 15 votos em branco, os novos dirigentes do Livre reconhecem que “os próximos dois anos serão difíceis”, mas lembram que “o Livre nunca teve uma vida fácil”. Dos 15 membros eleitos, sete transitam da actual direcção. É o caso de Carlos Teixeira, que substituiria  Katar Moreira no Parlamento, caso a deputada renunciasse – algo que esta  já garantiu que não irá fazer.

No discurso de vitória, Isabel Mendes Lopes lembrou que o Livre é um partido que renasceu “de várias mortes anunciadas” e ainda assim continuou, resiliente. Joacine Katar Moreira, presente na primeira fila do auditório, não bateu palmas, ao contrário da maioria dos congressistas. Mas também não ouviu agradecimentos.

O único momento em que a deputada atraiu os olhares mais curiosos foi quando, após o discurso de Rui Tavares, se levantou para se sentar ao lado do fundador do Livre. Rui Tavares ficou vermelho, não respondeu a Joacine, e sobre o momento disse apenas ao PÚBLICO que se tratou de uma “conversa privada, feita mais para a fotografia”. Cá fora, os dirigentes do Livre queixavam-se de uma frase “desagradável” que a deputada teria dito a Tavares.

À saída do congresso, Joacine Katar Moreira afirmou que, daqui para a frente, as partes vão necessitar de conversar e encontrar-se “imensamente” e “regularmente”, para decidir “o que é preciso alterar, o que se pode melhorar” e diz que está disposta a fazer “cedências”. Quais? Não concretiza. Mas para a nova direcção do partido, será preciso “um milagre” para o Livre não retirar a confiança política à deputada: “Sim, só um milagre”, respondeu Pedro Mendonça, um dos membros da antiga direcção que transita para a nova direcção eleita.

Também para Rui Tavares, os resultados das eleições mostram que o afastamento de Joacine do partido que o historiador e ex-eurodeputado ajudou a fundar é um cenário inevitável. “O partido decidiu dar confiança aos próximos órgãos para concluir o que vinha da assembleia anterior. A próxima assembleia saberá escolher o melhor caminho”, conclui. E vinca que já no passado o partido deu provas de ter “arcaboiço para esse trabalho de credibilidade permanente” e para reconstruir essa credibilidade “onde ela precisar de ser reconstruída”.



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