quarta-feira, 22 de janeiro de 2020

O hábito de cair quando a polícia está por perto



João Miguel Tavares
OPINIÃO
O hábito de cair quando a polícia está por perto

Um novo caso de violência policial desnecessária no concelho da Amadora, como se já não houvesse bastantes, e mais uma carrada de lenha para a fogueira do conflito racial lusitano.

23 de Janeiro de 2020, 6:05

A polícia está para certos cidadãos como o Outono para as folhas caducas – há uma tendência natural para caírem à sua aproximação. A polícia portuguesa nunca espanca ilegalmente ninguém. São os cidadãos que baqueiam, derrocam, desabam, despencam, esbarrondam-se, esborracham-se, estampam-se, estatelam-se, fenecem, fraquejam, tombam, tropeçam ou tropicam. A última cidadã a escorregar na presença de agentes policiais – os bombeiros da Amadora, que acorreram à esquadra da Venda Nova, garantem ter sido chamados por causa de “uma queda” – chama-se Cláudia Simões, tem nacionalidade portuguesa e angolana, e a cara inchada de hematomas porque umas vezes o chão bateu-lhe no lábio, outras vezes no sobrolho, outras ainda no nariz.

Cláudia Simões, claro está, diz que não foi o chão que lhe bateu, mas sim um polícia já dentro do carro, a caminho da esquadra. Há uma boa razão para acreditar nela: uma testemunha gravou em vídeo o polícia a manietá-la na rua de forma ríspida, mas ainda com os lábios, os sobrolhos e o nariz no sítio. Ora, custa acreditar que depois de a cidadã lusoangolana estar já prostrada no chão, e algemada, ela ainda assim tenha caído várias vezes, até ficar com a cara num trambolho. Donde, aquilo que temos como mais provável é o costume: um novo caso de violência policial desnecessária no concelho da Amadora, como se já não houvesse bastantes, e mais uma carrada de lenha para a fogueira do conflito racial lusitano, alimentado pela brutalidade e falta de preparação de membros da polícia.

Convém acrescentar isto: o que esteve na origem deste caso absurdo foi o facto de a filha de Cláudia Simões, de oito anos, ter viajado num autocarro sem o passe. Sendo que o passe, para quem tem menos de 13 anos, é gratuito; e sendo que se isso me tivesse acontecido a mim e a um filho meu numa paragem de autocarro das Avenidas Novas, dificilmente teria acabado o dia com as ventas na calçada portuguesa. De um passe esquecido em casa até um rosto moído na Reboleira foi um saltinho, feito de incompreensão, ausência de bom-senso e, sim, talvez racismo – uma cartada que tem sido usada e abusada tantas vezes, quer por brancos, quer por negros, que é criminoso ser alimentada pela polícia portuguesa, precisamente a instituição que, pela sua triste história, mais devia estar empenhada em combatê-la.

Eu percebo quase tudo. Percebo que a vida de polícia não é fácil. Percebo que os bairros problemáticos coloquem os agentes com os nervos em franja. Percebo que muitas vezes se sintam vítimas de injustiça. Percebo que há quem chame erradamente racismo a investidas contra grupos de delinquentes que por acaso têm uma determinada cor de pele. Percebo tudo isso. Não percebo que a ausência de um passe gratuito acabe com uma mulher espancada, com o costumeiro comunicado desculpabilizador da Direcção Nacional da PSP e com um post deste calibre do Sindicato Unificado da Polícia de Segurança Pública: “As melhoras ao colega e espero que as análises sejam todas negativas a doenças graves. Contudo, a defesa da cidadã está a começar a ser orquestrada pelo ódio-mor de brancos [Nota: suponho que seja uma referência a Mamadou Ba]. Está tudo bem, não se passa nada.” De facto, está tudo mal e passa-se alguma coisa de muito errado quando um sindicato com ligações ao Chega alimenta esta linguagem cavernícola. Há linhas de decência que não podem ser ultrapassadas, e convinha que a polícia metesse isso na cabeça, de uma vez por todas.

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