Um festival de “jabardices” e hipocrisia na Queima das Fitas
Querem beber e exibir-se, para outros ganharem dinheiro,
muito bem. Mas façam-no longe dos locais públicos e sem dinheiro público, e não
obriguem os contribuintes a pagar os custos dos excessos.
José Pacheco Pereira
11 de Maio de 2019, 5:15
Vale a pena ir ao Jornal de Notícias e ao PÚBLICO para ver
em detalhe o festival de “jabardices” que são as festas das Queimas das Fitas.
Neste caso é a do Porto, mas todas as outras, em particular a de Coimbra, são
iguais. A Queima das Fitas é um evento da praxe, está associado à mesma cultura
estudantil das “jabardices” da praxe.
Em vários casos ligados à praxe, nos últimos anos, houve de
tudo, violações, vandalismo, todos os abusos do catálogo, feridos e mortos. Não
é um exclusivo português. Casos muito semelhantes aos que agora geraram mais
este escândalo sazonal são comuns, por exemplo, nas “fraternidades” americanas.
No escândalo deste ano encontram-se os ingredientes
habituais: bebida, droga, sexo e vídeos. Há um outro ingrediente que devia ser
colocado a par destes: negócio. Na verdade circula muito dinheiro na praxe e na
Queima, e dirigentes académicos e os seus amigos ganham bastante nestes dias.
Há nepotismo, colaboração com empresas de bebidas, venda de publicidade, há mil
e um negócios que nunca foram escrutinados. Já para não falar dos negócios
ilegais como tráfico de droga que também tem aqui muitos fornecedores e muitos
clientes.
Negócio, bebida, droga, sexo e vídeos como pano de fundo das
“jabardices” naturais numa cultura do vazio e voyeurismo, que vai muito para
além dos estudantes. Tudo isto conta com uma enorme complacência da sociedade,
que só tem paralelo com a violência organizada das claques de futebol, trazidas
por uma operação militar-policial para os estádios como um bando de mastins que
precisam de açaimo. A sociedade, a começar pelos paizinhos e mãezinhas dos
meninos e das meninas, fecha os olhos para este festival de abusos da praxe,
que faz explodir qualquer lista de causas “politicamente correctas”.
O que é interessante é ver o habitual cortejo de
intelectuais que explicam as claques, os carnavais e as saturnálias como uma
natural catarse social, mas ao mesmo tempo se preocupam muito com a violência
de género, com o racismo, com o sexismo, etc. Meus caros amigos, tirem daí o
sentido: não há futebol sem violência, não há Queima nem praxe sem sexismo nem
violência de género. Está inscrito no ADN da coisa. Se querem acabar com um têm
que acabar com o outro. E convém não esquecer que ambos são um bom negócio.
Mas há pior e mais socialmente perverso. O pior é a
hipocrisia gigantesca que acompanha os eventos dos escândalos: este ano, a
circulação de uns vídeos na rede de raparigas alcoolizadas ou não a exibirem-se
sexualmente para ganhar uns shots numas barracas. As barracas estão lá desde o
início, as tabelas de actos por shot também, e duvido que, se não fossem os
vídeos – tão inevitáveis hoje como a lei da gravidade –, não haveria
escândalo. Houve por isso, diz pomposa a Federação Académica do Porto (FAP),
que não sabe que estas coisas acontecem no seu quintal, “atentados à dignidade
da pessoa humana”.
O comunicado da FAP e alguns comentários de especialistas
são exemplos desta gigantesca hipocrisia. Diz a FAP que encerrou
“temporariamente” três barracas por promoverem condutas que não são “os valores
que estão imputados à Queima das Fitas do Porto”. Deixem-me rir. A FAP depois
resvala, está aliás mais preocupada com os vídeos que lhe estragaram a festa do
que com os actos: "Depois de observar a captação de imagens de
comportamentos indevidos (na sua grande maioria até mesmo indignos)”, a FAP
decidiu ainda “proibir que tais situações continuem a acontecer” e decidiu que
“todas as barraquinhas que o fizerem serão devidamente sancionadas”.
E fez um acordo para haver um Ponto Lilás onde vão estar
pessoas de diferentes organizações, prontas a “prevenir situações de violência
sexual”, gerido por um conjunto de organizações muito típicas da galáxia
“politicamente correcta”: Kosmicare, o Sexism Free Night, Uni+, Eir Porto e
Associação Plano i. Isto chama-se fazer o mal e depois a caramunha, ou seja,
dar para os dois peditórios antagónicos ao mesmo tempo.
Se os actos do escândalo sazonal deste ano fossem
individuais – cada um faz o que quer desde que não incomode os outros –, não
vou rasgar as vestes da moral. Querem beber, f... e exibir-se, para outros
ganharem dinheiro, muito bem. Mas façam-no longe dos locais públicos e sem
dinheiro público, e não obriguem os contribuintes a pagar os custos dos
excessos.
Agora não me venham com a propaganda do “valor” deste tipo
de actividades colectivas, porque sendo colectivas são uma questão social,
económica, cultural e política. E aqui não está em causa qualquer moralismo,
mas a defesa de alguma sanidade pública que as democracias e a liberdade
precisam.
Colunista
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