COMENTÁRIO de OVOODOCORVO citando José Pacheco Pereira:
(…) “Uma parte importante da nossa esquerda radical, a das
“causas fracturantes” e “identitárias”, mesmo quando se presume de marxista,
abandonou há muito aspectos essenciais da interpretação marxista do mundo, em
particular a ideia central de que é a relação de exploração entre o capital e o
trabalho que define a forma actual da luta de classes.”
(…) “Resumindo de forma simplificada: a nação não conta, a
religião não conta, a origem social não conta, a condição social não conta, a
classe social conta cada vez menos, mas a raça, a cor, o sexo e o género contam
muito, quase tudo.”
(…) “Sendo a política de “identidades” uma forma de
reformismo, daí não vem nenhum mal ao mundo. Porém, tem um efeito perverso
cujos custos a esquerda ainda não percebeu que está a e vai pagar: é fazer
espelho com a outra política de “causas” da direita radical, os movimentos
antiaborto e anti-imigrantes, a islamofobia a favor da “civilização cristã”, a
mulher dona de casa, o anti-intelectualismo, a defesa dos valores “familiares”,
o lobby pró-armas nos EUA, ou “as meninas são de cor-de-rosa e os rapazes de
azul” dos Bolsonaros, os pró-tourada, os homofóbicos, etc. Acantonados nas suas
“causas”, cada uma reforça a outra, o SOS Racismo dá forças ao PNR e
vice-versa, e fora do “meio” destes confrontos, a nova direita “alt-right”
ganha sempre mais força, porque é capaz de transformar isto tudo num discurso
global através do populismo e a esquerda não.”
José Pacheco Pereira
“A esquerda “identitária” diz adeus a Marx”
Associações LGBTI em escolas? Depende muito
Não fui eu que mudei de sítio – foram as associações LGBT
que se radicalizaram, e com elas surgiram mil e uma modas, cada vez mais
estapafúrdias.
João Miguel Tavares
14 de Março de 2019, 6:52
Depende do quê?
Depende de sabermos exactamente o que lá vão fazer. A história a que me refiro
tem andado pelos jornais e pelas redes sociais: no âmbito da disciplina de
Educação para a Cidadania, uma escola básica do Barreiro decidiu oferecer a
estudantes do 6.º e do 8.º anos uma palestra organizada pela Rede Ex Aequo, com
o objectivo de “promover a igualdade de géneros” e “sensibilizar os alunos para
as diferentes orientações sexuais”.
A Rede Ex Aequo é uma associação LGBTI que tem como
objectivo criar (palavras suas) “uma rede de apoio, quebra de isolamento e
activismo para jovens lésbicas, gays, bissexuais, trans, intersexo e apoiantes
entre os 16 e os 30 anos”.
A controvérsia, como de costume, ocorreu parcialmente pelas
razões erradas: foi pedido aos pais 50 cêntimos pela inscrição de cada aluno,
valor esse que depois reverteu para a associação, de forma a apoiar as
deslocações dos palestrantes. Consta que no total recolheram 27 euros, e foi
esse pecúlio extraordinário que deu origem a indignações do tipo “ai, meu Deus,
que o nosso dinheiro está a ser desviado para associações LGBTI”. Essa parte da
história é obviamente ridícula.
Contudo, há uma parte da história que não é ridícula, e que
eu gostaria de discutir aqui. Ela prende-se com a pergunta do título deste
artigo: até que ponto as associações LGBTI portuguesas, no actual estado da
arte das políticas de identidade, devem ir dar palestras a escolas para miúdos
de 11 anos?
Vamos começar por aquilo que me parece consensual. Faz
sentido ajudar a combater nas escolas “o bullying homofóbico e transfóbico”,
como é objectivo da Rede Ex-Aequo? Claro que faz. Faz sentido apoiar jovens
cujo despertar sexual não passa pela atracção pelo sexo oposto e que podem ser
vítimas de discriminação? Claro que sim. Estas são matérias que miúdos de 11
anos já têm capacidade para compreender? Claro que têm. Então qual é o
problema? O problema está em saber qual é exactamente o âmbito de actuação da
Rede Ex-Aequo fora destas matérias que já fazem parte (felizmente) do consenso
social.
Regressem, por favor, à última frase do primeiro parágrafo e
releiam os objectivos da associação. “Rede de Apoio”? Parece-me impecável.
“Quebra de Isolamento”? Sem dúvida. “Activismo para jovens”? Travão a fundo!
Isso já não, obrigado. Doutrinar miúdos de 11 anos naquilo que é hoje o
“activismo” das associações LGBTI é algo que eu dispenso com grande fervor —
porque há muito que esse activismo deixou de se dedicar apenas à protecção do
direito à diferença (essa, sim, uma luta essencial), para se transformar numa
mescla de engenharia social e de tribalização identitária, de tal forma
ideologicamente carregada que uma escola pública não pode, nem deve, andar a
promovê-la.
Há 20 anos, a luta das associações LGBT era a minha luta.
Hoje em dia, boa parte dela já não é. E não fui que mudei de sítio — foram as
associações LGBT que se radicalizaram, e com elas surgiram mil e uma modas,
cada vez mais estapafúrdias. A Rede Ex-Aequo não se limita a combater “o
bullying homofóbico e transfóbico”. É da facção (o vídeo de apresentação é
muito esclarecedor quanto a isso) que nos convida a dizer “oradores e
oradoras”, que garante que “juntas e juntos fazemos a diferença”, e que quer
esclarecer os nossos filhos sobre o verdadeiro significado da palavra
“heteronormatividade”. E isso, caras associações LGBTI, é 100% ideologia. Pode
ser defendido e promovido? Com certeza. Mas não em escolas básicas.
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