Parabéns,
ó Barroso!
FRANCISCO TEIXEIRA
DA MOTA 15/07/2016 – PÚBLICO
Imagem de
OVOODOCORVO
Venha
de lá essa Torre e Espada…
Desculpa tratar-te
por tu mas não resisto. É verdade que não te conheço pessoalmente
mas, para mim, és um herói como os jogadores da selecção a quem
estamos autorizados a tratar por tu pela intimidade que com eles
fomos criando diariamente na sua odisseia por terras de França.
Odisseia que não é
superior à tua. Para mim, já és, com toda a justiça, uma figura
mítica como um Vasco da Gama ou um Afonso de Albuquerque que povoam
o nosso imaginário nacional. E só os invejosos poderão achar que
estou a exagerar.
Também tu deste –
quase ia escrevendo “destes” na emoção com que te escrevo... –
novos mundos ao mundo enquanto levantavas bem alto o nome de Portugal
por essas terras da estranja fora. Esta lança que cravaste no novo
continente ao conseguires o lugar de chairman (!) e consultor no
maior banco de investimento norte-americano só pode ter uma
classificação: sublime!
As reacções dos
invejosos de todo o mundo – sobretudo franceses ressabiados com a
vitória no Stade de France dos teus companheiros no Olimpo – só
vêm sublinhar o teu admirável feito ao saltar do topo da Europa
para um dos topos da América. Esses miseráveis Moscovicis, Désires
e outros a criticarem-te e a falarem de falta de ética devem estar a
ver-se ao espelho.
Só quem não
conhecesse a fibra de que és feito poderá ter ficado surpreendido
com este teu acrobático salto. Eu lembro-me bem que quando estavas
cá no topo nacional também soubeste dar o salto para Bruxelas, com
evidente sacrifício pessoal mas em nome de uma nobre missão:
defender os interesses nacionais em terras bárbaras. Com esse teu
salto, homenageaste, de uma forma inesquecível, a epopeia dos
portugueses que também iam a salto para França.
Depois, enquanto
estiveste nesse teu exílio nunca se te ouviu um queixume, uma
palavra de desagrado. Lembro-me bem que nesse teu esforço de bem
servir, quando foste obrigado a ir passar umas curtas férias à
Grécia, soubeste fazê-lo de forma a não onerar o orçamento da
Comissão Europeia. São pequenos pormenores a que os comentadores,
sempre prontos a criticar, não sabem dar valor mas que definem uma
personalidade, um carácter.
Quero dizer-te que
tenho acompanhado a tua brilhante carreira política sempre com o
coração nas mãos e com a certeza que procuras sempre servir o teu
país da melhor maneira. És aquilo que se chama um “político de
mão cheia”, uma figura ímpar no panorama nacional e
internacional.
A recente publicação
no Reino Unido do relatório do Irak Inquiry com conclusões
devastadoras quanto à forma como foi decidida a invasão do Iraque
enganando tudo e todos numa sinistra cruzada contra os infiéis,
infelizmente, não dá o devido valor à tua participação nessa –
mais uma – odisseia da tua vida. Sim, lamentavelmente, neste
relatório, na parte que respeita à histórica cimeira dos Açores
em que o teu papel – como todos nós vimos – foi determinante, o
teu nome nem sequer é referido!
A histórica Cimeira
dos Açores em 16 de Março de 2003, para o tal Sir John Chilcot
autor deste mísero relatório, só contou com a presença do senhor
Blair, do presidente Bush e do primeiro-ministro Aznar. Basta este
facto para se perceber a falta de fiabilidade e profundidade deste
relatório. Mas – e isso é o que importa – alguém ouviu de ti
uma queixa? Uma reclamação? Exigiste o teu lugar ao sol junto dos
responsáveis? Não!
Soubeste – como
sempre – calar o que certamente te ia na alma, mostrando, uma vez
mais a tua resiliência. Veio este relatório, mais uma vez,
reafirmar a inexistência de armas de destruição maciça no Iraque.
É por demais evidente que esse tal Sir nunca te ouviu, numa evidente
manifestação de parcialidade. Eu não me esqueço que, na altura da
invasão, declaraste publicamente no nosso país que tinhas visto as
provas da existência dessas armas que justificavam aos olhos da
opinião pública a invasão. Enfim, esse tal de Chilcot fica bem na
companhia dos Moscovicis e outros que tais.
A terminar e quanto
a esta tua ida para a Goldman Sachs – um nome gravado a letras de
ouro nesta difícil construção da Europa – não posso deixar de
lembrar as tuas lapidares palavras: “É-se criticado por ter cão e
por não ter. Se se fica na vida política é porque se vive à conta
do Estado, se se vai para a vida privada é porque se está a
aproveitar a experiência adquirida na política”. Brilhante e
arrasador, como sempre. Ou ainda, nas palavras de Morais Sarmento, um
comentador insuspeito: "Ele vai desempenhar um lugar para o qual
nunca um português foi nem é provável que seja tão brevemente
convidado. Não é um lugar de representação, um alto-comissário
para os refugiados”.
Sim, tu não és um
palhaço pobre a tratar das misérias dos desgraçados que ainda
sofrem as consequências da invasão do Iraque. Como tu próprio
disseste: “Podia ter aceitado ocupações mais tranquilas, mas
gosto de posições de desafio”. Ah, ganda Durão Barroso, és tu e
a Goldman Sachs!
Advogado,
francisco@teixeiradamota.pt

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