É a vitória de
Maria Antonieta: “Não há pão? Comam acordos históricos.”
JOÃO MIGUEL TAVARES
OPINIÃO
Um
acordo reaccionário
JOÃO MIGUEL TAVARES
10/11/2015 - PÚBLICO
Sem
ironias, António Costa revelou-se um negociador admirável, de uma
estirpe que o país não conhecia desde o professor Oliveira Salazar.
Depois de António
Costa ter enganado os eleitores (com uma coligação de que não se
sabia), ter enganado o PSD e o CDS (com reuniões que não queria) e
ter enganado o presidente da República (com um acordo que não
havia), resta uma única esperança para Portugal: que António Costa
prossiga a sua admirável senda de aldrabice política e consiga no
futuro próximo enganar igualmente o Bloco de Esquerda e o Partido
Comunista. As intrujices de Costa nunca deveriam ter chegado tão
longe, mas já que chegaram, é rezar para que continuem, na
expectativa patriótica de que quem vira quatro vezes à esquerda
acabe por regressar à direcção certa.
Sem ironias, António
Costa revelou-se um negociador admirável, de uma estirpe que o país
não conhecia desde o professor Oliveira Salazar. Tal como a formiga
de José Afonso, Costa furou, furou, furou sem parar, transformando
uma derrota por muitos numa sucessão de vitórias por poucochinho. E
a verdade é que neste momento, apoiado num acordo com mais buracos
do que um queijo suíço, ele já conseguiu içar meia perna para o
cadeirão de São Bento, perante a comoção generalizada da esquerda
lusitana.
Conta-se que Manuel
Alegre, recordando a sua infância em Argel, terá mesmo derramado
uma lágrima sobre o documento, enquanto abraçava espiritualmente
Jerónimo de Sousa. O mesmo Jerónimo de Sousa que declarou acerca de
tão histórico acordo — o tal que nem orçamentos de Estado dá
garantias de aprovar — que ele foi aceite por “unanimidade
informal”, um género de unanimidade que o PCP costuma obter sempre
que não leva propostas a votos. Parece que é isto a “solução
estável, coerente e credível” que o presidente da República
exigiu.
Receio bem que a
esquerda portuguesa não tenha cura: ela irá sempre preferir um
soneto a um quadro Excel, e nunca acreditará que a política não é
um dos ramos da literatura. O entusiasmo juvenil que por aí anda,
após António Costa ter ido à televisão apresentar um novo
programa socialista corrigido com 70 medidas que variam entre o
aumento da despesa e a diminuição da receita, não pára de me
espantar. Segundo os socialistas, o país está péssimo e a
austeridade da direita foi uma tragédia. E no entanto, tão
horroroso horror foi suficientemente eficaz para que o PS tenha agora
dinheiro para acomodar no seu programa o faustoso pagamento do apoio
do Bloco e do PCP.
Após vários flic
flacs e mortais encarpados, chegamos a isto: o actual programa da
coligação PSD-CDS tem mais medidas de Mário Centeno do que o
próprio programa do PS. Mas quem se chateia com isso? Tirando
Francisco Assis, Sérgio Sousa Pinto e poucos mais, o Largo do Rato
vive dias felicíssimos. É a vitória de Maria Antonieta: “Não há
pão? Comam acordos históricos.” Nada ali está quantificado, não
há qualquer visão de fundo para a economia portuguesa, nem um só
micróbio reformista sobreviveu. Sobrou apenas o objectivo de travar
a austeridade e acabar com as privatizações. É uma pura coligação
negativa — mas, ainda assim, a esquerda canta e dança, vaporosa e
feliz.
Oh, sim, este é um
acordo absolutamente novo. Mas é um acordo absolutamente novo para
nos manter num Portugal absolutamente velho. Se António Costa
acreditar naquilo que está a assinar, estamos tramados. Para
utilizar uma linguagem que a esquerda conhece bem, este é o
protótipo de um acordo reaccionário — uma triste união de forças
conservadoras que tem como único objectivo manter um status quo que
o país já não consegue pagar.
Jornalista
(jmtavares@outlook.com)

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