“E nem o excelente discurso
de Carlos César conseguiu fazer esquecer que deveria ter sido Costa
a dar a cara.”
ÁUREA SAMPAIO
Ainda
ninguém ganhou (ou perdeu) nada
ÁUREA SAMPAIO
09/11/2015 - PÚBLICO
Aparentemente, a
direita parece ter já interiorizado a inevitabilidade do chumbo do
seu programa de Governo, que hoje será votado na Assembleia da
República. Pelo menos foi essa a ideia que o recém-empossado
primeiro-ministro quis fazer crer ao apresentar-se na Assembleia da
República em pose institucional e com um discurso muito menos
radical do que muitos dos seus acólitos vaticinavam ou, no mínimo,
desejavam. Isto acontece porque Passos Coelho acha que o facto de o
seu Governo cair hoje, não significa que a esquerda tenha ganho esta
guerra e, muito menos, que esta história termine aqui. Ele nunca o
disse, mas a ideia foi sinalizada por Teresa Leal Coelho, deputada,
vice-presidente do PSD e uma figura muito próxima de Passos, ao
invocar, durante o debate, o relatório que ontem mesmo o Commerzbank
enviara aos seus clientes sob o título “Portugal. A próxima
Grécia?” Este gigante da banca alemã tem cerca de onze milhões
de clientes privados e um milhão de clientes corporativos em todo o
mundo, que assim foram alertados para “a mudança radical da
política económica” no nosso país. Sim, Passos tem a certeza que
muita água correrá debaixo das pontes antes de um Governo
minoritário do PS apoiado pelo PCP e pelo Bloco de Esquerda vir a
ser empossado. E tem mesmo muitas dúvidas de que tal possa vir a
acontecer. Ajuda o facto de a “troika de esquerda”, como se lhe
referiu o líder da bancada parlamentar do CDS, não ser propriamente
uma referência de coesão e unidade. Passos não se cansou de o
assinalar, explorando as divisões e as contradições internas dos
três partidos quer quando respondeu às interpelações de Catarina
Martins e Jerónimo de Sousa, quer quando questionou o deputado
socialista Paulo Trigo Pereira quanto às diversas posições sobre a
reestruturação da dívida existentes na bancada do PS. Ajuda o
facto de o Presidente da República não ter pressa, apostando agora
em auscultar personalidades sobre o momento político, desprezando a
convocação de um Conselho de Estado. Ajudam todas as pressões
internas e externas, que o arrastar do tempo neste processo de
formação de um novo Governo vão desencadear. Nas próximas
semanas, é de esperar que surjam mais relatórios como o do
Commersbank, mais recados sobre o draft do Orçamento, mais
afundanços da Bolsa e subida das taxas de juro da dívida. A
estabilidade é um factor essencial da decisão política e a falta
dela pode ser um elemento justificativo da opção final de Cavaco
Silva.
Ontem, não se
assistiu ao tão esperado duelo entre Passos e António Costa. O
líder do PS não quis colocar-se no papel de primeira figura da
oposição, ele que se sente o verdadeiro intérprete da vontade da
maioria dos portugueses nas últimas eleições. Fez mal ao não
querer discutir essa legitimidade, pois esse continua a ser um ponto
fundamental da argumentação da direita. Esteve no centro de todos
os discursos. Luís Montenegro, Nuno Magalhães, Telmo Correia,
Carlos Abreu Amorim, Cecília Meireles… referiram o tema até à
exaustão. E nem o excelente discurso de Carlos César conseguiu
fazer esquecer que deveria ter sido Costa a dar a cara.
A esquerda, de
resto, não valorizou demasiado o debate dando assim corpo à ideia
de que “é uma perda de tempo”. Catarina Martins e Jerónimo de
Sousa cumpriram os mínimos e o PS deu tempo de antena aos “jovens
turcos”. Passos entendeu logo a estratégia lançando farpas a
Costa, mas recompôs-se rapidamente. Ficou ontem muito claro que nada
está definitivamente ganho ou perdido para nenhuma das partes.

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