Porta
sim, porta não, a Baixa está entregue aos turistas
MARISA SOARES
08/11/2015 - PÚBLICO
A Câmara de Lisboa
não disponibiliza dados sobre a dimensão da oferta hoteleira na
Baixa mas basta um passeio pelo local e uma pesquisa online para
encontrar mais de 60 hotéis e alojamentos locais. É preciso
repensar esta “Disneylândia de hotéis”, diz uma deputada
municipal do PSD
As placas
multiplicam-se nas portas dos prédios. Anunciam hotéis, hostels e
pensões em edifícios reabilitados, que se destacam no meio de
outros devolutos e em mau estado. Mesmo onde não há placas, não
faltam apartamentos para os turistas arrendarem online por curtos
períodos. A Baixa Pombalina é uma das zonas de Lisboa onde a oferta
hoteleira disparou nos últimos anos, alavancada pela procura que não
pára de aumentar e de gerar receitas. Será esta “febre
hoteleira”, como lhe chamou o ex-presidente da junta daquela zona
já em 2013, o sintoma de uma doença incurável?
A avaliar pelas
palavras do presidente da Câmara, Fernando Medina, a “febre” não
pára de subir. Segundo revelou há dias numa reunião da Assembleia
Municipal, desde o início do ano deram entrada 113 processos de
licenciamento para reabilitação de edificado na Baixa, “o registo
mais alto dos últimos anos”. “Teremos certamente em 2015 o
melhor ano de sempre do ponto de vista do turismo na cidade, no que
será o 5.º ano consecutivo. Isto faz de Lisboa uma cidade ímpar à
escala internacional”, sublinhou, lembrando que já em 2014 a
capital atingiu valores recorde em termos de dormidas.
Medina não explicou
a que uso se destinam aqueles 113 processos mas muitos dirão
respeito a novas unidades de alojamento. Vão juntar-se às mais de
60 existentes ou em construção só na zona delimitada pelo Terreiro
do Paço, a Rua do Ouro, as praças do Rossio e da Figueira, e a Rua
da Madalena, uma área de cerca de 16 hectares. O número, que
resulta de uma contagem do PÚBLICO feita no local e numa pesquisa
online, peca por defeito no que toca aos alojamentos locais (AL), uma
vez que a nova lei que regula estas unidades (em vigor desde 27 de
Novembro de 2014) apenas exige a afixação, à entrada dos prédios,
de uma placa identificativa no caso de estabelecimentos de
hospedagem, ou seja, constituídos por quartos (como os hostels e as
pensões). Os apartamentos, por exemplo, não têm de estar
identificados no exterior. Mas basta uma pesquisa em sites como o
AirBnb ou o Homeway para perceber que não falta oferta naquela zona
histórica.
O PÚBLICO quis
saber exactamente quantos hotéis e AL existem na Baixa Pombalina e a
quantas camas correspondem, quantos projectos turísticos e
destinados a habitação foram aprovados nos últimos tempos. Mas nem
a Câmara de Lisboa nem a Associação de Turismo de Lisboa revelam
dados. Um mês depois de receber as perguntas, a autarquia respondeu
apenas que “está em elaboração um levantamento exaustivo no
âmbito do estudo sobre o impacte do turismo na cidade, cujas
conclusões serão divulgadas oportunamente”.
Margarida Saavedra,
deputada do PSD na Assembleia Municipal de Lisboa (AML), tentou saber
o mesmo. Nesta terça-feira vai repetir as perguntas pela terceira
vez, na reunião deste organismo. "Estou muito preocupada.
Demorámos muitos anos a repovoar a Baixa. O turismo é óptimo para
a cidade mas não pode alterar as condições das pessoas que vivem
lá." A deputada considera que o "licenciamento selvático"
de unidades hoteleiras está a transformar a Baixa Pombalina numa
"Disneylândia de hotéis", onde os poucos moradores -
idosos que sempre viveram ali e casais jovens com filhos que estão a
apostar no centro da cidade - estão a ser "escorraçados".
Lisboa é outra
Barcelona?
Em Julho, o vereador
do Urbanismo, Manuel Salgado, afirmou que o tal estudo estaria pronto
até ao final do ano. Embora tenha reconhecido que existe “um
problema por concentração excessiva” de alojamentos turísticos
em áreas da cidade como a Baixa-Chiado e os bairros históricos,
Salgado ressalvou que a capital, com cerca de 9 milhões de dormidas
por ano, ainda não está ao nível da espanhola Barcelona, onde a
pressão turística levou a presidente da câmara a suspender durante
um ano a concessão de licenças para a construção de hotéis.
João Seixas,
professor de geografia na Universidade Nova de Lisboa, não concorda:
“Os números não podem ser vistos apenas em termos de volume.” O
investigador, doutorado em Geografia Urbana pela Universidade
Autónoma de Barcelona, lembra que os 18 milhões de dormidas
registados na capital da Catalunha têm impacto num município com
1,5 milhões de pessoas, enquanto que os 9 milhões de Lisboa vão
quase todos para a Baixa, Belém, Alfama, Castelo, além de Cascais e
Sintra, onde no total vivem cerca de 500 mil pessoas. “Conclusão:
a pressão em Lisboa é maior do que em Barcelona, sobretudo em
determinadas zonas”, afirma, sublinhando que “é preciso dizer
isto mas sem alarmismos”. Até porque esta a “pressão profunda”
corresponde um “impacto económico profundo”.
Para Seixas, que é
também consultor da autarquia, seria “completamente ingénuo”
imaginar Lisboa sem turistas mas também não se pode deixar morrer
as “características únicas” da cidade, que compara a um terreno
onde se produzem vinhos singulares. “Não podemos deixar que o
terroir morra por excesso de investimento”. É preciso pôr todas
as questões em cima da mesa. “A quem chegam os benefícios do
turismo, e quais são? Até que ponto a actividade turística altera
a vida urbana na Baixa?”
Por um lado, é
incontornável o papel do turismo na reabilitação do edificado.
Basta caminhar por entre as ruas em quadrícula da Baixa para ver que
os únicos prédios recuperados são onde funcionam hotéis e outros
alojamentos turísticos. Muitos têm mesmo a fachada pintada de cores
distintas, como vermelho ou azul, que sobressaem entre prédios com
tinta descascada e janelas partidas.
Por outro lado, de
cada vez que nasce um hotel, é quase certo que morre (pelo menos)
uma loja antiga, das que foram sobrevivendo ao tempo, à crise e à
nova lei das rendas. E assim o comércio tradicional vai sendo
substituído por cadeias internacionais de restauração ou por lojas
com produtos que interessam aos turistas, mas não a quem habita na
zona. Seixas atribui um nome ao fenómeno: “gentrificação
comercial”.
A autarquia aprovou
em Fevereiro o programa “Lojas com História” para proteger e
promover os estabelecimentos mais antigos. “É um programa
positivo, mas de contenção”, lamenta Seixas, defendendo a aposta
em “políticas de antecipação”, que podem ser financiadas pelo
turismo, para melhorar a vida quotidiana dos moradores: criação de
jardins-de-infância, de locais de apoio para idosos, melhor
iluminação, estacionamento, mais segurança, políticas de apoio à
habitação. “É preciso que a reabilitação urbana seja feita
também para a habitação permanente.”
Alojamentos sem
controlo
Mais difícil do que
impor limites à oferta hoteleira é controlar o surgimento de AL,
dependente apenas de um registo online e de uma mera comunicação
prévia às câmaras municipais. Em Lisboa os números impressionam:
de 1 de Janeiro de 2010 até 26 de Novembro de 2014, estavam
registados 741 AL; desde 27 de Novembro de 2014 até à passada
quinta-feira foram registados 2380. A Associação do Alojamento
Local em Portugal, recém-criada, acredita que muitos dos AL
registados neste último ano já deveriam existir mas operavam sem
estar registados. E que alguns permanecem na ilegalidade “por
desconhecimento” ou para evitar burocracias.
Neste capítulo,
João Seixas é peremptório. “Falta fiscalização.” Os números
falam por si: desde que a nova lei entrou em vigor, a Autoridade de
Segurança Alimentar e Económica (ASAE), responsável por verificar
se a exploração dos AL cumpre as regras, fiscalizou 221 operadores
em todo o país, dos quais 27 no concelho de Lisboa - números
fornecidos ao PÚBLICO no final de Outubro, iguais aos que aquela
entidade forneceu ao Observador em Agosto. Foram instaurados 48
processos de contraordenação no país inteiro, sendo as principais
infracções a falta de afixação da placa no exterior dos
edifícios, a não realização da comunicação prévia, e a falta
de registo.
A lei determina que
as câmaras municipais façam uma vistoria ao AL 30 dias após a
apresentação da comunicação prévia, para verificar se os dados
fornecidos pelo proprietário correspondem à realidade, e cancelar o
registo caso encontre desconformidades. Porém, até hoje, a Câmara
de Lisboa não fez qualquer vistoria e os processos têm estado a ser
arquivados.
Para o presidente da
Associação de Moradores da Baixa Pombalina, António Rosado, o
problema deste boom de quartos, moradias e apartamentos para turistas
é a mistura de usos no mesmo prédio. Existe “um grande potencial
de conflitos” entre os residentes permanentes e os turistas que
estão só de passagem, sobretudo quando os proprietários dos AL não
vivem no edifício (muitas vezes nem no país), alerta o
representante, citando casos de pessoas que abandonaram a zona para
fugir do ruído e de outros abusos.
O presidente da
Junta de Freguesia de Santa Maria Maior, que abrange a Baixa
Pombalina, considera que a via-verde do licenciamento de AL está a
criar uma “situação insuportável”. “Fico preocupado porque a
certa altura não temos capacidade de resposta para tantos
estabelecimentos deste género”, diz Miguel Coelho, alertando para
uma “pressão muito grande sobre os serviços de higiene urbana”.
Embora reconheça
que o turismo foi “a mola dinamizadora da recuperação da Baixa”,
o autarca socialista pede mais regras e defende a obrigatoriedade de
fazer uma consulta prévia às autarquias. Ou então a exigência de
uma autorização do condomínio — uma medida proposta pela
Associação da Hotelaria de Portugal ao Governo antes da finalização
da nova lei, mas que não avançou.
Margarida Saavedra
teme o pior: "Se este descontrolo continuar, quando as pessoas
começarem a sair vão passar muitos anos até que regressem."
Bye,
bye Lisboa!
ANTÓNIO SÉRGIO
ROSA DE CARVALHO 13/09/2015 - PÚBLICO
A
Câmara de Lisboa abdicou da sua responsabilidade planeadora e
reguladora, abrindo a caixa de pandora.
Em 1990 Barcelona
com 1,5 milhões de habitantes atraiu 1,7 milhões de Turistas. Em
2014 Barcelona recebeu 7,5 milhões de Turistas. Rendimento anual
através do Turismo atingiu os 12 mil milhões de euros.
Nas Ramblas, em cada
10 transeuntes, 9 são turistas. 1991: 23,7191991 dormidas; 2003:
37,224 dormidas; 2013: 69,128 dormidas.
Assistiu-se assim, à
tranformação de toda a cidade num Parque Temático Turístico e à
redução de todas as actividades a uma única, omnipresente e
obsessiva Monocultura. O Turismo.
Todo e qualquer
sentido do Viver e Habitar quotidiano foi dominado e reduzido à
erosão permanente do visitar, do residir temporário, do permanente
happening nocturno e da festa contínua.
Ao permitir este
consumir de forma erosiva, predadora e esgotante, de todas as
características que, precisamente, constituíram o atractivo e o
motivo da vinda e, originalmente, o apelo de vísita, Barcelona cada
vez mais, e paradoxalmente, foi transformada num local onde Turistas
apenas encontram outros Turistas. Uma plataforma globalizada,
esvaziada dos seus conteúdos, dos seus moradores e autenticidade
original.
Tudo isto levou a
uma crescente revolta local, com movimentos cívicos e crescentes
manifestações de rua, culminando este processo com a eleição de
Ada Colau para presidir o Município.
A primeira medida de
Colau foi instalar uma moratória durante 1 ano, de todo o
licenciamento para novos projectos turísticos, incluindo hóteis,
hostels, reconversões para alojamentos temporários, etc.
Levou também à
produção do já famoso Documentário “Bye Bye Barcelona”, no
qual, todas estas situações e desafios são ilustrados.
Entretanto, Colau
entrou em confronto directo com a airbnb e a Booking.com, exigindo
destas organizações especialistas em estadias temporárias, a
relação completa das moradas e registos de ofertas dos seus sites.
A todos os endereços
ilegais serão impostas multas de 15.000 a 90.000 euros, oferecendo
Colau como alternativa ao pagamento das multas pelos proprietários
destes alojamentos, a disponibilização pelos mesmos, destas moradas
durante três anos, como habitaçào social, para os residentes
locais.
A recusa das
organizações referidas de disponibilizar as informações exigidas,
poderá levar à proibição de acesso a estes sites especializados
em oferta de alojamentos temporários, em todo o território da
Catalunha.
Alfama recebeu
recentemente, a visita do Secretário de Estado do Turismo e do
Ministro da Economia, que triunfalmente e com um distanciamento
“blasé” em relação a um possível papel regulador,
equilibrador, planeador, recusaram qualquer reflexão ou dúvida
quanto ao crescimento avassalador da oferta e transformação de
todas as residências, em alojamentos temporários, sem qualquer tipo
de regulamento ou limites, dedicados ao Turismo.
Nesta irrealista e
irresponsável atitude caracterizada por um “laissez faire, laisser
aller” in extremis, até criticaram uma tímida e tardia
preocupação, formulada por um dos grandes responsáveis por esta
ausência de gestão e planeamento, Manuel Salgado.
Com efeito, Manuel
Salgado ao anunciar em 2008 “A Baixa nunca será um bairro
residencial” e ao propor exclusivamente um investimento na
hotelaria, residências universitárias e alojamentos de curta e
média permanência, entregando a dinâmica do investimento
únicamente às exigências dos “mercados”, abdicou da sua
responsabilidade planeadora e reguladora, abrindo a caixa de pandora.
No início do
processo, antes da crise e respectiva transformação, motivada pela
mesma crise, da cidade num gigantesco negócio de estadias
temporárias, e acima de tudo, do exôdo maciço de toda a juventude
Portuguesa, estes, naturalmente os potenciais habitantes de uma Baixa
ainda vazia , ainda teria sido possível planear / estabelecer um
equilíbrio.
Assim também, a
possível inserção da totalidade da Baixa num regulamento de rigor
Patrimonial determinado pela Unesco não convinha à liberdade de
manobra de intervenção e licenciamento de Manuel Salgado, pois iria
impedir a sua política de “fachadismo” e de destruição
sistemática dos Interiores Pombalinos pelos “investidores”.
Agora,
dramaticamente é tarde, e provavelmente de forma irreversível
Manuel Salgado e os dois ilustres visitantes de Alfama vão acabar
perversamente por “ter razão” na sua irresponsável atitude e
ausência de visão.
Entretanto,
brevemente, em frente a Alfama vai surgir o novo terminal de
Cruzeiros, aumentando o “potencial” e alargando, através das
respectivas intervenções e arranjos da envolvente incluindo
possivelmente a desejada desactivação da estação de Santa
Apolónia, a plataforma da Monocultura.
Bye Bye Lisboa!
Historiador de
Arquitectura


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