Laudato
Si. Nova encíclica do Papa Francisco declara guerra às
multinacionais
Chama-se
“Laudato si, sobre o cuidado da Terra” e é a primeira encíclica
da Igreja sobre o Ambiente.
ROSA RAMOS
15/06/2015 / JORNAL
I online
É a primeira
encíclica “verde” da história da Igreja e a segunda de
Francisco. O texto de “Laudato si, sobre o cuidado da Terra” é
apresentado quinta-feira à tarde e promete polémica pouco meses
antes do arranque da Conferência do Clima 2015, marcada para Paris e
onde serão debatidas as alterações climáticas e o fracasso do
protocolo de Quioto.
No documento,
segundo têm adiantado fontes do Vaticano à imprensa internacional,
o Papa tece críticas duras ao “capitalismo selvagem” e às
empresas multinacionais – apelidadas de “predadoras” do planeta
que enriquecem “à custa do aumento do fosso entre ricos e pobres”.
A encíclica, publicada em seis línguas, aborda também as
“injustiças” na distribuição de recursos, a fome, o
desperdício de alimentos, a exploração de recursos naturais em
continentes como a África, o aquecimento global, a desflorestação
ou a poluição. O “Vatican Insider” adianta mesmo que o Papa
deverá pedir aos governos que se empenhem nos problemas das
alterações climáticas. Ontem, a seguir à oração do Angelus,
Francisco falou da publicação da encíclica: admitiu que o texto
será “uma grande sacudidela” e uma chamada de atenção para a
“degradação ambiental e a recuperação dos territórios”.
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uma #carta aos bispos e aos Homens “de boa vontade”
“Laudato Si” –
o nome remete para a primeira frase do “Cântico das Criaturas”
de São Francisco de Assis – será assim, a primeira encíclica
totalmente dedica à ecologia, apesar de João Paulo II e Bento XVI
terem abordado o tema. O Papa polaco insistiu bastante, no início da
década de 1990, na degradação da camada do ozono e o Papa emérito
chegou a ser apelidado de “Papa verde” devido às referências
constantes à sustentabilidade e aos avisos deixados aos líderes
mundiais sobre as alterações climáticas. Em 2013, Bento XVI
publicou o livro “Pensamentos sobre o Ambiente”, em que defende o
direito de todos os seres humanos à alimentação e aos recursos
naturais.
a natureza “não
perdoa” Francisco não deixou cair o assunto tem repetido, em
vários discursos, uma frase que, conta, lhe terá sido dita por um
velho agricultor: “Deus perdoa sempre e os homens às vezes, mas a
natureza nunca perdoa”. Nos últimos dois anos, o Papa sublinhou a
importância de cuidar da Terra – que, defende, “não é um
legado dos nossos pais, mas um empréstimo dos nossos filhos”. E a
insistência na importância da relação do ser humano com o
ambiente natural será também evidente na encíclica. As mesmas
fontes do Vaticano adiantam que a Ecologia Humana terá um destaque
importante no texto. O Papa Francisco tem defendido, também na linha
de Bento XVI, que a crise não é só económica, mas sobretudo
ética: a vida humana, defende o Papa, deixou de ser o centro das
sociedades, dando lugar ao dinheiro. E essa crise estende-se também
à relação com a natureza, numa “sociedade que tende, cada vez
mais, a descartar bens que ainda podem ser utilizados e entregues a
quem passa necessidades”.
Encíclica ecuménica
A nova carta papal será também um documento ecuménico. Nos últimos
meses, chegou a especular-se que poderia ser promulgada com a
assinatura conjunta de Francisco e do Patriarca de Constantinopla,
Bartolomeu I. Afinal não aconteceu, mas na apresentação de
“Laudato si” estará um representante do Patriarcado Ecuménico e
da Igreja Ortodoxa, Ioannis Zizioulas. Um sinal, como escreveu
recentemente o vaticanista Andrea Tornielli, de que “a mensagem
ambiental do Patriarca Ortodoxo encontra espaço na encíclica” do
Papa Francisco.
Na apresentação,
marcada para a tarde da próxima quinta-feira, estarão também o
cardeal Peter Turkson, presidente do Conselho Pontifício Justiça e
Paz e que ajudou o Papa na construção do texto, e um leigo, o
cientista John Schellnhuber, fundador e director do Instituto Potsdam
que investiga o impacto das alterações climáticas.
Entretanto, já é
certo que Francisco irá falar sobre a encíclica numa cimeira
especial da Assembleia Geral da ONU, a 25 de Setembro, durante uma
visita aos Estados Unidos. O secretário-geral das Nações Unidas,
Ban Ki-moon, esteve no Vaticano no início do mês para participar
num encontro sobre alterações climáticas organizado pela Santa Sé
e pelas Nações Unidas e anunciou que Francisco será o primeiro
Papa a discursar num encontro do género.
Pouco tempo depois,
em Novembro, arranca a Conferência do Clima 2015. Espera-se que até
Dezembro seja definido um novo acordo climático global pós-2020,
centrado na redução de emissões para limitar o aumento médio da
temperatura em dois graus.

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