domingo, 8 de novembro de 2015

Laudato Si. Nova encíclica do Papa Francisco declara guerra às multinacionais



Laudato Si. Nova encíclica do Papa Francisco declara guerra às multinacionais

Chama-se “Laudato si, sobre o cuidado da Terra” e é a primeira encíclica da Igreja sobre o Ambiente.

ROSA RAMOS
15/06/2015 / JORNAL I online

É a primeira encíclica “verde” da história da Igreja e a segunda de Francisco. O texto de “Laudato si, sobre o cuidado da Terra” é apresentado quinta-feira à tarde e promete polémica pouco meses antes do arranque da Conferência do Clima 2015, marcada para Paris e onde serão debatidas as alterações climáticas e o fracasso do protocolo de Quioto.

No documento, segundo têm adiantado fontes do Vaticano à imprensa internacional, o Papa tece críticas duras ao “capitalismo selvagem” e às empresas multinacionais – apelidadas de “predadoras” do planeta que enriquecem “à custa do aumento do fosso entre ricos e pobres”. A encíclica, publicada em seis línguas, aborda também as “injustiças” na distribuição de recursos, a fome, o desperdício de alimentos, a exploração de recursos naturais em continentes como a África, o aquecimento global, a desflorestação ou a poluição. O “Vatican Insider” adianta mesmo que o Papa deverá pedir aos governos que se empenhem nos problemas das alterações climáticas. Ontem, a seguir à oração do Angelus, Francisco falou da publicação da encíclica: admitiu que o texto será “uma grande sacudidela” e uma chamada de atenção para a “degradação ambiental e a recuperação dos territórios”.

Relacionados
P&R. Encíclica, uma #carta aos bispos e aos Homens “de boa vontade”
“Laudato Si” – o nome remete para a primeira frase do “Cântico das Criaturas” de São Francisco de Assis – será assim, a primeira encíclica totalmente dedica à ecologia, apesar de João Paulo II e Bento XVI terem abordado o tema. O Papa polaco insistiu bastante, no início da década de 1990, na degradação da camada do ozono e o Papa emérito chegou a ser apelidado de “Papa verde” devido às referências constantes à sustentabilidade e aos avisos deixados aos líderes mundiais sobre as alterações climáticas. Em 2013, Bento XVI publicou o livro “Pensamentos sobre o Ambiente”, em que defende o direito de todos os seres humanos à alimentação e aos recursos naturais.

a natureza “não perdoa” Francisco não deixou cair o assunto tem repetido, em vários discursos, uma frase que, conta, lhe terá sido dita por um velho agricultor: “Deus perdoa sempre e os homens às vezes, mas a natureza nunca perdoa”. Nos últimos dois anos, o Papa sublinhou a importância de cuidar da Terra – que, defende, “não é um legado dos nossos pais, mas um empréstimo dos nossos filhos”. E a insistência na importância da relação do ser humano com o ambiente natural será também evidente na encíclica. As mesmas fontes do Vaticano adiantam que a Ecologia Humana terá um destaque importante no texto. O Papa Francisco tem defendido, também na linha de Bento XVI, que a crise não é só económica, mas sobretudo ética: a vida humana, defende o Papa, deixou de ser o centro das sociedades, dando lugar ao dinheiro. E essa crise estende-se também à relação com a natureza, numa “sociedade que tende, cada vez mais, a descartar bens que ainda podem ser utilizados e entregues a quem passa necessidades”.

Encíclica ecuménica A nova carta papal será também um documento ecuménico. Nos últimos meses, chegou a especular-se que poderia ser promulgada com a assinatura conjunta de Francisco e do Patriarca de Constantinopla, Bartolomeu I. Afinal não aconteceu, mas na apresentação de “Laudato si” estará um representante do Patriarcado Ecuménico e da Igreja Ortodoxa, Ioannis Zizioulas. Um sinal, como escreveu recentemente o vaticanista Andrea Tornielli, de que “a mensagem ambiental do Patriarca Ortodoxo encontra espaço na encíclica” do Papa Francisco.

Na apresentação, marcada para a tarde da próxima quinta-feira, estarão também o cardeal Peter Turkson, presidente do Conselho Pontifício Justiça e Paz e que ajudou o Papa na construção do texto, e um leigo, o cientista John Schellnhuber, fundador e director do Instituto Potsdam que investiga o impacto das alterações climáticas.

Entretanto, já é certo que Francisco irá falar sobre a encíclica numa cimeira especial da Assembleia Geral da ONU, a 25 de Setembro, durante uma visita aos Estados Unidos. O secretário-geral das Nações Unidas, Ban Ki-moon, esteve no Vaticano no início do mês para participar num encontro sobre alterações climáticas organizado pela Santa Sé e pelas Nações Unidas e anunciou que Francisco será o primeiro Papa a discursar num encontro do género.


Pouco tempo depois, em Novembro, arranca a Conferência do Clima 2015. Espera-se que até Dezembro seja definido um novo acordo climático global pós-2020, centrado na redução de emissões para limitar o aumento médio da temperatura em dois graus.

Sem comentários: