Comunistas
e socialistas: um olhar sobre as alianças
JORGE ALMEIDA
FERNANDES 08/11/2015 - PÚBLICO
O
PCF exercia uma função tribunícia que perdeu depois para a Frente
Nacional de Le Pen
Há ocasiões em que
vale a pena revisitar a história política dos outros para repensar
a nossa. A iminência de um acordo de governo entre o Partido
Socialista, o Partido Comunista Português e o Bloco de Esquerda é o
pretexto para uma breve incursão pela França dos longínquos anos
1960-80.
Neste texto,
interessa-me apenas a função política do Partido Comunista Francês
(PCF) e a sua relação com os socialistas.
Quase tudo separa os
dois países e as duas épocas. A França vivia então, embora por
pouco tempo, os “Trinta Gloriosos” da expansão contínua da
economia e do bem-estar. Hoje atravessamos a era das vacas magras.
Quem dominava a esquerda francesa não era o Partido Socialista (PS),
refundado por François Mitterrand em 1971, mas o PCF. E as
nacionalizações eram ainda, e não só em França, a trave-mestra
doutrinária da esquerda socialista. Por tudo isso é perigoso fazer
analogias. Interessante é relembrar os factos no seu contexto. A
experiência de Mitterrand não é um modelo exportável mas ensina
alguma coisa sobre o modo de olhar as alianças.
Para que serve o PC?
Em 1981, o
politólogo francês Georges Lavau publicou um livro intitulado: Para
que serve o Partido Comunista Francês? (À quoi sert le Parti
Communiste Français?, Fayard). Nele desenvolve uma análise que
remonta a 1969 sobre a função tribunícia do PCF. O partido
pretende representar a classe operária, mas a sua influência e o
seu poder são essencialmente negativos, tal como os do “tribuno da
plebe” em Roma, limitado ao poder de veto. O PCF defende os
desfavorecidos, dá voz às suas reivindicações, organiza o seu
protesto, recolhe os seus votos mas não pode nem quer governar. A
função tribunícia dá aos militantes e eleitores o sentimento de
serem representados, o que é uma forma de integrar as classes pobres
na sociedade francesa.
O recurso à função
tribunícia seria a alternativa que os dirigentes do partido adoptam
perante a incapacidade de exercer ou tomar o poder. Se as outras
forças políticas excluem o PCF do poder, por razões ideológicas
ou estratégicas, Lavau insiste na deliberada auto-exclusão
praticada pelos hierarcas comunistas, graças à sua fixação
dogmática no modo de organização leninista, na ligação à URSS e
no papel dirigente da classe operária e do partido nos processos de
mudança social — “o que impede as alianças políticas
indispensáveis ao partido para atingir um poder positivo”.
Quando se levanta a
questão, os dirigentes esquivam-se. A retórica da “construção
do socialismo” permite ao PCF recusar todas as tentativas de
exercer um “poder real e positivo na sociedade tal qual ela é”.
O partido procura sobretudo sobreviver e reforçar as suas posições.
Mas, ao mesmo tempo, condena a classe operária ao isolamento e a “um
fantástico desperdício da sua energia e da sua inteligência”. Os
dirigentes prefeririam permanecer no “esplêndido isolamento”
que, na opinião de Lavau, levaria ao declínio.
Mitterrand
Mitterrand era um
republicano de esquerda, não um socialista. Assumiu a liderança da
esquerda em 1965 quando forçou o general De Gaulle a uma segunda
volta nas presidenciais. No congresso de Epinay de 1971 refundou o
Partido Socialista.
A sua análise foi
clarividente. O sistema instaurado pela V República em 1958
condenava a esquerda à oposição, devido à hegemonia do PCF que
impedia uma alternativa. Por outro lado, o poder tinha passado a
residir na Presidência da República. Mitterrand fixou como meta
construir um partido e um sistema de alianças que lhe permitissem o
acesso à presidência. Propôs um método, escreve o politólogo
Laurent Bouvet: “Fazer concorrência frontal ao PCF no seu próprio
terreno ideológico da ruptura com o capitalismo, a fim de [o PS]
assumir o lugar de primeiro partido da esquerda — portanto capaz de
representar toda a esquerda numa eleição presidencial contra a
direita.”
Após um sinuoso
processo negocial, o PS, o PCF e os Radicais de Esquerda assinam a 26
de Junho de 1972 um “programa comum”. É o ponto de partida da
“União da Esquerda”. Mitterrand convence o PS a aceitar uma
plataforma que tornasse impossível a sua recusa pelo PCF: subida dos
salários, redução do horário de trabalho, segurança de emprego,
generalização da Segurança Social e muitas outras reformas. E a
cereja no bolo: a nacionalização de nove sectores industriais
estratégicos e a intervenção na banca. Acenava ainda com “uma
política de paz” que previa a prazo a dissolução da NATO e do
Pacto de Varsóvia. O programa será várias vezes alargado.
A União da Esquerda
interessava ao PCF na medida em que os acordos de desistência mútua
pudessem reforçar a sua posição parlamentar. Mas só a concebiam
sob sua hegemonia. Era o tempo em que falavam “em depenar as aves
de capoeira socialistas”. Sucedeu o contrário. Depressa o PS
ultrapassará eleitoralmente os comunistas. Mitterrand contestará
até “o direito de propriedade do PCF sobre a classe operária”.
Após as legislativas de 1978, a União é rompida, por radicais e
comunistas.
Mitterrand é eleito
Presidente a 10 de Maio de 1981. Os comunistas, que não queriam ir
para o poder com uma relação de forças favorável ao PS, quebraram
o tabu e nomearam quatro ministros. Dissolvida a Assembleia, as
legislativas são um terramoto: o PS obtém na primeira volta 36% dos
votos contra 16,1% do PCF e, na segunda, a maioria absoluta de 266
deputados contra 44 dos comunistas.
O primeiro governo
de Mitterrand, de Pierre Mauroy, cumpre as promessas eleitorais, com
uma chuva de medidas sociais e económicas, desde o aumento de 10% do
salário mínimo às nacionalizações. Mas a conjuntura económica
mudara já. Em Março de 1983, com o franco sob ataque nos mercados,
Mitterrand dá razão ao ministro das Finanças, Jacques Delors, e
anuncia “a viragem do rigor”. Foi um choque para a maioria da
esquerda. Os comunistas ficarão no governo até 1984. O PS vai
abandonar, primeiro nos factos e depois no discurso, a “ruptura com
o capitalismo”.
Ao contrário do PS,
o PCF não se soube adaptar às mudanças da sociedade. Cedo ficou
sentado entre duas cadeiras. O declínio tornou-se inexorável.
Cedeu, dramaticamente, a função tribunícia à extrema-direita de
Le Pen. O seu último candidato presidencial, Marie-George Buffet,
terá menos de 2% em 2007. Ao contrário do PCF, o Partido Comunista
Italiano decidiu transformar-se num partido social-democrata com
vocação de governar. O Partido Comunista Português tirou a lição
inversa. Passadas as veleidades do PREC, reassumiu a opção
tribunícia e reforçou a rigidez doutrinal. E sobreviveu. São os
efeitos disto sobre a nova “maioria de esquerda” que tentarei
discutir noutro texto.

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