domingo, 16 de junho de 2019

Tchernobil: Quando o fascínio pela História se transforma em desrespeito pela tragédia






TURISMO
Tchernobil: Quando o fascínio pela História se transforma em desrespeito pela tragédia

Fotografias com poses ousadas divulgadas nas redes sociais têm gerado críticas sobre os comportamentos dos visitantes de Tchernobil, um destino cada vez mais procurado por turistas desde que a minissérie da HBO sobre o desastre estreou.

Filipa Almeida Mendes  15 de Junho de 2019, 22:02

Foi na madrugada de 26 de Abril de 1986, ainda na era soviética, que a explosão do reactor 4 da central nuclear de Tchernobil, na Ucrânia, resultou no acidente nuclear mais catastrófico até agora.

Cerca de 50 mil residentes (a maioria trabalhadores da central de Tchernobil e as suas famílias) de uma zona com mais de quatro mil quilómetros quadrados foram forçados a abandonar tudo o que tinham de um momento para o outro.

Nuvens de resíduos radioactivos propagaram-se por boa parte da Europa. Nos anos seguintes, mais 230 mil pessoas foram desalojadas de suas casas, quando os cientistas descobriram que o cenário era muito pior do que se pensava.

Segundo dados da Organização Mundial da Saúde, cerca de quatro mil pessoas morreram devido à radiação a que foram expostas, mas até hoje continua o debate sobre os efeitos que os elevados níveis de radiação tiveram na população mais directamente afectada.

Desde 1986 que a cidade de Pripiat, nos arredores da central, permanece inabitável. Ali, animais vagueiam e a vegetação tomou conta dos edifícios abandonados. Uma cidade fantasma, até há pouco tempo silenciosa e deserta, a fazer lembrar um cenário pós-apocalíptico.

Agora, mais de três décadas depois do acidente, algo mudou em Pripiat e em Tchernobil, locais que voltaram a ter pessoas.​ O motivo desta agitação súbita está na minissérie norte-americana Chernobyl, da HBO, que se estreou em Maio deste ano e cujo guião se inspirou no livro Vozes de Chernobyl, da escritora bielorrussa Svetlana Alexiévich. A série acompanha a forma como a catástrofe foi gerida pelo regime soviético, as operações de limpeza, o imbróglio político e a investigação que se seguiu, intercalando realidade e ficção.

O boom turístico
O seu sucesso no pequeno ecrã — aliado a um fascínio pela História e à curiosidade dos turistas — provocou um boom turístico na zona do maior acidente nuclear de sempre, que está aberta aos visitantes desde 2011.

O reactor 4 é um dos locais mais procurados pelos turistas, que podem ver também o agora famoso parque de diversões e a roda gigante que, na verdade, nunca chegou a funcionar mas que se tornou um símbolo daquela cidade fantasma.

Desde que a minissérie estreou, as agências turísticas que organizam viagens até Tchernobil​ registaram um aumento entre 30% e 40% na procura, com muita gente a evocar os cenários da série produzida pela HBO. As visitas guiadas, em inglês, custam cerca de 90 euros por pessoa.

Sergiy Ivanchuk, gerente da agência SoloEast, confirmou à Reuters que a empresa registou, em Maio, um aumento do número de turistas de 30%, face ao mês homólogo de 2018. Já as reservas para Junho, Julho e Agosto aumentaram cerca de 40% desde que a HBO começou a emitir a série. Valores semelhantes são referidos por Yaroslav Yemelianenko, gerente da agência Chernobyl Tour.

Durante a visita, os turistas podem ver os monumentos de homenagem às vítimas e as aldeias abandonadas. Pelo meio, almoçam no único restaurante na cidade. São levados a ver o reactor número 4, que desde 2017 exibe uma nova cúpula de metal que atinge 105 metros de altura e cobre o núcleo central da explosão. O dia termina com um passeio pela cidade de Pripiat.

“Muita gente faz perguntas sobre a série, sobre todos os acontecimentos. As pessoas estão a ficar cada vez mais curiosas”, afirma à Reuters a guia Viktoria Brozhko, assegurando que a área é segura para os visitantes. “Durante toda a visita à zona de exclusão de Tchernobil, as pessoas estão expostas a cerca de dois microsievert [o sievert é a unidade de medida de radiação usada para avaliação do impacto no ser humano], o que é igual à quantidade de radiação a que uma pessoa se expõe se ficar em casa durante 24h”, defende. Embora os visitantes não sejam obrigados a usar fatos de protecção e os níveis de radiação sejam controlados (através de dosímetros), é-lhes aconselhado que não toquem em nada do que ali está exposto por questões de segurança.

Há, por outro lado, quem defenda que os níveis de radioactividade naquela zona não são inofensivos, ao mesmo tempo que muitos turistas se aventuram (e desafiam os limites) a tocar em determinados vestígios e se expõem voluntariamente a riscos mais elevados em locais onde as radiações são mais altas. Megan Nolan, que visitou o local, revela ao Guardian que as próprias empresas aproveitam-se do perigo para publicitar os seus serviços e lucrar com estas visitas. “O potencial perigo é quase comercializado como parte da visita”, garante a turista.

Já Thieme Bosman, um estudante de 18 anos da Holanda, aponta à Reuters um outro lado negativo do aumento do turismo em Tchernobil​​. “Já há muitos turistas aqui e isso acaba um pouco com a experiência de estar numa cidade completamente abandonada”, conclui.

Mas quando é que o fascínio pela História se transforma em desrespeito pela tragédia? E porquê?

O mundo do Instagram
Munidos de câmaras fotográficas e telemóveis, aproveitando aquele cenário trágico como pano de fundo para uma fotografia ou uma selfie, são muitos os visitantes que registam o momento e o partilham em redes sociais, numa atitude que está a encher caixas de comentários com acusações de “desrespeito”.


Algumas imagens mostram visitantes a posar numa atitude jocosa (mãos na garganta e língua de fora, esgares de asfixiamento...) em frente aos vários edifícios e veículos abandonados. No Instagram, uma das muitas imagens partilhadas exibe uma mulher seminua a despir o fato de protecção e a mostrar a roupa interior.


O sucesso da série da HBO levou, aliás, vários influencers da era do Instagram à cidade de Pripiat em busca de likes, uma tendência que o diário espanhol El País classifica de “sinistra e polémica”.

Mas mais do que os likes, são inúmeras as críticas, especialmente no Twitter, aos comportamentos dos visitantes e aos conteúdos que têm vindo a ser partilhados nas redes sociais. Uma vacuidade aliada a um desrespeito pelas vítimas do maior acidente nuclear da História, dizem os críticos.

Um dos casos relatados é o de Julia Baessler, uma estudante austríaca e influencer — cuja conta de Instagram soma 320 mil seguidores —, que publicou várias fotografias em Tchernobil, uma delas sentada num baloiço enferrujado. Os críticos acusaram-na de explorar uma tragédia para proveito próprio. Já Baessler alega, em entrevista ao Business Insider, um interesse pela História e física nuclear e garante que já tinha visitado o local antes de este “estar na moda”.

"Comportem-se com respeito"
Esta leva de turistas e o seu comportamento no local da explosão nuclear levou já o criador da série, Craig Mazin, a reagir através do Twitter. “É maravilhoso que #ChernobylHBO tenha inspirado uma onda de turismo na zona de exclusão. Mas, sim, eu vi as fotografias que circulam”, escreveu Mazin. “Se visitarem [o local], por favor lembrem-se que uma tragédia terrível aconteceu ali. Comportem-se com respeito por todos aqueles que sofreram e se sacrificaram”, acrescentou.

Tchernobil não é, porém, caso único desta curiosidade mórbida nem da “incontinência visual” que é hoje um dos principais combustíveis das redes sociais.


Em Março, o museu de Auschwitz apelou também a um maior respeito por parte dos visitantes, depois de terem sido divulgadas fotografias que mostravam turistas a tentarem equilibrar-se nos trilhos do antigo campo de concentração nazi.

“Quando visitarem o museu de Auschwitz lembrem-se que estão no local onde mais de um milhão de pessoas foram mortas. Respeitem a sua memória”, lê-se na publicação no Twitter.

Uma aproximação da morte
Certo é que o fascínio e a curiosidade por locais que outrora foram palco das mais cruéis tragédias continua a mover muitas pessoas, um fenómeno que é também potenciado pela mediatização desses locais.

As teorias são inúmeras, tantas quanto as motivações que podem levar alguém a visitar estes destinos. Quando o próprio Craig Mazin, criador da minissérie Chernobyl da HBO, visitou o local (antes ainda de começar a escrever o argumento), relatou uma experiência quase transcendente. “Não sou um homem religioso, mas isto foi o mais religioso que alguma vez me senti. Andar por onde eles andaram pareceu-me tão estranho, e também estar sob o mesmo céu faz-nos sentir um pouco mais próximos, de certo modo, de quem eles eram”, afirmou o argumentista num podcast da HBO.

“Turismo negro” (Dark Turism, em inglês) é a expressão utilizada pela comunidade académica para definir a atracção que determinadas pessoas sentem por visitar locais onde ocorreram desastres, como acontece com Tchernobil.

Tais visitas podem ser “motivadas por um desejo de encontros reais ou simbólicos com a morte”, começa por explicar ao jornal The Telegrap John Lennon, professor da Glasgow Caledonian University, em Londres, que ajudou a cunhar o termo “turismo negro”.

Um fenómeno que não é recente, de acordo com este especialista que dá como exemplo os combates dos gladiadores em Roma, aos quais os espectadores assistiam como se de um desporto se tratasse, bem como as execuções em massa em praça pública.

Já Tong Lam, professor da Universidade de Toronto, acredita que este tipo de turismo se tornou popular porque é uma forma de as pessoas lidarem com a ansiedade que sentem perante ameaças actuais como as alterações climáticas, a globalização ou mesmo a morte, acrescenta ao The Telegraph.

O “fascínio da sociedade em relação à mortalidade” é também um dos principais pontos de debate para Philip Stone, especialista neste fenómeno. “Não sou uma pessoa que goste de visitar estes locais. Mas aquilo que me suscita interesse é a forma como as pessoas encaram a sua própria mortalidade ao olhar para outras mortes com significância”, destaca Philip Stone à National Geographic.

De visita a estes locais, palcos de tragédias passadas, há quem também tome consciência plena de que o ser humano não é efectivamente imortal e sinta até uma certa ligação emocional e empatia com as vítimas de sofrimento. “Podíamos ter sido nós naquela explosão ou atrocidade. Tornamos relevante a nossa própria mortalidade”, garante Stone.

Mas numa altura em que as redes sociais baseadas na imagem, como o Instagram, têm um enorme papel nas nossas vidas e experiências, surgem também questões ético-morais. “Vivemos numa sociedade secular, onde as directrizes da moralidade estão cada vez mais esbatidas. É fácil para nós dizermos que aquilo é certo ou errado, mas para muitas pessoas não é assim tão simples”, explica Philip Stone.

Hoje, a linguagem das redes sociais acabou por transitar de um “eu estive aqui” para um “eu estou aqui – olhem para mim”. O que se traduz, nalguns casos, numa necessidade de exibicionismo e de mostrar ao mundo onde estamos e o que fazemos, surgindo até preocupações associadas a um certo “voyeurismo macabro”, analisa o especialista.

Mas há quem não considere tudo negativo. Se há quem critique o desrespeito pelas vítimas e associe determinados comportamentos a um certo “esvaziamento” de sentido e “esquecimento” da dimensão de tais desastres, por outro lado, há quem encare este fenómeno de um ponto de vista educacional ou de enriquecimento pessoal e cultural. Para John Lennon, a visita a estes locais pode ser crucial para que a Humanidade aprenda com os erros do passado e para que estes desastres e atrocidades não caiam no esquecimento: “O turismo negro, tal como a nossa História negra, ocupa um papel importante na nossa compreensão do que é ser humano”.

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