Acordo
do PS com PCP e BE esvazia encontro de Assis
MARGARIDA GOMES
06/11/2015 - 22:01 (actualizado às 23:40)/ PÚBLICO
Encontro
na Mealhada decorreu à porta fechada e não suscitou grande
entusiasmo.
Poucas caras
conhecidas, poucos deputados, pouco entusiasmo. Este era o retrato
projectado esta sexta-feira à noite pelos militantes socialistas nos
momentos anteriores ao início do encontro promovido por Francisco
Assis, que decorreu num restaurante da Mealhada. O anúncio de que já
havia acordo para um governo do PS apoiado pelo Bloco e pelo PCP
esvaziou o propósito do encontro que chegou a ter, segundo a
organização, mais de 400 pessoas inscritas.
O eurodeputado, que
é o rosto da corrente alternativa, do PS chegou pontual pelas 20h00
ao encontro, que decorreu à porta fechada. Foi parco em declarações
aos jornalistas. Insistiu na importância da reunião que convocou,
dizendo que não se trata de uma “questão menor”. "Isto é
um momento muito importante da vida do PS. Há quem convictamente
entenda que este caminho é o melhor que há e quem, com a mesma
convicção, entenda que não é”, disse, sugerindo depois que as
“pessoas que entendem que não é [o melhor caminho] se encontrem
para reflectir para analisar a situação do país e do PS”.
Sobre o encontro que
promoveu disse: “Fica aqui claramente assumida uma linha que é
distinta da que prevalece no PS. Cada um tem de assumir as suas
responsabilidades e respeitar os princípios fundamentais de uma
organização como o PS”. E depois deixou um recado: "Não vou
alimentar como nunca alimentei na vida política qualquer atitude de
guerrilha em relação a quem no presente dirige o PS”.
Respeito pelas
decisões do PS
Sobre as reuniões
dos órgãos do partido convocadas para o fim-de-semana pelo
secretário-geral do partido, Francisco Assis disse que as decisões
que forem tomadas pela Comissão Nacional e pela Comissão Política
Nacional são para ser respeitadas. “Cabe-nos a nós todos
respeitar essas decisões”, declarou, momentos antes de se sentar à
mesa para um jantar onde supõe-se que não faltou o leitão uma vez
que o acesso era reservado.
Álvaro Beleza,
Eurico Brilhante Dias, João Proença, José Junqueiro, António
Galamba, José Lamego, Agostinho Gonçalves, António Braga, Victor
Baptista, António Rebelo de Sousa (irmão de Marcelo Rebelo de
Sousa), Manuel dos Santos eram algumas das caras conhecidas presentes
no encontro, a que se juntou também Narciso Miranda e alguns
presidentes de câmaras e outras caras menos conhecidas.
Francisco Assis diz
que “não vai alimentar na vida política qualquer atitude de
guerrilha em relação a quem no presente dirige o PS” e levanta
reservas ao acordo que o PS estabeleceu com o Bloco e o PCP.
Na Mealhada, Assis
falou sobre a situação política do país e deu destaque ao
entendimento com vista à formação de um governo de esquerda
liderado pelo PS.
Quanto ao
entendimento a que os três partidos chegaram, Assis voltou a zurzir
na ideia de que o PS não deveria formar governo porque essa –
sublinhou – “não é a melhor solução para o país”. “Entendo
que um acordo com partidos que têm em relação a nós divergências
profundas será sempre um acordo periclitante e terá um efeito a meu
ver negativo na capacidade de acção do governo e na incapacidade da
acção reformista do governo”, decretou, em declarações aos
jornalistas, depois de jantar com um grupo restrito de pessoas.
Na Mealhada, voltou
a repetir que o PS deveria ser oposição ao governo e é aqui que
ganha corpo a sua divergência politica relativamente ao
secretário-geral. “O doutor António Costa está genuinamente
convencido que esta é a melhor solução para o país e para o
próprio PS e optou por ela e terá já sido alcançado um
entendimento com o PCP e com o BE que permitirá a constituição de
um governo do PS. Eu tenho uma visão diferente, porque entendo eu um
entendimento destes não é a melhor solução para o país”,
disse, explicando depois que o “PS deveria assumir-se como um
partido da oposição liderando essa oposição a partir das
Assembleia da República dialogando à sua esquerda e à sua direita.
Assis é de opinião
que o PS não deveria estabelecer “qualquer compromisso de
legislatura com ninguém nem com os partidos de direita nem com os
partidos de esquerda, avaliando caso a caso as propostas e os
documentos submetidos à apreciação parlamentar, ocupando assim um
lugar absolutamente central na vida política portuguesa”. Isso
permitiria ao PS - segundo explicou - “ocupar um lugar central não
ficando refém, que a meu ver vai ficar, de dois partidos: o PCP e o
BE, que são partidos que têm uma visão da economia, da sociedade,
do projecto europeu, que estão muito distantes daquelas que
historicamente sempre caracterizaram o PS e, nessa perspectiva, creio
que qualquer entendimento com esses partidos mesmo que
momentaneamente pareça um entendimento vantajoso é m entendimento
com pouca solidez”.
“São partidos que
têm divergências muito profundas em relação àquilo que nós
pensamos em relação a matérias essenciais”, reiterou.
Questionado quanto
ao que está disposto a fazer, disse que era muito simples: “O PS é
um partido democrático, é um partido com órgãos e tem regras e
essas regras têm que ser respeitadas. Entendi adequado fazer uma
reunião com um conjunto de elementos de pessoas do PS de várias
zonas do país que ao longo dos últimos dias me manifestaram vontade
de reunir comigo e eu não podia deixar de corresponder a essa
vontade. Vamos fazer um debate sobre a situação e daqui sairá uma
ideia, que é a ideia de que a solução não seria esta”.
Sobre a entrevista
que o secretário-geral deu à SIC-Noticias e que decorreu à mesma
hora do jantar, que fez esgotar o leitão, o ex-líder da bancada
parlamentar do PS não fez comentários, alegando não a ter visto.
Mas prometeu ouvi-la mais tarde quando chegasse a cassa.

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