O
debate que importa
FRANCISCO ASSIS
05/11/2015 - PÚBLICO
Considero
mais adequado ao interesse nacional a existência de uma solução
governativa em que a direita fique dependente das posições do PS a
uma outra em que o PS se torne refém dos humores, caprichos,
estratégias e tacticismos dos partidos da extrema-esquerda.
Sempre que ouço
falar no fim do centro político regresso a Norberto Bobbio. Como já
aqui várias vezes referi, este filósofo político italiano,
reconhecendo embora a pertinência teórica e analítica da díade
esquerda/direita, atribui contudo análoga importância à oposição
entre a moderação e o extremismo. Na sua conhecida obra que se
intitula justamente Direita e Esquerda, o eminente professor da
Universidade de Turim afirma o seguinte: “Numa primeira abordagem,
vê-se que a díade extremismo/moderantismo tem muito pouco a ver com
a natureza das ideias professadas, e que antes se refere à sua
radicalização e, consequentemente, às diversas estratégias para
as fazer valer na prática. A ciência explica porque é que
revolucionários (de esquerda) e contrarrevolucionários (de direita)
podem ter certos autores em comum: têm-nos não enquanto de direita
ou de esquerda mas enquanto extremistas, respectivamente de direita e
de esquerda que, como tal, se distinguem dos moderados de direita e
de esquerda. O facto de o critério que estabelece a distinção
entre direita e esquerda ser diferente do que estabelece a distinção
entre extremistas e moderados implica que ideologias opostas possam
encontrar pontos de convergência e de acordo nas suas franjas
extremas, embora permaneçam bem distintas quanto aos seus programas
e aos seus objectivos últimos, de que depende apenas a sua colocação
numa das partes da díade ou na outra” (Direita e Esquerda: Razões
e Significados de uma Distinção Política, Lisboa, Editorial
Presença, 1995, p. 44). Estas palavras remetem-nos para um aspecto
essencial do debate político contemporâneo e ajudam-nos a
interpretar a presente circunstância histórica europeia. Bobbio não
identifica a extrema-esquerda com a extrema-direita do ponto de vista
doutrinário, mas antes aponta com precisão o motivo pelo qual não
raras vezes essas duas orientações convergem no plano da política
concreta. Esse motivo radica num fundo comum de natureza antiliberal
e até mesmo antidemocrático. Para os extremistas, a moderação,
enquanto exercício da prudência, do reformismo e do gradualismo,
constitui sempre uma forma de traição e uma manifestação de
mediocridade.
Quando, no
Parlamento Europeu, os deputados da Frente Nacional de Marine Le Pen
e os deputados da extrema-esquerda coincidem nas suas votações é
isso mesmo que está em causa. Claro que eu não confundo uma
deputada como Marisa Matias - por quem tenho genuína admiração -
com os próceres da extrema-direita europeia. Tudo os afasta no
domínio da representação do mundo, da concepção antropológica e
do modelo de sociedade. A razão pela qual convergem demasiado amiúde
nas suas votações resulta precisamente desse extremismo fundado na
já referida desconfiança face à dimensão liberal da democracia.
Se no domínio europeu tudo isto se torna mais evidente é justamente
porque este projecto representa, como nenhum outro na história, a
consagração dos princípios e valores inspiradores do regime
demo-liberal.
O perigo maior que
neste momento se coloca no horizonte da União Europeia é o da
possibilidade do triunfo do extremismo face àquilo que Bobbio
designou por moderantismo. Esse perigo é infelizmente bem real. Qual
a sua verdadeira origem? Na minha opinião são duas as fontes de que
promana tal ameaça: por um lado, a parcial dissolução do
Estado-Providência em resultado da abertura ao fenómeno da
globalização; por outro, a crescente infantilização das
sociedades democráticas com a consequente degradação do princípio
da responsabilidade individual. Curiosamente, um e outro motivo vão
a par e contribuem para o surgimento de um niilismo que fomenta o
sucesso das posições extremistas.
Perante tal
situação, que nada augura de bom, impõe-se a necessidade de
reconstrução do centro político, quer na sua vertente de esquerda,
quer na sua vertente de direita. Não é tarefa fácil e há vários
sistemas políticos e eleitorais, como é o caso do francês, que em
nada favorecem a consecução de tal desiderato. Tudo o que remeta
para uma sobrevalorização da dicotomia esquerda/direita em relação
à dicotomia extremismo/moderantismo prejudica a obtenção dos
compromissos indispensáveis à consolidação do património
fundador das democracias ocidentais. Infelizmente é isso que tem
vindo a suceder em diversas situações.
Atentemos no caso
português. Os mais inteligentes defensores de uma solução
governativa alicerçada num entendimento parlamentar entre o PS e os
partidos de extrema-esquerda justificam a bondade de tal opção pela
necessidade de responder à radicalização da direita e de assegurar
a defesa do Estado-Providência. A sua tese é simples e clara: a
direita caminhou em direcção a uma posição extremista e a
extrema-esquerda começa a manifestar disponibilidade para uma
convivência útil com o centro-esquerda. A tese tem um único
defeito: é manifestamente panglossiana. Isto é, enferma de uma
notória insuficiência que radica num misto de inocência e
crendice. Nem a direita portuguesa se tornou subitamente toda ela
extremista, nem a extrema-esquerda se converteu subitamente num
modelo de pragmatismo aberto à moderação. Bem sei que no nosso
mundo de referências cristãs abundam por aí boas almas sempre
dispostas a acreditar no milagre da Estrada de Damasco. A realidade é
porém ligeiramente diferente e nessa diferença reside a chave para
a compreensão do tempo presente.
A questão
formula-se de uma forma muito simples: será mais fácil atrair a
direita, em nome do consenso europeu baseado na economia social de
mercado, para posições consentâneas com a defesa do
Estado-Providência, ou sensibilizar a extrema-esquerda para os
méritos de um paradigma baseado na conciliação entre o mercado, a
democracia representativa e um Estado-Social promotor da dignidade
mas que não desresponsabilize o esforço individual? É aqui que
verdadeiramente se separam as águas. Parece-me óbvio que aquilo que
aproxima o centro-esquerda do centro-direita é bem mais vasto do que
aquilo que aproxima o centro-esquerda da extrema-esquerda. Quem pensa
desta forma não pode senão ter uma posição crítica em relação
à possibilidade de concretização de um acordo parlamentar entre o
PS, o BE e o PCP. Quem pensa o contrário tenderá naturalmente a
rejubilar com tal entendimento.
Nessa perspectiva, e
tendo em consideração os resultados eleitorais verificados a 4 de
Outubro e a decorrente composição do Parlamento, considero mais
adequado ao interesse nacional a existência de uma solução
governativa em que a direita fique dependente das posições do PS a
uma outra em que o PS se torne refém dos humores, caprichos,
estratégias e tacticismos dos partidos da extrema-esquerda. Esta é
que é a verdadeira questão e é em relação a ela que nos devemos
pronunciar. Pela minha parte, não deixarei de comparecer a este
debate que reputo da maior importância para o futuro do país e do
PS.

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