quarta-feira, 4 de novembro de 2015

Fazer oposição, estando no Governo


Fazer oposição, estando no Governo
DIRECÇÃO EDITORIAL 04/11/2015 - PÚBLICO

Passos abriu uma porta que até agora parecia estar encerrada. É o instinto de sobrevivência política?
A actual coligação PSD-CDS até agora tinha vindo a dar sinais claros de não querer ficar num governo de gestão, caso o seu programa fosse chumbado na Assembleia e caso Cavaco Silva não estivesse convencido da bondade e da solidez do acordo que lhe fosse apresentado à esquerda. Mas com uma maioria de esquerda unida no Parlamento e com uma coligação que, tal como disse Fernando Negrão à Antena 1, não tem “disponibilidade para um governo de gestão”, as várias hipóteses de actuação do Presidente ficariam reduzidas a uma: dar posse a um governo PS, apoiado pelo Bloco e PCP, quer goste, quer não goste do acordo que lhe seja apresentado. Mas percebe-se a resistência do PSD-CDS de não querer ficar num governo de gestão: teria de arcar com os custos da ingovernabilidade, sem ter os instrumentos para governar.


Esta semana, no entanto, parece ter havido uma viragem na predisposição do PSD. Como noticiou o PÚBLICO, Passos Coelho está agora mais disposto a ficar à frente de um governo de gestão. E porquê esta viragem? Na São Caetano à Lapa provavelmente já se estarão a fazer as contas aos custos de se ir para a oposição, mesmo podendo ter no horizonte perspectivas de eleições antecipadas. Primeiro, a coligação formalmente seria dissolvida, ou seja, seria mais difícil consensualizar posições entre PSD e CDS com o passar do tempo. Depois os holofotes mediáticos cairiam todos em cima do novo primeiro-ministro, António Costa, que faria aprovar de imediato no Parlamento algumas medidas simpáticas e que poderiam condicionar a predisposição dos eleitores nas tais hipotéticas eleições antecipadas. Colocando de um lado da balança isto, e do outro um governo de gestão, o instinto de sobrevivência começa a pesar mais. E é mais fácil fazer oposição (a uma maioria de esquerda no Parlamento) estando no Governo do que na oposição.

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