segunda-feira, 17 de fevereiro de 2020

Boris Johnson quer acabar com a BBC tal como a conhecemos



“Os jornalistas não deviam permitir que Dominic Cummings use o disfarce da anonimidade. Uma pessoa tão poderosa tem de ser nomeado e responsabilizado publicamente”, disse no Twitter Alan Rusbridger, ex-director do jornal The Guardian
Tem sido também Dominic Cummings a estar na vanguarda de vários confrontos com a imprensa nos últimos tempos – como quando em Janeiro quis mandar embora de uma conferência no n.º 10 de Downing Street (a sede do Governo) os jornalistas que não tinham sido especificamente convidados para o efeito, traçando uma linha no chão. Os que estavam para além da linha, disse, teriam de sair. Os jornalistas recusaram: ou ficavam todos, ou saiam todos.

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Boris Johnson quer acabar com a BBC tal como a conhecemos

A televisão britânica é o modelo para o serviço público para o mundo inteiro. Mas o Governo conservador britânico não gosta da cobertura que faz e quer mudar tudo. Passar a BBC para canal por subscrição é uma hipótese que está a ser considerada seriamente.

Clara Barata
Clara Barata 16 de Fevereiro de 2020, 20:12

O programa eleitoral dos Conservadores prometia trabalhar com a BBC, mas Boris Johnson parece ter agora outros planos

O Governo de Boris Johnson está determinado em acabar com a BBC tal como o mundo a conhece e louva, um modelo para o serviço público de televisão e rádio. Neste domingo, o Sunday Times noticiou que nos planos do executivo está acabar com a taxa da televisão e fazer com que os telespectadores que queiram ver a BBC paguem uma subscrição.

Despedimentos, redução de canais de televisão e do serviço internacional, site diminuído e a venda de pelo menos uma rádio estão incluídos neste programa.

A notícia cita uma “fonte importante”, que para os meios conhecedores dos bastidores políticos britânicos só pode querer dizer uma pessoa, dizem os media britânicos: Dominic Cummings, o poderoso conselheiro do primeiro-ministro. “Os jornalistas não deviam permitir que Dominic Cummings use o disfarce da anonimidade. Uma pessoa tão poderosa tem de ser nomeado e responsabilizado publicamente”, disse no Twitter Alan Rusbridger, ex-director do jornal The Guardian.

A notícia desencadeou múltiplas reacções, de gente do mundo dos media e da política. John Simpson, um muito conhecido jornalista da BBC (há 53 anos na casa), fez um tweet com um vídeo de explicação sobre a taxa de televisão que é um importante sustento da emissora pública britânica e explicou que não estava a divulgá-lo por ser da BBC: “Como cidadão britânico, tenho medo do movimento crescente para desmembrar a BBC e refazer o sector da radiotelevisão do Reino Unido à imagem da Fox TV”, a televisão dos Estados Unidos conotada com direita conservadora.

Esta ideia de fazer da BBC uma emissora ao modelo da Fox tem sido ventilada por Dominic Cummings, que foi também o estratega de comunicação do referendo do “Brexit” – é-lhe atribuída a invenção da frase take back control, recuperar o controlo do país, das leis, se o Reino Unido saísse da União Europeia.

Tem sido também Dominic Cummings a estar na vanguarda de vários confrontos com a imprensa nos últimos tempos – como quando em Janeiro quis mandar embora de uma conferência no n.º 10 de Downing Street (a sede do Governo) os jornalistas que não tinham sido especificamente convidados para o efeito, traçando uma linha no chão. Os que estavam para além da linha, disse, teriam de sair. Os jornalistas recusaram: ou ficavam todos, ou saiam todos.

É sabido, no entanto, desde as eleições legislativas de Dezembro, que Boris Johnson e a sua equipa mais próxima têm contas a acertar com a BBC, que acusam de ter dado uma cobertura injusta ao Partido Conservador. Em resposta ao que consideram ter sido uma cobertura tendenciosa da emissora, os ministros foram proibidos de aceitar convites para o programa Today, da rádio BBC4, por exemplo.

Mas também da esquerda vieram ataques: ganhou fôlego entre os apoiantes de Jeremy Corbyn, o líder do Partido Trabalhista que está de saída, a ideia de que a BBC tinha um preconceito contra ele. O resultado é tanto Corbyn como Johnson se furtaram a aparecer na BBC.

O pagamento da taxa de televisão é obrigatório – custa 154,5 libras anuais (185,68 euros), e foi já anunciado que vai aumentar para 157,50 (189,2 euros) em Abril. Mas a ministra da Cultura, Nicky Morgan, anunciou que vai lançar uma consulta sobre a possibilidade de deixar de punir quem a não pague – hoje quem não pagar tem o mesmo tipo de penalidade de alguém que não pague a conta da luz, e o cumprimento da lei é garantido por oficiais de justiça.

Mas não é garantido que a desmontagem da BBC seja fácil ou popular. Políticos do Partido Conservador reagiram de forma pouco positiva à notícia deste domingo, como o deputado Huw Merriman: “Não tenho a certeza de que esta vingança contra a BBC acabe bem. Não há qualquer menção a isto no nosso programa (onde na verdade prometemos trabalhar com a BBC para construir novas parcerias a nível global. Por isso, não vou apoiar esta medida”, anunciou no Twitter.

“Espero que o artigo do Sunday Times sobre a BBC seja apenas um balão de ensaio. Destruir a BBC não estava no nosso programa e seria vandalismo cultural. Votem nos tories e fecharemos a BBC Radio 2. É o que querem?”, disse por seu lado Damian Green, ex-ministro de Theresa May.

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