Uma teia que pode ir até Putin. O que se sabe sobre os
refugiados ucranianos recebidos por russos pró-Kremlin em Portugal
António Guimarães
29 abr, 23:30
09:33
Refugiados
recebidos por russos: presidente da Associação de Ucranianos garante que há
mais casos em Aveiro e Montijo
O caso de Setúbal
pode ser apenas o início. Por isso mesmo o PSD e a Iniciativa Liberal já
pediram uma investigação e uma audiência na Comissão de Liberdade e Garantias.
Serviços secretos portugueses já tinham sido avisados destas possíveis ligações
A embaixadadora
da Ucrânia em Portugal alertou para o problema a 8 de abril. Em entrevista
exclusiva à CNN Portugal (do mesmo grupo da TVI), Inna Ohnivets admitiu que
temia pela segurança dos refugiados ucranianos que têm chegado a Portugal. Uma
semana mais tarde, a CNN revelou uma teia de ligações que liga associações que
recebem refugiados em Portugal ao Kremlin e a Vladimir Putin.
Esta sexta-feira,
foram reveladas novas informações: refugiados ucranianos têm sido recebidos por
associações pró-russas em Setúbal, avançou o jornal Expresso. A Olga, uma
refugiada entrevistada pelo semanário, perguntaram-lhe onde estava o marido
"e o que tinha ficado a fazer”. Também lhe fotocopiaram os documentos,
entre os quais o passaporte e a certidão de nascimento dos filhos.
Uma das
associações que tinha sido revelada pela investigação da CNN trabalhou de perto
com a autarquia de Setúbal, a Associação dos Imigrantes dos Países de Leste
(EDINSTVO). É presidida por Igor Khashin, marido da jurista russa Yulia
Khashina que, desde dezembro, trabalhava na Linha de Apoio aos Refugiados
(LIMAR), um gabinete criado pela câmara de Setúbal. O próprio Igor, admite a
autarquia, dava apoio na LIMAR.
Igor e Yulia
foram os responsáveis pelo acolhimento de Olga, foram eles que lhe perguntaram
o que o marido estava a fazer e que lhe fotocopiaram os documentos. Pelo menos
160 refugiados ucranianos já terão sido recebidos por Igor Khashin, antigo
presidente da Casa da Rússia e do Conselho de Coordenação dos Compatriotas
Russos, e pela mulher.
Esta sexta-feira,
a autarquia acabou por anunciar o afastamento de Yulia Khashina. "Face à
situação criada, a Câmara Municipal, retirou do acolhimento de cidadãos
ucranianos a técnica superior citada na notícia até ao total e inequívoco
esclarecimento desta situação", lê-se na nota publicada no Facebook.
A dimensão do
caso até pode ser maior, e há quem diga que a situação não se limita a Setúbal,
onde a autarquia é dirigida por comunistas. O presidente da Associação de
Ucranianos em Portugal, Pavlo Sadokha, disse que já tinha conhecimento dessa
informação e que o mesmo se passa noutros municípios, como o de Montijo ou
Aveiro, que trabalham com associações pró-Putin. "Desde a chegada de
refugiados ucranianos em Portugal, fomos alertados por vários dos nossos
compatriotas nesta zona de Setúbal e Montijo que o Igor Khashin, que é bem
conhecido como pró-russo e anti-ucraniano, estava a receber esses refugiados
ucranianos".
Nataliya Khmil,
fundadora da associação Amizade, uma das associações visadas por Pavlo Sadokha,
responde às suspeitas lembrando as ajudas que já fez chegar à Ucrânia e acusa a
embaixadora ucraniana de nunca se ter envolvido nos destinos dos refugiados que
chegam a Portugal: "A associação Amizade recebe quatro toneladas de
medicamentos gratuitos. O que significa isso? Quem é pró-russo".
O que diz a Câmara de Setúbal?
A Câmara
Municipal de Setúbal garante que "questionou formalmente" e no
próprio dia da entrevista da embaixadora ucraniana à CNN Portugal o
primeiro-ministro António Costa para que este se "pronunciasse sobre a
veracidade destas declarações e esclarecesse com a maior brevidade possível se
o Alto Comissariado para as Migrações mantinha a confiança nesta
associação". Mas, diz o comunicado, não obteve qualquer resposta.
Não obstante, a
autarquia vai pedir ao Ministério da Administração Interna que "adote, de imediato,
os necessários procedimentos no sentido de averiguar a veracidade das suspeitas
veiculadas pelo jornal Expresso" e mostrou-se totalmente disponível para
prestar qualquer esclarecimento ou informação adicional.
António Costa diz
que a carta que o autarca lhe enviou foi "um protesto sobre declarações da
embaixadora ucraniana à CNN Portugal" e não um pedido de esclarecimento.
"A carta que
o presidente da Câmara Municipal de Setúbal dirigiu ao primeiro-ministro no
passado dia 11/04/22 é um protesto sobre declarações prestadas pela embaixadora
da Ucrânia em Lisboa, à CNN Portugal, e foi reencaminhada para os efeitos tidos
por convenientes para o Ministério dos Negócios Estrangeiros (MNE)",
explicou o gabinete do primeiro-ministro, em comunicado divulgado há momentos.
Entretanto,
apesar de o caso não envolver a Câmara Municipal de Lisboa, aquela autarquia
veio assegurar a proteção dos dados pessoais dos refugiados da Ucrânia,
indicando que são "apenas" partilhados com as entidades oficiais que
asseguram o encaminhamento para respostas intermédias e “na estrita medida do
necessário”.
“Os dados
pessoais destes cidadãos são apenas acedidos pela equipa coordenadora do
Serviço Municipal de Proteção Civil (SMPC) e pelas técnicas que asseguram o
atendimento, e são apenas partilhados com as entidades oficiais que asseguram o
encaminhamento para respostas intermédias – Alto Comissariado para as Migrações
(ACM) e Instituto da Segurança Social (ISS) – na estrita medida do necessário a
esse encaminhamento”, indicou a Câmara de Lisboa em resposta à agência Lusa.
PSD quer investigação, PCP fala em "amizade"
O PSD exigiu em
comunicado que a Câmara Municipal de Setúbal, que pertence ao PCP, seja
"urgentemente" investigada pelo Governo e respetivas entidades
competentes. A Inicitiva Liberal também já chamou o presidente da Autarquia,
André Valente Martins, para ser ouvido na Comissão de Liberdade e Garantias.
Mais tarde o PSD de Setúbal acabou por pedir a demissão do presidente da
Câmara, André Martins.
No comunicado do
PSD, a que a CNN Portugal teve acesso, o presidente da Distrital de Setúbal,
Paulo Ribeiro, disse ser "incompreensível" a atitude por parte do
município comunista e foi mais longe: "Não aceitamos que a longa mão do
KGB chegue a Setúbal".
A reação do PCP
não se fez esperar: num comunicado curto, com apenas dois parágrafos, o partido
comunista, que tem sido constantemente acusado de apoiar o regime de Vladimir
Putin, disse que no município não há espaço para exclusões ou sentimentos
xenófobos.
"O trabalho
com imigrantes que há muito se desenvolve no município de Setúbal
caracteriza-se por critérios de integração e amizade entre os povos onde não
prevalecem nem exclusões nem sentimentos xenófobos", lê-se na nota, que
acrescenta ainda que "neste momento em que se impõe um reforço do apoio
aos refugiados, em particular aos ucranianos, esta concepção humanista é ainda
mais importante".
Também o Governo
está a avaliar o caso, tendo já pedido esclarecimentos ao Alto Comissariado
para as Migrações (ACM). A secretária de Estado da Igualdade e Migrações
enviou, esta sexta-feira, o pedido à Alta-Comissária, Sónia Pereira, com
caráter de urgência.
A governante
“pediu também esclarecimentos aos parceiros locais do ACM , como a Rede de
Centros Locais de apoio à integração de migrantes e associações locais”,
acrescenta o comunicado.
Serviços secretos já tinham sido avisados
A Associação dos
Ucranianos em Portugal garante que há, neste momento, neste país, infiltrados
pró-Putin em Organizações Não Governamentais (ONG) que apoiam os ucranianos, e
já alertou as secretas portuguesas.
Numa carta
enviada no dia 2 de abril, à secretária-geral do Sistema de Informações da
República Portuguesa (SIRP), Graça Mira Gomes, a que a CNN Portugal teve
acesso, o presidente daquela associação explica que a situação “é muito grave e
pode pôr em causa a segurança dos ucranianos refugiados de guerra que vão
chegando a Portugal, dos familiares deles na Ucrânia e a segurança da Ucrânia
em tempos de invasão russa”.
Segundo refere o
presidente daquela associação de ucranianos, no documento que enviou ao SIRP,
em causa estão “organizações diretamente ligadas à embaixada da Rússia”, apesar
de “nos estatutos” aparecerem como “multiculturais” e que são vistas como
representantes dos ucranianos. “Alguns meses antes da invasão russa ao
território ucraniano, estas organizações, de repente, limparam toda a informação
que mostrava ligação com a embaixada da Rússia em Portugal nas suas páginas web
e redes sociais”, explica, acrescentando que, para “agravar”, estas
organizações em Portugal são reconhecidas pelo Alto Comissariado dos Migrações
(ACM).
Hackers voltam a atacar PCP
Já no final desta
sexta-feira, um grupo de hackers que diz ser pró-Ucrânia atacou o website da
Câmara Municipal de Setúbal, deixando a plataforma inoperacional durante várias
horas, naquilo que foi classificado pelo grupo ativista como "uma operação
especial" contra "a Rússia e os seus aliados", após a polémica
em torno da receção de refugiados ucranianos na autarquia por funcionários
russos ligados ao Kremlin.
O ataque terá
começado por volta das 16:30 e terá acabado por voltas das 20:00. Num documento
enviado à CNN Portugal, o grupo de hackers diz que não aceita "a presença
do invasor em autarquias que recebam refugiados".
"Às 16:30
paralisamos o website da autarquia comunista de Setúbal. Não aceitamos a
presença do invasor em autarquias que recebam refugiados. O Mundo não quer e
não precisa de invasores criminosos de guerra. Vamos perseguir o invasor e
todos os seus aliados. Nada nem ninguém vos irá proteger no ciberespaço",
pode ler-se no documento.
O coletivo de
hacktivistas apelidou o ataque de "operação especial de ciberataques
cirúrgicos à Rússia e seus aliados" e sublinha .

.jpg)
Sem comentários:
Enviar um comentário