ENTREVISTA
“Se esta associação é daquelas consideradas pró-Putin, o
Governo tinha de informar a Câmara de Setúbal”
Autarca diz que continuará a culpar o Governo, lamenta
aproveitamentos políticos e mostra-se disponível para ir ao Parlamento.
Francisco Alves
Rito
30 de Abril de
2022, 22:01
Em entrevista ao
PÚBLICO este sábado, ao final do dia, o presidente da Câmara Municipal de
Setúbal, André Martins, diz que continua à espera de respostas das autoridades,
nomeadamente do Alto Comissariado para as Migrações.
Porque
responsabiliza o Governo por este caso dos imigrantes em Setúbal?
Nós perguntámos
ao primeiro-ministro se confirmava as acusações feitas pela senhora embaixadora
da Ucrânia e nunca tivemos resposta da parte do Governo. Quem é que tem de
esclarecer estas situações? É o Governo, porque é o Governo que tem a
responsabilidade da entrada e do encaminhamento dos refugiados em Portugal.
A Câmara de
Setúbal apenas se predispõe, cria os serviços, relaciona-se com todas as
entidades da Administração, com Alto Comissariado, o SEF, o Centro Regional de
Segurança Social, o IEFP, no sentido de receber as pessoas e, em função do que
elas precisam, encaminhá-las para essas entidades.
Portanto, se há
aqui alguma questão que não corre bem, e designadamente se esta associação é
daquelas consideradas pró-Putin, o Governo tinha de informar a Câmara de
Setúbal e todas as outras câmaras que têm estes problemas. Já veio a público
que há um conjunto de outras câmaras municipais. Por isso consideramos que cabe
ao Governo esclarecer toda esta situação.
Continuaremos
sempre a acusar o Governo e o senhor primeiro-ministro por não ter respondido
às questões que nós colocámos em função das acusações que a senhora embaixadora
da Ucrânia fez
Como vê o
desmentido que o primeiro-ministro fez?
O senhor
primeiro-ministro e o seu gabinete podem dizer aquilo que entenderem. Mas nós
continuaremos sempre a acusar o Governo e o senhor primeiro-ministro por não
ter respondido às questões que nós colocámos em função das acusações que a
senhora embaixadora da Ucrânia fez. Era necessário que o Governo esclarecesse
se, relativamente à associação que trabalha em Setúbal desde 2005, havia alguma
acusação a fazer.
Agora já vê algum
indício de que possam existir ligações entre esta associação e o Kremlin?
Nós não
conhecemos. Trabalhamos com esta associação desde 2005 e nunca tivemos qualquer
indício de que houvesse algo de anormal. A associação é constituída por pessoas
de várias nacionalidades. Por isso é que pedimos ao Governo que esclareça os
municípios.
Ainda não recebeu
qualquer resposta, nem do Alto Comissariado para as Migrações?
Nenhuma resposta.
Nem do Alto Comissariado, que depende do senhor primeiro-ministro. Por isso é
que enviámos a carta, para termos essas informações. É o Governo que tem os
serviços capazes para fazer essas investigações e avaliações. Nem a associação
de Setúbal nem qualquer outra foi foco dessa investigação.
Qual era, na
prática, o papel de Igor Khashin no gabinete de acolhimento? Estava lá
frequentemente, mesmo não sendo funcionário?
De vez em quando
estaria por ali, no sentido de ajudar. Nós temos um relacionamento com esta
associação desde 2005 e como é um cidadão que fala russo e percebe ucraniano, a
presença deles, de Yula e Igor, era muito importante para ajudar os serviços na
recepção às pessoas. O protocolo seguido, das perguntas e dos procedimentos,
corresponde ao que a Administração Central tem nestas situações de
identificação das pessoas que precisam de apoio social. Esse protocolo existe e
os serviços da câmara seguem-no.
O que é que a
câmara vai fazer a seguir?
Pedimos ao
Ministério da Administração Interna para fazer uma investigação a este
gabinete. A associação já não está a colaborar e afastámos a funcionária, que
estava a sentir-se incomodada com estas acusações que não têm nenhuma base de
sustentação.
O PSD pede a sua
demissão. Continua a ter condições para exercer o cargo?
Nesse partido, e
noutros, normalmente nestas situações de grande dificuldade, aparece sempre
alguém que se põe em bicos de pés. Isso não nos perturba, continuamos focados.
Lamentamos o aproveitamento político que esta situação está a ter porque o que
está a ser posto em causa é o acolhimento de refugiados, que requer grande
tranquilidade.
Há vários
partidos que pedem a sua presença no Parlamento. Acha necessário e está
disponível?
Estou disponível.
Se a Assembleia da República entender que posso lá ir esclarecer alguma
questão, irei com todo o gosto. Não tenho nada a esconder. Se é que há ainda
alguma coisa a esclarecer da nossa parte. Por exemplo, a direcção nacional do
SEF fez um comunicado a dizer que não tinha nenhum protocolo com esta
associação, mas hoje [sexta-feira] já vieram dizer que afinal tinham tido
alguns apoios da associação, quando necessitavam. Suponho que quando
necessitavam era exactamente nestes momentos de haver tradução imediata e
directa dos refugiados ou de outros imigrantes de leste.
A dimensão que
tem sido dada ao caso em Setúbal está relacionada com a posição do PCP sobre a
guerra?
Neste momento
estou mais focado na gestão da câmara municipal e no acolhimento aos
refugiados. Lamento o aproveitamento político, seja por quem for.
Segunda-feira o
gabinete de acolhimento vai estar a funcionar normalmente no Mercado do
Livramento?
Os serviços
continuarão a funcionar, agora com trabalhadores da câmara e, naturalmente, com
mais limitações porque a falta da tradução limita o atendimento. Mas os
serviços e a linha telefónica de apoio estarão abertos. Haveremos de encontrar
soluções para resolver estes problemas. Espero que o Governo tome a decisão
imediata de fazer a avaliação ao gabinete para que a situação fique esclarecida
e nós possamos continuar a fazer o trabalho, de forma empenhada, como temos
feito até agora.


Sem comentários:
Enviar um comentário