quinta-feira, 26 de maio de 2022

O Livre pôs Lisboa num alvoroço a falar do trânsito, mas mudanças não são para já

 


LISBOA

O Livre pôs Lisboa num alvoroço a falar do trânsito, mas mudanças não são para já

 

Moedas deixou cair a sua proposta de realização de uma consulta pública às ideias do Livre, mas subscreveu outra dos vereadores do PCP, que visa estudar a “operacionalização” das ideias de redução do trânsito em Lisboa, que foram apresentadas pelo Livre há duas semanas e que puseram a cidade em alvoroço.

 


Cristiana Faria Moreira

25 de Maio de 2022, 20:18 actualizado a 25 de Maio de 2022, 21:22

https://www.publico.pt/2022/05/25/local/noticia/livre-pos-lisboa-alvoroco-falar-transito-mudancas-nao-sao-ja-2007704

 

A Avenida da Liberdade tem por diversas vezes níveis de poluição acima do recomendado

 

O Livre “não pede desculpa” pelas suas propostas para o encerramento da Avenida da Liberdade aos domingos e feriados e para a redução em 10 km/h na circulação automóvel em Lisboa terem sido aprovadas. E entende que as ideias que apresentou e que a oposição aprovou há duas semanas são, no fundo, “uma missão” que voltou a pôr a cidade a olhar para os milhares de carros que todos os dias nela circulam​. Do lado dos opositores, onde se inclui o presidente da Câmara de Lisboa, Carlos Moedas, alguns comerciantes e programadores da avenida logo começaram a surgir estudos e números avulsos de que a polémica medida trará um prejuízo de milhões e “centenas de despedimentos”. Os vereadores comunistas decidiram pôr alguma água na fervura da discussão e apresentar uma proposta que visa a “operacionalização” destas ideias, com o estudo dos impactos e a auscultação das partes interessadas no processo.

 

A proposta acabou aprovada por unanimidade esta quarta-feira, em reunião de câmara, e até subscrita por PS e Livre, PSD e CDS. Os partidos que governam o município deixaram cair a sua iniciativa de “consulta e discussão pública, não inferior a 45 dias” das ideias do Livre, para subscrever a dos comunistas. Em linhas gerais, a proposta prevê que seja realizada “uma avaliação prévia, técnica e financeira”, pelos serviços municipais, “dos impactos da eliminação parcial do trânsito automóvel na Avenida da Liberdade em todos os domingos e feriados”, nos termos em que foi implementada no passado, ou seja, permitindo o acesso a toda a Avenida pelas laterais. O mesmo para a redução em 10km/h da velocidade de circulação permitida na cidade.

 

Os vereadores João Ferreira e Ana Jara querem ainda a auscultação de organismos do Estado para a segurança rodoviária, mobilidade e transportes, dos operadores de transporte público, das associações representativas do comércio local, do turismo, da cultura, entre outros organismos e organizações não-governamentais considerados relevantes. Só depois se partirá para a elaboração de uma “proposta concreta de implementação de medidas de restrição do trânsito que pode contemplar experiências piloto de eliminação parcial, de alargamento progressivo” ou até de implementação plena. Essa proposta deverá depois ser submetida a um período de consulta e participação pública, no mínimo de 45 dias, e ser aprovada em reunião de câmara. As juntas de freguesia deverão também ser envolvidas.

 

Os vereadores comunistas consideram ainda que deve ser dada “prioridade à implementação de novas zonas de circulação a velocidade reduzida — ‘Zonas 30’ — dentro dos bairros consolidados, proximidade de escolas, zonas de maior densidade de comércio local, zonas de lazer e cruzamentos, a avaliar em função das necessidades”.

 

Até ao momento da votação, foi longa a discussão, com muitas críticas da oposição à actuação do município. O vereador do PS Miguel Gaspar começou por lembrar que as propostas do Livre que foram aprovadas há semanas estão “alinhadas” com um desígnio assumido pela Câmara de Lisboa e plasmado, por exemplo, no Pacto de Acção Climática: reduzir em 70% as emissões da cidade até 2030. E ironizou com uma informação que a câmara publicou na semana passada a propósito da instalação de novos radares onde se lia “Menos velocidade, mais segurança”.

 

“Carlos Moedas tem uma responsabilidade particularmente singular para com os meus filhos, para com os filhos de todos nós”, disse ainda, criticando a postura do autarca que acusou de “assustar, espalhar o medo, não comunicar de forma construtiva”.

 

Gaspar, que no anterior mandato tinha a pasta da Mobilidade e foi um dos responsáveis pela implementação do programa “A Rua é sua”, que previa, entre outras coisas, o encerramento da avenida no último domingo do mês (com excepção das laterais), acenou ainda com dados recolhidos nessa altura. “Entre Junho e Dezembro de 2019, a Av. da Liberdade foi a zona da cidade de Lisboa que mais cresceu em termos de volume de pagamentos. Não há qualquer evidência de impactos negativos para o comércio”, disse.

 

Na resposta, e na ausência de Moedas, foi o vice-presidente, Filipe Anacoreta Correia, a refutar as críticas, afirmando que, como estava, a proposta quer reduzir “cegamente as viaturas”. “Em nosso entender isto não se faz assim. Não há nada pior do que querer agarrar uma agenda e impô-la sem diálogo”, disse.

 

“Empenho com as pessoas”

As críticas, contudo, seguiram. Ricardo Moreira, vereador do BE, em substituição de Beatriz Gomes Dias, acusou Moedas de criar “um excesso de alarmismo”. E apontou-lhe algumas “incoerências”. “Parece que o senhor presidente quer ouvir as pessoas até encontrar uma pessoa que lhe diga o que quer ouvir”, criticou. O BE apresentou também uma proposta que previa estender este procedimento de consulta pública a mais propostas, mas esta acabou rejeitada.

 

Rui Tavares, vereador do Livre e um dos autores da iniciativa que tem estado em debate, criticou a postura de “vitimização” que acusou Moedas de seguir. “A vitimização é uma estratégia com retorno decrescente. Cada vez funciona menos”, atirou, rejeitando que não tenha havido oportunidade para discutir estas medidas com todas as forças políticas antes da sua discussão em reunião de câmara.

 

“A proposta esteve um mês na sua mesa. Foi adiada duas semanas. A Avenida da liberdade é uma das avenidas mais poluídas da Europa. Não se deve protelar a a acção política necessária para cuidar da saúde”, disse ainda o vereador, lembrando uma série de recomendações da Comissão Europeia que foram publicadas na mesma altura e que vão ao encontro do proposto pelo Livre — reduzir a velocidade nas cidades e o domingo sem carros.

 

Já a vereadora independente Paula Marques lembrou a necessidade de “ouvir todas as pessoas envolvidas” e ir buscar os estudos que já foram feitos em Lisboa e analisar também os resultados de outras experiências semelhantes Europa fora.

 

A resposta à oposição veio já pelo presidente da câmara. “Lamento que a situação tenha chegado aqui”, disse Carlos Moedas, referindo que o seu “empenho” no combate às alterações climáticas “vem de longe, desde a Comissão Europeia”. E que “é um empenho não contra as pessoas, mas com as pessoas. Esta medida foi votada sem se ter ouvido as pessoas”, disse, lembrando que na avenida existem mais de 80 lojas, 15 hotéis e salas de espectáculos. “As pessoas têm o direito de ver esses espectáculos.”

 

 

Para Miguel Gaspar, esta foi “uma semana horribilis da governação da cidade de Lisboa. Os lisboetas estarão certamente desiludidos com a nossa falta de capacidade conjunta para o diálogo. O primeiro esforço é seu”, disse, desafiando Moedas para co-organizarem um evento do “A Rua é Sua” para “debater o assunto com as pessoas” in loco.

 

A fechar o assunto, Rui Tavares disse querer ser envolvido no processo de consulta pública e garantiu que continuará a apresentar propostas. “Não pedimos desculpa pelas nossas propostas serem aprovadas. O que estava na proposta do Livre é uma missão.”

 

Notícia actualizada às 21h22: Acrescenta informação sobre a discussão em reunião de câmara

 

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