ENTREVISTA
“Com a solução de Luís Montenegro o PSD fica mais
pequeno”
Jorge Moreira da Silva, candidato à liderança do PSD, diz
que o partido “não está a eleger um director de marketing” e que não aceita uma
campanha de um “certo feudalismo”. Em entrevista ao programa Hora da Verdade,
do PÚBLICO e da Rádio Renascença, o ex-ministro classifica como “excelente” o
trabalho de Paulo Mota Pinto na liderança da bancada parlamentar.
Jorge Moreira da
Silva em entrevista ao programa Hora da Verdade
Sofia Rodrigues e
Manuela Pires (Renascença)
26 de Maio de
2022, 6:11
https://www.publico.pt/2022/05/26/politica/entrevista/solucao-luis-montenegro-psd-fica-2007648
Foi líder da JSD,
eurodeputado, secretário de Estado e, mais tarde, ministro do Ambiente do
Governo de Passos Coelho. Foi consultor de Cavaco Silva para a área da ciência
e do ambiente. Deixou de ser director para a Cooperação e Desenvolvimento da
OCDE para ser candidato à liderança do PSD. Jorge Moreira da Silva diz que está
na política há 33 anos e faz questão de sublinhar a natureza mais executiva do
seu currículo. Já Luís Montenegro, o seu adversário nas directas do próximo
sábado, tem um “perfil mais parlamentar, de comunicação”.
Esteve seis anos
em Paris na OCDE, anunciou a candidatura há apenas um mês. Estava à espera de
encontrar um partido tão desmobilizado?
Estava à espera
de encontrar um partido à espera de uma refundação. Não foi surpresa aquilo que
tenho verificado. Esta é uma oportunidade que pode ser a última para que o
partido se refunde.
Como é que vai
cativar os mais jovens?
Os partidos só
servem para alguma coisa se tiverem as propostas certas para as pessoas. O
futuro do PSD e a resposta a esse desafio de trazer mais gente e dinamizar mais
o PSD passa por lançar propostas que possam corresponder aos grandes problemas
que o país enfrenta.
Nesta altura
considera que o PSD se tornou irrelevante?
Não, o PSD não se
tornou irrelevante, continua a ser um partido fundamental. Não é por acaso que
estamos há tanto tempo na oposição e que nos últimos 20 anos fomos chamados a
governar em momentos de crise profunda. E eu não me conformo nem resigno com um
PSD que aparece apenas em fases de socorro e de emergência.
Acusa o seu
adversário de estar há três anos no terreno, enquanto o senhor está há apenas
três semanas. Reconhece que chegou tarde demais?
Eu admito que não
tirei a ficha primeiro e que não andei a almoçar nem a jantar nem a fazer um
conjunto de contactos no terreno que lhe possam ter conferido, e conferiram, a
lógica da precedência. Essas lógicas não só estão ultrapassadas como são mesmo
a base do problema em que o PSD está. O PSD há muito tempo que não pensa nem
interpreta os sinais da sociedade.
Rui Rio não fez
isso?
Eu não estou a
falar de Rui Rio, estou a falar do partido no seu todo, estou a falar de mim,
de todos nós, de um partido que se foi habituando a saltar de líder em líder e,
em termos práticos, a oferecer um projecto de poder que resultasse em grande
parte da erosão de quem estava a governar à época. Considero que isso hoje não
é suficiente. Não penso que o PSD possa voltar a ter uma maioria absoluta em
Portugal se se voltar a desgastar e a criticar o PS. Serei líder da oposição e
exercê-la-ei de uma forma firme e enérgica, mas isso não gera o capital de
esperança necessário. Estou no terreno há apenas um mês, mas estou na vida
política há 33 anos. Não precisei de muito para que as pessoas se recordassem
das reformas que fiz.
O seu adversário
não fez essas reformas?
Não, isso é
evidente. O dr. Montenegro tem um perfil mais tribunício, parlamentar, de
comunicação. O meu é mais associado à reflexão estratégica e depois à gestão de
pessoas, de projectos, de envelopes financeiros de grande dimensão, à liderança
de reformas e entrega de resultados. O PSD vai ter agora oportunidade de
escolher se quer um líder tribunício, que em termos práticos aposta tudo na
comunicação e num registo de escrutínio ao governo, ou um líder que seja capaz
de fazer isso – e convenhamos já o fiz no passado –, mas que também seja capaz
de conferir credibilidade que resulte de uma experiência de quem fez. Eu valho
pelo projecto que tenho para o país. Eu preparei-me para esta função. Eu
escrevi a minha moção, acho que as ideias são tão importantes que não se devem
subcontratar.
O meu adversário
dá tanto valor às ideias que até foi buscar para a sua moção quem escreveu
[Joaquim Miranda Sarmento] o programa de Rio. Em termos práticos resulta daqui
uma de duas coisas: ou tinha uma divergência profunda com Rui Rio no plano
programático – e nesse caso não se entende como é que vai buscar para coordenar
a sua moção alguém que liderou as ideias de Rio –ou então era apenas uma
questão de ambição pessoal. Nós estamos a escolher o CEO do PSD, para ser o CEO
do país. Não estamos a escolher o director de marketing ou relações públicas.
Não tem o apoio
das distritais do partido, os líderes da JSD e os autarcas sociais-democratas
estão com Montenegro. Paulo Rangel vai ficar de fora. E Carlos Moedas está em
silêncio. Esperava ter mais apoios?
É muito
importante notar a diferença, eu não telefonei a ninguém a pedir apoio. Quanto
aos presidentes das distritais e das estruturas autónomas, eu preferiria que
não tivessem assumido uma posição porque em eleições directas quem vota são os
militantes. Cada militante tem um voto e são os militantes que decidem. Se me
perguntam se ‘gosta de ter a título individual o apoio de alguns dirigentes’,
claro que sim. Agora, eu não confundo os dirigentes com os militantes. Os
dirigentes, que eu respeito, não são donos de votos. É pressupor de uma forma
errada que só porque alguém apoia leva atrás dezenas ou centenas ou milhares de
votos.
Tenho demasiado
respeito pelo partido, pelos dirigentes e por mim próprio para aceitar uma
campanha que, em termos práticos, nos faz regressar a um certo feudalismo. O
PSD só se refunda, só se reconstrói, só se regenera se der verdadeiro poder aos
militantes e se assumir que a liberdade e a responsabilidade dentro do partido
são critérios essenciais.
Está arrependido
de ter começado esta campanha tarde?
Não, de modo
algum. Porque eu quis fazer um teste ao partido, quis que o partido percebesse
que eu vim para operar uma mudança profunda. O apoio dos dirigentes das
distritais não corresponde, de modo algum, ao resultado que vou ter.
Isso viu-se nas
últimas directas...
Mas viu-se também
em 1985. Isto estava tudo feito para uma pessoa. E de repente o partido
depara-se com Cavaco Silva, muda, dá-lhe a vitória e depois estivemos dez anos
no Governo. É não conhecer a história do partido e insistir na ideia de que 21
pessoas mandam no partido.
O modelo de
eleição de líder devia ser alterado?
Julgo que vamos
ter de fazer essa reflexão e, na minha moção, lanço algumas bases para o que
pode ser a mudança interna, que passa por maior participação daqueles que não
são militantes.
Abre a porta a
eleições primárias?
Há muitos anos
que admiti essa possibilidade. Tenho um artigo publicado no PÚBLICO há muitos
anos em que defendia que se desse mais poder aos militantes, mas que se
criassem condições para que aqueles que não são militantes participassem na
nossa vida interna e nos mecanismos de eleição. As primárias são uma forma mas
existem outros mecanismos. Também temos de operar uma mudança profunda na
lógica da militância. Hoje somos militantes de uma secção, de uma concelhia,
não podemos ser de uma causa. Julgo que não conseguimos trazer mais gente para
o PSD se não abrirmos essa possibilidade. O PSD deve abandonar a ideia do
partido-instituição ou incumbente, como classifica Luís Montenegro, e ser um
partido-movimento orientado por causas.
Acusa Montenegro
de ser um dos responsáveis pela instabilidade nos últimos quatro anos. Mas, em
artigos de opinião, pediu um congresso extraordinário a meio do mandato de Rui
Rio e um ano antes defendeu que o líder se devia ter demitido após a
“humilhação” das europeias. Também contribuiu para essa instabilidade?
Há uma grande
diferença e o dr. Rui Rio tem sublinhado isso. Uma coisa é expressar a
divergência, e eu fi-lo de forma documentada e escrita em dois momentos. Outra
coisa é andar na beligerância, afirmei e fui à minha vida, não andei a falar
com ninguém. Coisa diferente é estar permanentemente em operações de desgaste
para o derrube da liderança o mais cedo possível e, convenhamos, eu nesse
campeonato não andei.
Esta entrevista
está a ser gravada terça-feira, daqui a uma hora vai para os Açores, que tem um
governo do PSD/CDS/PPM com o apoio do Chega. Que avaliação é que faz agora
desse entendimento? Prejudicou o partido?
Não mudo de
opinião em função das conveniências. Divergi em 2020 sobre uma solução de entendimento
com o Chega e expressei a minha preocupação sobre o efeito de contágio no
contexto nacional. Nos Açores, temos tido um excelente governo, liderado de
forma competentíssima por José Bolieiro, e os únicos problemas que tem tido
resultam da chantagem que o deputado do Chega vai provocando, o que prova que
para futuro o PSD deve apostar tudo numa maioria absoluta nos Açores.
No contexto
nacional, a existência dessa ambiguidade foi a derrota nas eleições
legislativas e a maioria absoluta do PS. Ora, considero que para futuro, o PSD
não tem qualquer possibilidade de vencer quaisquer eleições legislativas com
maioria absoluta se existir o mínimo risco percepcionado pelas pessoas de que
possa haver qualquer espécie de diálogo ou de entendimento com o Chega.
Considero, aliás, grave que o meu concorrente directo não só não tenha dito
nada em 2020 como não tenha percebido nada do que aconteceu entretanto, e agora
esteja literalmente a ziguezaguear em todas as entrevistas que dá. Pior do que
isso, a sua moção abre deliberadamente as portas a um entendimento com o Chega
em todo o tipo de eleições. Eu considero que isso é condenar o PSD a uma
pequena minoria.
Não é isso que os
militantes querem para chegar ao poder?
Espero que os
militantes percebam que, com a solução de Luís Montenegro, vamos ficar mais
pequenos. E com a minha solução vamos crescer. É fazer as contas. Não é só uma
questão de princípio mas neste caso é, ainda por cima, uma questão de eficácia
eleitoral. Não havendo uma noção clara da parte dos eleitores que de não há
qualquer possibilidade de entendimento entre o PSD e o Chega, os eleitores do
Chega que expressam voto de protesto não sentirão necessidade de votar no PSD
para retirar o PS do Governo porque acharão que não há nenhum problema em votar
no Chega porque amanhã nos podemos entender.
Essa estratégia
de Montenegro vai impedir o PSD de batalhar por uma maioria absoluta?
Estou
perfeitamente convencido disso. Até porque os eleitores de centro, se sentirem
que há o risco de um qualquer entendimento com o Chega, não votarão no PSD.
Considero que esta linha vermelha que traço é importante do ponto de vista dos
princípios mas é uma linha vermelha fundamental para o PSD ter maioria. O PSD
precisa de ter dois milhões e 300 mil votos para ter maioria absoluta. Neste
momento temos um milhão e 600 mil votos. Se o PSD for ambíguo na relação com o
Chega não cresce nem à direita nem cresce à esquerda. Não tenho nenhuma
obsessão com o Chega, tenho é obsessão com princípios e valores e com retirar o
PS do Governo para que o PSD possa ter uma maioria absoluta. Esta posição de
relativismo face ao Chega afecta os valores e integridade do PSD e condena o
PSD a ficar muitos, muitos anos na oposição.
Que avaliação faz
até agora do trabalho de Paulo Mota Pinto na liderança da bancada?
Faço uma
excelente avaliação. Paulo Mota Pinto é um político experimentado e com uma
grande credibilidade externa. Foi eleito por uma larguíssima maioria no
Parlamento e tem feito um excelente lugar.
Se for eleito no
sábado, ele manter-se-á na liderança da bancada?
Eu não quero
entrar numa discussão que, desde logo, depende da vontade de Mota Pinto. Direi
que tem toda a legitimidade para continuar e está a fazer um excelente mandato.
Ele terá de dizer se tenciona continuar ou não.
Se perder no
próximo sábado, está disponível para aceitar alguma responsabilidade na
liderança de Montenegro?
Estou confiante
na vitória, é nesse cenário que estou focado.
A oposição acusa
o Governo de não dar respostas ao aumento do custo de vida no Orçamento do
Estado. O seu adversário defende a criação de um programa de emergência social.
E o senhor? Defende o aumento de salários?
Defendo uma
resposta integrada e abrangente. Desde logo, o Orçamento tem de corresponder à
verdade e este é um acto de fingimento porque finge níveis de inflação que
sabemos que são irrealistas só para poderem disfarçar vir a receber mais
receita do que estão a comunicar para não aumentar a despesa necessária como
deveriam. Há desde logo um problema de transparência e de credibilidade na
política orçamental. É tanto mais grave quando sabemos que o tempo dos juros
baixos acabou.
Defende o aumento
dos salários como a esquerda?
Parece-me
evidente que os salários têm de aumentar na medida em que a inflação está a
aumentar. Mas não basta. Temos é de pôr a economia a crescer.
Sobre o novo
aeroporto de Lisboa. Defende a solução do Montijo? E acha que, tal como pede
Carlos Moedas, deve ser uma prioridade um novo aeroporto?
Considero que o
país precisa de um novo aeroporto. Não estou convencido de que a solução que
foi encontrada corresponda a toda a informação que foi disponibilizada.
Reconheço em muitos especialistas razões que me levantam dúvidas.
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