OPINIÃO
Não mexam no meu popó
Uma coisa é debater com seriedade tudo o que falta para
Lisboa ter uma mobilidade que não a envergonhe. Outra é descartar medidas
perfeitamente convencionais no debate atual sobre cidades como se de delírios
de ativistas alienados se tratasse.
Susana Peralta
27 de Maio de
2022, 0:00
https://www.publico.pt/2022/05/27/opiniao/opiniao/nao-mexam-popo-2007874
Foi no verão de
2007 que a Câmara Municipal de Lisboa decidiu encerrar o trânsito automóvel na
Praça do Comércio aos domingos. Carlos Barbosa, presidente do Automóvel Club de
Portugal (ACP) desde 2004, desempenhou à época impecavelmente a sua missão de
lobista-mor a favor do direito supremo da utilização da viatura privada. A 8 de
janeiro de 2009, o ACP publicou no seu site uma notícia sugestivamente
intitulada “ACP apresentará Estudo para inviabilizar Plano de Encerramento do
Terreiro do Paço ao Trânsito”. As maiúsculas são do original. A ideia,
portanto, é que existiria um estudo, daqueles com E maiúsculo, só que tinha um
problema: o ACP sabia previamente o resultado do dito. O ACP previa um cenário
apocalítico de congestionamento de ruas sem capacidade para absorver o trânsito
que seria desviado do “sistema viário da Baixa/Praça do Comércio” e até –
pasme-se – uma situação “igualmente negativa” na circulação dos transportes
públicos.
O problema destas
previsões catastrofistas é ignorarem que as pessoas adaptam as suas estratégias
de mobilidade às novas regras. Se é verdade que nos primeiros domingos sem
carros de setembro de 2007 houve bastante congestionamento na zona circundante
ao Terreiro do Paço, este evaporou-se em poucas semanas. Não é milagre – é
mesmo o fenómeno da “evaporação” do tráfego, assim denominado em relatórios
sobre mobilidade de instituições internacionais e em sites de cidades que têm
implementado zonas de tráfego reduzido, velocidade máxima de 30 km/h, ruas
pedonais, e outras ideias que só não são boas para Lisboa. Se não acredita,
peça ao Google “traffic evaporation” e comprove.
A título de
exemplo, deixo aqui um parágrafo traduzido do documento “Reclaiming city
streets for people: chaos or quality of life?”, publicado pela Direção-Geral do
Ambiente da Comissão Europeia em 2004. Reza assim: “Este manual ilustra o
conceito de evaporação de tráfico usando casos de estudo de uma seleção de
cidades europeias [que] (...) avançaram com a redução do espaço rodoviário,
apesar de previsões de que esta resultaria em caos de tráfico. No entanto (...)
os problemas iniciais de congestão foram de curta duração, e depois de um
período de adaptação uma proporção do tráfego tinha ‘evaporado’.”
Este manual da DG
Ambiente data de 2004. Portanto, não é só no crescimento económico que Portugal
patina. Sem surpresa, nas ideias retrógradas também. Eis-nos, por isso, em 2022
a debater uma decisão camarária exatamente nos mesmos termos do que em 2007. No
início do mês, por proposta do Livre, os vereadores e vereadoras da Câmara
Municipal de Lisboa aprovaram um conjunto de medidas relativas ao trânsito
automóvel na cidade. São elas: diminuir em dez quilómetros por hora a
velocidade máxima na cidade, tornar a Avenida da Liberdade pedonal aos domingos
e dias feriados e, nos mesmos dias, escolher uma artéria central de cada
freguesia para igualmente cortar o trânsito da mesma.
A proposta foi
recebida com uma palete de tons. Do jocoso, protagonizado por Sérgio Sousa
Pinto na CNN, que riu, entre outras coisas, de esta proposta pretender poupar
energia no contexto do possível embargo ao petróleo russo, ao comoventemente
provinciano trazido até nós por Álvaro Covões, quando, na SIC Notícias, avisou
que cidades que apostam em zonas pedonais não atraem turistas com elevado poder
de compra. Sim, que um cliente da Louis Vuitton – Oh! Desonra suprema! – não
vai às compras de metro. Acontece que o mais provável é o tal cliente estar
hospedado num hotel do centro da cidade e poder até apreciar o facto de ir a pé
à loja luxuosa da sua predileção, que tem certamente um serviço de entrega que
diligentemente lhe faz chegar as compras ao hotel. Só que Covões tem em mente
um carro de alta cilindrada, estacionado com os quatro piscas em cima do
passeio, enquanto o nosso turista-de-carteira-recheada se regala na loja.
O tom mais
agressivo coube, como sempre, a Carlos Barbosa, que apelidou a proposta de
“idiota”, “estúpida” e “completamente irracional”, acrescentando ainda, para
que não restem dúvidas, que “não tem pés nem cabeça”. Como não podia deixar de
ser, apareceram as previsões catastrofistas, pela mão de um estudo de uma
consultora de comunicação, a BA&N. O estudo parte do princípio de que a
velocidade média passa de 50 para 40 km/h com a redução da velocidade máxima,
uma ideia falsa porque, devido à congestão das cidades, a velocidade máxima
raramente é atingida.
Dados da TomTom
Reuters mostram que, em 2019 (para irmos buscar uma medida de vida normal
pré-pandemia), o congestionamento médio da cidade de Lisboa foi de 33%, o que
quer dizer que as deslocações demoram em média um terço mais do que demorariam
numa cidade em que o trânsito fluiria sem qualquer congestão. O estudo parte,
por isso, de um pressuposto errado, para além de ignorar ganhos de redução de
velocidade máxima na segurança rodoviária. Não sei se baseado neste estudo
falacioso, até Carlos Moedas, presidente da câmara, acenou com centenas de
despedimentos das salas de espetáculos, restaurantes e hotéis da Avenida,
esquecendo-se que já viveu em cidades onde medidas semelhantes não mandaram
ninguém para o desemprego.
Como é óbvio, os
problemas de mobilidade de Lisboa não se vão resolver com estas medidas.
Enquanto tivermos de esperar 12 minutos (ou mais) por comboios do metro em hora
de ponta, o transporte público vai continuar a não ser atrativo para muitas
pessoas. Faltam melhores ligações dos concelhos limítrofes entre si e à cidade
de Lisboa. Mas elas podem, ainda assim, contribuir para encorajar mais pessoas
a usar a bicicleta porque correm menos perigo. E, diminuindo a congestão, pode
ser que os autocarros se tornem mais fiáveis. Já é alguma coisa. Mas uma coisa
é debater com seriedade tudo o que falta para Lisboa ter uma mobilidade que não
a envergonhe junto de congéneres europeias. Outra é descartar medidas
perfeitamente convencionais no debate atual sobre cidades como se de delírios
de ativistas alienados se tratasse.
A forma pouco séria como o debate se armou no burgo
mostra que esta gente vive como no filme Good Bye, Lenin!. Ainda se acham nos
anos 80
No mundo de 2022
em que vivemos, a Organização Mundial da Saúde lançou uma campanha para levar
as cidades de todo o mundo a adotar o limite de 30 km/h. A Comissão Europeia
aconselha a implementação de dias sem carros e a promoção das deslocações a pé
e de bicicleta, com o objetivo de poupar energia e acelerar a independência
energética da Rússia. A rede de cidades “Eurocities” adotou o slogan “Streets
for People”, para que as ruas das nossas cidades não sejam apenas “corredores
do ponto A ao ponto B”. Várias cidades vivem hoje com limites de velocidade
abaixo dos 50 km/h, a maior parte com 30 km/h, incluindo Berlim, Londres, Nova
Iorque, Dublin, Bruxelas, Bilbau e Paris. Madrid adotou para o seu centro uma
zona de baixas emissões (onde só entram viaturas autorizadas) de 472 hectares.
A forma pouco
séria como o debate se armou no burgo mostra que esta gente vive como no Good
Bye, Lenin!, o filme em que uma doente em coma acorda oito meses depois da
queda do muro de Berlim e o filho monta à sua volta um cenário perfeito para
ela não ter de se confrontar com as mudanças do mundo. Ainda se acham nos anos
80.
A autora escreve
segundo o novo acordo ortográfico


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