domingo, 19 de setembro de 2021

Haja paciência para o milagre da “bazuca”

 

IMAGEM DE OVOODOCORVO



Haja paciência para o milagre da “bazuca”

 

Entre o recurso ao PRR como um instrumento precioso e a sua exaltação como o remédio para os problemas do país vai uma distância que o primeiro-ministro não está a querer ou saber determinar.

 

Manuel Carvalho

18 de Setembro de 2021, 21:30

https://www.publico.pt/2021/09/18/politica/editorial/paciencia-milagre-bazuca-1977955

 

Faz parte da natureza dos políticos distribuir promessas em campanha eleitoral e António Costa é seguramente um dos políticos do país que mais e melhor exibe esta natureza. “Não é correcto”, como diz Rui Rio, ou pode ser até “chantagem”, como defende Jerónimo de Sousa, o primeiro-ministro andar pelo país a acenar o milagre do Programa de Recuperação e Resiliência (PRR).

 

Mas, convenhamos, ele faz o que os seus antecessores fizeram, faz o que os seus sucessores vão fazer e nenhum dos seus adversários políticos do presente desdenharia do poder de uma arma como a “bazuca” para a propaganda. O pior da prática não está, portanto, nas promessas. O pior está na criação de um mito que estimula a letargia e o conformismo.

 

Se faz sentido falar no envelope financeiro de 16,9 mil milhões de euros como uma “oportunidade única”, se não se discute a necessidade de mobilizar as autarquias para esse esforço, se o programa foi pensado e negociado para acelerar a saída da Europa da crise, é errado torná-lo o princípio e o fim do futuro do país. É isso que António Costa tem feito em todos os palcos de campanha que tem pisado.

 

Aqui e ali, vai havendo lugar para a promessa de uma maternidade ou de mais dinheiro para as autarquias, mas a mensagem que o primeiro-ministro anda a distribuir a eito transforma o PRR no novo ouro do Brasil ou na mais recente fornada de dinheiro fácil. Entre o recurso ao PRR como um instrumento precioso e a sua exaltação como o remédio para os problemas do país vai uma distância que o primeiro-ministro não está a querer ou saber determinar.

 

É aliás na sequência de tanto deslumbramento que autarcas do PS apelam ao voto com a promessa de que, com eles no poder, será mais fácil receber a bênção do PRR. Nada do que Costa disse permite essa promessa demagógica e abusiva, mas o primeiro-ministro não pode isentar-se de responsabilidade por esses discursos. Na prática, ao criar a religião salvífica da “bazuca”​​​, ele acaba por inspirar os seus sacerdotes.

 

Os portugueses deixaram há muito de acreditar nos milagres da multiplicação de dinheiro fácil. Mas se o aceno dos fundos dá hoje poucos votos, pode instilar a ideia no país de que basta executar bem o PRR para que tudo se resolva.

 

Essa é uma ideia perigosa que justifica combate. Não tanto pelo efeito que pode ter nos portugueses, mas principalmente pela influência que pode ter num Governo que, sempre que pode, troca a ousadia das reformas pelo conforto da navegação à bolina.

 

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