IMAGEM DE OVOODOCORVO
Entre o recurso ao PRR como um instrumento precioso e a
sua exaltação como o remédio para os problemas do país vai uma distância que o
primeiro-ministro não está a querer ou saber determinar.
Manuel Carvalho
18 de Setembro de
2021, 21:30
https://www.publico.pt/2021/09/18/politica/editorial/paciencia-milagre-bazuca-1977955
Faz parte da
natureza dos políticos distribuir promessas em campanha eleitoral e António
Costa é seguramente um dos políticos do país que mais e melhor exibe esta
natureza. “Não é correcto”, como diz Rui Rio, ou pode ser até “chantagem”, como
defende Jerónimo de Sousa, o primeiro-ministro andar pelo país a acenar o
milagre do Programa de Recuperação e Resiliência (PRR).
Mas, convenhamos,
ele faz o que os seus antecessores fizeram, faz o que os seus sucessores vão
fazer e nenhum dos seus adversários políticos do presente desdenharia do poder
de uma arma como a “bazuca” para a propaganda. O pior da prática não está,
portanto, nas promessas. O pior está na criação de um mito que estimula a
letargia e o conformismo.
Se faz sentido
falar no envelope financeiro de 16,9 mil milhões de euros como uma
“oportunidade única”, se não se discute a necessidade de mobilizar as
autarquias para esse esforço, se o programa foi pensado e negociado para
acelerar a saída da Europa da crise, é errado torná-lo o princípio e o fim do
futuro do país. É isso que António Costa tem feito em todos os palcos de
campanha que tem pisado.
Aqui e ali, vai
havendo lugar para a promessa de uma maternidade ou de mais dinheiro para as
autarquias, mas a mensagem que o primeiro-ministro anda a distribuir a eito
transforma o PRR no novo ouro do Brasil ou na mais recente fornada de dinheiro
fácil. Entre o recurso ao PRR como um instrumento precioso e a sua exaltação
como o remédio para os problemas do país vai uma distância que o
primeiro-ministro não está a querer ou saber determinar.
É aliás na
sequência de tanto deslumbramento que autarcas do PS apelam ao voto com a
promessa de que, com eles no poder, será mais fácil receber a bênção do PRR.
Nada do que Costa disse permite essa promessa demagógica e abusiva, mas o
primeiro-ministro não pode isentar-se de responsabilidade por esses discursos.
Na prática, ao criar a religião salvífica da “bazuca”, ele acaba por
inspirar os seus sacerdotes.
Os portugueses
deixaram há muito de acreditar nos milagres da multiplicação de dinheiro fácil.
Mas se o aceno dos fundos dá hoje poucos votos, pode instilar a ideia no país
de que basta executar bem o PRR para que tudo se resolva.
Essa é uma ideia
perigosa que justifica combate. Não tanto pelo efeito que pode ter nos
portugueses, mas principalmente pela influência que pode ter num Governo que,
sempre que pode, troca a ousadia das reformas pelo conforto da navegação à
bolina.


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