A gafe socialista da década
A mentalidade socialista e estatista chegou a um ponto
tal que se tornou inconsciente da sua própria cegueira.
João Miguel
Tavares
21 de Setembro de
2021, 0:00
https://www.publico.pt/2021/09/21/opiniao/opiniao/gafe-socialista-decada-1978099
O título de gafe
socialista da década pode parecer atrevido, mas se aguentar firme até ao final
deste texto, caro leitor, talvez me dê razão. A história é esta: o ministro da
Educação decidiu celebrar o início de mais um ano lectivo com uma entrevista à
agência Lusa. Talvez para fazer esquecer as trapalhadas dos computadores da
pandemia que demoraram mais a chegar do que o vírus a ir-se embora, Tiago
Brandão Rodrigues surgiu munido de um valor novinho em folha, um número redondo
e espectacular, com o qual sonhava fazer lindas manchetes e abrir todos os
telejornais. E que número era esse? Quatro algarismos: 6200 euros – o custo
anual por cada aluno no sistema educativo português. 6200 euros por ano. 517
euros por mês. Ou, para aquelas famílias que só pagam 11 mensalidades nas
escolas privadas, 565 euros mensais.
O mais espantoso
naqueles astronómicos 6200 euros é o orgulho que o ministro da Educação
ostentou ao anunciá-los. Passo a citar: “Em 2015 cada aluno representava um
custo anual de menos de 4700 euros, mas este ano o valor médio está ‘agora nos
6200 euros por aluno por ano’: ‘É um aumento brutal’, disse Tiago Brandão
Rodrigues.” Reparem: não fui eu quem disse “aumento brutal”. Não foi Rui Rio.
Não foi Passos Coelho. Não foi sequer Vítor Gaspar (que também usou uma
expressão semelhante, mas a propósito do aumento de impostos). Foi mesmo o
ministro da Educação. Tiago Brandão Rodrigues apresentou-se todo lampeiro numa
entrevista a vangloriar-se por um aluno português custar mais 32% a formar em
2021 do que custava em 2015.
A bazófia dos 6200 euros por aluno mostra o quanto o PS
vai escandalosamente nu, enquanto tece loas à educação e às “qualificações”. As
desigualdades não param de crescer, alimentadas por dinheiro público
A mentalidade
socialista e estatista chegou a um ponto tal que se tornou inconsciente da sua
própria cegueira. À boa maneira soviética, para o PS todo o aumento do
investimento do Estado é, por definição, um bom investimento, independentemente
dos seus resultados. O ministro só se esqueceu deste pequeno detalhe: saber se
o ensino público está realmente melhor e se a distância para as escolas
privadas tem diminuído ou aumentado.
Na cabeça do
ministro Tiago, essa é uma conclusão a que é fácil chegar – se o país está a
gastar mais 32% por aluno, os alunos e as escolas só podem estar 32% melhores.
Só que não estão. No final do ano passado, o resultado do TIMSS (o grande
estudo internacional que avalia competências a Matemática e a Ciências) foi
arrasador para Portugal, interrompendo a evolução positiva que vinha desde
1995. Brandão Rodrigues culpou Nuno Crato pelos resultados de alunos que
entraram no sistema escolar em 2015. Também os rankings das escolas demonstram
que a distância entre o ensino público e o privado aumenta de ano para ano. Em
2001, no top 50 do ranking elaborado pelo PÚBLICO havia 29 escolas
públicas e 21 escolas privadas. No ranking de 2020, havia três públicas e 47
privadas.
Agora, graças ao
ministro Brandão Rodrigues, sabemos que essa distância não só tem aumentado
como está cada vez mais cara. Portugal paga por cada aluno do ensino público um
valor igual ou superior ao de um colégio privado de meninos ricos – para
receber em troca o quê? Mais um ano lectivo com greves, professores por colocar
e uma qualidade de ensino a milhas das escolas de topo do país. Sim, esta é a
gafe socialista da década. A bazófia dos 6200 euros por aluno mostra o quanto o
PS vai escandalosamente nu, enquanto tece loas à educação e às “qualificações”.
As desigualdades não param de crescer, alimentadas por dinheiro público. É pura
destruição não-criativa. Um dia vai acabar mal.


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