segunda-feira, 5 de julho de 2021

Taxa sobre os vendedores de imprensa começou este domingo com algumas desistências

 


IMPRENSA

Taxa sobre os vendedores de imprensa começou este domingo com algumas desistências

 

Alguns pontos estão a optar por deixar de vender jornais e revistas. Distribuidora tem prejuízo e pede apoio do Estado.

 

João Pedro Pereira

4 de Julho de 2021, 22:36

https://www.publico.pt/2021/07/04/sociedade/noticia/taxa-vendedores-imprensa-comecou-domingo-desistencias-1968930?fbclid=IwAR2aiCtKH7LjfZBc2nmTbSHNm40eHN2qOM65msq80I72y0Z8rwvsSekdvfU

 

A única empresa de distribuição de jornais e revistas em Portugal começou este domingo a cobrar uma taxa aos pontos de venda, com a qual pretende cobrir parte dos custos de um negócio que deu 4,2 milhões de euros de prejuízo no último ano e meio.

 

A distribuidora VASP vai passar a cobrar aos quiosques, supermercados, gasolineiras e outros locais de venda 1,5 euros diários de segunda-feira a sábado, e um euro aos domingos. A medida enfureceu centenas de vendedores e alguns juntaram-se no mês passado numa nova associação, que entretanto apresentou uma providência cautelar para tentar impedir a aplicação da taxa. O tribunal, porém, ainda não se pronunciou. 

 

Os vendedores argumentam que as receitas da venda de jornais e revistas não permite acomodar a nova taxa. Por cada jornal vendido, os pontos de venda ficam com 15% do preço de capa (excluindo o IVA). No caso das revistas, ficam com 20%. “Há pontos que vendem um ou dois jornais”, observou o advogado da recém-formada Associação Nacional de Vendedores de Imprensa, José Gaspar Schwalbach. 

 

Schwalbach adiantou que há locais a optarem por deixar de vender publicações de imprensa e a rescindirem contrato com a VASP, mas não soube precisar o número. A distribuidora confirmou as rescisões. “Há um número que não é muito significativo de postos que já disseram que não vão pagar a taxa”, disse o director executivo da VASP, Paulo Proença. “Temos consciência de que o número vai crescer”, acrescentou.

 

A batalha entre a VASP e os vendedores de imprensa reflecte as dificuldades de um negócio que tem vindo a encolher e cuja queda foi acentuada pela pandemia. 

 

Apesar de a VASP não ter concorrência, a grande descida nas vendas de jornais e revistas registada no ano passado empurrou as contas deste segmento da empresa para o vermelho. Em 2020, o negócio de colocar jornais e revistas em carrinhas e transportá-los de noite para vários pontos do país resultou em três milhões de euros de prejuízo. A empresa (cujo grupo tem outras áreas de actividade, como a entrega de encomendas) endividou-se junto da banca. Este ano, os prejuízos com a distribuição de publicações somam cerca de 1,2 milhões de euros. A VASP diz que a entrega só é rentável em 27 concelhos, quase todos nas zonas de Lisboa e Porto.

 

“A VASP não sobrevive muito mais tempo a contrair dívida. Estamos a atingir uma situação de insolvência”, notou Paulo Proença. O encolher do mercado até já era antecipado pela distribuidora, mas aconteceu mais depressa do que a empresa esperava. “O que era para acontecer em cinco anos, está a acontecer hoje”, explicou o director executivo.

 

A venda de jornais em banca diminuiu 18% em 2020, segundo números da Associação Portuguesa para o Controlo de Tiragem e Circulação, que audita o sector. Dos 15 jornais para que há dados de vendas em banca (o que inclui alguns jornais locais e publicações especializadas), apenas o Expresso teve mais compradores, conseguindo uma subida de 2%. Nas revistas, a descida foi de 21% no número total de exemplares vendidos, com todos os 34 títulos auditados a apresentarem quebras. Os números do primeiro trimestre deste ano mostram uma continuação da tendência de descida. 

 

A VASP, criada em 1975, acabou por tornar-se a única empresa em Portugal a distribuir jornais e revistas. É hoje detida por dois grupos de media: 50% são da Cofina (dona dos jornais Correio da Manhã, Record e Jornal de Negócios, e da revista Sábado, entre outros), e o restante é da Global Media (JN, DN, TSF) e da Páginas Civilizadas, empresa que é accionista da Global Media. O grupo Impresa, dono do Expresso e da SIC, tinha uma participação na VASP, que recentemente vendeu à Cofina e à Páginas Civilizadas. O PÚBLICO faz parte do conselho de administração.

 

Apoio público?

Tanto a VASP como a associação de vendedores já tiveram conversas com o Governo e os vendedores têm agendada uma audiência com a secretaria de Estado do Comércio.

 

A distribuidora tem reivindicado apoios estatais, argumentando que presta um “serviço público” ao fazer chegar, com prejuízo, jornais a pontos do país de pouca densidade populacional e onde frequentemente a população é envelhecida. A empresa defende que uma possível solução seria uma comparticipação estatal que cobrisse parte dos custos, de forma semelhante ao que acontece com o incentivo à leitura de publicações periódicas, um regime ao abrigo do qual o Estado comparticipa o envio por correio de publicações regionais.

 

Em resposta a questões do PÚBLICO, a secretaria de Estado do Cinema, Audiovisual e Media notou apenas que tinha havido uma reunião com a VASP em conjunto com outras secretarias de Estado, que “a situação está a ser devidamente acompanhada” e que “está a estudar-se a situação apresentada”.

 

tp.ocilbup@ariereppj

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