IMPRENSA
Taxa sobre os vendedores de imprensa começou este domingo
com algumas desistências
Alguns pontos estão a optar por deixar de vender jornais
e revistas. Distribuidora tem prejuízo e pede apoio do Estado.
João Pedro
Pereira
4 de Julho de
2021, 22:36
A única empresa
de distribuição de jornais e revistas em Portugal começou este domingo a cobrar
uma taxa aos pontos de venda, com a qual pretende cobrir parte dos custos de um
negócio que deu 4,2 milhões de euros de prejuízo no último ano e meio.
A distribuidora
VASP vai passar a cobrar aos quiosques, supermercados, gasolineiras e outros
locais de venda 1,5 euros diários de segunda-feira a sábado, e um euro aos
domingos. A medida enfureceu centenas de vendedores e alguns juntaram-se
no mês passado numa nova associação, que entretanto apresentou uma providência
cautelar para tentar impedir a aplicação da taxa. O tribunal, porém, ainda não
se pronunciou.
Os vendedores
argumentam que as receitas da venda de jornais e revistas não permite acomodar
a nova taxa. Por cada jornal vendido, os pontos de venda ficam com 15% do preço
de capa (excluindo o IVA). No caso das revistas, ficam com 20%. “Há pontos que
vendem um ou dois jornais”, observou o advogado da recém-formada Associação
Nacional de Vendedores de Imprensa, José Gaspar Schwalbach.
Schwalbach
adiantou que há locais a optarem por deixar de vender publicações de imprensa e
a rescindirem contrato com a VASP, mas não soube precisar o número. A
distribuidora confirmou as rescisões. “Há um número que não é muito
significativo de postos que já disseram que não vão pagar a taxa”, disse o
director executivo da VASP, Paulo Proença. “Temos consciência de que o número
vai crescer”, acrescentou.
A batalha entre a
VASP e os vendedores de imprensa reflecte as dificuldades de um negócio que tem
vindo a encolher e cuja queda foi acentuada pela pandemia.
Apesar de a VASP
não ter concorrência, a grande descida nas vendas de jornais e revistas
registada no ano passado empurrou as contas deste segmento da empresa para o
vermelho. Em 2020, o negócio de colocar jornais e revistas em carrinhas e
transportá-los de noite para vários pontos do país resultou em três milhões de
euros de prejuízo. A empresa (cujo grupo tem outras áreas de actividade, como a
entrega de encomendas) endividou-se junto da banca. Este ano, os prejuízos com
a distribuição de publicações somam cerca de 1,2 milhões de euros. A VASP diz
que a entrega só é rentável em 27 concelhos, quase todos nas zonas de Lisboa e
Porto.
“A VASP não
sobrevive muito mais tempo a contrair dívida. Estamos a atingir uma situação de
insolvência”, notou Paulo Proença. O encolher do mercado até já era
antecipado pela distribuidora, mas aconteceu mais depressa do que a empresa
esperava. “O que era para acontecer em cinco anos, está a acontecer hoje”,
explicou o director executivo.
A venda de
jornais em banca diminuiu 18% em 2020, segundo números da Associação Portuguesa
para o Controlo de Tiragem e Circulação, que audita o sector. Dos 15 jornais
para que há dados de vendas em banca (o que inclui alguns jornais locais e
publicações especializadas), apenas o Expresso teve mais compradores,
conseguindo uma subida de 2%. Nas revistas, a descida foi de 21% no número total
de exemplares vendidos, com todos os 34 títulos auditados a apresentarem
quebras. Os números do primeiro trimestre deste ano mostram uma continuação da
tendência de descida.
A VASP, criada em
1975, acabou por tornar-se a única empresa em Portugal a distribuir jornais e
revistas. É hoje detida por dois grupos de media: 50% são da Cofina (dona dos
jornais Correio da Manhã, Record e Jornal de Negócios, e da revista Sábado,
entre outros), e o restante é da Global Media (JN, DN, TSF) e da Páginas
Civilizadas, empresa que é accionista da Global Media. O grupo Impresa, dono do
Expresso e da SIC, tinha uma participação na VASP, que recentemente vendeu à
Cofina e à Páginas Civilizadas. O PÚBLICO faz parte do conselho de
administração.
Apoio público?
Tanto a VASP como
a associação de vendedores já tiveram conversas com o Governo e os vendedores
têm agendada uma audiência com a secretaria de Estado do Comércio.
A distribuidora
tem reivindicado apoios estatais, argumentando que presta um “serviço público”
ao fazer chegar, com prejuízo, jornais a pontos do país de pouca densidade
populacional e onde frequentemente a população é envelhecida. A empresa defende
que uma possível solução seria uma comparticipação estatal que cobrisse parte
dos custos, de forma semelhante ao que acontece com o incentivo à leitura de
publicações periódicas, um regime ao abrigo do qual o Estado comparticipa o
envio por correio de publicações regionais.
Em resposta a
questões do PÚBLICO, a secretaria de Estado do Cinema, Audiovisual e Media notou
apenas que tinha havido uma reunião com a VASP em conjunto com outras
secretarias de Estado, que “a situação está a ser devidamente acompanhada” e
que “está a estudar-se a situação apresentada”.
tp.ocilbup@ariereppj

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