sábado, 3 de julho de 2021

Sim, o acidente de Eduardo Cabrita é uma questão política

 



OPINIÃO

Sim, o acidente de Eduardo Cabrita é uma questão política

 

O silêncio a que Cabrita se votou desde o acidente, agora interrompido com explicações mínimas e duvidosas, não é aceitável numa democracia madura.

 

João Miguel Tavares

2 de Julho de 2021, 19:11

https://www.publico.pt/2021/07/02/opiniao/opiniao/sim-acidente-eduardo-cabrita-questao-politica-1968839?fbclid=IwAR1_oWohh9AGpey7Amqd3M1cIKcqDXXuo-K3-tqGPhJ-twgRwjsEO7GwbTI

 

Eduardo Cabrita é um homem com azar, mas há um homem com mais azar do que Eduardo Cabrita: chama-se Nuno Santos e perdeu a vida na A6, após ser colhido pelo automóvel que transportava o ministro da Administração Interna. O silêncio a que Cabrita se votou desde o acidente, ocorrido no dia 18 de Junho – há duas semanas –, agora interrompido com explicações mínimas e duvidosas, extorquidas a conta-gotas pela comunicação social, não é aceitável numa democracia madura, sobretudo quando essa postura tem implicações sobre o bem-estar de uma viúva e de duas filhas que ficaram sem o pai, aos 13 e aos 16 anos.

 

Não é a primeira vez que isto acontece. Embora a tragédia da A6 nada tenha a ver com a de Ihor Homenyuk, há uma insensibilidade semelhante em relação à família das vítimas, obrigadas a recorrer à comunicação social para que o país repare nelas. Foi através de entrevistas que a viúva do ucraniano morto no aeroporto de Lisboa conseguiu que o caso voltasse à ribalta e a família fosse compensada; e é, mais uma vez, a partir de entrevistas do advogado da família e de declarações desesperadas da viúva de Nuno Santos (“as minhas filhas vão morrer à fome”), que, aos poucos, o ministro foi pressionado para se explicar.

 

Ao contrário do que sugere Manuel Carvalho no seu editorial (“A ‘política’ do acidente de Eduardo Cabrita”), este caso demorou bem mais do que um “instante” a tornar-se político. Francisco Rodrigues dos Santos e Rui Rio falaram sobre o tema no dia 28 e o pedido oficial de explicações do CDS no Parlamento ocorreu a meio da semana, quando já tinham passado 12 dias sobre o acidente. Num primeiro momento, a comunicação social foi bastante contida a relatar o caso, talvez até contida de mais. Aliás, foi a própria Administração Interna que emitiu um comunicado 24 horas após o atropelamento, com a clara intenção de atribuir a Nuno Santos a culpa pela tragédia, ao afirmar que ele 1) “atravessou a faixa de rodagem, próxima do separador central, apesar de os trabalhos de limpeza estarem a decorrer na berma da autoestrada”, e 2) “não havia qualquer sinalização que alertasse os condutores para a existência de trabalhos de limpeza em curso”.

 

A Brisa já veio contrariar o ponto 2, garantindo que os trabalhos estavam sinalizados. E há notícias que apontam para que o carro estivesse a circular a uma velocidade próxima dos 200 km/h, com base nos registos da Via Verde. Pela descrição do acidente avançada pela comunicação social, tudo aponta para que tenha havido, de facto, imprudência de Nuno Santos, mas também excesso de velocidade por parte do veículo onde seguia Cabrita. Ora, estando em causa um ministro, e um ministro que superintende a GNR, a transparência das informações e a velocidade na investigação teriam de ser absolutas prioridades. Não foram. E isso abre, naturalmente, campo a todas as especulações.

 

Manuel Carvalho alerta no seu editorial que estamos perante um “momento dramático da vida pessoal do ministro”. Não duvido que estejamos. Mas a mim preocupa-me bastante mais o momento dramático da família de Nuno Santos, agravado pelo desejo evidente de abafar o caso e pela atribuição da exclusiva responsabilidade pelo atropelamento à incúria do trabalhador. Deixo aqui um outro alerta: se o carro circulava a velocidade desmedida, o silêncio de 15 dias do ministro e o conteúdo do comunicado de dia 19 de Junho não são apenas feios – são politicamente imperdoáveis e moralmente obscenos.

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