OPINIÃO
Sim, o acidente de Eduardo Cabrita é uma questão política
O silêncio a que Cabrita se votou desde o acidente, agora
interrompido com explicações mínimas e duvidosas, não é aceitável numa
democracia madura.
João Miguel
Tavares
2 de Julho de 2021,
19:11
Eduardo Cabrita é
um homem com azar, mas há um homem com mais azar do que Eduardo Cabrita:
chama-se Nuno Santos e perdeu a vida na A6, após ser colhido pelo automóvel que
transportava o ministro da Administração Interna. O silêncio a que Cabrita se
votou desde o acidente, ocorrido no dia 18 de Junho – há duas semanas –, agora
interrompido com explicações mínimas e duvidosas, extorquidas a conta-gotas
pela comunicação social, não é aceitável numa democracia madura, sobretudo
quando essa postura tem implicações sobre o bem-estar de uma viúva e de duas
filhas que ficaram sem o pai, aos 13 e aos 16 anos.
Não é a primeira
vez que isto acontece. Embora a tragédia da A6 nada tenha a ver com a de Ihor
Homenyuk, há uma insensibilidade semelhante em relação à família das vítimas,
obrigadas a recorrer à comunicação social para que o país repare nelas. Foi
através de entrevistas que a viúva do ucraniano morto no aeroporto de Lisboa
conseguiu que o caso voltasse à ribalta e a família fosse compensada; e é, mais
uma vez, a partir de entrevistas do advogado da família e de declarações desesperadas
da viúva de Nuno Santos (“as minhas filhas vão morrer à fome”), que, aos
poucos, o ministro foi pressionado para se explicar.
Ao contrário do
que sugere Manuel Carvalho no seu editorial (“A ‘política’ do acidente de
Eduardo Cabrita”), este caso demorou bem mais do que um “instante” a tornar-se
político. Francisco Rodrigues dos Santos e Rui Rio falaram sobre o tema no dia
28 e o pedido oficial de explicações do CDS no Parlamento ocorreu a meio da
semana, quando já tinham passado 12 dias sobre o acidente. Num primeiro
momento, a comunicação social foi bastante contida a relatar o caso, talvez até
contida de mais. Aliás, foi a própria Administração Interna que emitiu um
comunicado 24 horas após o atropelamento, com a clara intenção de atribuir a Nuno
Santos a culpa pela tragédia, ao afirmar que ele 1) “atravessou a faixa de
rodagem, próxima do separador central, apesar de os trabalhos de limpeza
estarem a decorrer na berma da autoestrada”, e 2) “não havia qualquer
sinalização que alertasse os condutores para a existência de trabalhos de
limpeza em curso”.
A Brisa já veio
contrariar o ponto 2, garantindo que os trabalhos estavam sinalizados. E há
notícias que apontam para que o carro estivesse a circular a uma velocidade
próxima dos 200 km/h, com base nos registos da Via Verde. Pela descrição do
acidente avançada pela comunicação social, tudo aponta para que tenha havido,
de facto, imprudência de Nuno Santos, mas também excesso de velocidade por
parte do veículo onde seguia Cabrita. Ora, estando em causa um ministro, e um
ministro que superintende a GNR, a transparência das informações e a velocidade
na investigação teriam de ser absolutas prioridades. Não foram. E isso abre,
naturalmente, campo a todas as especulações.
Manuel Carvalho
alerta no seu editorial que estamos perante um “momento dramático da vida pessoal
do ministro”. Não duvido que estejamos. Mas a mim preocupa-me bastante mais o
momento dramático da família de Nuno Santos, agravado pelo desejo evidente de
abafar o caso e pela atribuição da exclusiva responsabilidade pelo
atropelamento à incúria do trabalhador. Deixo aqui um outro alerta: se o carro
circulava a velocidade desmedida, o silêncio de 15 dias do ministro e o
conteúdo do comunicado de dia 19 de Junho não são apenas feios – são
politicamente imperdoáveis e moralmente obscenos.


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