O ROSSIO NA
BETESGA
Palácio Burnay, visita a um defunto
A visita, clandestina, de Afonso Reis Cabral ao palácio
abandonado na rua da Junqueira desde que deixou de ser sede do ISCSP.
Afonso Reis
Cabral
por Afonso Reis
Cabral
27.06.2021
Caminhava pela
rua da Junqueira, longe de pensar em invasão de propriedade privada, quando
passei à porta do defunto. É como lhe chamo: ancorou como pequeno palácio
frente ao Tejo no século XVIII, com aqueles torreões acastelados, e entretanto
o rio recuou por causa dos aterros, dando ao defunto espaço para crescer – foi
casa de Verão dos patriarcas e depois andou por aí meio vendido, a ir com
todos, até ser agarrado por Henrique Burnay em 1880.
Este, de tanto
gostar dele, deu-lhe novas alas, um teatro, estufas e aquecimento central; mas
o defunto, ingrato, vendeu-se ao Estado nos anos quarenta, e com esse
proprietário ficou até hoje. E acabou sem ninguém, porque está abandonado.
Fica no 86,
embora os cento e cinquenta metros de fachada sejam demasiado grandes para um
número apenas.
Eu não pensava
visitá-lo mas uma janela aberta encontrou-me. E disse-me muito seriamente que
visitar os necessitados é uma obra de caridade. Espreitei, vi um átrio de pedra
de tal modo vazio que já era um tanto meu.
Pareceu-me que
visitar sozinho o defunto tirava-lhe metade do encanto, e metia um bocado de
medo. A invasão pareceu-me interessar a um escritor. Telefonei ao meu amigo
Hugo Mezena, que acedeu de imediato, decerto prevendo alguma literatura. «Mas
traz um colete amarelo», disse-lhe. Lembrava-me de ler sobre um ladrão que
usava os coletes amarelos para resolver quase todos os obstáculos: muito à
vista mas camuflado, assim vestido ninguém questionava que partisse janelas e
arrombasse portas.
Entrámos pela
minha janela com calma e sem disfarçar, enquanto eu dizia: «O cliente nunca
está satisfeito com a vistoria, já é a terceira vez que voltamos ao local», e o
Hugo repetia: «Nunca satisfeito, nunca satisfeito».
Por dentro, o
defunto estava mesmo morto: na entrada de pedra já não havia nenhum Burnay, nem
um dos nove filhos do primeiro Henrique; outro tanto para os patriarcas de
Verão e para os professores e alunos que ocuparam o edifício a partir da
segunda metade do século XX. Devem ter assistido ao degredo da casa, os frescos
agarrando-se frágeis aos tectos, e foram-se todos embora. É muita ingratidão
para tanto palácio.
Embora
abandonado, hoje a desenvencilhar-se sozinho, o meu defunto, o meu palácio,
ainda não deu completamente de si. Vai tentando tapar a incúria com as mãos.
Algumas partes já estão bastante ao léu: as duas estufas quebradas pela testa e
alguns salões de portas abertas para o jardim onde, em 1907, os Burnay deram um
garden party de abanar Lisboa. E há partes que se aguentam pela força do
hábito: o salão de jantar, o hall da escadaria principal.
Os nossos quatro
passos fariam eco se as tábuas não suassem humidade, se os veludos e as
tapeçarias e essas coisas com que, no século XIX, se revestiam as casas não
cobrissem as paredes. «Isto é inacreditável», dizia o Hugo enquanto
percorríamos as divisões, espécie de jogo de Tétris onde se encaixou a
opulência e a incúria. «É inacreditável», dizia eu.
Nas alas à
esquerda e à direita do maciço principal, vimos as muitas marquises que faziam
de salas de aula da Universidade de Lisboa. Um poster indicava a data mais
recente do defunto, 2016.
Mas em cima, no
torreão principal, uma agenda de 1997 marcava para as 15h30 do dia 23 de Junho
um «Conselho Administrativo (Extraordinário)», seguido de «Lembrar à Guidinha
daquele assunto com o sacana do João».
Depois da estufa
ocidental, rebentou-se-nos no olhar um teatro de cem lugares. Nos frescos do
tecto, os querubins de Malhoa dançavam e divertiam-se e faziam as seis artes. À
entrada, os visitantes como nós deixam mensagens num quadro de escola. Foge
foge foge foge, escreveu alguém a giz.
A morte é que não
consegue fugir: enterrou-se demasiado neste abandono, vive só e em desgaste.
Nem sequer abriga um pedinte. E não tarda o telhado começará a abater e o
palácio morrerá como muita gente: pela cabeça.
Visitávamo-lo
havia uma hora quando senti a falta de fantasmas. De espectros e outras
aparições. Uma casa destas não é uma casa destas sem uma taxa mínima de
sobrenatural. Como não tenho jeito para essas histórias, pensava que os
roll-ups com fotografias dos antigos Burnay eram fantasmas suficientes quando
me lembrei de que o Hugo Mezena é escritor. Calha bem, ter um escritor à mão.
Pedi-lhe um
fantasma, e ele inventou este:
«– Ei, por aqui!
– ouvimos. E uma brisa suave, quase imperceptível, agitou os nossos coletes. –
Por aqui! Vamos!
Não tínhamos
ainda percebido os contornos da exígua divisão na qual nos encontrávamos
quando, por baixo de uma das clarabóias pelas quais entrava uma luz a que os
nossos olhos se demoravam a acostumar, a ténue figura se materializou. O ar era
distinto. O ar de quem não gostava, já em vida, de ser importunado. E agora,
com tantos anos daquela recatada existência, tinha mais que fazer do que aturar
curiosos, malandros que se dedicam a vasculhar casas alheias, tratantes que se
pavoneiam de remexer as coisas dos outros, convencidos de que estes já não se
encontram lá. Mas havia que aguentar o frete.
– Por aqui!
Vamos! – continuou o espectro. – Vou levar-vos àquilo que realmente vos trouxe
cá. Algo reservado aos curiosos, aos temerários, aos que seguem a sua aventura
até ao fim. Isto desde que prometam deixar-me em paz logo de seguida.
– Prometemos –
dissemos num ápice.
– E de uma vez
por todas.
– Tem a nossa
palavra.»
Seguimos os três
para o pináculo do torreão, a única parte do palácio que nos faltava mapear. Acede-se
por uma escada em caracol a partir do sótão: e, quando nada indica, estamos
numa sala ampla, no meio da qual nova escada em caracol permite subir para o
pináculo. Permite ou não permite, consoante a madeira apodrecida se desfaça sob
os pés.
Lá de cima, num
único ponto rodeado de janelas, Lisboa foi mesmo minha. Às rédeas de um palácio
que eu conquistara, a cidade rolava com deferência. Rolava para mim, toda ao
ritmo da minha música.
Mas tive de
descer rapidamente, porque os passos do Hugo (que não deve pesar mais de
oitenta quilos) faziam tremer a escadaria. Os passos do fantasma não se
sentiam. A estrutura de madeira desmoronar-se comigo de arrasto seria uma boa
vingança do defunto, mesmo que não lhe tivéssemos feito mal.
O fantasma
riu-se, disse «Isto está assim há muito tempo, não é agora que desaba», e foi
assombrar outros metros quadrados.
Saímos do palácio
Burnay sob a alçada do colete amarelo. Fizéramos mais uma vez o levantamento
que o cliente pedia, não repetíamos a empreitada. Obrigarem-nos a entrar de
novo naquela espelunca já era abuso.
No fim, passámos
de mota por uma esquadra da PSP. Não resisti. Parei: «Desculpe lá, senhor
agente, mas aquele palácio abandonado na Junqueira tem uma janela aberta ao
nível da rua.» Disse o agente que volta e meia há quem invada, mas eles – que
azar do caraças – nunca conseguiram apanhar ninguém. E eu só pude concordar e
lamentar-me: «Naquele estado, qualquer idiota entra!»
PS – Depois de
ter escrito este artigo, o Forum Cidadania LX, através de Paulo Ferrero
endereçou uma carta ao Diretor-Geral do Tesouro sobre este assunto e o roubo de
quadros numa das salas que está retratada no artigo. Subscrevo na
íntegra.




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