sexta-feira, 22 de abril de 2022

O buraco no Parlamento que aplaudiu de pé

 



EDITORIAL

O buraco no Parlamento que aplaudiu de pé

 

Hoje, tal como na Primavera de Praga ou na queda do Muro de Berlim, o dogmatismo do PCP impera sobre a realidade e a propaganda sobre a razão.

 

Manuel Carvalho

21 de Abril de 2022, 21:30

https://www.publico.pt/2022/04/21/politica/editorial/buraco-parlamento-aplaudiu-pe-2003405

 

Volodimir Zelenskii esteve na Assembleia e para memória futura ficará menos o teor do seu discurso do que o poder simbólico da sua presença na casa da democracia. O PCP recusou-se a estar presente na sessão e o registo deste episódio para o futuro não se fará pela ausência propriamente dita, que era previsível e estava anunciada: o buraco aberto pela falta de comparência dos seus deputados vale também pelo lado simbólico e não tanto pela novidade. Nos rituais dos Estados e dos parlamentos, a simbologia conta e o que persistirá desta sessão é o aplauso em pé a Zelenskii de todas as bancadas e o buraco de um partido que insiste em refugiar-se numa verdade alternativa.

 

Zelenskii não fez mais do que criar empatia com os portugueses e alimentar a aliança com o Governo. No seu jeito descontraído, mostrou, uma vez mais, o seu profissionalismo. Imaginar Lisboa como Mariupol sem uma única casa poupada aos bombardeamentos, comparar as vagas de refugiados da guerra ao êxodo de toda a população de Portugal ou associar o 25 de Abril a um momento de libertação como o que o povo ucraniano anseia é eficaz, mesmo que a construção do discurso seja banal e repetitiva – bem melhor esteve Augusto Santos Silva.

 

Mas não era de novidades que os deputados estavam à espera. Era de um cerimonial de solidariedade coroado com as devidas vénias. Fosse qual fosse o discurso de Zelenskii, aconteceria o que aconteceu: os deputados acabariam por aplaudir em pé. Após dois meses de guerra, quem defende a democracia e as relações entre os Estados baseados no direito tem de agradecer aos ucranianos. Tem de reconhecer que, como disse Augusto Santos Silva, “defendendo-se a si própria, a Ucrânia defende-nos a todos”. Uma mensagem assim tão óbvia que é capaz de convencer tanto o Chega como o Bloco torna a ausência do PCP um enigma. Eles estão certos na sua luta contra a xenofobia de Zelenskii ou na denúncia da agressão do Governo de Kiev “ao seu próprio povo”. O resto do mundo é que está errado.

 

O PCP tem uma longa tradição de ficar do lado errado da história. Hoje, tal como na Primavera de Praga ou na queda do Muro de Berlim, o dogmatismo impera sobre a realidade e a propaganda sobre a razão. Não há mal em estar sozinho. Mas, quando o isolamento deixa de se sustentar em valores ou em ideias e se torna numa obstinação fútil baseada em meias verdades ou completas mentiras, deixa de expressar convicção ou firmeza. O PCP confronta-se com a sua maior ameaça existencial em muitas décadas.

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