EDITORIAL
O buraco no Parlamento que aplaudiu de pé
Hoje, tal como na Primavera de Praga ou na queda do Muro
de Berlim, o dogmatismo do PCP impera sobre a realidade e a propaganda sobre a
razão.
Manuel Carvalho
21 de Abril de
2022, 21:30
https://www.publico.pt/2022/04/21/politica/editorial/buraco-parlamento-aplaudiu-pe-2003405
Volodimir
Zelenskii esteve na Assembleia e para memória futura ficará menos o teor do seu
discurso do que o poder simbólico da sua presença na casa da democracia. O PCP
recusou-se a estar presente na sessão e o registo deste episódio para o futuro
não se fará pela ausência propriamente dita, que era previsível e estava
anunciada: o buraco aberto pela falta de comparência dos seus deputados vale
também pelo lado simbólico e não tanto pela novidade. Nos rituais dos Estados e
dos parlamentos, a simbologia conta e o que persistirá desta sessão é o aplauso
em pé a Zelenskii de todas as bancadas e o buraco de um partido que insiste em
refugiar-se numa verdade alternativa.
Zelenskii não fez
mais do que criar empatia com os portugueses e alimentar a aliança com o
Governo. No seu jeito descontraído, mostrou, uma vez mais, o seu
profissionalismo. Imaginar Lisboa como Mariupol sem uma única casa poupada aos
bombardeamentos, comparar as vagas de refugiados da guerra ao êxodo de toda a
população de Portugal ou associar o 25 de Abril a um momento de libertação como
o que o povo ucraniano anseia é eficaz, mesmo que a construção do discurso seja
banal e repetitiva – bem melhor esteve Augusto Santos Silva.
Mas não era de
novidades que os deputados estavam à espera. Era de um cerimonial de
solidariedade coroado com as devidas vénias. Fosse qual fosse o discurso de
Zelenskii, aconteceria o que aconteceu: os deputados acabariam por aplaudir em
pé. Após dois meses de guerra, quem defende a democracia e as relações entre os
Estados baseados no direito tem de agradecer aos ucranianos. Tem de reconhecer
que, como disse Augusto Santos Silva, “defendendo-se a si própria, a Ucrânia
defende-nos a todos”. Uma mensagem assim tão óbvia que é capaz de convencer
tanto o Chega como o Bloco torna a ausência do PCP um enigma. Eles estão certos
na sua luta contra a xenofobia de Zelenskii ou na denúncia da agressão do
Governo de Kiev “ao seu próprio povo”. O resto do mundo é que está errado.
O PCP tem uma
longa tradição de ficar do lado errado da história. Hoje, tal como na Primavera
de Praga ou na queda do Muro de Berlim, o dogmatismo impera sobre a realidade e
a propaganda sobre a razão. Não há mal em estar sozinho. Mas, quando o
isolamento deixa de se sustentar em valores ou em ideias e se torna numa
obstinação fútil baseada em meias verdades ou completas mentiras, deixa de
expressar convicção ou firmeza. O PCP confronta-se com a sua maior ameaça
existencial em muitas décadas.


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