Os perigos do negacionismo
20.09.2021 às
08h06
MANUEL DELGADO
ADMINISTRADOR
HOSPITAL
O negacionista
tende a desvalorizar o que é norma ou ciência comprovada, para passar a
acreditar em factos alternativos ou pós-verdades. Movimenta-se bem nas redes
sociais, dispõe de muita informação e apresenta-se como pessoa mais esclarecida
face ao comum dos mortais. Felizmente, a história mostrou-nos, ao longo dos
séculos, que o conhecimento e a ciência se foram sobrepondo à especulação, a
teorias da conspiração ou à pura negação dos factos
As redes sociais
estão hoje invadidas pelas mais delirantes teorias conspiracionistas e de
negação da realidade (as fake news). Não que o fenómeno seja propriamente novo,
mas porque o poder esmagador da comunicação rapidamente amplifica mensagens de
todo o tipo, verdadeiras ou falsas, de fontes conhecidas e/ou credíveis ou não,
sobre coisas sem importância ou sobre matérias transcendentes para a nossa vida
coletiva. O negacionista tende a desvalorizar o que é norma ou ciência
comprovada, para passar a acreditar em factos alternativos ou pós-verdades.
Movimenta-se bem nas redes sociais, dispõe de muita informação e apresenta-se
como pessoa mais esclarecida face ao comum dos mortais. Felizmente, a história
mostrou-nos, ao longo dos séculos, que o conhecimento e a ciência se foram
sobrepondo à especulação, a teorias da conspiração ou à pura negação dos
factos. Todavia, é com alguma perplexidade que vemos atualmente o
recrudescimento dessas teorias e desses posicionamentos de combate contra a
ciência e o conhecimento e, o que é dramático, contra o interesse da Humanidade
(veja-se os casos das alterações climáticas ou da vacinação).
O isolamento ou
solidão social, a desconfiança nas instituições políticas de governo, o ódio ou
rancor manifesto contra os seus representantes, olhados como privilegiados
distantes dos interesses do povo e que apenas atuam pelos seus interesses
próprios ou corporativos, fez aumentar novas formas de contestação social, para
as quais as redes sociais e políticos populistas são um propulsor determinante.
O que se passou com Trump e ainda com Bolsonaro são exemplos esclarecedores
sobre o desenvolvimento de crenças novas e inverosímeis sobre tudo: desde o
roubo de votos ao consumo de desinfetantes ou de hidroxocloroquina contra a
Covid, numa vertigem insana que a todos nos perturba.
É neste contexto
que vimos assistindo, também entre nós, a uma bolha de contestação à vacinação
contra a Covid, logo agora em que o sucesso da vacinação é público e notório e
o número de portugueses que não pretende vacinar-se se situa nos 3%.
Temos cerca de
80% da população já totalmente vacinada, são poucos os doentes internados com
Covid já com a vacinação completa (6,7%) e tivemos uma redução sensível da
letalidade do vírus. Para os negacionistas isto pouco importa, preferindo
valorizar as teses inverosímeis que por aí proliferam: as vacinas não são boas,
colocam-nos um chip para que o governo nos controle, as matérias-primas são
letais para o ser humano, designadamente para as crianças, os efeitos
secundários são altamente perigosos e tem morrido muita gente com isso, os
interesses económicos das farmacêuticas, conluiadas com os governos dos países
aonde estão sediadas, criaram estas vacinas inúteis e a necessidade de serem
administradas. Esta negação da realidade e as teorias conspirativas associadas
são alimentadas pelo apoio de alguns lideres circunstanciais de referencia,
como o juiz de Odemira ou o médico da AMI, Fernando Nobre. As manifestações
destes pequenos grupos tiveram os seus “momentos altos” nos insultos e
tentativas de agressão que tiveram por alvos o Vice-Almirante Gouveia e Melo e
o Presidente da Assembleia da República, mas também na atitude destemperada e
desafiadora do juiz frente à PSP. Essas imagens, em que vimos apenas
insensatez, provocação e ódio, foram úteis para a nossa democracia e
contribuíram, creio eu, para o confinamento e descrédito dos seus
protagonistas.
Mas há algumas
questões que temos que encarar com mais cuidado: a segurança dos cidadãos
atingidos por esta bolha contestatária, a saúde pública e os direitos dos
cidadãos. É óbvio que o clima de histerismo e ódio que tem caracterizado estas
manifestações negacionistas, mais semelhantes a um bando de alucinados a
requerer tratamento psiquiátrico, merece uma atenção reforçada das forças de
segurança e uma proteção especial dos seus principais alvos. Por outro lado,
coloca-se um problema ético de saúde pública, quando quem não quer ser vacinado
convive, às vezes profissionalmente, com quem cumpriu as recomendações de
vacinação da DGS. Como ultrapassar este problema em que a liberdade de uns (não
vacinados) pode colidir com o interesse dos outros (os vacinados)? Associado a
isto colocam-se problemas novos, de direitos, liberdades e garantias, para os
quais temos que encontrar respostas: como atuar com um negacionista à porta de
um hospital, de um restaurante ou de uma discoteca? É discriminatório proibir a
sua entrada? É discriminatório exigir-lhe, em substituição do certificado, um
teste PCR com menos de 24 horas? E quem deverá pagá-lo (o Estado ou o próprio)?
A Itália acabou de considerar obrigatória a vacinação de quem trabalha em
presença física com outros colegas, como forma de travar a infeção. Seguiremos
o mesmo caminho?
O negacionista
move-se, geralmente, segundo motivações determinadas por três elementos
fundamentais: a) de natureza religiosa; b) por interesses inconfessáveis
individuais ou de grupo; c) por interesse político. Convém estarmos atentos às
motivações dos nossos negacionistas, para percebermos melhor quem os lidera e
para onde correm.


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