EDITORIAL
A perversidade da “lição” à Galp
Se a declaração de António Costa foi reflectida, é um
manifesto eloquente de uma certa forma de encarar a relação entre a iniciativa
privada e o poder político: o Governo manda e quem não obedecer leva.
Manuel Carvalho
20 de Setembro de
2021, 21:30
https://www.publico.pt/2021/09/20/politica/editorial/perversidade-licao-galp-1978144
Pode ter sido um
acto falhado, uma frase desbragada no calor da campanha eleitoral, mas a
“lição” que António Costa prometeu dar à Galp por supostas culpas no caso da
refinaria de Matosinhos aprofunda um retrato sombrio do país. Ao dizer que a
empresa “tem de levar uma lição”, ao fazer notar que essa lição tem de ser
“exemplar”, António Costa põe o Governo no papel do mestre-escola sempre atento
a punir os alunos distraídos ou relapsos. Se a declaração foi reflectida, é um
manifesto eloquente de uma certa forma de encarar a relação entre a sociedade
civil e a iniciativa privada e o poder político: o Governo manda e quem não
obedecer leva.
Não está aqui em
causa a forma como a Galp geriu o processo que levou ao encerramento da
refinaria. Pode ter havido insensibilidade social, precipitação e ausência de
vontade em procurar uma solução com os poderes públicos, em especial com a
Câmara de Matosinhos – a recusa em financiar a reconversão profissional de
trabalhadores despedidos é legal, mas censurável. Essa atitude justifica
discussão, denúncia e, como parece ser o caso, crítica. Mas, não havendo
nenhuma violação da lei e estando ainda em aberto um processo negocial para
determinar o destino dos 290 hectares da refinaria, as ameaças e a coacção são
um sinal preocupante. Numa sociedade dependente do Estado, as palavras do
primeiro-ministro reforçam a dependência.
Se fosse a ala
esquerda do PS, o Bloco ou o PCP a ameaçar a Galp por pretensos erros, não
haveria novidade. Com António Costa, há. Porque, não escondendo a sua matriz
política e ideológica, o secretário-geral do PS nunca se afastou do padrão
europeu que harmoniza as relações entre o poder político e as empresas. Ao
ameaçar punir a Galp por decisões que não subscreve, António Costa subverte
esse equilíbrio. Ao querer transformar este caso num “exemplo” para “todas as
outras empresas que vão ter de enfrentar processos semelhantes” está a
condicionar subliminarmente a sua autonomia.
Em campanha
eleitoral, bem se sabe, a propensão para o exagero e para a propaganda é
habitual. Por isso é importante que António Costa esclareça o alcance da sua
ameaça. Se achar que a Galp violou a lei e se o Estado avançar para tribunal,
nada haverá a acrescentar. Agora, se pretender dizer que o Governo discriminará
negativamente todos os que não agirem dentro do que o próprio Governo considera
ser o interesse público, estará a abusar do seu poder. E a acentuar o drama de
uma economia e de uma sociedade que precisam de autonomia para mostrar o que
valem.

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