segunda-feira, 2 de agosto de 2021

“Ou dou o salto, ou mudo de área. Não aguento...”, diz uma geração presa à entrada do mercado de trabalho

 


“Ou dou o salto, ou mudo de área. Não aguento...”, diz uma geração presa à entrada do mercado de trabalho

 

Para uma geração cada vez mais qualificada, o que vem a seguir à licenciatura? A vontade de mudar o mundo, uma crescente taxa de desemprego jovem, as longas jornadas de trabalho, os recibos verdes. “O sistema educativo não nos dá a noção do que vamos passar a seguir.”

 

Carolina Amado (Texto), Nelson Garrido e Daniel Rocha (fotografias)

31 de Julho de 2021, 6:48

https://www.publico.pt/2021/07/31/p3/noticia/dou-salto-mudo-area-nao-aguento-geracao-presa-entrada-mercado-trabalho-1971459?fbclid=IwAR0cCfyuwKjF8F5t_s_XWFk3hE8xRUEq4EHm9P1krEiI6x8ou9U4CjAnvEc

 

De manhã cedo, Mariana sai de casa. Quando regressa, é já noite fechada. Salta de um lugar para o outro. Sai do autocarro, sobe a calçada, entra na escola para dar mais uma aula. Ouve o toque para a saída, despede-se das crianças, apressa-se a segurar na mala, volta à estação e entra em nova carruagem que a levará a mais uma escola, na cidade vizinha.

 

Trabalha para três entidades, a recibos verdes, “muito mais do que devia”. Nos intervalos, procura espectáculos onde possa ser actriz, profissão para a qual estudou durante três anos. No final do mês, recebe menos do que o salário mínimo.

 

“Os 25 anos são o meu limite. Ou dou o salto, ou tenho dinheiro para investir e crio a minha companhia de teatro, ou mudo de área, porque não aguento isto por muitos mais anos, não é o futuro que ambiciono ter...”, conta Mariana Duarte, de 24 anos, em conversa com o P3.

 

Ainda antes de entrar no ensino superior, Mariana já tinha “noção do que era trabalhar”, do que era “o dinheiro e a falta dele”. Trabalhou numa carrinha de frangos, na Covilhã, onde ganhava um euro por cada ave vendida. Quando se mudou para o Porto, para estudar, trabalhou como mascote, como animadora social, fez um pouco de tudo. “Não me importava porque eu queria era trabalhar...”

 

Sabia que a carreira no Teatro não seria fácil, mas não imaginou que chegasse a uma situação tão “instável”. “O sistema educativo não nos dá a noção do que vamos passar a seguir”, diz. “Nunca ninguém me explicou que, caso estivesse a recibos verdes, um empréstimo era para esquecer. Esquece a ideia de ter uma casa antes dos 30 anos. Esquece a ideia de constituir uma família...”

 

A conquista de autonomia dos jovens acontece cada vez mais tarde, e de forma cada vez mais precária, afirma ao P3 o sociólogo e investigador no Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa Vítor Sérgio Ferreira. Em 2020, segundo dados do Pordata, existiam 5,8 desempregados com o ensino superior por cada 100 activos, um número que não era tão alto desde 2017. Cerca de 60 mil jovens entre os 16 e os 24 anos perderam o emprego na pandemia, de acordo com o INE. Nesta faixa etária, entre o primeiro trimestre de 2020 e o primeiro trimestre de 2021, a taxa de desemprego subiu de 19,7% para 24,1%. Entre os 25 e os 34 anos, a subida foi mais ligeira: dos 8,9% para os 11,1%.

 

“Ter uma licenciatura, um mestrado ou doutoramento continua a significar uma vantagem competitiva dentro do mercado de trabalho, pode é não ir ao encontro das expectativas e projectos que os jovens tinham quando ingressaram no ensino superior”, explica Vítor Sérgio Ferreira. Na perspectiva do sociólogo, a valorização do grau de escolaridade através do prémio salarial pode não ser imediata, mas acaba por acontecer.

 

A idade adulta e o sacrifício de ideais

Já Inês Lopes poderia ter, aos 23 anos, estabilidade laboral e salarial para se tornar independente em termos financeiros. Licenciada em Direito, recebeu uma proposta de uma grande empresa, mas recusou. “Se o meu trabalho for estar a despedir pessoas e a fazer contratos de trabalho absurdos, eu não quero. Não estudei para isso. E tenho a sorte de poder escolher não o fazer. Vamos ver até quando...”

 

 

Reconhece que é um privilégio optar por um trabalho com um salário mais baixo, mas onde gosta do que faz. Cumpre a promessa que fez a si mesma aos 17 anos, quando fez uma tatuagem para se lembrar de quem queria ser quando chegasse à idade adulta. “Sabia que ia acreditar que ser adulto e independente significava sacrificar aquilo em que acreditava, tinha muito medo disso”, explica a jurista, a trabalhar no sector social.

 

“Quando entrei no mercado de trabalho, encontrei um conflito sobre quem é que quero ser”, acrescenta. “Não acho que seja demasiado exigente com o mercado. É o mercado que é reflexo de uma sociedade que eu não compreendo muito bem.” Sentia que lutava constantemente contra os seus ideais. Encontrou oportunidades de emprego bem-vistas pelos colegas e pela família, mas em empresas com as quais não se identificava.

 

“Senti a pressão de que deveria fazer algo melhor, com mais prestígio, e candidatei-me a um trabalho numa grande empresa”, conta. “Mas depois percebi: toda a minha vida fui contra a exploração dos trabalhadores, a favor da protecção ambiental. Não vou trabalhar para uma empresa com os valores opostos.”

 

Ainda que o valor da auto-realização e do trabalho criativo aumente entre as novas gerações, a estabilidade no emprego continua a ser a dimensão do trabalho mais valorizada, garante Vítor Sérgio Ferreira. Contudo, a inserção no mercado de trabalho é, hoje, particularmente inconstante, e a estabilidade parece ser uma miragem.

 

“Hoje, não temos uma inserção no mercado de trabalho, vamos tendo várias inserções, os jovens entram e saem. Os níveis de precariedade e exploração são muito elevados”, diz o sociólogo. “Hoje, começa a ser esta a estrutura da idade adulta. Entendíamos socialmente esta idade como um período de estabilidade laboral, relacional, familiar, e tudo isto é muito turbulento hoje em dia.”

 

Bilhete só de ida

Pressionada pela saturação e instabilidade do mercado de trabalho português, Tânia Duarte, também formada em Direito, só viu como opção emigrar, num momento em que Portugal recuperava da crise financeira entre 2010 e 2014.

 

“O meu grande objectivo era ter um salário fixo, que me desse estabilidade e segurança. Só o alcancei mudando-me para outro país”, explica, ao telefone, com o P3, a partir da Irlanda. “Depois de entrar no mercado, nunca vivi a insegurança que se vive em Portugal, onde esperava contratos temporários e salários mínimos.”

 

Ao emigrar, talvez Tânia tenha contornado os números: na última década, entre 2010 e 2018, foram os jovens licenciados, entre os 24 e os 35 anos, os que mais viram diminuir os ganhos salariais. De um salário médio de 1537 euros, a queda foi de 17%, para um salário de 1280 euros.

 

“Os portugueses estão mais qualificados, mas há um desajustamento entre a educação e o mercado de trabalho”, escrevem os autores do relatório Estado da Nação: Educação, Emprego e Competências em Portugal, apresentado pela Fundação José Neves. “Uma parte substancial dos jovens com ensino superior não está empregada (19,4%) ou está a trabalhar em ocupações que não exigem este nível de ensino (15%), um indicador de que as competências que adquirem não encontram valorização adequada.” Os investigadores sublinham ainda que, mesmo sendo mais qualificadas, as mulheres ganham até 38% menos do que os homens.

 

Aos 33 anos, se pudesse voltar atrás, talvez Tânia mudasse tudo. “Em Portugal, tens o caminho todo traçado. Acabas o secundário, vais para a faculdade, começas a trabalhar. Há uma pressão não admitida para que todos tenham um curso superior. Porque é que não incentivamos os jovens a seguir cursos profissionais, que são mais acessíveis, mais curtos? Não terão a sensação que eu tive, que no final da licenciatura pensei: ‘Vou deitar quatro anos fora para voltar ao zero?...’”

 

Tânia e a irmã Mariana, a actriz da Covilhã a viver no Porto de quem falámos no início, são filhas de pais “modestos”. Saíram da sua cidade para ingressar no ensino superior e trabalhar em áreas diferentes, o direito e o teatro, mas ambas conhecem bem o atribulado mundo da entrada no mercado de trabalho.

 

“Quase nenhum dos pais dos meus colegas de escola tinha uma licenciatura. Como não teve oportunidade de ir mais longe, a geração dos meus pais ainda sente que os filhos têm de ir, mesmo que não o digam”, conta. “Cabe às novas gerações mudar isso. Ir para a faculdade não garante trabalho.”

 

O desfasamento entre a qualificação dos jovens e a oferta do mercado de trabalho pode, no entanto, ser positivo, explica Vítor Sérgio Ferreira e, reforça, “vale a pena tirar uma licenciatura”. “O diploma pode dar maior garantia de uma estabilidade que hoje é cada vez menos provável” e evitar situações de desemprego prolongado, justifica.

 

Quem completa o ensino superior tem maior probabilidade de estar empregado e tem salários mais elevados, e há números que o comprovam. Ainda que, na última década, o rendimento médio dos licenciados tenha caído, em 2018, os jovens entre os 25 e os 34 anos com licenciatura tinham um salário 42% superior aos que ficaram pelo ensino secundário, indica o mesmo estudo da Fundação José Neves.

 

“Há uma acelerada qualificação dos jovens a partir do 25 de Abril, mas ainda não chegámos à média da União Europeia, ainda temos de nos qualificar mais.” Ainda que esta aceleração não tenha acontecido “a par da modernização das condições de produção e do mercado de trabalho”, onde os lugares muito qualificados continuam a ser “poucos”, o sociólogo não concorda que o sistema educativo tenha de se adequar ao mercado de trabalho. “Isso teria sido muito mau para Portugal.”

 

Tânia não hesita: não voltaria a estudar Direito. No ensino secundário, escapou à Química, Biologia e Matemática, mas hoje imagina-se a adorar ser veterinária. “Não tenho coragem, aos 33 anos, de voltar à faculdade e começar do zero. Talvez também tivesse de sair do país, mas estaria mais apaixonada por aquilo que faço.”

 

A decisão que tomou há sete anos, quando optou por marcar um voo, só de ida, para a Irlanda, em vez de fazer as malas e voltar à Covilhã, ainda é um sacrifício. “Há vantagens: alcancei a estabilidade, comprei uma casa, um carro, poupei mais dinheiro do que pouparia a vida inteira em Portugal. Mas daí vem um custo: eu posso viver aqui o resto da minha vida, e este nunca vai ser o meu país.”

 

Como sobreviver em Lisboa

Aos 29 anos, Miguel Santana mudou-se para Lisboa para procurar emprego na área que estudou há quase uma década: Relações Internacionais. Em Évora, cidade onde cresceu, trabalhava numa empresa de organização de eventos. O salário não era alto, mas vivia em casa dos pais e conseguia pagar as despesas. Há alguns meses percebeu que era hora de mudar, e ambicionar mais.

 

A experiência de trabalho na capital, porém, não está a ser a que imaginava. Trabalha a recibos verdes numa empresa de outsourcing do sector bancário, associada à Caixa Geral de Depósitos. Há meses em que recebe 500 euros, outros em que chega aos 700 euros. “Como é que esse salário dá para sobreviver em Lisboa?”, pergunta.

 

Neste momento, a sua prioridade é ganhar maior estabilidade, mais dinheiro, e já pensa na hipótese de emigrar. Sonha trabalhar para uma organização não-governamental, pelo gosto de ajudar o próximo e, por isso, quer voltar a estudar em Setembro, concluir um mestrado e um curso de Inglês. “Acho que faltam oportunidades para os jovens licenciados. Tornou-se banal ter uma licenciatura.”

 

O relatório Estado da Nação: Educação, Emprego e Competências em Portugal conclui que o ano da pandemia “acelerou as desigualdades”, prejudicando os mais jovens. Em 2020, Portugal registou também um dos maiores aumentos da União Europeia na percentagem de jovens entre os 20 e os 34 anos que nem estão empregados nem em educação ou formação – os jovens “nem-nem”. Uma subida que “mostra as debilidades do mercado de trabalho jovem”, disse o economista João Cerejeira ao Expresso.

 

“Muitos jovens ingressam no mercado de trabalho em profissões pouco qualificadas, que são as mais sensíveis ao ciclo económico. É fácil contratar em fases de crescimento – até porque os salários são baixos – e fácil despedir em períodos de crise – até porque muitos empregos são precários”, acrescentou o economista e professor na Universidade do Minho, reconhecendo que existem, em Portugal, problemas na transição entre escola e mercado de trabalho.

 

Em contra-relógio, pelo futuro do planeta

“A minha geração tem uma sede insaciável de fazer coisas diferentes, de marcar o mundo.” Lúcia Jorge tem um emprego estável, um ordenado fixo, reconhece que facilmente progrediria na carreira. Trabalha na área que estudou durante três anos na faculdade, numa grande empresa que presta serviços de auditoria, mas quer sair para fazer algo completamente diferente, talvez no campo do Marketing.

 

“Muitos escolhem empresas grandes para começar, mas depois pensam: ‘Eu quero é conhecer e marcar o mundo, acho que tenho potencial para isso’.” Lúcia, de 23 anos, prefere arriscar. Mudar de uma profissão cada vez mais valorizada para uma onde o mercado está mais saturado, onde o salário não será tão alto. “Sou tão nova, acho que é a altura de correr riscos. Não quero daqui a 20 anos pensar: ‘Não é nada disto que eu quero...’”

 

Ainda que a licenciatura continue a evitar situações de desemprego, os jovens qualificados vão fazendo novos planos e olham com “criatividade” para o seu percurso de vida. Se, há algumas décadas, os empregos de sonho tradicionais estavam associados a cursos superiores com “prestígio”, hoje há outras ocupações que permitem uma “manutenção económica e satisfação pessoal”, explica o sociólogo Vítor Sérgio Ferreira. “Estas ocupações não têm de estar associadas à qualificação formal, a diplomas. O nosso ensino superior ainda vai ter de se flexibilizar.”

 

"Os mais novos até podem gostar do seu trabalho, mas as exigências, as horas que têm de trabalhar, as partes da vida pessoal que têm de sacrificar, fazem com que saiam", diz Márcia Azevedo, de 31 anos. DANIEL ROCHA

 

Para Márcia Azevedo, também auditora e superior hierárquica de Lúcia Jorge, o emprego de sonho chegou mesmo no final da faculdade. Entrou na empresa onde ainda hoje trabalha para ganhar experiência durante um par de anos, e gostou tanto do que fazia que não pensou mais em sair.

 

“Agora noto que os mais novos até podem gostar do seu trabalho, mas as exigências, as horas que têm de trabalhar, as partes da vida pessoal que têm de sacrificar, fazem com que saiam. Os jovens estão cada vez menos dispostos a abdicar da sua vida para trabalhar”, diz Márcia, de 31 anos.

 

Lúcia Jorge ainda não pensa, por exemplo, em constituir família, ainda “tem tempo”. Sente, sim, esgotar-se o tempo para deixar um mundo melhor para as gerações futuras. “A nossa geração está em alerta. Sabemos que, se continuarmos com o estilo de vida que temos, a nossa esperança de vida vai diminuir, o planeta está a morrer. Temos de ser inovadores, criar nova tecnologia, ter novas ideias.”

 

Na perspectiva de Vítor Sérgio Ferreira, há um sentimento de insegurança e imprevisibilidade que acompanha os jovens, e já vai além das condições do mercado de trabalho que os acolhe. Relaciona-se, cada vez mais, à sustentabilidade ambiental, às alterações climáticas e, até, a crises pandémicas.

 

Há uma década, a crise financeira era internacional, mas, para os jovens portugueses, a hipótese de emigrar permanecia aberta, recorda o sociólogo. “Neste momento, não só a crise é global, como as restrições a que obriga a pandemia fazem com que a mobilidade internacional seja muito mais difícil. Uma das opções que se colocam em tempos de crises é a dupla, tripla jornada de trabalho”, acrescenta. “As consequências no presente e no futuro podem ser muito sérias: níveis de satisfação com a vida muito baixos, maior prevalência de doenças mentais. Com certeza terá, até, consequências na qualidade da democracia.”

 

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