“Ou dou o salto, ou mudo de área. Não aguento...”, diz
uma geração presa à entrada do mercado de trabalho
Para uma geração cada vez mais qualificada, o que vem a
seguir à licenciatura? A vontade de mudar o mundo, uma crescente taxa de
desemprego jovem, as longas jornadas de trabalho, os recibos verdes. “O sistema
educativo não nos dá a noção do que vamos passar a seguir.”
Carolina Amado
(Texto), Nelson Garrido e Daniel Rocha (fotografias)
31 de Julho de
2021, 6:48
De manhã cedo,
Mariana sai de casa. Quando regressa, é já noite fechada. Salta de um lugar
para o outro. Sai do autocarro, sobe a calçada, entra na escola para dar mais
uma aula. Ouve o toque para a saída, despede-se das crianças, apressa-se a
segurar na mala, volta à estação e entra em nova carruagem que a levará a mais
uma escola, na cidade vizinha.
Trabalha para
três entidades, a recibos verdes, “muito mais do que devia”. Nos intervalos,
procura espectáculos onde possa ser actriz, profissão para a qual estudou
durante três anos. No final do mês, recebe menos do que o salário mínimo.
“Os 25 anos são o
meu limite. Ou dou o salto, ou tenho dinheiro para investir e crio a minha
companhia de teatro, ou mudo de área, porque não aguento isto por muitos mais
anos, não é o futuro que ambiciono ter...”, conta Mariana Duarte, de 24 anos,
em conversa com o P3.
Ainda antes de
entrar no ensino superior, Mariana já tinha “noção do que era trabalhar”, do
que era “o dinheiro e a falta dele”. Trabalhou numa carrinha de frangos, na
Covilhã, onde ganhava um euro por cada ave vendida. Quando se mudou para o
Porto, para estudar, trabalhou como mascote, como animadora social, fez um
pouco de tudo. “Não me importava porque eu queria era trabalhar...”
Sabia que a
carreira no Teatro não seria fácil, mas não imaginou que chegasse a uma
situação tão “instável”. “O sistema educativo não nos dá a noção do que vamos
passar a seguir”, diz. “Nunca ninguém me explicou que, caso estivesse a recibos
verdes, um empréstimo era para esquecer. Esquece a ideia de ter uma casa antes
dos 30 anos. Esquece a ideia de constituir uma família...”
A conquista de
autonomia dos jovens acontece cada vez mais tarde, e de forma cada vez mais
precária, afirma ao P3 o sociólogo e investigador no Instituto de Ciências
Sociais da Universidade de Lisboa Vítor Sérgio Ferreira. Em 2020, segundo
dados do Pordata, existiam 5,8 desempregados com o ensino superior por cada 100
activos, um número que não era tão alto desde 2017. Cerca de 60 mil jovens
entre os 16 e os 24 anos perderam o emprego na pandemia, de acordo com o INE.
Nesta faixa etária, entre o primeiro trimestre de 2020 e o primeiro trimestre
de 2021, a taxa de desemprego subiu de 19,7% para 24,1%. Entre os 25 e os 34
anos, a subida foi mais ligeira: dos 8,9% para os 11,1%.
“Ter uma
licenciatura, um mestrado ou doutoramento continua a significar uma vantagem
competitiva dentro do mercado de trabalho, pode é não ir ao encontro das
expectativas e projectos que os jovens tinham quando ingressaram no ensino
superior”, explica Vítor Sérgio Ferreira. Na perspectiva do sociólogo, a
valorização do grau de escolaridade através do prémio salarial pode não ser
imediata, mas acaba por acontecer.
A idade adulta e
o sacrifício de ideais
Já Inês
Lopes poderia ter, aos 23 anos, estabilidade laboral e salarial para se
tornar independente em termos financeiros. Licenciada em Direito, recebeu uma
proposta de uma grande empresa, mas recusou. “Se o meu trabalho for estar a
despedir pessoas e a fazer contratos de trabalho absurdos, eu não quero. Não
estudei para isso. E tenho a sorte de poder escolher não o fazer. Vamos ver até
quando...”
Reconhece que é
um privilégio optar por um trabalho com um salário mais baixo, mas onde gosta
do que faz. Cumpre a promessa que fez a si mesma aos 17 anos, quando fez uma
tatuagem para se lembrar de quem queria ser quando chegasse à idade adulta.
“Sabia que ia acreditar que ser adulto e independente significava sacrificar
aquilo em que acreditava, tinha muito medo disso”, explica a jurista, a
trabalhar no sector social.
“Quando entrei no
mercado de trabalho, encontrei um conflito sobre quem é que quero ser”,
acrescenta. “Não acho que seja demasiado exigente com o mercado. É o mercado
que é reflexo de uma sociedade que eu não compreendo muito bem.” Sentia que
lutava constantemente contra os seus ideais. Encontrou oportunidades de emprego
bem-vistas pelos colegas e pela família, mas em empresas com as quais não se
identificava.
“Senti a pressão
de que deveria fazer algo melhor, com mais prestígio, e candidatei-me a um
trabalho numa grande empresa”, conta. “Mas depois percebi: toda a minha vida
fui contra a exploração dos trabalhadores, a favor da protecção ambiental. Não
vou trabalhar para uma empresa com os valores opostos.”
Ainda que o valor
da auto-realização e do trabalho criativo aumente entre as novas gerações, a
estabilidade no emprego continua a ser a dimensão do trabalho mais valorizada,
garante Vítor Sérgio Ferreira. Contudo, a inserção no mercado de trabalho é,
hoje, particularmente inconstante, e a estabilidade parece ser uma miragem.
“Hoje, não temos
uma inserção no mercado de trabalho, vamos tendo várias inserções, os jovens
entram e saem. Os níveis de precariedade e exploração são muito elevados”, diz
o sociólogo. “Hoje, começa a ser esta a estrutura da idade adulta. Entendíamos
socialmente esta idade como um período de estabilidade laboral, relacional,
familiar, e tudo isto é muito turbulento hoje em dia.”
Bilhete só de ida
Pressionada pela
saturação e instabilidade do mercado de trabalho português, Tânia Duarte,
também formada em Direito, só viu como opção emigrar, num momento em que
Portugal recuperava da crise financeira entre 2010 e 2014.
“O meu grande
objectivo era ter um salário fixo, que me desse estabilidade e segurança. Só o
alcancei mudando-me para outro país”, explica, ao telefone, com o P3, a partir
da Irlanda. “Depois de entrar no mercado, nunca vivi a insegurança que se vive
em Portugal, onde esperava contratos temporários e salários mínimos.”
Ao emigrar,
talvez Tânia tenha contornado os números: na última década, entre 2010 e 2018,
foram os jovens licenciados, entre os 24 e os 35 anos, os que mais viram
diminuir os ganhos salariais. De um salário médio de 1537 euros, a queda foi de
17%, para um salário de 1280 euros.
“Os portugueses
estão mais qualificados, mas há um desajustamento entre a educação e o mercado
de trabalho”, escrevem os autores do relatório Estado da Nação: Educação,
Emprego e Competências em Portugal, apresentado pela Fundação José Neves. “Uma
parte substancial dos jovens com ensino superior não está empregada (19,4%) ou
está a trabalhar em ocupações que não exigem este nível de ensino (15%), um
indicador de que as competências que adquirem não encontram valorização
adequada.” Os investigadores sublinham ainda que, mesmo sendo mais
qualificadas, as mulheres ganham até 38% menos do que os homens.
Aos 33 anos, se
pudesse voltar atrás, talvez Tânia mudasse tudo. “Em Portugal, tens o caminho
todo traçado. Acabas o secundário, vais para a faculdade, começas a trabalhar.
Há uma pressão não admitida para que todos tenham um curso superior. Porque é
que não incentivamos os jovens a seguir cursos profissionais, que são mais
acessíveis, mais curtos? Não terão a sensação que eu tive, que no final da
licenciatura pensei: ‘Vou deitar quatro anos fora para voltar ao zero?...’”
Tânia e a irmã
Mariana, a actriz da Covilhã a viver no Porto de quem falámos no início, são
filhas de pais “modestos”. Saíram da sua cidade para ingressar no ensino
superior e trabalhar em áreas diferentes, o direito e o teatro, mas ambas
conhecem bem o atribulado mundo da entrada no mercado de trabalho.
“Quase nenhum dos
pais dos meus colegas de escola tinha uma licenciatura. Como não teve
oportunidade de ir mais longe, a geração dos meus pais ainda sente que os
filhos têm de ir, mesmo que não o digam”, conta. “Cabe às novas gerações mudar
isso. Ir para a faculdade não garante trabalho.”
O desfasamento
entre a qualificação dos jovens e a oferta do mercado de trabalho pode, no
entanto, ser positivo, explica Vítor Sérgio Ferreira e, reforça, “vale a pena
tirar uma licenciatura”. “O diploma pode dar maior garantia de uma estabilidade
que hoje é cada vez menos provável” e evitar situações de desemprego
prolongado, justifica.
Quem completa o
ensino superior tem maior probabilidade de estar empregado e tem salários mais
elevados, e há números que o comprovam. Ainda que, na última década, o
rendimento médio dos licenciados tenha caído, em 2018, os jovens entre os 25 e
os 34 anos com licenciatura tinham um salário 42% superior aos que ficaram pelo
ensino secundário, indica o mesmo estudo da Fundação José Neves.
“Há uma acelerada
qualificação dos jovens a partir do 25 de Abril, mas ainda não chegámos à média
da União Europeia, ainda temos de nos qualificar mais.” Ainda que esta
aceleração não tenha acontecido “a par da modernização das condições de
produção e do mercado de trabalho”, onde os lugares muito qualificados
continuam a ser “poucos”, o sociólogo não concorda que o sistema educativo
tenha de se adequar ao mercado de trabalho. “Isso teria sido muito mau para
Portugal.”
Tânia não hesita:
não voltaria a estudar Direito. No ensino secundário, escapou à Química,
Biologia e Matemática, mas hoje imagina-se a adorar ser veterinária. “Não tenho
coragem, aos 33 anos, de voltar à faculdade e começar do zero. Talvez também
tivesse de sair do país, mas estaria mais apaixonada por aquilo que faço.”
A decisão que
tomou há sete anos, quando optou por marcar um voo, só de ida, para a Irlanda,
em vez de fazer as malas e voltar à Covilhã, ainda é um sacrifício. “Há
vantagens: alcancei a estabilidade, comprei uma casa, um carro, poupei mais
dinheiro do que pouparia a vida inteira em Portugal. Mas daí vem um custo: eu
posso viver aqui o resto da minha vida, e este nunca vai ser o meu país.”
Como sobreviver
em Lisboa
Aos 29 anos,
Miguel Santana mudou-se para Lisboa para procurar emprego na área que estudou
há quase uma década: Relações Internacionais. Em Évora, cidade onde cresceu,
trabalhava numa empresa de organização de eventos. O salário não era alto, mas
vivia em casa dos pais e conseguia pagar as despesas. Há alguns meses percebeu
que era hora de mudar, e ambicionar mais.
A experiência de
trabalho na capital, porém, não está a ser a que imaginava. Trabalha a recibos
verdes numa empresa de outsourcing do sector bancário, associada à Caixa Geral
de Depósitos. Há meses em que recebe 500 euros, outros em que chega aos 700 euros.
“Como é que esse salário dá para sobreviver em Lisboa?”, pergunta.
Neste momento, a
sua prioridade é ganhar maior estabilidade, mais dinheiro, e já pensa na
hipótese de emigrar. Sonha trabalhar para uma organização não-governamental,
pelo gosto de ajudar o próximo e, por isso, quer voltar a estudar em Setembro,
concluir um mestrado e um curso de Inglês. “Acho que faltam oportunidades para
os jovens licenciados. Tornou-se banal ter uma licenciatura.”
O relatório
Estado da Nação: Educação, Emprego e Competências em Portugal conclui que o ano
da pandemia “acelerou as desigualdades”, prejudicando os mais jovens. Em 2020,
Portugal registou também um dos maiores aumentos da União Europeia na
percentagem de jovens entre os 20 e os 34 anos que nem estão empregados nem em
educação ou formação – os jovens “nem-nem”. Uma subida que “mostra as
debilidades do mercado de trabalho jovem”, disse o economista João Cerejeira ao
Expresso.
“Muitos jovens
ingressam no mercado de trabalho em profissões pouco qualificadas, que são as
mais sensíveis ao ciclo económico. É fácil contratar em fases de crescimento –
até porque os salários são baixos – e fácil despedir em períodos de crise – até
porque muitos empregos são precários”, acrescentou o economista e
professor na Universidade do Minho, reconhecendo que existem, em Portugal,
problemas na transição entre escola e mercado de trabalho.
Em
contra-relógio, pelo futuro do planeta
“A minha geração
tem uma sede insaciável de fazer coisas diferentes, de marcar o mundo.” Lúcia
Jorge tem um emprego estável, um ordenado fixo, reconhece que facilmente
progrediria na carreira. Trabalha na área que estudou durante três anos na
faculdade, numa grande empresa que presta serviços de auditoria, mas quer sair
para fazer algo completamente diferente, talvez no campo do Marketing.
“Muitos escolhem
empresas grandes para começar, mas depois pensam: ‘Eu quero é conhecer e marcar
o mundo, acho que tenho potencial para isso’.” Lúcia, de 23 anos, prefere
arriscar. Mudar de uma profissão cada vez mais valorizada para uma onde o
mercado está mais saturado, onde o salário não será tão alto. “Sou tão nova,
acho que é a altura de correr riscos. Não quero daqui a 20 anos pensar: ‘Não é
nada disto que eu quero...’”
Ainda que a
licenciatura continue a evitar situações de desemprego, os jovens qualificados
vão fazendo novos planos e olham com “criatividade” para o seu percurso de
vida. Se, há algumas décadas, os empregos de sonho tradicionais estavam
associados a cursos superiores com “prestígio”, hoje há outras ocupações que
permitem uma “manutenção económica e satisfação pessoal”, explica o sociólogo
Vítor Sérgio Ferreira. “Estas ocupações não têm de estar associadas à
qualificação formal, a diplomas. O nosso ensino superior ainda vai ter de se
flexibilizar.”
"Os mais novos até podem gostar do seu trabalho, mas
as exigências, as horas que têm de trabalhar, as partes da vida pessoal que têm
de sacrificar, fazem com que saiam", diz Márcia Azevedo, de 31 anos.
DANIEL ROCHA
Para Márcia
Azevedo, também auditora e superior hierárquica de Lúcia Jorge, o emprego de
sonho chegou mesmo no final da faculdade. Entrou na empresa onde ainda hoje
trabalha para ganhar experiência durante um par de anos, e gostou tanto do que
fazia que não pensou mais em sair.
“Agora noto que
os mais novos até podem gostar do seu trabalho, mas as exigências, as horas que
têm de trabalhar, as partes da vida pessoal que têm de sacrificar, fazem com
que saiam. Os jovens estão cada vez menos dispostos a abdicar da sua vida para
trabalhar”, diz Márcia, de 31 anos.
Lúcia Jorge ainda
não pensa, por exemplo, em constituir família, ainda “tem tempo”. Sente, sim,
esgotar-se o tempo para deixar um mundo melhor para as gerações futuras. “A
nossa geração está em alerta. Sabemos que, se continuarmos com o estilo de vida
que temos, a nossa esperança de vida vai diminuir, o planeta está a morrer.
Temos de ser inovadores, criar nova tecnologia, ter novas ideias.”
Na perspectiva de
Vítor Sérgio Ferreira, há um sentimento de insegurança e imprevisibilidade que
acompanha os jovens, e já vai além das condições do mercado de trabalho que os
acolhe. Relaciona-se, cada vez mais, à sustentabilidade ambiental, às alterações
climáticas e, até, a crises pandémicas.
Há uma década, a
crise financeira era internacional, mas, para os jovens portugueses, a hipótese
de emigrar permanecia aberta, recorda o sociólogo. “Neste momento, não só a
crise é global, como as restrições a que obriga a pandemia fazem com que a
mobilidade internacional seja muito mais difícil. Uma das opções que se colocam
em tempos de crises é a dupla, tripla jornada de trabalho”, acrescenta. “As
consequências no presente e no futuro podem ser muito sérias: níveis de
satisfação com a vida muito baixos, maior prevalência de doenças mentais. Com
certeza terá, até, consequências na qualidade da democracia.”
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