EMPRESAS
Insolvência da Dielmar põe em risco oito milhões de apoio
do Estado
Administração da têxtil de Alcains culpa a pandemia, mas
Governo culpa a equipa de gestão. Agora, é preciso salvar mais de 300 empregos
e perdoar a dívida.
Victor Ferreira
2 de Agosto de
2021, 21:42
O Estado pode vir
a perder oito milhões de euros com a Dielmar. Esse foi o montante que injectou,
ao longo dos últimos anos, naquela empresa familiar com sede em Alcains,
Castelo Branco, com mais de 300 trabalhadores e 56 anos de história e que na
sexta-feira pediu a insolvência, depois de fechar para férias. O ministro da
Economia, Pedro Siza Vieira, censura a gestão da empresa e contraria o
argumento da administração que, num comunicado, sustentou que, ao fim de
“várias crises”, a Dielmar "sucumbiu à pandemia”.
“Esta situação é
anterior à crise provocada pela pandemia”, garante o Ministério da Economia,
num comunicado emitido minutos depois e o próprio ministro ter deixado claro
que o Estado pode perder tudo o que injectou nesta empresa e de apontar para a
“gestão muito pouco clara” como um dos obstáculos à viabilização desta têxtil
especializada em alfaiataria.
Várias divergências entre as direcções e a administração
da empresa levaram à saída, em 2018, de vários quadros superiores
Ministério da
Economia, em comunicado
Nos últimos dez
anos, “várias entidades públicas injectaram cerca de cinco milhões de
euros na empresa”, diz o Governo. Há ainda três milhões de euros em dívida
cobertos por garantia pública. “O recurso a estes montantes pressupunha
uma reestruturação, sendo que a maioria destas medidas não foram aplicadas pela
administração da Dielmar”, assegura o ministério. “Acresce uma dívida à banca
de cerca de 6,142 milhões. A empresa registava, em Novembro de 2020, uma dívida
a fornecedores de cerca de 2,5 milhões (vencidos na sua quase totalidade) e à
Segurança Social, num montante superior a 1,7 milhões”.
“Há muito tempo
que se sabia que a situação não era fácil, mas este pedido de insolvência foi a
surpresa total”, conta Marisa Tavares, presidente do Sindicato dos
Trabalhadores do Sector Têxtil da Beira Baixa. “Os trabalhadores souberam disto
pela comunicação social. É lamentável”, critica a mesma dirigente, em
declarações ao PÚBLICO. O mesmo garante o Governo: souberam da insolvência
pelos jornais.
Mais de oito milhões de euros públicos já estão a apoiar
a empresa, portanto não vale a pena meter dinheiro fresco em cima de uma
empresa que neste momento não tem salvação
Pedro Siza
Vieira, ministro da Economia
“O Estado
acompanha a Dielmar há mais de uma década”, diz, por seu lado, o ministro
da Economia. “A empresa acumula resultados negativos há dez anos e, por isso, o
Estado foi ao longo dos anos assegurando a capitalização da empresa”
disse o governante.
O Fundo Autónomo
de Apoio à Concentração e Consolidação Empresarial (FACCE) e o Fundo
Imobiliário Especial de Apoio às Empresas (FIEAE), dois fundos públicos,
entregaram à Dielmar, sob a forma de capital, suprimentos e leasing
imobiliário, 2,7 milhões através do FACCE, entre 2011 e 2013; e 2,5 milhões
através do FIEAE, em 2017, numa operação de venda do imobiliário, de que a
empresa continuou a usufruir através do leaseback. Além disso, a Garval -
Sociedade de Garantia Mútua, S. A., agora parte do grupo do Banco Português de
Fomento, garante dívida no valor de 1,775 milhões.
Falando do caso
na Madeira, Siza Vieira esclareceu que 30% do capital da empresa está nas mãos
do Estado. “Ao longo destes anos o Estado tentou assegurar uma reestruturação
do passivo mas também uma reestruturação operacional. Acordámos,
sucessivamente, com a administração a possibilidade de serem alienados
determinados activos ou de ser assegurada uma gestão mais profissional. Isso
não foi possível”, prosseguiu.
Fundada em 1966
por quatro alfaiates da vila de Alcains, a empresa apostava na alfaiataria
masculina, e chegou a ser conhecida como a “Hugo Boss” portuguesa. Tinha entre
outros clientes e fornecedores as
marcas Ermenegildo Zegna e Cerrutti.
Em 2010, a
Dielmar adquiriu a rede de lojas Wesley. Não foi fácil gerir retalho e, em
simultâneo, a internacionalização via exportação. O ministério confirma que
houve problemas de gestão.
“As equipas de
gestão dos fundos públicos nomearam, em 2018, um consultor para apoiar a
administração e as direcções”. Estas equipas deveriam apoiar a reviravolta e
evitar que a empresa continuasse a “queimar dinheiro”. “Todavia, várias
divergências entre as direcções e a administração da empresa levaram à saída,
em 2018, de vários quadros superiores. Entretanto, falhou uma tentativa de
alienação das lojas Wesley a um outro grupo do sector têxtil”, recorda o
ministério.
O pedido de
insolvência será decidido pelo Tribunal do Fundão. O importante, diz o
ministro, é assegurar os postos de trabalho e aproveitar uma mão-de-obra
qualificada que já escasseia no país.
“A experiência
acumulada dos trabalhadores da Dielmar deve ser assegurada. Os dinheiros
públicos servem para apoiar empresas, para salvaguardar activos, não servem
para salvar empresários. As dificuldades da Dielmar são evidentes, tinha
capitais próprios negativos em 2019, e tal como o Estado se empenhou na
Coelima, também aqui vamos trabalhar com todos os credores para assegurar um
futuro. Mais de oito milhões de euros públicos já estão a apoiar a empresa,
portanto não vale a pena meter dinheiro fresco em cima de uma empresa que neste
momento não tem salvação.”
Em 2020, segundo
o Governo, “foram consideradas esgotadas todas as possibilidade de reestruturar
a empresa – ou até mesmo assegurar a sua transição, total ou parcial”. Por
isso, “o FACCE exerceu, em Abril de 2020, a opção de venda tendente ao
desinvestimento na Dielmar, ao abrigo do Acordo Parassocial, pelo montante de
3,28 milhões de euros (valor calculado em função da regra estabelecida no
Acordo Parassocial)”.
“Desde a entrada
do FACCE no capital, a empresa nunca apresentou resultados líquidos positivos”,
prossegue o ministério.
“Agora vamos
gerir esta insolvência para encontrar novas entidades capazes de dar destino
útil à empresa, assegurar uma gestão operacional capaz e o Estado está
absolutamente disponível para relativamente aos seus créditos sobre a empresa
trabalhar no sentido de também eles poderem assegurar uma melhor gestão e
sobretudo a salvaguarda dos postos de trabalho”.
Traduzindo, o
Estado “se calhar não vai recuperar” nada do que ali meteu. Isto porque, “tal
como na Coelima, onde o Estado também fez um sacrifício”, é preciso criar
condições para que a Dielmar seja atractiva para novos investidores. Algo que,
no último ano, sempre esbarrou no “elevado endividamento” e na “gestão muito
pouco clara”, disse Siza Vieira.
Por isso, “o
Estado e outros credores terão de fazer o maior esforço possível para assegurar
uma solução”. “Precisamos de salvar empresas, não precisamos de salvar
empresários”, insistiu.
A Coelima é uma
quase centenária empresa de têxteis-lar de Guimarães que esteve insolvente e se
salvou in extremis da falência e em que o FACCE era credor de 11 milhões
(detinha 38% de um passivo que, no momento da insolvência, rondava os 30
milhões de euros, segundo a petição inicial)
Até ao momento,
os salários estão em dia. O regresso ao trabalho está agendado para dia 18 de
Agosto. Até lá, vão-se viver dias de preocupação. “Esse é o sentimento que
reina entre todos os trabalhadores. A maioria são mulheres. Muitas também têm
lá os maridos e os filhos. É uma situação difícil e foi isso que nos disseram”,
refere a sindicalista, aludindo ao plenário que foi convocado com urgência no
domingo.
Na próxima
segunda-feira, interrompem as férias para uma manifestação à porta da Câmara de
Castelo Branco.

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