quarta-feira, 7 de julho de 2021

O SNS num retrato assustador

 



EDITORIAL

O SNS num retrato assustador

 

Sim, o SNS mostra um desempenho desastroso no primeiro ano da pandemia. Mas a “culpa” deste insucesso é muito mais da pandemia do que do SNS.

 

Manuel Carvalho

7 de Julho de 2021, 0:11

https://www.publico.pt/2021/07/07/sociedade/editorial/sns-retrato-assustador-1969359

 

As sequelas da pandemia na vida dos portugueses vão perdurar muito para lá do seu fim. Há muito que esta inevitabilidade se afirma e o estudo sobre o impacte do primeiro ano da covid-19 no Serviço Nacional de Saúde (SNS) que revelamos esta quarta-feira serve apenas para o confirmar e para impor uma reflexão séria sobre os seus custos no futuro e sobre o que se pode fazer hoje para os reduzir. A brutal redução de actos médicos, de cirurgias, de atendimentos nas urgências, de realização de exames e análises clínicas durante os últimos meses deixa em aberto dois extraordinários desafios: fazer regressar o SNS à normalidade o mais cedo possível; e evitar até ao limite os efeitos que o distanciamento dos cidadãos dos serviços vai ter nos indicadores de saúde do país. Não vão ser tarefas fáceis.

 

Por estes dias em que continuamos embrenhados na aflição dos números de infecções e de internamentos, é difícil olhar para o futuro e encontrar respostas para esta pesada herança que não pára de se agravar. Na Saúde ou na Educação, ou na Justiça, os retrocessos são enormes, os problemas acumulados preocupantes e os recursos necessários para os colmatar difíceis de prever. O que já suspeitávamos, e este estudo confirma, é a necessidade de não deixar a solução para o que está hoje a acontecer apenas para o futuro. O que se puder fazer hoje impedirá a doença ou a morte de portugueses amanhã. Quando os hospitais de Lisboa se dispõem a transferir doentes covid-19 para não alterarem as suas rotinas, estão a responder a esta necessidade.

 

Bem sabemos que é impossível responder a tantos problemas acumulados com eficiência total e sucesso garantido. Os investimentos no último ano na contratação de profissionais ou em equipamentos, a dedicação de gestores e a abnegação de médicos e enfermeiros têm limites humanos. Por muito que seja possível (e desejável) criticar o Governo por muitas das suas opções, numa pandemia desta escala ficariam sempre buracos por tapar e problemas por corrigir. De resto, olhando para o que se passa no mundo, não temos razões para deixar de acreditar no SNS e nos seus profissionais.

 

Mas pior do que o criticismo ou o ressentimento injustificado será a apatia e a resignação. Sim, o SNS mostra um desempenho desastroso no primeiro ano da pandemia. Mas a “culpa” deste insucesso é muito mais da pandemia do que do SNS. Com base nesta convicção, será mais fácil acreditar que, com todas as suas carências e problemas, o SNS há-se ser capaz de recuperar até ao limite do possível os custos que estes meses difíceis causaram à saúde dos portugueses.

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