Luís Filipe Vieira, o filho e dois empresários amigos
foram detidos
Em causa estão suspeitas de crimes de abuso de confiança,
burla qualificada, falsificação, fraude fiscal e branqueamento. Detidos serão
sujeitos esta quinta-feira a primeiro interrogatório judicial.
Ana Henriques,
Miguel Dantas, Mariana Oliveira e Paulo Curado
7 de Julho de
2021, 15:48
https://www.publico.pt/2021/07/07/sociedade/noticia/luis-filipe-vieira-detido-1969458
O presidente do
Benfica, Luís Filipe Vieira, o seu filho Tiago Vieira e dois empresários da
confiança do dirigente desportivo, José António dos Santos, conhecido como o
“rei dos frangos”, e Bruno Macedo, encarregue pela intermediação do regresso de
Jorge Jesus ao clube da Luz, foram detidos esta quarta-feira, no âmbito de um
inquérito dirigido pelo Departamento Central de Investigação e Acção Penal
(DCIAP). A informação foi avançada pelo jornal Nascer do Sol e confirmada pelo
PÚBLICO.
Ao contrário do
que noticia este semanário, o PÚBLICO apurou que a operação desta quarta-feira
não foi feita no âmbito do processo Monte Branco, mas de um inquérito
independente aberto em 2018. Ambas as investigações são lideradas pelo
procurador Rosário Teixeira, que volta a trabalhar com a equipa da Direcção das
Finanças de Braga, encabeçada pelo inspector tributário Paulo Silva, que o
apoiou na Operação Marquês e na Operação Furacão.
Estas quatro
detenções surgem na sequência das buscas realizadas esta
quarta-feira, e que visam além do dirigente desportivo as instalações do clube
dos encarnados, o empresário José António dos Santos e a sede do Novo
Banco. Esta quarta-feira por volta das 17h, o Ministério Público publicou na
página do DCIAP um comunicado onde confirma a realização de 45 buscas em
“instalações de sociedades, domicílios, escritórios de advogados e uma
instituição bancária”, nas “áreas de Lisboa, Torres Vedras e Braga”. E
acrescenta: “No decurso das diligências foram detidas quatro pessoas, dois
empresários, um agente desportivo e um dirigente desportivo. Detenções
efectuadas atendendo aos indícios já recolhidos, com vista a acautelar a prova,
evitar ausências de arguidos e a prevenir a consumação de actuações suspeitas
em curso”.
O Ministério
Público precisa que no processo se investigam “negócios e financiamentos em
montante total superior a 100 milhões de euros, que poderão ter acarretado
elevados prejuízos para o Estado e para algumas das sociedades”. Em causa,
refere-se, estão factos ocorridos, essencialmente, a partir de 2014 e até ao
presente e susceptíveis de integrarem a prática, entre outros, de crimes de
abuso de confiança, burla qualificada, falsificação, fraude fiscal e
branqueamento.
Adianta-se ainda
que os quatro detidos vão ser apresentados esta quinta-feira em tribunal para
primeiro interrogatório judicial, que servirá para decidir a aplicação
de medidas de coacção.
Ao final da manhã
desta quarta-feira, uma centena de agentes da Polícia de Segurança Pública
(PSP) e da Autoridade Tributária (AT) fizeram buscas em várias empresas. O
comunicado do DCIAP especifica que as diligências foram realizadas por 66
inspectores tributários e 74 elementos da PSP. Contaram ainda com a participação
de quatro magistrados do Ministério Público, três juízes de instrução. As
instalações do Benfica, nomeadamente no Estádio da Luz, também foram abrangidas
pela operação.
O PÚBLICO tentou,
sem sucesso, contactar o departamento de comunicação do grupo Valouro e
responsáveis da C2 Capital Partners, empresa de Nuno Gaioso Ribeiro –
antigo dirigente da SAD do Benfica e outro dos visados por estas buscas.
A ligação
empresarial entre Luís Filipe Vieira e José António dos Santos, líder do grupo
Valouro, foi revelada após a emissão da oferta pública de aquisição (OPA)
lançada pela SAD “encarnada”. O “rei dos frangos”, como é conhecido o
empresário José António Santos, era o principal beneficiário, podendo encaixar
um lucro superior a dez milhões de euros.
A participação de
José António Santos no clube ultrapassava os 13%, com o empresário a ser o
maior accionista privado da SAD “encarnada”.
Contudo, a OPA
proposta pelo Benfica acabaria por ser chumbada pela Comissão do Mercado
de Valores Mobiliários (CMVM), que considerou existir “um vício” que
afectava a “legalidade da oferta”. O Benfica reiterou a validade da operação
após este anúncio, mas acabaria por desistir da OPA.
Mas a ligação
empresarial entre Vieira e o “rei dos frangos” teve início muito antes desta
OPA. Sócios em duas empresas, a Sul Crescente e a Palpites&Teorias, os dois
empresários têm uma relação pública de proximidade e amizade.
A comissão
parlamentar de inquérito do Novo Banco trouxe novo vislumbre às relações
empresariais entre Vieira e José António dos Santos. Na longa audição ao
dirigente “encarnado” foi conhecido que José António dos Santos comprou
por oito milhões de euros uma dívida da empresa Imosteps, gerida por Luís
Filipe Vieira. Esta dívida tinha sido anteriormente vendida pelo Novo Banco ao
fundo norte-americano por cinco milhões. Questionado pela deputada Mariana
Mortágua, do Bloco de Esquerda, sobre o motivo pelo qual José António dos
Santos estaria disposto a comprar a dívida por este valor, o presidente do
Benfica disse que o sócio tinha feito “um bom negócio” com esta operação.
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