segunda-feira, 5 de julho de 2021

A velocidade (não) tem limites

 

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OPINIÃO

A velocidade (não) tem limites

 

O que é inaceitável não é ter havido um acidente — que é, por definição, uma coisa inesperada, que não estava prevista (podendo até ser provocada por uma falha mecânica) –, é não ouvir uma palavra sobre as circunstâncias em que aconteceu.

 

Sónia Sapage

5 de Julho de 2021, 6:02

https://www.publico.pt/2021/07/05/politica/opiniao/velocidade-nao-limites-1969059

 

Sou jornalista de política desde 1999. Já acompanhei suficientes iniciativas de partidos, governos e presidências para saber que a velocidade não tem limites. Em tempo de eleições, é até habitual os jornalistas saltarem uma ou outra acção de campanha por não conseguirem chegar a tempo. Já houve boicotes (em protesto pelo perigo e pelas multas), mas a regra é circular muito ou pouco acima dos limites legais e sem assinalar marcha de emergência.

 

Quando digo que a regra é esta, não excluo PS, nem PSD, nem políticos estrangeiros, nem sequer jornalistas (cujos carros não têm potência/segurança comparável à das viaturas oficiais, é preciso dizê-lo, e que reclamam vezes sem conta). É, por isso, demagógico fingir que este problema surgiu agora a pretexto do acidente com a viatura em que seguia o ministro Eduardo Cabrita, que por acaso tutela a segurança rodoviária. Não nasceu. É tão antigo como a primeira caravana partidária ou a primeira iniciativa de agenda de um governante. Já participei em iniciativas em que os jornalistas seguiam em carros fretados por entidades oficiais com motoristas que dominavam toda a técnica de condução profissional para andar em comitiva depressa e com segurança. 

 

Não me recordo de nenhuma morte causada por um acidente nesse contexto. Mas se tivesse havido alguma, duvido que fosse justo responsabilizar apenas estes profissionais que eram contratados para cumprir ordens para circular depressa.

 

Recordo-me excepcionalmente de um político que nunca deixava a comitiva ir muito além dos limites, coisa que acabava por acontecer quando ele adormecia. 

 

Não há ainda nenhuma prova de que o carro em que o ministro Eduardo Cabrita seguia, conduzido por um dos seus motoristas, circulasse em excesso de velocidade. Há apenas perguntas sem resposta e fontes que relatam uma “velocidade louca”, o que é evidentemente um conceito subjectivo. Mas se ninguém admitiu o excesso de velocidade, também é curioso que ninguém o tenha negado.

 

O que está a acontecer desde o dia 18 de Junho é a criação de um tabu num assunto que não o justifica. É como se ninguém tivesse direito a qualquer justificação. Os jornalistas fazem perguntas, mas ou há silêncio ou há política. Os partidos idem. O mesmo ministro que em Abril de 2020 dizia que no SEF houve “negligência grosseira e encobrimento grave” (muito antes de o inquérito estar concluído) está a contribuir para que se crie uma neblina de informações e contra-informações sobre este caso.

 

O que é inaceitável não é ter havido um acidente — que é, por definição, uma coisa inesperada, que não estava prevista (podendo até ser provocada por uma falha mecânica) —, é não ouvir uma palavra sobre as circunstâncias em que aconteceu. Atropelar acidental e mortalmente alguém numa auto-estrada não pressupõe intenção, mas pode ou não pressupor negligência de alguma das partes envolvidas e é por isso que é importante ter respostas.

 

Se eu fosse a viúva de Nuno Santos, que tinha 43 anos e duas filhas menores, queria saber tudo, de todos os pontos de vista: dos colegas que lá estavam e assistiram ao desastre; da equipa de emergência médica; das autoridades responsáveis pela investigação; da concessionária da auto-estrada; da pessoa que ia ao volante; e também da outra que ia no interior da viatura. Iam depressa? Sem sim, por que motivo? Viram os trabalhos? Houve alguma reacção ou não houve tempo para reagir? É verdade que não há travagens? Porquê? Quando deram pelo trabalhador? Quem estava a fazer o quê de errado? Houve negligência? De quem? Havia alguma sinalização? Se sim, qual? O acidente podia ter sido evitado? Como?

 

Interessa-me menos saber se o carro do ministro tem situação jurídica de apreendido, do que saber o que pode fazer-se para evitar que uma tragédia destas se repita (seja do lado do atropelado, de quem atropelou, da concessionária ou da empresa de limpeza). E caso venha a provar-se que houve sucessivas quebras na lei, aí sim, quererei saber: de quem é a culpa?

 

tp.ocilbup@egapas.ainos

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