A Feira da Ladra vai acabar ou ficar mais pequena?
É uma pergunta que circula nas redes sociais, onde se
discute o futuro da Feira da Ladra. A falta de atribuição de licenças nos
últimos meses e o boato da instalação de um quiosque de hotel no espaço da
feira vão dando que falar.
Por Renata Lima
Lobo
Publicado
Segunda-Feira 10 Maio 2021, 18:14
Em Janeiro foram
aplicadas restrições temporárias aos mercados de Campo de Ourique e da Ribeira
e às feiras do Relógio e Galinheiras que passaram a vender, exclusivamente, produtos
alimentares. Tudo o resto ficou confinado, tal como a Feira da Ladra, que às
terças-feiras e aos sábados de manhã enche o Campo de Santa Clara de artigos
usados, velharias, coleccionismo ou artesanato.
A 6 de Abril, a
Câmara Municipal de Lisboa (CML) permitiu o regresso dos feirantes aos seus
postos, cumprindo com as regras de máscara e distanciamento social e
autorizando a reabertura da Feira da Ladra, mas apenas para os feirantes
permanentes. Uma medida que deixou muitos vendedores ocasionais de fora,
originando contestação. No final de Abril, voltou a circular o rumor de que a
Stone Capital teria obtido uma licença para a instalação de um quiosque no
recinto da Feira da Ladra, novamente desmentido pela autarquia que nas redes
sociais assegurou que este boato “já foi desmentido pela CML a 26 de outubro de
2018, a 6 de novembro de 2019, e continuará a sê-lo sempre que essa questão for
levantada, por quem sabe directamente pela autarquia que o que está a dizer é
falso, e voltar a ser partilhada com o intuito de enganar os lisboetas”.
Mas há outras
questões que geraram descontentamento quando o assunto é a obtenção de licença
na Feira da Ladra, com ou sem restrições de saúde pública. Actualmente para ter
direito à licença ocasional é necessário apresentar um documento que comprove
início de actividade nas Finanças. Na reunião pública de Câmara de 27 de Abril,
Jorge Silva, vendedor ocasional, fez ouvir o seu descontentamento. "Estou
proibido de vender na Feira da Ladra. Eu e centenas de feirantes",
lamentou, acrescentando que a polícia municipal tem tido um "comportamento
musculado" contra todos os feirantes que não conseguem a respectiva
licença. Mas foi munido com uma proposta, semelhante à implementada pela Câmara
Municipal de Oeiras. “A solução para este problema é muito simples. E mais
fácil de se realizar sem burocracias. A solução está no cartão Multibanco. A Câmara
de Oeiras está a usar este método e até já paguei duas licenças em Oeiras para
poder vender na feira de Algés e de Paço de Arcos. É muito simples de usar. O
fiscal fornece o NIB da Câmara, vamos ao Multibanco, pagamos a respectiva taxa,
trazemos o talão, entregamos ao fiscal e podemos trabalhar na feira”, explicou.
Jorge Silva não
acredita nos argumentos da CML quanto à ocupação de espaço da Feira da Ladra
pela Stone Capital, dona do empreendimento em curso no antigo Hospital da
Marinha, edifício que vai passar a albergar 100 apartamentos, com áreas entre
os 40m2 e os 300 m2, um jardim interior, uma zona lounge e piscina. Sobre isso,
o feirante adiantou-se a uma resposta do município: “Já sei a resposta que me
vão dar: é por causa do coronavírus. É mentira. A resposta não é essa. Porque a
sociedade Stone Capital, a proprietária do hotel que estão a construir lá,
ainda não mudou de nome. Não se chama Covid-19. A resposta que me devem dar é
porque a sociedade Stone Capital está-se a apropriar dos terrenos da Feira da
Ladra. Porque muitos locais de venda dos feirantes já não podem ser utilizados.
Nem por feirantes legalizados, simplesmente esses locais de venda já
desapareceram”, reclamou.
De seguida, o
vereador Miguel Gaspar disse não haver nenhuma intenção da CML de fazer
qualquer alteração ao que é hoje o recinto da Feira da Ladra: "A CML não
irá alterar o recinto da Feira da Ladra, não está prevista qualquer alteração
no recinto da Feira da Ladra. E digo isto com a maior das assertividades para que,
espero eu, seja uma mensagem de tranquilidade relativamente ao que é o futuro
daquela feira. Faz parte da identidade de Lisboa, faz parte da identidade dos
lisboetas e não há qualquer intenção da Câmara em alterar essa circunstância.
Este é um tema e espero ter sido aqui muito claro nas minhas palavras
relativamente a esta matéria", esclareceu. Quanto ao plano de contingência
em vigor, o vereador lembra que este obriga a um espaçamento maior entre os
feirantes, optando a CML por suspender as licenças ocasionais na Feira da
Ladra, mas também nas feiras do Relógio e Galinheiras.
Em resposta à
Time Out, a CML adiantou que "as licenças dos comerciantes permanentes
continuam a funcionar e ser renovadas, as licenças dos comerciantes eventuais,
e no âmbito de medidas de contenção da concentração de pessoas e de limitação
da afluência em locais de grande número de pessoas, não têm sido
renovadas", mas adiantou que a renovação das licenças será retomada
"assim que a situação pandémica termine". Reiterou ainda que “não há
nenhuma proposta, medida ou intenção para diminuir a área ocupada pelos
feirantes” e “nenhum plano para acabar com a Feira da Ladra”.
Também Geoffrey
Moreno, da Stone Capital, diz não haver um projecto para a instalação de um
quiosque aprovado pela CML, pelo menos para já: “O nosso projecto apenas
abrange o edifício do Hospital da Marinha e não incide sobre o espaço público.
No futuro, achamos que poderia ser interessante e uma mais valia para a Feira
da Ladra ter um quiosque algures na praça, mas por enquanto não existe nenhum
projecto aprovado pela CML. Do nosso lado, a Feira da Ladra é uma atracção
cultural importante para o nosso projecto e para a cidade em geral. Espero bem
que fique lá para sempre!”, respondeu à Time Out sobre os rumores do quiosque.
Mas no sábado de
1 de Maio, poucos dias após uma manifestação em frente à Câmara Municipal de
Lisboa, os feirantes continuaram os seus protestos no recinto da Feira, munidos
de faixas onde se lia “Aqui havia feirantes” colocadas em lugares de venda que
dizem ter sido "apagados".

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