OPINIÃO GUERRA NA
UCRÂNIA
Seja muito bem-vindo, presidente Zelenskii
Zelenskii é o principal defensor da Ucrânia, e a Ucrânia,
neste momento, é a principal defensora dos valores que partilhamos.
João Miguel
Tavares
21 de Abril de
2022, 0:31
https://www.publico.pt/2022/04/21/opiniao/opiniao/bemvindo-presidente-zelenskii-2003268
Os maluquinhos que
ao fim de 57 dias de guerra ainda insistem em olhar para a invasão da Ucrânia
grávidos de subtilezas, complexidades, contexto histórico, conjugações do verbo
“desescalar”, e muito amor à paz, à paz, à paz, sempre a paz, costumam
justificar essa sua peculiaridade com o argumento do combate ao “pensamento
único”. É preciso resistir ao pensamento único. Recusar o pensamento único.
Exterminar o pensamento único. Porque, quando dinamitado, o pensamento único dá
lugar a uma linda explosão de divergências, que na sua pluralidade enriquecem o
mundo em que vivemos.
Há matérias em que todos nós, pessoas que se imaginam
decentes, não só apreciamos que haja um pensamento único, como o cultivamos
furiosamente
Compreendo a
ideia, e regra geral estou de acordo com ela. Mas vamos cá ver – não é sempre
assim, pois não? Digamos: é assim 99% das vezes. Todos gostamos de celebrar a
pluralidade, a democracia, o confronto de ideias. São bens essenciais e
inestimáveis. Mas há algumas matérias – o tal 1% – em que todos nós, pessoas
que se imaginam decentes, não só apreciamos que haja um pensamento único, como
o cultivamos furiosamente.
Exemplos? A
escravidão. Ao longo dos séculos foram apresentados inúmeros argumentos a
justificar a inferioridade da raça negra face à branca e a legitimidade de
escravizar corpos de certa cor. Hoje agradecemos que sobre essa matéria haja um
pensamento único – a escravidão é indefensável.
Outro exemplo? O
abuso sexual de adolescentes. Na Grécia Antiga havia argumentos a defender a
pederastia como ritual de entrada na vida adulta. Hoje agradecemos que sobre
essa matéria haja um pensamento único – sexo entre adultos e adolescentes é
inaceitável.
Mais exemplos? O
extermínio dos judeus. Há apenas 80 anos defendia-se na Alemanha (e não só) que
os judeus, os ciganos ou os eslavos eram untermensch, povos inferiores cujo
desaparecimento se aceitava e recomendava. Hoje agradecemos que sobre essa
matéria haja um pensamento único – não existem untermensch, ao extermínio
étnico chama-se genocídio e é um crime contra a humanidade.
Dir-me-ão que a
invasão da Ucrânia pela Rússia não tem esse tipo de clareza. Ao fim de 57 dias
de guerra, tendo em conta os crimes perpetrados pelos soldados russos, a
deportação de milhares de ucranianos e o crescendo da retórica de extermínio
nos meios de comunicação social controlados por Moscovo, não sei quanta clareza
mais é necessária para que se perceba qual é o lado certo da barricada – e a
necessidade moral de o escolher sem qualquer pudor.
Ao acolhermos com
respeito e admiração o discurso de Zelenskii no Parlamento português, isso não
significa que ele seja um santo guerreiro. O senhor fez e fará com certeza
muitas asneiras; as tropas ucranianas já terão também cometido a sua
quota-parte de crimes; e a Ucrânia está muito longe de ser uma democracia do
tipo escandinavo. Só que, para o caso, pouco importa: Zelenskii é o principal
defensor da Ucrânia, e a Ucrânia, neste momento, é a principal defensora dos
valores que partilhamos.
Eu e todos
aqueles que só se imaginam a viver numa democracia liberal. O que não inclui os
sonsos. Os defensores da “grande complexidade da situação actual”. Os fanáticos
da paz a qualquer custo. E muito menos o PCP, que não estará presente na sessão
com Zelenskii porque ele “personifica um poder xenófobo e belicista”, e a sua
vinda é uma “escalada da guerra, contrária à construção do caminho para a paz”.
Em verdade vos digo: tenho mais respeito pela unha do dedo mindinho de
Volodimir Zelenskii do que por todo o Comité Central do Partido Comunista
Português.
O autor é
colunista do PÚBLICO


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