terça-feira, 5 de abril de 2022

A Cultura, 2022-2026 / Pedro Adão e Silva: um ministro sem currículo para resgatar um “ministério menor”

 


OPINIÃO

A Cultura, 2022-2026

 

A visão socialista das políticas culturais é de centralização do poder do Estado e de dependência das benesses dos subsídios, tantas vezes ancorada em simpatias e afinidades. Isto tem de mudar.

 


Jorge Barreto Xavier

5 de Abril de 2022, 0:20

https://www.publico.pt/2022/04/05/opiniao/opiniao/cultura-20222026-2001273

 

A Cultura emprega, de acordos com dados do INE de 2019, mais de 130 mil portugueses, existindo 62 mil empresas neste domínio, com um volume total de negócios de 6,5 mil milhões de euros, com um peso total de 2%, sendo que o seu Valor Acrescentado Bruto corresponde a 2,4%, ambos em relação ao total da economia. Os museus e monumentos receberam, nesse ano, cerca de 20 milhões de visitantes, dos quais mais de 50% eram estrangeiros. 17 milhões de pessoas assistiram a eventos na área das artes do espetáculo e 15,5 milhões de pessoas foram ao cinema. O conjunto dos municípios portugueses dedicou 510 milhões de euros a este domínio. Por causa da situação pandémica, 2020, 2021 e 2022 são anos em que o domínio da Cultura foi fortemente afetado, tendo o Estado português, ao contrário de diversos Estados europeus, reagido lenta e timidamente às necessidades do sector, com danos relevantes na área produtiva e no emprego.

 

A governação socialista dos últimos seis anos pouco fez pela Cultura, como é reconhecido pelo meio cultural. Os protestos públicos do meio artístico sucederam-se com manifestações que nem nos tempos difíceis da troika aconteceram. Diversos museus fecharam espaços por falta de pessoal. As críticas do meio do cinema foram evidentes. O investimento em reabilitação de património cultural foi inexplicavelmente baixo. O prometido aumento em percentagem de Orçamento do Estado não chegou a acontecer.

 

A visão socialista das políticas culturais é de centralização do poder do Estado e de dependência das benesses dos subsídios, tantas vezes ancorada em simpatias e afinidades.

 

Isto tem de mudar. Mudar de ponto de vista é um ato eminentemente cultural. A cultura corresponde ao modo como nos vemos e como nos vêem. Às formas de pensar e de sentir. A cultura está presente em todas as decisões políticas, económicas e sociais, pois estas são tomadas em função de dada visão das pessoas e do mundo.

 

 

A Cultura não pode ser vista como uma coutada do Estado. Têm de ser tomadas medidas que garantam a libertação do setor cultural do jugo que o modelo existente de políticas públicas acarreta.

 

Agora, que vamos ter mais quatro anos de governação socialista, apresento algumas propostas sobre o que importa fazer:

 

políticas públicas de cultura a nível nacional conjugadas com os níveis regional e local, criando, para o efeito, os adequados instrumentos colaborativos;

políticas do Estado promovidas com o contributo das entidades empresariais e da sociedade civil;

interação das áreas departamentais tradicionais que estruturam governos e administração pública, para novos modelos de governança;

criação de incentivos fiscais, autonomização de estruturas públicas (direções gerais passam a institutos) e de contratualização com privados.

Articulações das diferentes dimensões geográficas

 

O planeamento, programação, execução, monitorização e avaliação das políticas públicas de cultura beneficiará de um aprofundamento das relações de trabalho entre órgãos políticos nacionais, regionais e locais e respetivos organismos da administração pública. Para este podem ser criados instrumentos físicos e digitais de dinâmica colaborativa.

 

Estado, empresas e sociedade civil

O Estado não tem de fazer tudo, não deve fazer tudo. Garantir estímulos e gerar confiança para que empresas e sociedade civil desenvolvam programas e atividades conducentes a melhorar a produção e oferta de bens culturais, assim como a sua distribuição e fruição, não só é possível como desejável. A desconcentração e a descentralização de poder, dentro do Estado, mas também na relação com as empresas e a sociedade civil podem levar a ganhos em termos de aumento das condições de oferta cultural, criação de emprego e geração de riqueza, de qualificação dos bens acessíveis aos cidadãos e de aumento da sua quantidade.

 

Nova organização de competências públicas

A organização tradicional de governos e administração pública – por ministérios temáticos e respetivas hierarquias administrativas – está obsoleta, mas é esse modelo, de forma conservadora, que este Governo adotou. É evidente a transversalidade das competências em termos da cultura, que, efetivamente, não estão adstritas, exclusivamente, a um ministério da tutela. Verifica-se que as áreas da Educação, dos Negócios Estrangeiros, da Defesa, do Ambiente, do Turismo, do Desporto, da Juventude, só para nomear algumas, têm cruzamentos evidentes com o domínio da Cultura. Assim, o exercício governativo nesta área deve obedecer a uma geometria variável: por um lado, a existência de um Ministério da Cultura; por outro, a existência de uma reunião intersectorial regular tendo as políticas culturais, a exercer de forma integrada, como agenda.

 

Incentivos fiscais, autonomização de estruturas públicas e contratualização com privados

Os incentivos fiscais existentes à atividade cultural não são suficientes. A um modelo baseado na subsidiação direta pelo Estado à sociedade civil, deve suceder um modelo misto, com obrigações por parte do Estado mas com a geração de incentivos para a presença cada vez mais ativa da sociedade civil. Empresas, fundações, associações, podem ter papéis muito mais relevantes que aqueles que têm hoje na geração, estímulo e gestão da atividade cultural. Assim, torna-se necessário reformar a lei do mecenato cultural; gerar mais e melhores incentivos para a produção cinematográfica e audiovisual internacional em Portugal; promover os incentivos fiscais para a qualificação e oferta patrimonial, assim como para a criação artística.

 

O modelo de direções gerais nem sempre é o mais adequado para a gestão de interesses públicos na área da Cultura. A criação de modelos de maior autonomia administrativa e financeira para a área do património cultural e das artes é desejável. Correlativamente, devem aumentar os graus de responsabilização e de gestão por objetivos.

 

Nem sempre o Estado é o melhor a administrar interesses que são públicos. Contratualizar com privados domínios específicos de intervenção pública – de que o estímulo ao desenvolvimento do design e das indústrias criativas é exemplo – é desejável. Contratos plurianuais com rigorosa monitorização e avaliação podem gerar melhores resultados e poupança de recursos.

 

A Cultura é um bem essencial para uma sociedade mais democrática, pelo empoderamento da cidadania e qualificação dos Portugueses. Este é um contributo crítico, acelerador das necessidades de renovação no nosso modelo de desenvolvimento. Portugal tem, nos últimos anos, vindo, progressivamente, a perder terreno em termos comparativos com a maior parte dos países europeus, na capacidade de gerar riqueza para os seus cidadãos. Também a qualidade da participação democrática tem diminuído. Primeiro a pandemia, e agora a situação de guerra na Europa, não podem servir de desculpa para a inação. Antes pelo contrário, é nestes momentos que a ação tem de ser efetiva.

 

Nem sempre o Estado é o melhor a administrar interesses que são públicos. Contratualizar com privados domínios específicos de intervenção pública é desejável

 

Precisamos de mais e melhor. Não de loas na comunicação social e gestos gentis entre companheiros de partido. Que este Governo consiga uma intervenção neste setor competente, criativa, independente e orientada para resultados, é o que se deseja.

 

O autor escreve segundo o novo acordo ortográfico

 

Precisamos de mais e melhor. Não de loas na comunicação social e gestos gentis entre companheiros de partido. Que este Governo consiga uma intervenção neste setor competente, criativa, independente e orientada para resultados, é o que se deseja

 


POLÍTICA CULTURAL

Pedro Adão e Silva: um ministro sem currículo para resgatar um “ministério menor”

 

Entre a surpresa e o benefício da dúvida, representantes do sector esperam que o peso mediático do novo titular da pasta lhe permita conquistar o reforço orçamental há muito reivindicado.

 

Joana Amaral Cardoso e Sérgio C. Andrade

24 de Março de 2022, 18:56

https://www.publico.pt/2022/03/24/culturaipsilon/noticia/pedro-adao-silva-ministro-curriculo-resgatar-ministerio-menor-2000055

 

Um dia após o anúncio de Pedro Adão e Silva como futuro ministro da Cultura, a escolha continua a gerar perplexidade. E se há algum consenso no reconhecimento da vasta experiência política e da notoriedade mediática do sociólogo e professor no ISCTE, já a ausência de currículo na área da cultura, ou sequer em algum dos seus sectores mais específicos, justifica apreensão, mas também expectativa.

 

“Não sou capaz de fazer um juízo antecipado sobre uma pessoa que não conheço. Mas vamos todos esperar que corra bem, porque serão quatro anos de consulado; é muito tempo, que pode significar uma estabilidade muito grande e, na verdade, se correr bem para ele, correrá bem para nós, para o país e para os públicos”, disse ao PÚBLICO o coreógrafo Rui Horta.

 

O arqueólogo Luís Raposo também “não estava à espera, francamente, desta pessoa em concreto, com este perfil”. Nota tratar-se de alguém “aparentemente sem grandes laços anteriores à cultura, no sentido do Ministério da Cultura”. Mas, como todos os inquiridos pelo PÚBLICO, Raposo deixa em aberto a possibilidade de ser surpreendido, até porque reconhece no novo ministro “um cidadão atento e informado”.

 

“Também eu estou aqui para ser surpreendido pela positiva, no futuro”, admite Rui Horta. E tanto a programadora de cinema Cíntia Gil como a produtora Pandora Cunha Telles destacam em Adão e Silva “a experiência na política pública” e a “capacidade política”.

 

Saber até que ponto estas características terão expressão concreta e visível no exercício da governação, e na reivindicação das “condições administrativas, orgânicas e financeiras para que o ministério possa funcionar”, como na noite desta quarta-feira assinalava o musicólogo Rui Vieira Nery, é agora a principal interrogação.

 

Um ministério menor?

“Esperamos que, dada a sua relevância mediática, [Adão e Silva] tenha exigido um aumento de verbas no orçamento do Ministério da Cultura para a aceitação do cargo”, diz Amarílis Felizes, produtora cultural e dirigente da associação Plateia.

 

Um cenário que não parece convencer Cíntia Gil. A ex-directora do DocLisboa vê na escolha do novo ministro um sinal “de como o dr. António Costa vê a Cultura, um bocadinho como um ministério menor”.

 

“Mais uma vez, a aposta para a Cultura é uma pessoa que, à partida, não tem intervenção continuada, nem um conhecimento profundo desta área. E o que está a faltar é uma política consistente, de longo prazo, que venha do conhecimento e análise das questões não só dos espaços urbanos maiores, mas de todo o país. Tenho sérias dúvidas de que o dr. Adão e Silva tenha feito a reflexão necessária, e que redunde em políticas efectivas”, exprime esta voz especialmente activa da Plataforma do Cinema, que nos últimos anos vem defendendo políticas públicas firmes para a produção independente portuguesa.

 

Já Pandora Cunha Telles vê no novo rosto da Cultura “um passado forte em políticas públicas”. “O que nós precisamos, neste momento em Portugal, é que saia um plano estratégico para o sector; precisamos de estabilidade a nível de investimentos e calendários”.

 

Caderno de encargos

Também Luís Raposo lembra a necessidade de que o sector a que se encontra ligado, o património cultural, recolha do novo governante a atenção que lhe tem faltado. “Nesse sentido, e uma vez que agora só haverá uma secretaria de Estado, espero que ela seja dedicada a esta área, como já acontecia no Governo anterior”. Mesmo se, em termos gerais, não manifesta uma expectativa muito grande quanto ao desempenho do Ministério nos próximos quatro anos – ressalvando, no entanto, não estar em causa “a pessoa em concreto” –, o presidente do ICOM-Europa lembra a necessidade de o dotar, e em particular a área do património cultural, de uma efectiva “capacidade operacional” que reverta “o despovoamento e a desqualificação técnica dos serviços”.

 

“Vamos ver se será desta que, finalmente, vai haver uma reestruturação que evidentemente terá de passar por uma maior operacionalidade do mastodonte ingovernável que é a Direcção-Geral do Património Cultural”, diz o arqueólogo.

 

Numa espécie de caderno de encargos, Luís Raposo aponta três prioridades ao futuro ministro. Em primeiro lugar, que traduza em programa do Governo o que desde há vários anos vem sendo apresentado pelo PS nos seus programas eleitorais relativamente à reestruturação da área do património cultural e arquitectónico.

 

Em segundo lugar – “mesmo se é já uma daquelas esperanças mais da área da quimera do que outra coisa” –, “que se dêem passos credíveis no sentido de transportar a audição da sociedade civil, designadamente as universidades e as associações do património, bem como os profissionais de outras áreas culturais, para o Conselho Nacional de Cultura, transformando-o num real órgão de consulta do Governo”.

 

E ainda uma questão de curto prazo e que, “na conjuntura actual – mesmo não o sendo do ponto de vista estrutural –, será a mais importante, que é executar o PRR”, realça o arqueólogo. “É o grande desafio que temos pela frente.”

 

Também a representante da Plateia enumera as tarefas mais prementes a que Adão e Silva deve deitar mãos. Em primeiro lugar, Amarílis Felizes assinala a necessidade de o ministro se “posicionar perante os casos mais flagrantes de precariedade e de abuso laboral em algumas instituições com grande financiamento público, como a Casa da Música e a Fundação de Serralves”, bem como de abraçar a causa mais geral “do combate à precariedade, que também foi o mote da criação do Estatuto dos Profissionais da Cultura”.

 

Resolver os atrasos nos pagamentos do programa Garantir Cultura, “que se estão a prolongar e a criar uma certa crise no sector”, e abrir os concursos para o financiamento plurianual da DGArtes são outras medidas consideradas urgentes pela Plateia, que se mostra, enquanto representante do sector das artes cénicas, “sempre disponível para dialogar com o Ministério da Cultura”.

 

Preocupações com o audiovisual

A Secretaria de Estado do Cinema, Audiovisual e Media desaparece do novo Governo, cuja lei orgânica contempla apenas uma Secretaria de Estado, a da Cultura. Uma situação que Cíntia Gil desvaloriza, mas que preocupa Pandora Cunha Telles.

 

“Na verdade, esta secretaria do audiovisual foi fundada para garantir que se criavam as condições para se fazerem aquelas coisas vergonhosas, como se não houvesse taxas cobradas à Netflix”, atira a responsável pelo festival de Sheffield, referindo-se à transposição da directiva europeia que define as obrigações de investimento das plataformas de streaming e partilha de vídeo em Portugal. “As lutas do senhor secretário de Estado foram autênticos ataques à sustentabilidade do Instituto do Cinema e do Audiovisual [ICA] e ao cinema independente”, acusa a programadora.

 

Pandora Cunha Telles, co-fundadora da produtora Ukbar Filmes, pensa de forma diferente. “Preocupa-me muito o fim da Secretaria de Estado do Cinema, Audiovisual e Media. Houve desafios cumpridos nos últimos anos porque ela existiu”, lamenta a produtora, lembrando que “uma secretaria de Estado não só implementa directivas, mas também promove a dinamização e internacionalização do sector.”

 

Para a produtora da Ukbar, urge passar de um pensamento “administrativo” e de curto prazo para um foco “na estratégia” – por exemplo, prolongar de facto o Pic Portugal/ Fundo do Turismo e do Cinema, cuja existência está apenas garantida até 2023, para alinhar a capacidade de atracção de produções estrangeiras com a de outros países que pensam esses benefícios fiscais a médio e longo prazo. Mas na fileira do cinema e audiovisual, a urgência maior nem está agora na produção, mas sim na exibição cinematográfica, sublinha Pandora.

 

A pandemia fez com que quase meia centena de ecrãs não voltassem a acender-se depois dos confinamentos e restrições do acesso aos cinemas. Segundo dados do ICA, em Fevereiro deste ano, Beja tinha já perdido metade das suas salas de cinema, por exemplo, Aveiro perdera seis e Portalegre três; no Porto, sete ecrãs apagaram-se, nos Açores, foram quatro a desligar-se. No total, o país tem hoje menos 49 salas do que em 2021. “Tem de haver uma política de reabilitação do tecido de exibição, se não, metade das salas vai fechar”, avisa Pandora Cunha Telles, que pede mesmo um “plano de emergência para as salas”.

 

O cinema está a braços com questões prementes que o Governo deve esclarecer, avisa Cíntia Gil, nomeadamente o cumprimento da Lei do Cinema com a integração das despesas administrativas do ICA no Orçamento do Estado, e o acautelar do impacto da aplicação do Estatuto dos Profissionais da Área da Cultura na produção. “Vai pesar brutalmente sobre os orçamentos dos filmes”, alerta. “Quando se sobem os salários mínimos, há apoios às empresas para os poderem cumprir numa primeira fase, mas neste caso não houve qualquer proposta para lidar com essas despesas”, lamenta. “A questão da precariedade não ficou resolvida, é preciso esclarecer isso.”

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