quinta-feira, 27 de janeiro de 2022

Rui Rio e a arte de fingir que #tudovaificarbem

 



Rui Rio e a arte de fingir que #tudovaificarbem

 

Rio tornou-se inofensivo aos olhos do centro-esquerda e dos eleitores mais conservadores e dependentes do Estado. Esse é o seu grande segredo.

 

João Miguel Tavares

27 de Janeiro de 2022, 0:00

https://www.publico.pt/2022/01/27/opiniao/opiniao/rui-rio-arte-fingir-tudovaificarbem-1993246

 

O director do PÚBLICO, Manuel Carvalho, escreveu um editorial chamado Rui Rio paz e amor, onde alertava para o facto de os “sorrisos”, a “bonomia” e a “mansidão” que têm caracterizado as aparições do líder do PSD ao longo das últimas semanas não encontrarem uma correspondência directa com o historial da sua actuação política nos anos em que esteve à frente da Câmara do Porto.

 

É absolutamente verdade. Mas este Rio-que-ri é só parte de uma estratégia eleitoral que podemos considerar, sem grande risco, vencedora. Não necessariamente porque o PSD vá ser o partido mais votado no próximo domingo (como já disse, não acredito nisso), mas porque tudo indica que terá um resultado confortável na casa dos 30%. Ora, ter trinta e poucos no actual contexto será sempre uma vitória para Rio mesmo que ele perca as eleições (embora o elevar de expectativas possa vir a ser um problema), porque António Costa ainda não está suficientemente desgastado e a concorrência à direita cresceu muitíssimo.

 

Rui Rio tem insistido no mesmo ponto desde o primeiro dia: o PSD precisa de se encostar ao centro, porque é aí que se ganham votos, mesmo que para isso seja necessário declarar que não é um partido de direita, e até renegar – ou, pelo menos, tudo fazer para não lembrar – a herança de Passos Coelho. O teimoso Rio, justiça lhe seja feita, nunca se desviou um milímetro dessa estratégia, mesmo quando isso lhe custou violentas tribulações no interior do seu partido. Após ter arrumado com Luís Montenegro e Paulo Rangel, está agora a colher os frutos do seu trabalho de formiga.

 

Não parecem restar grandes dúvidas de que o PSD está a comer uma fatia do eleitorado a António Costa, como Rio previu. E, ao mesmo tempo, a táctica do PSD-partido-que-não-é-de-direita oferece o antídoto perfeito contra as investidas mais canhestras da área da esquerda. Nos últimos dias, à medida que assistíamos à subida do PSD nas sondagens e ao nervosismo socialista, logo apareceram as velhas acusações de 2015, com colagens insistentes de Rio a Passos e a invocação dos fantasmas macabros dos tempos da troika.

 

Parece-me apenas desespero inconsequente. Assustar com o “papão Passos” não resulta. Rui Rio foi tão obsessivo nos últimos anos a distanciar-se de Passos Coelho que não há uma única alma neste país que confunda um com o outro. O PSD de Passos era um perigoso partido liberal, a léguas de distância do PSD de Rio, um pacato e tranquilo partido social-democrata. É esse, aliás, o grande segredo de Rui Rio: ter-se tornado inofensivo aos olhos do centro-esquerda e dos eleitores mais conservadores e dependentes do Estado.

 

António Costa anda há seis anos a fingir ser quem não é e Rui Rio anda há seis semanas vestido de cordeiro. A política portuguesa está a mexer, sem dúvida. Mas mexer a sério no país?

Tirando umas mexidas no IRC, o programa eleitoral do PSD é uma tarde de domingo. Umas pinturas aqui, outras ali, mas a casa é a mesma, a sala é a mesma, e até os móveis são os mesmos. É perfeitamente possível que quem votou em António Costa em 2019 vote em Rui Rio em 2022 na maior das calmas, sem qualquer receio de que ele vire o país do avesso.

 

Há apenas um problema em tudo isto, e não é pequeno: existe um grave desencontro entre aquilo que pode ser uma estratégia vencedora de eleições e aquilo que pode ser uma boa estratégia para o país. Verdade e vitória ainda não jogam na mesma equipa. É por isso que António Costa anda há seis anos a fingir ser quem não é e Rui Rio anda há seis semanas vestido de cordeiro. A política portuguesa está a mexer, sem dúvida. Mas mexer a sério no país? Vamos ter de esperar por próximas eleições.

Jornalista

Sem comentários: