OPINIÃO
Uma Europa sem judeus
A presença judaica na Europa é cada vez mais reduzida,
mais por força das circunstâncias do que por vontade própria. Todos temos a
perder com isso.
Esther Mucznik
27 de Janeiro de
2022, 6:00
https://www.publico.pt/2022/01/27/opiniao/opiniao/europa-judeus-1993217
Hoje, dia 27 de
Janeiro, Dia Internacional de Memória das Vítimas do Holocausto, evoco os 80
anos da Conferência de Wannsee que teve lugar a 20 de Janeiro de 1942. Nela
participaram quinze homens reunidos numa residência de luxo nas margens do lago
de Wannsee, a meio caminho entre Potsdam e Berlim. A reunião “seguida de um
pequeno-almoço”, conforme consta da convocatória, tinha como tema a “solução
final do problema judaico”, o que numa linguagem clara significa o extermínio
na sua dimensão europeia, primeira etapa de uma “nova ordem política racial
europeia”.
Estes homens
pertenciam à elite da Alemanha nazi e representavam as SS, a polícia e o
partido nazi, assim como diversos ministérios e organismos encarregados da
administração dos territórios ocupados. Convocada por Reinhard Heydrich,
comandante da Polícia de Segurança e do Serviço Central de Segurança do Reich,
a reunião tinha como fim afirmar o papel dirigente do RSHA (Serviço Central de
Segurança do Reich) na sua execução e assegurar a colaboração imprescindível de
todos os ministérios.
Aos participantes
não cabia discutir o genocídio propriamente dito: seis meses antes da
conferência de Wannsee, já tinham sido desencadeadas as execuções em massa na
União Soviética perpetradas pelos Einsatzgruppen – unidades especiais da
polícia encarregadas da execução dos judeus nos territórios ocupados – e
Chelmno, o primeiro campo de extermínio, tinha iniciado a sua actividade umas
semanas antes. O papel dos participantes limitava-se a decidir das modalidades
e condições de execução do plano, ou seja, pôr em prática o que Hitler já
determinara.
Adolf Eichmann
ficou encarregado da redacção da acta da conferência. Como ele mesmo o
confirmará em 1961 no seu julgamento em Jerusalém, a reunião não se coíbe de
abordar abertamente as diferentes técnicas de extermínio. No relatório secreto
por ele elaborado no seguimento da reunião, está escrito no ponto III que “a
solução final do problema judaico na Europa abrange cerca de onze milhões de
indivíduos” distribuídos por mais de trinta países, garantindo que “a Europa
irá ser passada a pente fino de ocidente para leste”. Segue-se a lista desses
países com o número respectivo de judeus a eliminar. Entre esses, e na mesma
lista, está Portugal, com o número de 3000 judeus.
A estimativa não
andaria longe da verdade e não era difícil de obter: apesar de estreitamente
vigiadas pela polícia política, as comunidades judaicas – sobretudo a de Lisboa
– dispunham de uma prática aberta, os censos eleitorais comunitários não eram
secretos e eram conhecidos os nomes dos seus dirigentes e organizações. Terá
sido a própria PVDE a fonte desse número, cujo inspector, Paulo Cumano, formado
em Engenharia de Minas em Berlim, era simpatizante da Alemanha nazi. Não é por
acaso que um ofício da PVDE de 1939 informa o Ministério dos Negócios
Estrangeiros que Augusto Ezaguy, membro da Comunidade Israelita de Lisboa e
presidente da Comassis, Comissão de Assistência aos Refugiados, é “pessoa
suspeita a esta polícia”.
Como sabemos,
foram cerca de seis milhões os judeus assassinados durante o Holocausto, ou
seja, dois terços do judaísmo europeu. Segundo Sergio della Pérgola, um dos mais
conceituados investigadores da demografia judaica, na Europa, que antes do
Holocausto contava com nove milhões de judeus, a população judaica ficou
reduzida a três milhões no final da guerra. Hoje, segundo os dados de 2020
citados por Della Pérgola, o número de judeus na Europa não ultrapassa 1,3
milhões.
O que aconteceu?
Qual a razão que leva os judeus a abandonarem progressivamente a Europa desde
1945? Entre os vários países, a França, que detém ainda a maior comunidade
judaica da Europa, é talvez o que melhor ilustra esta situação: nos últimos
anos cerca de um quinto, ou seja, 80 mil a 100.000 judeus franceses, emigraram.
O principal motivo da sua saída prende-se com o clima de hostilidade
frequentemente violento e aos actos de terror que se agravaram drasticamente na
última década.
Mas se a França é
um dos alvos preferidos da violência terrorista, o conjunto dos países europeus
também não sai incólume e a radicalização progressiva dos extremismos de
direita e da esquerda é também um factor decisivo de abandono dos países por
judeus que aí viviam há gerações e que acreditavam serem seus. Muito poucos
serão os judeus europeus que não têm consciência do crescimento do
anti-semitismo, venha ele da extrema-direita sob a forma da rejeição do direito
de pertença, ou da extrema-esquerda negando o direito dos judeus a um Estado
soberano, Israel.
Em Portugal os judeus não são alvo de rejeição ou
violência anti-semita, o que obviamente não significa que não haja
anti-semitas. A prová-lo estão, entre outros, os inúmeros comentários e
reacções à Lei de naturalização dos sefarditas
Há evidentes
diferenças entre os países, mas a ocupação nazi e a colaboração de sectores
significativos podem levar a que o sentimento de culpabilidade se transforme em
acusação ou negação. É um fenómeno clássico e não é novo. Mas talvez o que mais
leva os judeus a deixarem o continente é a passividade e a falta de coragem de
grande parte dos seus dirigentes, receosos de reacções violentas e ou mais
preocupados com as estatísticas eleitorais. As sucessivas tentativas da União
Europeia de combate ao anti-semitismo caem na sua maioria em saco roto.
E Portugal? A
nossa tendência como portugueses é dizer que aqui é diferente. Mas será mesmo
assim? Apesar da permanência dos mais diversos estereótipos, os judeus não são
alvo de rejeição ou violência anti-semita, o que obviamente não significa que
não haja anti-semitas. A prová-lo estão, entre outros, os inúmeros comentários
e reacções à lei de naturalização dos sefarditas, que incentiva o retorno de
pessoas que comprovem a sua origem sefardita portuguesa. As comunidades
judaicas (e não, não há “uma comunidade judaica portuguesa” como é por vezes
referido, mas sim quatro comunidades, totalmente independentes entre si: a
Comunidade Israelita de Lisboa, a Comunidade Israelita do Porto, a Comunidade
Judaica de Belmonte e, mais recentemente, a Comunidade Judaica de Faro) são
pequenas comunidades que no seu conjunto não ultrapassam as 2000 pessoas. Tal
não significa que não haja um número maior que, beneficiando da lei, tenha
adquirido a nacionalidade portuguesa, uns vivendo em Portugal, outros não.
Aliás, é preciso esclarecer mais uma vez que a isso a lei não obriga. Obriga,
sim, a comprovar a ascendência sefardita portuguesa e não necessariamente a sua
pertença actual a uma qualquer comunidade sefardita, como erradamente tem sido
dito.
Em síntese, a
presença judaica na Europa é efectivamente cada vez mais reduzida, mais por
força das circunstâncias do que por vontade própria. Atrevo-me a dizer que todos
temos a perder com isso, judeus e não judeus. Ao longo da história, e sempre
que lhes foi permitida, a presença judaica sempre foi um factor de
desenvolvimento económico, científico e cultural. Não porque sejam mais
inteligentes ou melhores do que outros, mas porque no coração da vivência
judaica esteve sempre o risco e a incerteza. Em parte, devido à sua história
feita de desassossego e inquietude, em parte devido a uma fé que celebra mais a
coragem de sobreviver na instabilidade do que no conforto da quietude.
Respondendo ao
desafio aqui colocado pelo PÚBLICO, é esta Europa, uma Europa sem judeus, que
queremos?
Estudiosa de temas judaicos
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