terça-feira, 5 de abril de 2016

Campo das Cebolas: Outro “Metro do Terreiro do Paço”?


OPINIÃO
Campo das Cebolas: Outro “Metro do Terreiro do Paço”?
S. POMPEU SANTOS 06/04/2016 - PÚBLICO

Já é tempo de as obras em Portugal, em particular as realizadas por iniciativa de entidades públicas, serem realizadas de acordo com regras claras e processos adequados.
Vai para 16 anos que ocorreu o acidente no túnel do Metro em frente ao Terreiro do Paço, em junho de 2000.

Quando se iniciava a construção da futura estação, com a execução de furos pelo interior da parede do túnel, deu-se a entrada de água e terras com grande pressão para dentro do túnel, provocando o seu colapso naquela zona. O discernimento de alguns responsáveis, tomando a iniciativa de inundar o túnel através da introdução de água pelas extremidades, conseguiu evitar um desastre de maiores proporções. O acontecimento provocou grande escândalo na época, com discussões políticas acesas, inclusive uma comissão parlamentar de inquérito.

Para além da linha do Metro propriamente dita, o grande prejudicado pelo sinistro foi o edifício do Ministério das Finanças, um edifício pombalino classificado, situado na ala oriental da praça do Terreiro do Paço, e que fica mesmo em frente ao local do acidente. Os danos no edifício foram significativos, nomeadamente no torreão nascente da praça, com assentamentos e fendilhações nas paredes pombalinas.

As obras de construção da estação estiveram paradas durante vários anos, tendo sido retomadas adotando uma nova solução construtiva, com cortinas de estacas de betão executadas até ao nível do “fixe”, que naquele local está a mais de vinte metros de profundidade. Apesar do custo adicional significativo foi assim possível realizar a obra da estação sem mais percalços e a linha do Metro pôde abrir sete anos mais tarde, no final de 2007.

O edifício do Ministério das Finanças é que não teve a mesma sorte. Relatórios e mais relatórios, as administrações do Metro foram-se sucedendo umas às outras, mas continua tudo na mesma. Como é fácil de constatar, os danos continuam por reparar e nalgumas situações estão-se mesmo a agravar por efeito dos agentes atmosféricos. Além disso, tudo aquilo dá muito mau aspeto, numa altura em que o Ministério das Finanças é visitado regularmente por delegações do FMI, da EU e do BCE, no âmbito da assistência financeira a Portugal.

Com a reparação desses estragos ainda à espera de solução, eis que novo perigo espreita o referido edifício bicentenário. Agora é a Câmara de Lisboa, do lado nascente, a construir um silo para parqueamento automóvel, no Campo das Cebolas, antigo sítio da Ribeira Velha.

A obra foi apresentada com pompa e circunstância numa cerimónia com grande espalhafato mediático, realizada no local, no final do ano passado, integrada num conjunto de iniciativas do mesmo género com que o novo Presidente da Câmara, Fernando Medina (que ocupa o cargo desde que António Costa foi para secretário-geral do partido socialista), pretende “mostrar obra” nas eleições autárquicas que irão ter lugar no próximo ano.

Contudo, a obra é estranha. Para além de infografias com a antevisão do que vai ser, no futuro, a praça, à superfície, nada mais foi tornado público, nomeadamente como vai ser o silo automóvel e como vai ser construído. De notar que, tal como no Terreiro do Paço, os terrenos ali são aterros realizados no rio Tejo, e embora o “fixe” esteja já um pouco mais alto, os aterros chegam a ultrapassar os quinze metros de espessura.

Ora, o que se vê no local é um tapume a toda a volta da praça e uma máquina a cravar estacas metálicas que faz estremecer os edifícios à volta, em particular o edifício do Ministério das Finanças, que fica mesmo ao lado. Ora, a cravação de estacas daquela maneira, além de vibrações no edifício, provoca a compactação e o assentamento dos aterros, o que pode pôr em risco a segurança do edifício. É preciso notar que os edifícios pombalinos estão assentes em estacas de madeira, mas estas não vão até ao “fixe”, ficam apenas na camada superficial do terreno, pelo que estes edifícios estão como que a “flutuar” sobre os aterros.

Quando não foram ainda reparados os danos provocados pelo acidente de 2000, será que o edifício corre o risco se ser de novo afetado?

Já é tempo de as obras em Portugal, em particular as realizadas por iniciativa de entidades públicas, serem realizadas de acordo com regras claras e processos adequados, de modo a salvaguardar a segurança de pessoas e bens.

Não deveria a Câmara de Lisboa dar o exemplo?


Engenheiro civil

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