domingo, 6 de março de 2022

O regresso do Ocidente




OPINIÃO

O regresso do Ocidente

 

O martírio ucraniano é apenas o início de um longo combate que será travado à escala mundial entre as democracias e as tiranias.

 

Teresa de Sousa

6 de Março de 2022, 7:30

https://www.publico.pt/2022/03/06/mundo/opiniao/regresso-ocidente-1997735

 

1. As imagens da destruição das cidades ucranianas que nos chegam, minuto a minuto, só as tínhamos visto nos filmes da II Guerra. A vaga de refugiados só é comparável às que atravessaram a Europa fugindo à barbárie nazi, fazendo-nos recordar que a Agência das Nações Unidas para os Refugiados, que víamos socorrer os refugiados dos conflitos em África ou na Ásia, nasceu para proteger os refugiados europeus. A Europa, que foi o epicentro de duas guerras mundiais, transformou-se num continente pacífico, do qual a guerra estava afastada, os cidadãos eram livres, a prosperidade o destino comum. Primeiro, na sua metade ocidental. Depois de 1989, também na sua metade oriental, quando caiu a “cortina de ferro” que a dividida desde os acordos de Ialta.

 

Depois da II Guerra, os Estados Unidos criaram uma nova ordem internacional liberal, transcrita na Carta das Nações Unidas, assente no respeito pelos direitos humanos e pela soberania das nações. A Europa viveu em paz. Os Estados Unidos garantiram a sua segurança contra os tanques e os mísseis soviéticos. Com o fim do império soviético, o primeiro objectivo das democracias que renasciam a Leste foi “o regresso à Europa” – que a NATO e a União Europeia representavam, estendendo e consolidando a ordem liberal até às fronteiras do velho continente. A guerra deixou de ser “possível” em território europeu. As democracias não se combatem umas às outras. Os Balcãs Ocidentais foram uma breve, ainda que trágica, excepção.

 

2. Numa semana, a Europa voltou a ser o cenário de uma guerra convencional em grande escala. De continente pacífico, transformou-se no território de todos os perigos – para a paz, para a democracia, para a estabilidade mundial. “A parte do mundo que era a mais estável, a mais democrática e a mais pacífica tornou-se na mais perigosa”, diz Fiona Hill, da Brookings Institution. O que está em causa é a ordem liberal que emergiu da II Guerra. O que está em causa é a vitória da democracia liberal na Europa depois de 1989. O que está em causa são os pilares em que assentou durante décadas a paz na Europa. O martírio ucraniano é apenas o início de um longo combate que será travado à escala mundial entre as democracias e as tiranias. De múltiplas formas. “Um ponto de viragem na história” nas palavras de Francis Fukuyama, escritas num longo ensaio publicado ontem no Financial Times – “A guerra à ordem liberal”. “A reversão da ‘Europa unida e livre’ que pensávamos ter emergido em 1991, ou, evidentemente, o fim do Fim da História”, escreve o autor do célebre ensaio sobre O Fim da História, publicado em 1996 para definir uma nova era.

 

A Ucrânia, como a Polónia em 1939, é primeira vítima deste longo combate. A mais improvável das vítimas. No coração da Europa. Por isso dizemos, sem correr o risco de exagerar, que já estamos a viver numa nova Europa. Não apenas numa Europa em guerra, mas também numa Europa, livre e democrática, que soube entender esta viragem de forma tão inesperada como admirável. Foi esta a segunda derrota de Putin. A primeira foi a extraordinária resistência de um povo e de um líder, que provam todos os dias que são uma nação disposta a lutar até ao fim pela sua liberdade.

 

3. Quando, no Verão de 2019, Vladimir Putin deu uma longa entrevista ao Financial Times na qual declarou o liberalismo “obsoleto”, as elites ocidentais debateram as suas palavras como um desafio que não teriam de enfrentar através da guerra. Nos últimos 16 anos, os relatórios anuais da Freedom House sobre o estado da democracia no mundo registaram uma constante regressão. Na Europa, os partidos populistas ganharem terreno. Na América, um líder populista entrou na Casa Branca. Durante quatro anos, ouvimo-lo declarar a sua admiração pelos “homens fortes” que governavam em Moscovo ou em Pequim. Contaminou o Partido Republicano, ferindo a maior democracia do mundo, que foi o “grande arsenal da democracia” nas duas guerras mundiais e a garantia da paz e da segurança na Europa.

 

A terceira derrota de Putin foi a enorme resistência da aliança transatlântica. Para os autocratas e os ditadores do mundo inteiro, que acreditaram no declínio irreversível do Ocidente – até a palavra tinha caído em desuso –, a demonstração de coesão da NATO não é uma boa notícia. O seu reforço militar passou a ser inevitável. “Os EUA precisam de colocar muito mais tropas no terreno, urgentemente”, diz Ivo Daalder, embaixador na NATO de 2009 a 2013 e presidente do Chicago Council on Global Affairs. Joe Biden já tinha anunciado o aumento do orçamento da defesa dos actuais cerca de 700 mil milhões de dólares para um valor superior aos 800 mil milhões (mais do que a soma dos 10 países seguintes, incluindo a Rússia e a China).

 

A revolução alemã, liderada por Olaf Scholz, terá um impacto enorme na capacidade de defesa dos aliados europeus da NATO, mesmo que apenas no médio prazo (ver “A Revolução de Olaf Scholz”, de Jorge Almeida Fernandes, na edição de sábado). “Construímos a nossa segurança sobre a ideia que os Estados Unidos e a NATO viriam em nossa ajuda”, escreve o antigo primeiro-ministro sueco Carl Bildt no site do ECFR. “Portanto, seja o que for que nos peçam para fazer, nesta situação crítica, só podemos responder ‘sim’. A solidariedade nunca pode ser uma rua de sentido único”. Suécia e Finlândia já têm a garantia de que os EUA e os aliados europeus as defenderão. A União Europeia entrou numa nova fase que obriga a repensar e a reajustar muitas das suas políticas. Mas não tenhamos dúvidas: a viragem europeia é irreversível.

 

4. O Presidente Zelenskii e os ucranianos desesperam perante a inacção da Aliança Atlântica, enquanto lutam e morrem pela liberdade da Europa. As opiniões públicas europeias começam a não compreender inteiramente esta aparente inacção. A NATO não foi suficientemente credível para travar Putin. Não pode arriscar um confronto aberto com a Rússia. No curto prazo, está na defensiva. A questão que se põe hoje aos seus países é até onde Putin irá, se quiser provocar a NATO. Só ontem, aterraram na Polónia 16 aviões militares americanos e europeus com armamento letal para a resistência ucraniana. A “intelligence” americana e britânica fornece informações em tempo real ao exército ucraniano. Num debate organizado pela Economist na sexta-feira, o editor para os assuntos de Defesa da revista britânica perguntava: e se Putin fizer explodir um destes depósitos que estão em território da NATO? Ou se Putin, confrontado com a tenacidade da resistência, recorrer a armas químicas? Todos estes cálculos estão certamente a ser considerados nos estados-maiores da NATO e no Pentágono, enquanto assistimos à destruição de Kiev, Kharkiv ou Mariupol.

 

5. Joe Biden está a liderar este confronto da melhor maneira possível, encontrando um equilíbrio extremamente difícil entre a firmeza e a contenção, para evitar uma escalada incontrolável. Ajudou a Europa, dando-lhe a primazia na batalha das sanções, não tomando nenhuma decisão antes de ter garantido que os europeus estavam preparados para a tomar também. Falta a última, aquela que pode desferir o golpe final na economia russa, que os EUA estão preparados para tomar amanhã, mas que não tomarão enquanto a Europa não estiver preparada: as sanções a fornecimento russo de energia à Europa. “Em duas ou três semanas, a Alemanha estará, provavelmente, em condições de dar mais este passo”, dizem analistas em Washington. “Deve-se-lhe o enorme crédito de ter conseguido pôr de pé uma vasta coligação internacional, assente num conjunto de valores, evitando cair na tentação de proclamar o poderio americano”, diz Ivo Daalder, durante um debate organizado pelo Council on Foreign Relations de Washington. A América terá de “refazer” uma ordem internacional “que assente nas democracias e cuja liderança tem de partilhar”.

 

O maior problema do Presidente americano é a opinião pública do seu país que, graças a Trump e às guerras de Bush contra o terror, é adversa a qualquer envolvimento militar americano fora das suas fronteiras. Mas também na frente interna as coisas estão a mudar. “Numa dimensão raramente vista, o povo americano está unido sobre a natureza da ameaça, sobre quem é responsável pela guerra e como responder-lhe”, escreve William Galston da Brookings. Cita os resultados de uma sondagem realizada logo a seguir ao Discurso do Estado da União, na quarta-feira, que revelam que uma ampla maioria de democratas e republicanos considera que a Rússia quer restabelecer as fronteiras da URSS e que é uma “imediata e séria ameaça” aos EUA. Trump deixou de dizer que Putin era um génio para passar a compará-lo a Hitler. Não foi com certeza por convicção. Só a Fox News resiste.


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