OPINIÃO
Não há esquerda nem direita na invasão da Ucrânia
No embate entre Zelenskii e Putin, esquerda ou direita
são conceitos desadequados. A diferença profunda, o eixo que conta, é o que
separa liberais – no sentido clássico do termo – de iliberais
João Miguel
Tavares
22 de Março de
2022, 0:39
https://www.publico.pt/2022/03/22/opiniao/opiniao/nao-ha-esquerda-direita-invasao-ucrania-1999576
A posição do PCP
e de alguns colunistas próximos da esquerda radical a propósito da invasão da
Ucrânia levou a uma curiosa dissensão dentro da esquerda, já que pessoas
habituadas a estarem de acordo em questões de política interna vêem-se agora
profundamente afastadas em relação ao que pensar sobre a guerra mais importante
do século XXI. E vice-versa: pessoas de esquerda e de direita habituadas a
discordar desde a queda do Muro de Berlim vêem-se agora estranhamente unidas na
crítica sem meias-tintas à Rússia.
Utilizei o
advérbio “estranhamente” porque existe, de facto, uma estranheza inicial. Mas
se reflectirmos um pouco sobre o assunto não é tão estranho assim. O que se
passa é que o eixo em redor do qual estamos habituados a debater política em
tempos normais – esquerda de um lado, direita do outro –, é, em bom rigor, um
eixo inútil para avaliar a guerra na Ucrânia. No embate entre Zelenskii e
Putin, esquerda ou direita são conceitos desadequados. A diferença profunda, o
eixo que conta, é o que separa liberais – no sentido clássico do termo – de
iliberais, ou seja, é um embate entre aqueles que defendem com unhas e dentes a
matriz política da democracia liberal e os seus inimigos.
Esquerda e direita têm discussões fervorosas sobre a
pintura das paredes, o número de janelas ou os azulejos da casa de banho, mas
não há quaisquer discussões sobre os alicerces da casa democrática
Habituados que
estamos a que a discussão política se faça em torno dos recursos do país e da
redistribuição orçamental, sobre se devemos ter mais ou menos Estado, sobre o
futuro do SNS ou da Educação em Portugal; e habituados que estamos a discutir
tudo isto com grande paixão e intensidade, tendemos a esquecer que é muito mais
aquilo que une a esquerda e a direita liberal do que aquilo que a separa.
Esquerda e direita têm discussões fervorosas sobre a pintura das paredes, o
número de janelas ou os azulejos da casa de banho, e sem dúvida que isso é
importante para o aspecto do regime – mas não há quaisquer discussões sobre os
alicerces da casa democrática e a estrutura das suas fundações. Vivemos
consensualmente numa democracia de tipo liberal, baseada numa economia de
mercado, com liberdade de expressão e de associação, independência do poder
judicial, pesos e contrapesos, voto livre e universal.
Nove em cada dez
portugueses toma esta estrutura política como sendo óbvia, indiscutível e até
natural, a um tal ponto que temos genuína dificuldade em acreditar que haja
quem possa pô-la em causa. Mas não há nada de “natural” na democracia liberal. Não
há nada de “natural” no voto livre e universal. Nem sequer há nada de “natural”
no facto de considerarmos cada ser humano igual em dignidade e detentor dos
mesmos direitos. Olhem para o reino animal, analisem com atenção as estruturas
hierárquicas do próprio Homo sapiens, e depressa perceberão que a simples
igualdade perante a lei é uma ideia revolucionária, que tem de ser diariamente
protegida dos Putins deste mundo. É cultura. É política. Não é qualquer espécie
de reflexo da “ordem natural” das coisas.
Esquerda e
direita são as cores com que nós pintamos a casa da democracia liberal. O que
está em causa na Ucrânia não é a cor das paredes. Literal e metaforicamente, a
Rússia de Putin está a tentar destruir a casa inteira, porque não acredita
nela, e porque a considera uma ameaça ao seu regime autocrático e a um
nacionalismo herdado do império dos czares, os césares russos, homens que se
julgam escolhidos por Deus, convencidos da sua excepcionalidade e da sua missão
histórica. Esquerda e direita são luxos para tempos de paz. Na Ucrânia o tempo
é de guerra.
O autor é
colunista do PÚBLICO


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