domingo, 6 de março de 2022

“Existe hoje muita gente para quem o apocalipse climático já aconteceu”

 



ENTREVISTA ANTÓNIO GUERREIRO

“Existe hoje muita gente para quem o apocalipse climático já aconteceu”

 

Ao contrário daquilo a que o cinema nos habituou, a catástrofe climática é lenta e “serena”. A humanidade, obrigada a encarar o cenário da sua própria extinção, agarra-se à esperança de que a separação do lixo e duches mais curtos ainda a possam salvar. Enquanto isso, o capitalismo torna-se verde e prospera. Estará tudo isto para além do Bem e do Mal?

 

Alexandra Prado Coelho (texto) e Nuno Ferreira Santos (fotografia)

6 de Março de 2022, 6:29

https://www.publico.pt/2022/03/06/sociedade/entrevista/existe-hoje-gente-apocalipse-climatico-ja-aconteceu-1997597

 

Crítico literário, editor da revista Electra, António Guerreiro é também colunista do PÚBLICO, onde escreve semanalmente no Ípsilon. Nessas crónicas, as questões do ambiente, da ecologia e do chamado “mundo rural” têm-se tornado mais presentes. São, reconhece, temas que lhe interessam cada vez mais. Foi por isso que, apesar de alguma surpresa inicial, aceitou o desafio lançado pelo P2 — a propósito do tema escolhido para o 32.º aniversário do PÚBLICO — para uma conversa sobre a crise climática e as várias linhas de pensamento que sobre ela têm surgido, num mundo no qual “a possibilidade de nos projectarmos no futuro já não existe”.

 

Numa das suas crónicas escreve que a ecologia há-de morrer antes do capitalismo. O que o leva a acreditar nisso?

Não é preciso termos lido muitos livros de teoria política para sabermos que a principal característica do capitalismo é o seu poder de apropriação de tudo, até daquilo que parece feito contra ele ou à margem dele. E agora estamos a assistir à substituição do capitalismo fóssil pelo capitalismo verde. Os próprios governos, para promover as soluções verdes e para pôr em prática as medidas necessárias para a diminuição das emissões de carbono, dizem que as energias renováveis e a mudança de alguns hábitos geram grandes oportunidades económicas, novas fontes de riqueza.

 

O que temos visto é que as alterações climáticas e a crise ecológica não provocam de repente um grande colapso, vão provocando pequenas catástrofes sucessivas, graduais, e essas pequenas catástrofes são quase uma dádiva para a lógica ultraliberal, que é uma destruição criadora, como disse [o economista austríaco Joseph] Schumpeter.

 

Naomi Klein [autora e activista canadiana] designou esse processo como “capitalismo do desastre”. Já quase ninguém refuta a ideia de que o aquecimento global e o desastre ecológico se devem ao modo de produção e de consumo próprios do capitalismo, que é, por definição, extractivista. Por isso é que os movimentos ecologistas, pelo menos os mais radicais, defendem que é necessário acabar com o capitalismo para nos salvarmos do desastre final, para restituir ao ambiente o que ele perdeu ou se degradou.

 

Penso que há uma grande ingenuidade nessa posição, não só porque o fim do capitalismo se tornou inimaginável, mas também porque ignora a maleabilidade do capitalismo, o seu poder de se adequar a todas as situações. Isso está bem demonstrado quando ele assume as novas roupagens da defesa do ambiente, sem que nada o interrompa.

 

Muitas soluções verdes, aliás, não passam de propaganda fraudulenta e de expedientes para sossegar as consciências, quer do poder político e económico, quer dos cidadãos já instruídos para enfrentar este grande desafio. Uma boa parte das soluções ecológicas acabam por se revelar tão nefastas como aquilo que foi substituído. Por exemplo, quando nos anunciam os enormes benefícios ambientais dos automóveis eléctricos, omite-se que o material incorporado, muito especialmente as baterias, têm um elevado preço em termos ecológicos. Vejam-se os efeitos da mineração do lítio, que está a suscitar uma enorme oposição das populações. O mesmo acontece com a alimentação: os produtos que são anunciados como alternativos em relação ao que é muito nocivo para o ambiente, a carne, estão longe de ter efeitos inócuos.

 

O que sabemos muito bem é que há coisas que devem permanecer invisíveis, tanto quanto possível. Por exemplo, a criação intensiva de animais que fornecem carne para a alimentação e todo o circuito que passa pelo transporte e pelo abate. É preciso perceber que a “ideologia verde” é muito enganadora, cria um ecrã, uma ilusão de que já somos muito responsáveis e estamos no bom caminho.

 

António Guerreiro: "Estamos a assistir à substituição do capitalismo fóssil pelo capitalismo verde"

 

Mas temos que colocar o capitalismo de um lado e a ecologia do outro? São sempre mutuamente exclusivos? Ou, como se defendeu já em relação à alimentação, para conseguirmos que a maioria das pessoas coma melhor, temos que chegar a elas através das grandes cadeias de supermercados e os grandes produtores, porque não são as mercearias e os pequenos produtores que vão conseguir chegar a todos. Não é possível que o caminho seja também (mesmo que não exclusivamente) via capitalismo?

É evidente que se trata de uma posição ideológica muito marcada. Consiste em considerar que não há nenhuma via ecológica que não passe pelo fim do capitalismo. Mas é preciso pensar que o capitalismo tem uma história, e nas últimas três ou quatro décadas tudo nele se acelerou enormemente. Deu-se o triunfo do neoliberalismo. Mas dizer que ou temos o capitalismo, tal como ele existe hoje, ou passamos fome é uma maneira de ceder ao TINA, ao “there is no alternative”.

 

Será que a única condição para termos azeite é cobrir milhares de hectares de terreno no Alentejo com olival intensivo?

 

Os grandes supermercados e os grandes produtores determinam modos de produção e de comercialização que se tornam hegemónicos e aniquilam tudo à volta. Criam as condições para que não haja alternativa. Se eu vou ao supermercado comprar alhos e não encontro senão alhos vindos da China, isso não se deve ao facto de as condições naturais, em Portugal, terem tornado difícil ou pouco rentável cultivar alhos em Portugal.

 

O argumento, tipicamente de esquerda, de que o capitalismo provoca a crise climática e ecológica é muitas vezes refutado com o argumento de que a poluição e a destruição do ambiente são ainda muito mais graves onde o capitalismo não chegou ou está em fase de desenvolvimento. Quem utiliza este argumento ignora ou esquece deliberadamente que os países ricos consomem o que é produzido nesses países mais pobres. Podem assim dizer que reduziram as emissões de carbono, quando, na verdade, são responsáveis pelas emissões e pelo lixo produzidos longe da nossa vista e da nossa boa consciência ecologista.

 

Há aqui muitos erros de percepção. Durante muito tempo, ir produzir o lixo em países longínquos ou transportar para lá o lixo mais indesejável a troco de dinheiro funcionou às mil maravilhas. Mas, entretanto, descobrimos que a Terra é só uma e é redonda, de tal modo que o lixo, a destruição do ambiente e as emissões de dióxido de carbono são-nos devolvidos, por mais que os tenhamos posto à distância.

 

 

A Europa pode dizer que tem hoje um cuidado muito maior na preservação das florestas e dos habitats naturais, mas isso é conseguido à custa de uma utilização da terra noutros continentes.

 

O geógrafo sueco Andreas Malm, um dos autores mais importantes e activos nas questões do aquecimento climático, diz num dos seus livros que mais de metade dos bens consumidos pela União Europeia têm origem noutras regiões do mundo. E diz também que a extensão de terra necessária para satisfazer o consumo da União Europeia corresponde à superfície da Índia, segundo dados de 2007.

 

É fácil reivindicar muita pureza e verdura no nosso jardim, quando se continua a gastar de maneira insensata os recursos que estão lá longe e colonizando a terra que não é nossa. Assim se salvam as aparências porque os factores de poluição e de destruição estão muito distantes.

 

Malm tem um livro muito importante sobre o Antropoceno, que é um conceito proposto em 2002 por Paul Crutzen, um cientista que obteve o Nobel da Química. Esse conceito tornou-se uma das palavras do século e designa a nova era geológica que se iniciou com a Revolução Industrial. A partir daí, a acção humana sobre o planeta tornou-se o factor que determina uma profunda transformação do clima e dos ecossistemas. Portanto, a passagem para uma nova época geológica já não se dá por um motivo exterior, um asteróide desvairado que choca contra a Terra, por exemplo.

 

Andreas Malm critica uma ideia de Antropoceno que, no fundo, coloca as culpas na Humanidade em geral, isto é, em ninguém. Ora, ele diz que é uma mistificação pensar que a culpa do aquecimento global deve ser atribuída à espécie humana porque os seus autores têm nomes precisos e não têm nada de abstracto, são aqueles que triunfaram e dominaram nos últimos dois séculos. Ele traça uma história política e económica do Antropoceno e mostra, assim, que a época a que Crutzen deu esse nome, ao contrário de outras épocas geológicas anteriores, pode ser medida pela escala temporal da nossa história. Daqui deriva que Malm e outros autores entendem que se deva chamar Capitaloceno ao Antropoceno. E aqui entramos, evidentemente, no terreno de uma ecologia política, de uma ecologia que não se concebe senão numa dimensão política.

 

Muitas soluções verdes não passam de propaganda fraudulenta e de expedientes para sossegar as consciências, quer do poder político e económico, quer dos cidadãos já instruídos para enfrentar este grande desafio

António Guerreiro

 

Foi, segundo essa leitura, através do nosso modo capitalista de produção e consumo que acabámos por ter esse efeito sobre o planeta?

Na verdade, o que esta historicização e politização do Antropoceno nos diz é que há graus de responsabilidade e há até quem não tenha responsabilidade nenhuma. Do mesmo modo, nem todos sofrem da mesma maneira os efeitos das alterações climáticas. E enganamo-nos se pensarmos que estamos todos no mesmo barco perante a crise climática. Não, há países que vão sofrer muito mais do que outros e, mesmo no interior de cada país, há uma maioria de pessoas que será muito mais atingida do que a minoria que tem meios para se proteger. Criam-se assim classes em função do grau de exposição aos efeitos do desastre climático. Esta é a nova forma de luta de classes. E não se pense que é um cenário para o futuro. É uma situação já presente.

 

Actualmente, já temos também os refugiados climáticos, os que fogem das zonas do planeta onde se tornou difícil ou mesmo impossível sobreviver. Nas regiões ainda protegidas, teoriza-se sobre um novo imaginário pessimista, um imaginário dos fins que alimenta hoje uma vastíssima bibliografia. Mas nas regiões já atingidas com força pelo desastre, nas zonas do planeta sujeitas a secas extremas prolongadas, o fim já se deu. Se não demos por isso, é porque aqueles que mais sofrem com ele não têm voz.

 

A humanidade cresceu, tem uma dimensão que não tinha anteriormente, e essa dimensão, como é natural, tem um custo enorme para o planeta. O debate sobre a hipótese de um modelo alternativo terá devidamente em conta este factor?​

 

Quando lemos toda esta bibliografia muito crítica sobre os modos de produção e a responsabilidade que eles têm sobre a desregulação climática e ecológica, percebemos que não há ninguém que tenha um sistema salvífico a propor, uma solução eficaz e fácil de adoptar. Há hoje um programa estabelecido por acordo entre os países para passarmos gradualmente dos combustíveis fósseis para as chamadas energias verdes, que provavelmente não são tão verdes quanto isso, como percebemos facilmente quando deparamos com campos extensos, superfícies de quilómetros cobertas por painéis fotovoltaicos, ou quando nos aproximamos das torres eólicas.

 

Mas esse programa é cumprido de uma maneira tão lenta que já começa a instalar-se a ideia de que não vamos a tempo. E os relatórios científicos só têm reforçado esta ideia. Não devemos ter qualquer esperança em que os governos intervenham de maneira abrupta, que tomem medidas que obriguem a alterações radicais no sistema económico e nos imponham outro modo de vida. Não é que os poderes político e económico não estejam conscientes dos perigos que corremos e do caminho irreversível que estamos a seguir. Mas a máquina que está em funcionamento desde há séculos é muito poderosa e ninguém sabe como pará-la.

 

A pandemia conseguiu operar um verdadeiro milagre, o de desactivar a economia de um momento para o outro, durante algum tempo. Mas a covid-19 tinha um efeito imediato e repentino sobre o nosso próprio presente, actuava fortemente sobre ele, enquanto a crise climática é gradual e os seus efeitos são diferidos. Por isso, fica fora do presente, que é o regime temporal único em que vivemos. O historiador francês François Hartog chamou-lhe “presentismo”. A covid-19 era um problema do presente e obrigava a reagir, enquanto os problemas ecológicos implicam uma capacidade de agir, e essa acção tem de ser prolongada no tempo, projectada num futuro, que é uma coisa que já não existe.

 

 

Voltando à questão inicial, todas as soluções que forem encontradas, para serem eficazes, não terão que passar pelo sistema capitalista de alguma maneira? As coisas têm de ser comercializadas, usadas…

Está tão naturalizado o nosso modo de vida e o nosso sistema de produção e de consumo que temos dificuldade em imaginar um outro alternativo. Como disse [o pensador norte-americano, Fredric] Jameson, é mais difícil imaginar o fim do capitalismo do que o fim do mundo. Mas, mesmo dentro deste sistema, há graus, nem tudo o que hoje acontece aconteceu sempre com a mesma intensidade. Por exemplo, há poucas décadas, o capitalismo não tinha levado ao ponto a que leva hoje a separação entre a produção e o consumo, isto é, o facto de aquilo que é consumido num determinado sítio poder ser proveniente de outro sítio que fica nos antípodas.

 

E por mais que se tenha tomado consciência de que caminhamos para o desastre, não se vêem medidas drásticas a ser tomadas. Tudo continua quase da mesma maneira. O que não continua da mesma maneira é o ritmo do gradualismo do aquecimento climático, porque quanto mais o planeta aquece, mais os mecanismos de retroacção o aquecem ainda mais, e mais rapidamente. Os cientistas mostram de relatório para relatório que não há progressão linear, tudo se acelera. E assim chegámos ao imaginário catastrofista dos fins, do colapso, da nossa própria extinção enquanto espécie. É a primeira vez que isto acontece.

 

A partir do momento em que tivemos o nuclear, passou a ser mais fácil imaginar a destruição da humanidade. O que parece novo no actual cenário é que esta é uma extinção que escapa ao nosso controlo, o planeta tem uma dinâmica que nos escapa...

 

As grandes escatologias, a ideia do tempo dos fins e do fim dos tempos manifesta-se em narrativas bíblicas. É para aí que remete a palavra “apocalipse”. Outra hipótese é pensar na extinção à semelhança daquele fenómeno que atingiu os dinossauros. Mas, neste caso, isso aconteceu por efeito de uma acção exterior, enquanto agora somos nós que produzimos as causas da nossa própria extinção.

 

O que é acompanhado pela ideia de culpa...

Sim, culpa e, ao mesmo tempo, medo. Este imaginário apocalíptico deu lugar a uma nova disciplina chamada colapsologia. A ideia de que não existe futuro porque nós nos extinguimos enquanto espécie é, de facto, uma ideia que dá origem ao medo de colapso total.

 

Isso é diferente de outros momentos da História?

É evidente. No século XIX, a ideia de progresso que reinou e triunfou implicava uma projecção no futuro. Essa possibilidade de nos projectarmos no futuro não existe hoje. Passámos a um regime de temporalidade em que só pensamos em termos de presente. Há dias, o ministro do Ambiente [José Pedro Matos Fernandes], a propósito da seca que estamos a viver, disse que o Alqueva tinha água suficiente para garantir dois anos de consumo, coisa que ele achava suficiente para nos tranquilizar, já que seria impensável que não chova nos próximos dois anos, disse ele. O ministro tem esperança, ou fé, que no próximo ano o problema se resolva. Ele só consegue pensar num prazo de dois anos, e, ao fim de dois anos, logo se vê. Ele vive e governa nesse regime do presente, quando seria preciso pensar o futuro. Outra ideia que prejudica qualquer acção é a de que o problema se resolve com pequenos gestos individuais e voluntaristas que nos sossegam a consciência: separar o lixo, fechar a torneira, abreviar o tempo do duche, etc..

 

Por outro lado, a forma de pensarmos a nossa relação com a Natureza sofre uma alteração — fala nisso, numa outra escala, quando escreve numa crónica que idealizamos um mundo rural que já não existe. Alguns autores falam de um regresso a uma sacralização da Natureza que os ecologistas veriam como o Bem. Tem a ver com a ideia de que, se deixássemos a Natureza sozinha, tudo funcionaria bem, que fomos nós que viemos perturbar o equilíbrio, e, por isso, estamos no lado do Mal?

 

Uma das fragilidades dos movimentos ecológicos reside precisamente nesse modo de pensar a Natureza. A Natureza é pensada de maneira idílica ou pitoresca e os animais são coisas fofinhas. Essa Natureza não existe nem nunca existiu a não ser na pintura e na literatura. Um autor importantíssimo chamado Timothy Morton defende a ideia, aparentemente paradoxal, de que é preciso pensar uma ecologia sem Natureza porque a imagem da Natureza constitui um obstáculo. Morton parte da ideia de que a tese dominante na ecologia vulgar é a de que a causa dos problemas ecológicos é a tecnologia moderna com a qual fomos manipulando a Natureza. E a natureza é aquilo que está fora de nós e que sempre tentámos dominar.

 

Para o pensamento ecológico de Timothy Morton, a Natureza não está fora de nós, não é um objecto que nós manipulamos e não tem uma escala antropocêntrica. A Natureza é aquilo onde estamos incorporados, não é uma reificação científica nem um objecto de contemplação estética. O pensamento ecológico de Morton não cai nas idealizações, não comete o erro fatal dos ecologistas que representam a natureza como uma coisa muito bonita e quase como um conto de fadas.

 

Percebemos melhor o que Timoty Morton quer dizer com uma ecologia sem Natureza se pensarmos que o zelo na preservação do mundo natural leva à criação de parques, que são uma espécie de património natural reificado, onde se procura restituir um espaço puro e original. É como a patrimonialização das cidades históricas: é uma indicação de que elas se tornaram um espectro.

 

A máquina [política e económica] que está em funcionamento desde há séculos é muito poderosa e ninguém sabe como pará-la

António Guerreiro

 

Mas como é que se pensa a ecologia sem Natureza?

Trata-se de pensar uma ecologia radical, em que está tudo ligado. A dicotomia Natureza/Cultura deixa quase de fazer sentido e toda a espécie de construção romântica e idealizada da Natureza deve ser erradicada. E essa idealização tanto existe nos ecologistas como nos adversários dos ecologistas, aqueles que dizem que as propostas ecológicas, a proibição da caça, etc., têm o efeito de destruir a vida rural, já que as pessoas que vivem no ambiente rural é que sabem o que é a Natureza e tudo o que fazem nela respeita o seu equilíbrio. É um pensamento completamente errado porque vê essas pessoas como se elas estivessem ao serviço da Natureza e completamente no interior dela.

 

O rural, a partir do momento em que tem herbicidas à disposição, nunca mais monda com um sacho. A partir do momento em que tem um tractor, nunca mais utiliza uma enxada. E toda a bicharada que ele acha inútil é para exterminar, sem dó nem piedade. Só os urbanos é que têm a ideologia do “respeito pela Natureza”. Um pensamento ecológico radical, como o de Timothy Morton, diz-nos que há qualquer coisa errada quando se olha para o campo e o que se vê, ou não se vê, é “biodiversidade” e “recursos naturais”. Falar dessa maneira é um sintoma de que se está fora, que a interconexão não se está a dar, que não se está a pensar a ecologia a partir de uma profunda coexistência. Essas palavras são uma construção cultural, e é a essa construção que chamamos “Natureza”, assim como chamamos paisagem a uma maneira de ver e representar completamente codificados. A paisagem é aquilo que resulta de um modo de olhar e de filtrar culturalmente.

 

Nós também somos paisagem.

Por isso é que utiliza a metáfora da “paisagem humana”. Tanto somos paisagem que as entidades que têm a seu cargo o pelouro do turismo pretendem às vezes instalar autóctones onde eles faltam para que a paisagem humana não desapareça e continue a ser atraente para os visitantes.

 

Mas todos os seres vivos têm um impacto no planeta. Os animais têm impacto e as plantas têm impacto, destruindo algumas coisas e preservando outras. E há a ideia de que se nós, humanos, recuássemos, de repente um equilíbrio natural ressurgiria. Nós é que provocámos um desequilíbrio excessivo no meio disto tudo...

 

Esse desequilíbrio acelerou imenso. Nós estamos, no nosso tempo, a sofrer os efeitos do que já começou com a Revolução Industrial. Os efeitos foram diferidos no tempo, razão pela qual também não se sabe muito bem se mesmo as medidas, por mais radicais que elas sejam, tomadas hoje podem reverter o que já foi desencadeado há muito tempo, se não é já tarde de mais. Ninguém sabe. Nos últimos anos, deu-se uma aceleração enorme dos efeitos que já estavam em marcha. Segundo Andreas Malm, em Janeiro de 2016 a temperatura média na Terra era 1,15º Celsius mais elevada do que durante o período que vai de 1951 a 1980.

 

Essa pergunta — será tarde de mais? — é a pergunta fulcral que, se calhar, noutros momentos históricos não foi feita.

 

Desde pelo menos meados do século XX que há bastantes avisos sobre o aquecimento climático, sobre os efeitos provocados pela alteração da composição da atmosfera por causa da libertação de dióxido de carbono. Mas ninguém quis ouvir esses avisos. A surdez foi generalizada porque ainda não eram tão visíveis os efeitos como são hoje.

 

Nos últimos anos, os avisos multiplicaram-se, as provas e os sintomas tornaram-se evidentes para quase toda a gente. E a partir daí formou-se uma consciência colectiva e o tema invadiu o próprio espaço público. Ainda há 15 anos, ou talvez menos, havia dúvidas sobre se as alterações climáticas eram provocadas pela acção humana ou pela própria evolução geológica da Terra.

 

Os problemas ecológicos implicam uma capacidade de agir, e essa acção tem de ser prolongada no tempo, projectada num futuro, que é uma coisa que já não existe

António Guerreiro

 

Ao criticarmos a nossa acção, e inacção, ao mesmo tempo, começamos a questionar o nosso próprio pensamento, o racionalismo, toda uma forma de olhar o mundo, a ideia de progresso, que seria uma coisa positiva e que neste momento já pode ter uma conotação negativa. Até onde é que esta crítica nos pode levar?

 

Há uma palavra que serve para designar esse racionalismo e essa lógica de construção e formatação do mundo em que vivemos, que é o geoconstrutivismo. A ideia de que nós construímos o mundo, que este é o resultado de acções de engenheiros e arquitectos. Este geoconstrutivismo foi e continua a ser dominante na formatação do mundo. No fundo, é o que diz o mito de Prometeu. É tão poderosa a força do geoconstrutivismo que se criou a ideia de que, tal como tínhamos o poder de construir, também tínhamos o poder de reparar aquilo que de mau estava feito.

 

A ideia de omnipotência...

Exactamente. As soluções que se tenta encontrar para nos salvarmos, para não chegarmos a um grau em que a vida na Terra seja impossível, são ideias que advêm dessa lógica geoconstrutivista. Queremos fazer a reparação com os mesmos meios que serviram para criar o desastre. Um exemplo anedótico disso são os meios artificiais tentados por alguns cientistas para provocar a chuva ou para reflectir os raios solares e impedir que a Terra aquecesse. Enfim, uma série de medidas que derivam dessa lógica geoconstrutivista.

 

As nossas habituais grelhas de leitura do mundo como a da luta de classes estão a ser penetradas por outras questões — veja-se as classes ecossociais, um conceito do filósofo francês Bruno Latour, a ideia de que os ricos conseguirão escapar e os pobres não.

Como já disse, a questão da luta de classes analisada pela grelha marxista pode ser transferida para as novas classes definidas em função da exposição às transformações climáticas. Nem todos vão sofrer da mesma maneira, nem todos vão sofrer os mesmos efeitos ao mesmo tempo. E, de certo modo, existe hoje muita gente para quem o apocalipse climático já aconteceu. Simplesmente, essas pessoas não têm voz suficiente para virem dizer que já foram vítimas do desastre.

 

A nossa ideia de colapso é uma ideia muito marcada por esse imaginário bíblico do dilúvio, qualquer coisa que acontece num determinado momento e provoca um desastre repentino. O que estamos a ver é que o desastre não é repentino. Os dinossauros também não se extinguiram de um momento para o outro.

 

Os filmes-catástrofe representam a catástrofe como um fenómeno que irrompe subitamente, que destrói tudo indistintamente. Isso foi responsável pelo modo como imaginamos esse tipo de acontecimentos catastróficos. Mas o que estamos a ver é que eles podem suceder de outra maneira, mais lenta, tanto sob a forma de desastre localizado como sob esta forma de catástrofe serena como é o céu azul e o sol permanente, mesmo no Inverno.

 

Amitav Ghosh [escritor indiano, autor de The Great Derangement – Climate Change and the Unthinkable] diz que nós temos dificuldade em reconhecer que o problema já está aqui e fala dos limites do pensamento e da linguagem contemporâneos e da “frustração do poder cognitivo sobre um mundo que julgávamos conhecer”. Defende que temos que sair da linguagem das Luzes, na busca de uma forma alternativa de pensar o mundo. E aí enquadra-se toda a ideia do olhar indígena, do pensamento mágico, que também começa a surgir como uma via alternativa em vários pensadores — se conseguíssemos olhar o mundo dessa maneira, se fôssemos como os indígenas ou como os monges budistas, em sintonia com o planeta, talvez nos salvássemos...

Um antropólogo como [o brasileiro] Eduardo Viveiros de Castro, autor de Há Mundo Por Vir?, que estudou, por exemplo, a relação dos índios com os animais, que é uma relação de continuidade, de integração, que não consiste no nosso modo de ver, no qual os animais são sempre exteriores a nós... Não é possível pôr-nos a pensar de uma maneira que não faz parte da nossa cultura. E mais uma vez aqui estamos sujeitos à ideia de que há uma construção cultural da qual não nos podemos subtrair. Não é possível, a não ser de uma maneira completamente artificial, procedermos como os índios. Não conseguimos reproduzir aqui um tipo de vida como a que seria a dos índios na Amazónia.

 

Há, no entanto, na cultura ocidental muita gente a perseguir um qualquer pensamento mágico. Há um caminho que passa, entre outros, pela ecologia queer e a vontade de acabar com a lógica binária que se aplicaria aos géneros, mas que pode ser alargada à dicotomia Homem/Natureza, progresso e atraso e, em última instância, o Bem e o Mal.

 

Sendo que, antes, o Bem era o Homem e o Mal era a Natureza e agora tende-se a pensar exactamente o contrário. Há um texto do [filósofo francês, Jean-Paul] Sartre em que ele refuta a ideia de que a Natureza possa ter qualquer espécie de violência. Pode destruir, naturalmente, mas a violência implica uma intencionalidade que a Natureza não tem. Pode provocar efeitos catastróficos, mas, do ponto de vista do Sartre, ela nunca seria violenta. O Homem é que seria violento porque o faz com uma intencionalidade.

 

A Natureza não tem intencionalidade nem culpa. A culpa estaria do lado do Homem...

Exactamente.

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